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5.4 Atuação do líder no desenvolvimento de Competências Coletivas

5.4.3 Características e disposições individuais

A competência coletiva presume uma visão compartilhada construída pela qualidade das interações entre as pessoas, por meio de rotinas ou por uma representação que cada indivíduo faz na equipe a partir de sua posição na mesma (Todero, Macke, & Sarate, 2016). Para que uma competência coletiva seja desenvolvida, é necessário o compartilhamento de conhecimento para coagir e coproduzir, necessitando de competências individuais para a coordenação de forma adequada das atividades da equipe (Le Boterf, 2003).

As competências coletivas são compostas pela articulação de competências individuais, emergindo da sinergia entre as pessoas e da conjunção de competências, no qual cada indivíduo necessita da contribuição do outro (Le Boterf, 2003). O contexto colaborativo permite uma dinâmica de interação do indivíduo e contribui para o processo de uma visão

Fator Diretrizes

Composição da equipe: forma como o

líder compõe seu quadro de pessoal e determina funções e

papéis na equipe

Manter a diversidade na equipe: compor a equipe com pessoas de diferentes perfis profissionais e pontos de vista

Implementar estruturas de geometria variável: permitir que os membros da equipe ocupem diferentes papéis na execução das atividades

compartilhada dentro da equipe (Bertolini & Macke, 2014). Caso ocorra indisposições pessoais, é inviável efetivar a troca de competências entre os integrantes da equipe (Lima & Silva, 2015).

Relacionamentos com maior envolvimento e identificação das pessoas com seus colegas e com o trabalho, é o que as aproxima das competências coletivas (Silva & Ruas, 2014). Os líderes podem enfatizar interesses e valores comuns buscando a identificação coletiva dos seus liderados com a equipe (Yukl, 2013). Para Chen e Tjosvold (2014) líderes que fortalecem objetivos cooperativos reconhecem que esse esforço ajuda a comunicar seus valores e auxilia os integrantes da equipe a trabalharem juntos produtivamente, incentivando o trabalho coletivo.

O líder E2-3L1expressa os seguintes pensamentos a respeito dos seus liderados “quando eu vejo que eles tão trocando ideias, que eu vejo que está passando para algo negativo, eu tento estar mais participativo com eles para mostrar que não” e “eu gosto de participar, eu gosto da confiança que a gente consegue resolver o problema, tipo agora do desfile. Umas briguinhas de setores, somos seres humanos, um deixa para o outro, o que cabe é olhar isso e trazer eles juntos, e dizer que é tudo o mesmo grupo, a mesma equipe” (E2-3L1). Líderes que adotam comportamentos orientados para as pessoas tentam inspirar seus membros e minimizar os conflitos da equipe, criando relações interpessoais e treinando seus seguidores para promover a ação coletiva dentro da equipe (Ceri-Booms, 2020).

Algumas falas dos entrevistados demonstram a ênfase de seus líderes buscando estabelecer uma propriedade coletiva nas equipes, “ele é muito de elogiar – Isso é mérito teu, isso é mérito nosso – o tempo inteiro ele faz esse tipo de coisa, então eu acho que isso é bastante válido” (E2M4), “ele quer muito sempre que a gente seja unido, ele sempre bate nessa tecla, que a gente tem que ser unido” (E6M4) e “o primeiro papel que ele tem é realmente manter a gente bem unido e alinhado, com os propósitos da marca e os valores do Grupo também, ele é uma pessoa que fala muito dos valores, até quando ele vê que tem algumas atitudes que não condizem, ele tem bastante transparência” (E5M4).

O líder E6L1 constata que no passado sua equipe tinha muitos problemas com relação ao produto, algumas pessoas quando assumiam trabalhos de outros profissionais não se empenhavam para fazer o melhor pois afirmavam que o produto não era seu, “eu sempre ensinei, se você está indo na prova, é como se o produto fosse teu, faz o que for preciso, muda o que for preciso, faz para ficar bonito como se fosse teu” (E6L1). Para Gray, Knight e Baer (2020) a propriedade coletiva é uma propriedade cognitiva compartilhada de que o produto do trabalho criativo pertence a equipe e não apenas a uma pessoa. Assim, para que ela emerja os membros devem compartilhar a crença de que a ideia pertence à equipe, se cada pessoa acreditar que a ideia é “sua”, a propriedade coletiva não existe.

O líder também pode incentivar as relações de ajuda entre os colaboradores estabelecendo uma rede de relacionamentos que favoreça o apoio mútuo, o compartilhamento de saberes (Le Boterf, 2003) e atitudes proativas por parte dos membros da equipe. Para Zarafian (2001) a competência está ligada a capacidade de as pessoas assumirem responsabilidades em relação a situações laborais complexas, agindo de forma proativa e enfrentando as imprevisibilidades. Desta forma, a proatividade é uma das atitudes mais importantes para o desenvolvimento de competências coletivas.

E1L1 explicita que em situações de dificuldade incentiva as pessoas a procurarem os profissionais da equipe com mais experiência e conhecimento para determinada tarefa. A fala do entrevistado E1M6 confirma esse incentivo do líder em sua equipe:

“Ele super incentiva, porque ela sempre fala, por exemplo – Você tem experiência disso, fala um pouquinho mais para gente – assim de ter vários momentos no dia a dia que eu percebo que por ele acreditar muito nessa questão do trabalho em equipe, que a gente tem que se contribuir, ele incentiva para que a gente faça isso”.

Percebeu-se nas equipes do Núcleo de Criação que os líderes costumam incentivar seus membros a trocar ideias, passar informações relevantes e colaborar nas atividades de trabalho. Algumas falas demonstram essa atuação do líder, “ele não tem problema de passar conhecimento, então eu acho que isso é um exemplo também sabe [...] eu acho que essa parte de liderança dele, você só cresce, quando você passa o conhecimento para o outro” (E2M4) e “ele gosta bastante que a gente troque experiências, acho que é uma coisa que parte também da gente, trocar, mostrar para o outro o que está fazendo, se a gente vê uma coisa legal, a gente compartilha [...] acho que vem do estimular e compartilhar coisas da parte dele” (E4M3).

Kosfeld (2020) aponta que a maioria das pessoas não estão dispostas a cooperar de forma voluntária, cooperam se os outros também cooperarem. Desta forma, os líderes precisam estimular os não motivados. A confiança é essencial para uma liderança bem-sucedida e necessária para sustentar a cooperação. O comportamento do líder também é importante, líderes que não cooperam veem menos cooperação de seus seguidores, e aqueles que cooperam, enviam um sinal de que a cooperação é esperada.

Outro fato observado nas equipes foi o incentivo do líder para os colaboradores ajudarem novos integrantes da equipe. Algumas atitudes foram percebidas, como o compartilhamento de conhecimento e suporte para utilização de softwares, a troca de experiências profissionais vivenciadas em outras empresas e o “apadrinhamento” de novos funcionários por parte de um membro experiente da equipe nos primeiros dias de trabalho,

foram algumas das atitudes observadas que demonstram as relações de ajuda entre os colaboradores. O espírito colaborativo é um requisito para a construção de um saber coletivo, as pessoas se unem para se complementarem e buscarem obter juntas conhecimento, como um conjunto integrado (Le Boterf, 2003).

Outra diretriz observada, foi que o líder pode incentivar a aprendizagem na sua equipe. Lingard (2012) aponta que a competência coletiva tem por base a teoria da aprendizagem social, com a ideia de que o conhecimento é formado por meio da participação. Por sua vez, a teoria de aprendizagem social busca mudar o foco individual para um ambiente coletivo, onde o conhecimento é elaborado, discutido e inovado. Nesse sentido, Silva e Ruas (2014) afirmam que estimular a aprendizagem, e a produção e compartilhamento do conhecimento, permite a promoção de espaços para apresentação de trocas e ideias, relacionando-se com as competências coletivas, uma vez que elas prezam pelo compartilhamento de conhecimento e experiências.

O líder E1L1 destaca que sua equipe aprende muito em conjunto, por meio dos erros cometidos em outras coleções, realizando o trabalho de forma diferente buscando evitar esses erros. Em momentos de planejamento ou criação, o líder costuma enfatizar situações que não deram certo, sejam nas vendas ou nas atividades desenvolvidas, para que conjuntamente a equipe repense novas formas de executar o trabalho. O líder E2-3L1 também demonstra incentivar o aprendizado por meio de experiências vivenciadas, do que a equipe já realizou e já viveu, e dos erros e problemas enfrentados.

Na Equipe 4 o entrevistado E4M4 expressa “ele (líder) é uma pessoa que tem muito conhecimento, ele procura passar muito para gente, a treinar a gente, no sentido de saber as coisas técnicas”. A equipe ainda aponta que seu líder os incentiva que a visitarem as lavanderias de jeans para entenderem melhor os processos de lavação e aprenderem novas formas de trabalho. Em workshops ou feiras o líder costuma fazer um rodízio na equipe para que todos tenham a oportunidade de participar, mesmo que o colaborador não utilize no seu dia a dia de trabalho, mas para que ele tenha a oportunidade de ver e pensar coisas novas. Já os entrevistados da Equipe 5 percebem que seu líder colabora e incentiva o aprendizado na equipe, principalmente com relação a viagens de pesquisa, buscando que seus integrantes “abram sua mente” e tragam renovação para a marca.

Por meio da aprendizagem é possível motivar e sustentar a criatividade coletiva na equipe (Cirella, 2012). Tendo em vista que no cenário da moda a criatividade desempenha um papel dominante, o líder precisa incentivar a criatividade na equipe. O comportamento dos líderes tem efeito sobre como os indivíduos encaram a criatividade, assim, os líderes podem

influenciar a criatividade na maneira como projetam suas equipes de trabalho. Líderes podem apoiar a criatividade oferecendo recursos, como o tempo, direcionando a criação das atividades, valorizando as contribuições de seus liderados e demonstrando confiança na sua equipe de trabalho (Parjanen, 2012).

O líder E1L1 afirma que incentiva sua equipe a buscar novas formas de pensar, “eu provoco muito eles nesse sentido, de buscar pensar diferente [...] porque eu acho que todo mundo pensa igual. E tu vai fazer qualquer tipo de coisa, de desenvolvimento, todo mundo está pensando, está pesquisando tudo no mesmo lugar, está todo mundo na mesma coisinha”.

Observou-se nas interações diárias das equipes que os líderes buscam constantemente incentivar a criatividade, oferecendo materiais de trabalho que acabam trazendo de suas viagens de pesquisa ou comprando através do Grupo, como tecidos, aviamentos ou materiais para desenho. Os líderes também direcionam as atividades de criação, buscando fomentar a ideação coletiva e estabelecer um espaço de trabalho em que seja possível criar em conjunto. Outro ponto observado, foi o apoio dos líderes na geração e acompanhamento das ideias da equipe. Esta observação corrobora com Mumford et al. (2002), quando ele destaca que o líder é responsável pela facilitação na geração de ideias de outras pessoas, por meio do estímulo intelectual, aplicação de técnicas criativas de resolução de problemas, apoio a novas ideias, envolvimento das pessoas no desenvolvimento de ideias e na liberdade para perseguir as ideias assim geradas.

Gerir e desenvolver pessoas, envolve a identificação de práticas centradas no autodesenvolvimento, nas formas sociais e coletivas, por meio de um ambiente de rede em que os conhecimentos são gerados e evoluem a partir de necessidades, no qual exige das pessoas mais habilidades psicomotoras e cognitivas (Barratt-Pugh, Hodge, & Smith, 2020). Treinar e desenvolver colaboradores propicia uma mudança de comportamento desses indivíduos na execução de suas atividades laborais (Hardy III, Day, & Junior, 2019). Como forma de estimular novos conhecimentos na equipe, percebeu-se que o líder pode incentivar a

capacitação profissional de seus integrantes, visando o desenvolvimento pessoal e coletivo

das competências.

Nas equipes do Núcleo de Criação observou-se que todos os líderes incentivam a capacitação profissional dos seus membros de equipe. Esse incentivo do líder pode ser constatado em algumas falas dos entrevistados, “ele gosta quando a gente tem essa fome de aprendizado, essa sede de coisas novas, tudo novo, o tempo inteiro se renovando e evoluindo” (E6M8), “sempre que tem cursos, essas coisas, ele acaba compartilhando e incentivando” (E5M1) e “ele gosta que a gente esteja em constante treinamento, então sempre quando tem um

treinando, a gente passa pra ele, ele faz de tudo pra gente fazer, dá um jeito, leva a gente nas viagens, a gente participa” (E4M3).

Os cursos, workshops, feiras e outras técnicas, permitem que os membros obtenham novos conhecimentos, que acabam sendo compartilhados entre os colaboradores da equipe. Essas capacitações aumentam a disposição dos membros para ensinar outros colaboradores e melhorar a comunicação e integração da equipe, conforme ressaltado pelo entrevistado E2M2 “eu acho muito legal, porque te incentiva, planta uma sementinha para gente querer ser melhor, trazer ideias melhores, porque quando você vê que aquela sua ideia que você trouxe está sendo aplicada, é mais satisfatório e dá ainda mais vontade de ajudar sabe”. Essas técnicas permitem ampliar o desempenho dos indivíduos, desenvolver competências e adquirir novos conhecimentos que contribuam para satisfação pessoal e profissional (Gil, Hoeckesfeld, Silva e Pereira, 2020).

A Tabela 17 apresenta as diretrizes utilizadas pelos líderes referentes a características e disposições individuais que colaboraram no desenvolvimento de competências coletivas. Tabela 17

Diretrizes do líder nas características e disposições individuais

Fator Diretrizes

Características e disposições individuais: forma como o líder estimula

as características individuais dos membros da equipe visando a disposição para aprender e ensinar

Enfatizar interesses e valores comuns: evidenciar os interesses mútuos e os valores pertencentes a equipe

Incentivar as relações de ajuda entre os colaboradores: estimular relacionamentos que favoreçam o apoio mútuo e a colaboração entre os membros Incentivar a aprendizagem: estimular o compartilhamento de conhecimento para modificar ou adquirir novas formas de execução de trabalho

Incentivar a criatividade: fornecer recursos, direcionamento, apoio e acompanhamento as ideias da equipe

Incentivar a capacitação profissional: estimular os membros da equipe a obter novos conhecimentos por meio de cursos, feiras, treinamentos e outras capacitações

Visto que as competências coletivas são formadas pelas competências dos indivíduos, cabe ao líder fomentar as características individuais de seus liderados com o intuito de que ocorra na equipe a disposição para aprender e ensinar, pois através do compartilhamento de conhecimento que a competência coletiva é desenvolvida. O líder pode estimular o interesse pessoal de seus membros em obter conhecimento, a compartilhar saberes e experiências, e a melhorar a capacidade de comunicação e integração na equipe. Líderes também podem enfatizar as atitudes que os integrantes devem ter no ambiente coletivo, buscando atender as necessidades e os objetivos da equipe.

Destaca-se, com base nas análises realizadas, algumas diretrizes referentes as características e disposições individuais podem ser utilizadas pelos líderes visando desenvolver

as competências coletivas: 1) enfatizar interesses e valores comuns, permite a identificação coletiva da equipe, ressaltar a necessidade de cooperação, fortalecer os objetivos compartilhados e intensificar a união e o envolvimento dos integrantes; 2) incentivar as relações de ajuda entre os colaboradores, viabiliza o compartilhamento de saberes, a troca de ideias e experiências, atitudes proativas e a construção de um ambiente em que seja possível contar uns com os outros; 3) incentivar a aprendizagem, possibilita produzir e compartilhar conhecimentos e experiências vividas, minimizar problemas e erros da equipe e a renovação das atividades; 4) incentivar a criatividade, proporciona novas formas de pensar, criar em conjunto, inovar e encontrar soluções mais rápidas para os problemas; 5) incentivar a capacitação profissional, favorece que os colaboradores aprendam algo novo, apliquem novas ideias, entrem em contato com outros ambientes e compartilhem novos conhecimentos com a equipe.