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5.1 Elementos Constitutivos das Competências Coletivas

5.1.2 Entendimento compartilhado

O entendimento compartilhado ocorre quando indivíduos trabalham em direção a um objetivo mútuo sendo capazes de possuir o mesmo entendimento sobre o assunto do objetivo tratado (Tan, 1994). Assim, a coordenação das atividades de uma equipe é aceita por cada membro, construindo um entendimento das atividades que seja compatível com a de seus companheiros de equipe (Bourbousson & Fortes-Bourbousson, 2016). Para tanto, a construção do entendimento compartilhado requer o comprometimento coletivo das partes interessadas (King et al., 2019).

A competência coletiva se encontra fundamentada no entendimento compartilhado (Klein & Bittencourt, 2012) e este, por sua vez, estrutura-se pelo desenvolvimento contínuo de

(2012) estabelecem três elementos de análise do entendimento compartilhado: interação, coordenação dos conhecimentos e espírito coletivo.

A interação é reconhecida como o espaço compartilhado para o debate e a definição das atividades das equipes ou da troca de experiências (Sandberg & Tagarma, 2007; Frohm, 2002; Hansson, 2003; Le Bofert; 2003), além de possibilitar o desenvolvimento das competências coletivas (Klein & Bittencourt, 2012) que são constituídas por padrões de interação dentro da equipe que possibilitam a criação de sentido coletivo as situações desafiadoras no local de trabalho. Contudo, a capacidade de construir um entendimento compartilhado depende da equipe que possui e utiliza uma base de conhecimento coletivo (Boreham, 2004b).

No Núcleo de Criação as equipes realizam diariamente processos de interação que compõem a dinâmica coletiva das atividades laborais. Os momentos de maior interação percebidos nas equipes foram: nas conferências das peças piloto, nas reuniões, nas convenções das marcas e nas viagens de pesquisa.

As conferências das peças pilotos que chegam do departamento de modelagem, podem ser percebidas como um momento de muita interação nas equipes, “a gente vê os resultados finais e troca ideias, do que poderia ter sido mudado, do que a gente poderia ter evitado, [...] a gente vai, coloca as araras e fica vendo o que a gente poderia ter melhorado, o que a gente gostou” (E3M1). O mesmo é constatado na Equipe 4:

“Há mais interação no trabalho no momento que chega uma peça de lavanderia. [...] Daí a gente para pra olhar, todo mundo olha e todo mundo fala, todo mundo da opinião, é uma hora que a gente trabalha bem junto. A gente analisa a peça, a gente analisa com o técnico de lavanderia, a gente já aviamenta a peça. Logo a gente passa pra assistente e orienta elas o que tem que fazer e como tem que fazer, acho que ali nesse momento há uma interação”. (E4M3).

Nas reuniões de planejamento ocorrem a interação dos membros da equipe por meio de discussão de ideias e sugestões de melhoria, conforme apontado por E1M4:

“Eu acho que é nesse momento que está sendo passada as orientações, no início da coleção, que o coordenador chama todo mundo para orientar os desenhos dos rotativos e explicar como que vai ser a coleção. [...] Nesse momento a gente tem uma interação maior, [...] a gente tem bastante liberdade para falar em relação ao que ele está orientando, a gente também não fica quieto e acata a ordem ali, a gente troca bastante ideia [...]”.

Na Equipe 6 acontece a convenção da coleção, que seria um evento da marca para os representantes comerciais, com atividades como: desfile comercial e técnico, apresentação da

coleção e showroom. Nas convenções, a interação e colaboração acaba sendo muito presente na equipe, as apresentações são validadas em conjunto e os membros realizam diversas funções independente do cargo que ocupam com a finalidade de que o evento seja bem-sucedido, afirmam E6M1 e E6M6.

As viagens de pesquisa permitem as equipes momentos de interação, seja com membros da sua equipe ou de membros de outras marcas que acabam viajando junto. As viagens inspiracionais da coleção são realizadas para buscar referências criativas para o planejamento da coleção, geralmente realizadas por alguns estilistas. O entrevistado E6M7 comenta que sua equipe teve a oportunidade de todos os membros realizarem uma viagem de pesquisa, no qual permitiu momentos de interação da equipe e a vivência de uma experiência no local temático da coleção. Após as viagens de pesquisa, as equipes realizam reuniões para apresentar o que foi pesquisado e expor as peças de pesquisa compradas.

O conhecimento é fundamental para a constituição, desenvolvimento e manutenção das competências coletivas (Dupuich, 2011; Sandberg, 2000). Umas das principais tarefas comportamentais das equipes é o pressuposto de tentar interpretar, reter e compartilhar o conhecimento resultante das atividades de trabalho (Allen et al., 2018). Em uma competência coletiva o conhecimento criado auxilia a produzir representações mentais compartilhadas de tarefas, que sustentam expectativas compartilhadas, apoiando ações coordenadas das equipes (Lingard, 2012). Portanto, a competência coletiva decorre da articulação de diferentes bases de conhecimento tendo em vista um objetivo comum (Frohm, 2002; Hansson, 2003; Le Boterf, 2003; Klein & Bittencourt, 2012).

O desenvolvimento das competências coletivas pode ocorrer quando se coordenam diferentes bases de conhecimento nas equipes para produzir a complementariedade das competências, sendo caracterizado pela maneira que os saberes estão relacionados com a forma que as equipes interagem e criam um ambiente favorável para sua manutenção e desenvolvimento (Le Boterf, 2003). Percebeu-se, na Equipe 1, que alguns indivíduos tiveram experiências profissionais anteriores em outras empresas e no desenvolver da coleção acabam trocando essas experiências de forma informal, com conversas diárias ou nos momentos de interação, como também relata E1M8. Assim, o compartilhamento de conhecimento nas equipes ocorre por meio da constante troca entre os seus membros, como ressaltado por E6M4: “Pela troca de experiências, pelo o que cada um vive, como a gente trabalha muito com criação, é muito troca. A gente não consegue criar nada se a gente não trocar conhecimento. A gente tem muito essa parte de trocar de conhecimentos, de um querer ajudar o outro, de um melhorar o produto do outro, que o produto não é meu, o produto é nosso”.

Pela área criativa ser altamente visual, a maioria das atividades são realizadas em computadores, utilizando-se de softwares. Os entrevistados da Equipe 1 retratam que durante a execução dessas atividades, seus membros conseguem trocar conhecimento técnico para melhorar e agilizar os processos, “passei aqui atrás na tua tela e vi que tu tá fazendo isso e notei alguma coisa que eu posso te ajudar, isso você faz desse jeito assim, no Photoshop, olha só, eu aprendi de um jeito que é muito mais fácil” (E1M3). O entrevistado E1M7 aponta que quando uma nova estilista entrou na equipe, foram os desenhistas que passaram todo o conhecimento do software utilizado. A estilista não precisou realizar nenhum curso de capacitação, foi por meio do compartilhamento dos saberes entre os membros da equipe que ela aprendeu. Essas afirmações reforçam a presença da aprendizagem informal na equipe.

As dificuldades enfrentadas também propiciam momentos aquisição de conhecimento. E1M6 destaca que com os erros e acertos a equipe consegue aprender e obter melhorias nos seus processos de trabalho. E3M2 comenta “a gente aprende muito com essas dificuldades, às vezes, se tornam oportunidades para aprender”. Em complemento, E1M4 observa que os novos desafios enfrentados pela equipe propiciam momentos de aprendizado:

“Tem esse tipo de aprendizado, de gerar coisas novas, para serem criadas dentro do Grupo todo, e tem o aprendizado individual ali na questão, aprender a fazer algo diferente, fora da tua zona de conforto. Então, o desenhista ele está sempre aprendendo, ele está sempre tentando fazer algo diferente, porque elas buscam, as estilistas e o líder, buscam [...] coisas diferentes e a gente tem que tentar chegar nesse resultado final. Nesse tentar chegar nesse resultado, a gente tem que buscar meios de executar isso, e esse buscar é aprender”.

A participação em eventos, como feiras e workshops, permite que as equipes compartilhem conhecimento com aqueles membros que não puderam comparecer. Isto ocorre, por meio do relato do que observaram, novidades do mercado e tendências de moda, fotos, materiais de desenho, softwares e livros, abordam E2M3 e E4M2.

As viagens de pesquisa possibilitam que os colaboradores tenham acesso a muitas informações, que posteriormente são compartilhadas com suas equipes. Após as viagens de pesquisa, geralmente as internacionais, os colaboradores que viajaram preparam na sala de reunião uma apresentação, com as imagens captadas e peças de referências, para os colaboradores que não viajaram. Nessa apresentação são expostos o porquê das imagens escolhidas e o que foi extraído daquela peça como inspiração, explicam E4M2 e E2M3. O entrevistado E6M7 complementa esse pensamento:

“Não viaja toda a equipe para fazer inspiração ou tendência, sempre tem um momento de apresentação, onde a gente passa para toda a equipe o que aconteceu lá, e daí as pessoas que viajaram trazem um pouco do que foi visto fora, ou comido, ou usado, ou comprado, e é passado para equipe. Querendo ou não, é conhecimento, porque muitos lugares que a gente viaja as pessoas que ficam não conhecem”.

O alcance de objetivos comuns em uma equipe se dá por meio de relações de interdependência entre seus membros (Boreham, 2004a; Hansson, 2003), pela cooperação (Zarafian, 2001) e pela complementariedade das competências (Le Boterf, 2003). Esses aspectos evidenciam o espírito coletivo, ou também conhecido como espírito de equipe, visto como um quadro cognitivo compartilhado por membros que fornecem a equipe uma capacidade de sintetizar seus processos sociais contraditórios inerentes a vida coletiva (Silva et al., 2014). Esse espírito de equipe é resultante de uma dinâmica, expressa em um compromisso abrangente (Silva et al., 2014) que permite melhorias no desempenho da equipe (Ratzmann, Pesch, Bouncken, & Climent, 2018).

O espírito coletivo é percebido nas dinâmicas das atividades do Núcleo de Criação, por meio de objetivos compartilhados e foco no desempenho coletivo, a fim de produzir resultados significativos para as marcas e o Grupo. Isto pode ser percebido na fala abaixo:

“Algo que eu sempre percebo é que a gente sempre tem essa intenção de estar fazendo tudo junto, nada se resolve sozinho, muito tipo espírito de equipe mesmo. Se eu tenho um desenhista comigo eu pergunto pra ele a opinião dele, seja pra estampa, pra localização. [...] Mas assim quase nada a gente se resolve sozinho, a gente cria a gente pede opinião, a gente divide opinião, a gente fala mesmo sem pedir. [...] Eu sei que a gente tá ali junto com o mesmo objetivo”. (E6M7).

Os líderes E1L1 e E2-3L1 reconhecem que suas equipes são proativas, visto que nos momentos de necessidade, os colaboradores se prontificam a colaborar pelo bem comum da equipe. Com relação ao cumprimento das metas, E1M4 constata que em momentos de atraso, as pessoas se ajudam e dividem o trabalho entre si para que o cronograma não seja prejudicado. O mesmo ocorre na Equipe 4 conforme relato:

“Um atraso de cronograma em determinada área, todo mundo pega junto e vai lá, tem uma aprovação para acontecer – Está andando normal? Beleza – não preciso nem falar, eles tomam a iniciativa, eu não preciso hoje dizer – Oh gente tem que parar todo mundo para ajudar na aprovação – eles mesmos se comunicam. Tem um problema de produção ou uma dúvida de construção de produto de engenharia, todo mundo pega e ajuda”. (E4L1).

E1M8 percebe a presença do espírito coletivo quando os problemas surgem na equipe, “todo mundo se envolve, e todo mundo puxa o outro, tem que imprimir, tem que recortar, e de

repente está lá recortando, quando eu vejo já tem três do teu lado que tu nem pediu para ajudar para recortar, está lá te ajudando a recortar”. Na Equipe 4 os atrasos na liberação do mostruário fazem a equipe colaborar entre si e buscar alternativas para minimizar o problema, conforme dito por E4M4, “a gente está atrasada, a gente precisa entregar, porque no final é tudo igual, não tem diferença de marca, então a gente é muito coletivo, a gente se une e consegue entregar sempre o nosso melhor”, o mesmo ocorre na Equipe 5 em que E5M3 considera não haver individualismo na equipe, todos trabalham de forma conjunta pensando no bem comum e crescimento da marca.

O espírito coletivo é percebido na Equipe 6 nos eventos da marca, como a convenção da coleção, onde toda a equipe precisa trabalhar conjuntamente para que o evento seja bem- sucedido. Nos eventos torna-se perceptível o engajamento coletivo e o comprometimento compartilhado com o desempenho da marca, onde ficam ainda mais evidentes na equipe a união e a sinergia nas atividades laborais, fato também percebido E6M3 e E6L1.

Por meio das evidências apresentadas, os elementos (interação, conhecimento e espírito coletivo) que contemplam o entendimento compartilhado, colaboram para que ocorra o mesmo entendimento dos membros da equipe para o alcance dos objetivos compartilhados. Constatou-se que a interação permite a realização de trocas entre os membros da equipe para que o entendimento compartilhado aconteça. O conhecimento possibilita o compartilhamento de saberes resultante das atividades de trabalho das equipes. E o espírito coletivo comtempla uma dinâmica de comprometimento coletivo em atingir objetivos.