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Carreira como ciclos

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2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.3 Metáforas de Carreira

2.3.2 Carreira como ciclos

A vida das pessoas se dá através de ciclos, que se repetem (INKSON, 2007). Por exemplo, uma pessoa trabalha durante um ano para tirar férias por um mês, e isso se repetirá certamente todos os anos enquanto ela trabalhar. Na escola, os professores, de tempos em tempos, precisam elaborar provas e, após isso, aplicá-las, corrigi-las; os estudantes, por sua vez, sabem que em determinadas épocas terão que fazer esses testes, sabem também que duas vezes por ano terão férias. Enquanto eles estudarem, esses ciclos se repetirão. Mas a pergunta que Inkson (2007) faz é como é possível aplicar essa metáfora de ciclos no estudo de carreira? Será que os ciclos de contentamento e de experiência de todos os profissionais são similares?

Inkson (2007), ao iniciar o capítulo de seu livro reservado a essa metáfora de carreira, conta a história de um profissional, desde sua graduação até a idade de quarenta anos. Ele mostra a diferença da energia desse profissional de quando ele tinha vinte anos para o presente momento. As ambições e mesmo as prioridades dos vinte aos quarenta anos se alteraram. Aos vinte anos, esse profissional não tinha filhos e a energia para dedicação ao trabalho era uma. Mas, aos quarenta, com família constituída, esposa e dois filhos, a disposição para viagem, por exemplo, havia mudado. As prioridades, os grupos de amigos, a vida social eram completamente diferentes. Eram outras a sua energia e as suas prioridades, e a ambição com o trabalho havia diminuído. Inkson (2007) finaliza a história com algumas perguntas como: o jovem já não existe, mas esse profissional atual está contente? Por que colocar o contentamento em risco para procurar por mais?

No dicionário, encontram-se dois significados para ciclo: “1. Série de fenômenos que se sucedem numa ordem determinada. 2. Seqüência de fenômenos que se renovam periodicamente.” (FERREIRA, 2000). A essência encontrada nos ciclos é que eles são previsíveis e se repetem, mas nos estudos sobre carreira não acontece assim, ou melhor, eles podem ser previsíveis, mas não se repetem de forma individual. O que deve ser levado em consideração é que o trabalho das

pessoas é apenas uma parte de sua vida, de seu dia-a-dia. Um ciclo de carreira talvez seja uma parte do vasto ciclo da vida. O desenrolar da carreira é uma porção importante do desenvolvimento de uma pessoa adulta. Essa metáfora de ciclos suplementa a de carreira como herança (INKSON, 2007).

Diversos estudos relatam a existência da metáfora de ciclos. Huberman (1992) fala sobre o ciclo, fases ou estágios que o profissional de docência vive durante a sua carreira. Moggi e Burkhard (2003) versam sobre as fases da idade adulta e as diversas reflexões que o profissional vive nessa fase. Quando se fala em carreira profissional docente, podem-se também citar alguns autores que versam sobre ciclo, estágios ou fases dessa profissão. Fuller (1969) considera que existem três estágios ao longo da carreira docente. Fullan e Hargreaves (1992) versam sobre as dimensões e os estágios do desenvolvimento de professores.

As teorias sobre idade relatam que o indivíduo possui formas particulares de acessar sua carreira nos períodos diversos de sua vida. Por exemplo, quando jovem, ele se encontra no topo de sua vontade para explorar as opções de carreira; aos quarenta anos, são esperadas maiores turbulências. Depois, a tendência é uma diminuição da energia e do avanço, devido à idade mais avançada. A carreira se torna uma sequência de eventos (INKSON, 2007), que são os ciclos da carreira. Os ciclos que acontecem na vida se repetem ou refletem na carreira.

Inkson (2007) afirma que o termo estação, como uma metáfora para a vida humana, é interessante e fácil de ser compreendido, quando aplicado no estudo sobre carreira. A primavera é quando o indivíduo semeia grãos para o futuro; o verão é quando se dá a colheita dos frutos semeados na primavera; o inverno seria a morte da carreira. Essa metáfora, entendida sob esse viés, foi baseada no livro “The seasons of a man‟s life”, composto por uma série de entrevistas feitas com quarenta homens americanos entre trinta e cinco e quarenta anos, com quatro ocupações diferentes. Os autores do livro dividiram os estágios em quatro, porém aplicados à vida do homem (LEVINSON et al., 1978 apud INKSON, 2007).

Muitos pesquisadores afirmam que os ciclos da carreira feminina divergem dos ciclos da carreira masculina. Rocha-Coutinho (2003) apresenta uma pesquisa sobre a mulher de classe média

carioca, que oscila entre ser uma excelente profissional ou uma ótima mãe de família. A mãe é vista como a zeladora do lar, enquanto a profissional é independente e pode fazer escolhas, inclusive a de não ter filhos. O resultado é que para a maior parte dessas mulheres a família ainda é prioridade, mesmo que isso custe alguns sacrifícios profissionais. A mulher não possui um sonho, mas um sonho dividido, onde há um balanceamento entre a carreira e a família (GALLOS, 1989 apud INKSON, 2007). Não que a mulher seja mais ou menos competente. Não é isso que está em questão, mas, sim, que os ciclos na vida da mulher diferem dos ciclos na vida e na carreira dos homens. Isso corrobora a ideia de que os ciclos na vida das pessoas interferem no desenvolvimento de suas carreiras.

Os estudos feitos a partir de 1990 mostram que os empregos estão menos estáveis por causa de fatores, como a reestruturação organizacional (INKSON, 2007) ou a reengenharia e outros, que já foram tratados nesta pesquisa. Esses fatores fizeram com que as carreiras assumissem formas variadas ou passassem por novas fases ou novos ciclos. A mobilidade nas carreiras, a descontinuidade, o ziguezague, as improvisações são constantes e fazem com que a noção de estágios pré-definidos fique mais difícil de ser sustentada (INKSON, 2007). É possível pensar em estágios diversos e em mudanças abruptas nesses estágios, visto que é por essa instabilidade que muitos profissionais passam. São as chamadas carreiras proteanas (HALL, 1996) já tratadas em outro capítulo.

Por outro lado, o presente estudo trata justamente do direcionamento dos profissionais para carreiras mais estáveis no serviço público, o que corrobora o questionamento de Inkson (2007) sobre a instabilidade desses supostos ciclos na carreira ou, pelo menos, dos ciclos pré-definidos. A carreira pode ter um caráter menos previsível e estar mais à mercê de mudanças individuais e abalada pela instabilidade econômica do sistema e do mercado de trabalho, que as teorias que se reportam aos ciclos na carreira podem sugerir (INKSON, 2007).

Existem teorias que especificam a idade em que os estágios na vida do indivíduo acontecem. A tendência crescente é para a quebra e/ou a transformação de determinados ciclos expostos nas teorias. Assim, não se devem especificar as idades em que esses ciclos acontecem, até porque hoje não se pode pensar na morte da carreira quando o profissional chega aos quarenta e cinco,

cinquenta anos, visto que há vários profissionais ativos com essas idades. A chave das carreiras pode justamente estar no fato de que cada ciclo possui uma sequência típica (INKSON, 2007).

Esses ciclos possibilitam aos profissionais uma previsibilidade na vida de trabalho, mas eles também servem para alertar sobre os perigos da estagnação na carreira, uma vez que envolvem mudanças e aprendizados, assim como se repetem. Ou seja, cabe ao profissional desenvolver o mesmo ciclo de trabalho com mais sofisticação, devido ao aprendizado adquirido (INKSON, 2007). O indivíduo pode até ter o mesmo trabalho durante muitos anos, mas aprimorar a maneira de realizar esse trabalho dependerá de sua vontade.

Hall (2002, apud INKSON, 2007) afirma que a carreira das pessoas possui uma série de mini- estágios ou de pequenos ciclos de aprendizagem, que podem ser adquiridos com as experiências vividas em diferentes áreas de trabalho. A ideia da carreira proteana proposta por Hall (1996) é que o indivíduo pode mudar de carreira diversas vezes durante sua vida, assim como o deus Proteu pode assumir diferentes formas quando bem deseja. O aprendizado possibilita um novo começo para o próximo ciclo (INKSON, 2007), ou seja, mesmo que o profissional mude de carreira, o aprendizado acumulado será utilizado em seu novo cargo, em sua nova carreira.

Se Hall estiver certo, o foco talvez deva ser alterado. Em vez de ciclos, deve-se falar sobre aprendizagem que muda de lugar, ciclos curtos que podem ser enxergados não como retornáveis e, sim, como um movimento ascendente em espiral (INKSON, 2007). Isso também corrobora a ideia de carreira em ziguezague ou em espiral, proposta por Evans (1996). Os conceitos diversos sobre carreiras, no final, se entrelaçam ou se complementam de alguma forma.

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