• Nenhum resultado encontrado

CAUSAS EXCLUDENTES DE NEXO DE CAUSALIDADE

No documento Dano moral ambiental coletivo (páginas 35-39)

As causas excludentes de responsabilidade, como o estado de necessidade, legítima defesa, exercício regular de direito e estrito cumprimento de dever legal, caso fortuito e força maior, culpa exclusiva da vítima e fato de terceiro, impedem que o nexo causal se concretize, excluindo, assim, a responsabilidade do agente.

É importante dizer que, por causas excludentes de responsabilidade civil, “devem ser entendidas todas as circunstâncias que, por atacar um dos elementos ou pressupostos gerais da responsabilidade civil, rompendo o nexo causal, terminam por fulminar qualquer pretensão indenizatória”. (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012, p. 149).

Após uma longa controvérsia na jurisprudência nacional e internacional, entendeu- se que responsabilidade objetiva permite a utilização de quatro excludentes específicas para atingir o nexo causal; são elas: o caso fortuito, a força maior, o fato exclusivo de terceiro e o fato exclusivo da vítima (SERRA VIEIRA, 2004, p. 41 apud SANTANA, 2012, p. 77).

Neste estudo, que tem como base o dano moral ambiental causado à coletividade, ou seja, esta como vítima, não se verifica a possibilidade de um fato exclusivo da vítima excluir o nexo causal, motivo pelo qual tal excludente não será aqui analisada, limitando-se no presente

trabalho às demais excludentes supramencionadas, pois a responsabilidade civil por danos ambientais é objetiva.

2.3.1 Caso fortuito e força maior

A diferença entre o caso fortuito e força maior ainda é deveras polêmica, razão pela qual ainda não foi possível se chegar a um conceito unânime. Há quem veja nessa diferença uma questão apenas acadêmica, tratando-os como sinônimos perfeitos.

Gonçalves (2012, p. 475) expressa sua opinião, dizendo que não há muito que se distinguir entre as duas causas de exclusão da responsabilidade. Ademais, afirma que a inevitabilidade é a principal característica de ambas. Para o referido doutrinador:

O caso fortuito geralmente decorre de fato ou ato alheio à vontade das partes: greve, motim, guerra. Força maior é a derivada de acontecimentos naturais: raio, inundação, terremoto. Ambos, equiparados no dispositivo legal supratranscrito, constituem excludentes da responsabilidade porque afetam a relação de causalidade, rompendo- a, entre o ato do agente e o dano sofrido pela vítima (GONÇALVES, 2012, p. 475). O artigo 393 do Código Civil dispõe que “o devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado” (BRASIL, 2002). O parágrafo único do referido artigo, por sua vez, define o que seria considerado caso fortuito ou de força maior: “O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir” (BRASIL, 2002).

Para Diniz (2002, p. 346-347 apud GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012, p. 158-159), “na força maior conhece-se o motivo ou a causa que dá origem ao acontecimento, pois se trata de um fato da natureza, [...]” Azevedo (2001, p. 270 apud GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012, p. 159) completa que “é o fato do terceiro, ou do credor; é a atuação humana, não do devedor, que impossibilita o cumprimento obrigacional”. E acrescenta que no “caso fortuito é o acontecimento provindo da natureza, sem qualquer intervenção da vontade humana” (AZEVEDO, 2001, p. 270 apud GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012, p. 159).

Dito isso, não restam dúvidas de que em ambos os casos não haverá o dever de reparar o dano, pois a conduta não se realiza em razão de fatores externos não previsíveis ou resistíveis ao possível causador do dano (CAVALIERI FILHO, 2012, p. 71). Assim, Venosa (2012, p. 56) admite que, embora exista diferença entre um e outro, no caso concreto, para fins

de responsabilidade civil, o caso fortuito e o de força maior não necessitam de distinção, pois cumprem a mesma finalidade.

Outrossim, extrai-se das lições de Medeiros (1943 apud DIAS, 2006, p. 936) que o caso fortuito e a força maior possuem dois elementos, um de ordem subjetiva e outro de ordem objetiva. O caráter objetivo é demonstrado pela inevitabilidade do evento, enquanto o subjetivo consiste na ausência de culpa; deve haver o rompimento do nexo causal para que deixe de existir o dever de indenizar e não apenas o da culpa, haja vista que a responsabilidade civil objetiva prescinde de culpa (DIAS, 2006, p. 936). De todo modo, somente haverá reconhecimento das excludentes citadas quando ocorrer o efetivo rompimento do nexo causal.

Por derradeiro, utiliza-se as palavras de Nery Junior (apud GONÇALVES, 2014, p. 90) para esclarecer que é irrelevante a demonstração do caso fortuito ou da força maior como causas excludentes da responsabilidade civil por dano ecológico. Essa conclusão “é extraída do sentido teleológico da Lei de Política Nacional do Meio Ambiente, onde o legislador disse menos do que queria dizer ao estabelecer a responsabilidade objetiva” (NERY JUNIOR apud GONÇALVES, 2014, p. 90).

Dessa forma, a Lei de Política Nacional do Meio Ambiente e, posteriormente, a Constituição Federal não dispuseram acerca de qualquer excludente da obrigação de reparar o dano ambiental; por conseguinte, o agente poluidor deve assumir integralmente todos os riscos que advêm de sua atividade, submetendo-se à Teoria do Risco Integral, subsistindo o dever de indenizar ainda quando o dano seja oriundo de caso fortuito ou força maior.

Como se aprofundará no próximo capítulo, os dispositivos que versam sobre a responsabilidade civil ambiental não preveem expressamente qual Teoria do Risco deve ser adotada. Assim, com base nos princípios do Direito Ambiental, a doutrina e a jurisprudência manifestam-se pela adoção da responsabilidade objetiva fundada na Teoria do Risco Integral, que se funda no princípio da equidade, pois aquele que lucra com uma atividade deve responder pelo risco ou desvantagem dela resultante. Em consequência, não se admitem as excludentes de responsabilidade, inclusive, porque dizem respeito a interesses coletivos lato sensu.

2.3.2 Fato/culpa exclusivo(a) de terceiros

Nessa mesma linha, tem-se que o comportamento de um terceiro também é capaz de romper o nexo causal, consequentemente, excluindo a responsabilidade civil. Cabe esclarecer que, por terceiro, entende-se a figura que se encontra presente na relação, não sendo a vítima e tampouco o agente causador do dano; essa identificação é mais fácil na

responsabilidade contratual, pois se conceitua como terceiro aquele que não participou do negócio jurídico.

A questão ainda é deveras tormentosa na jurisprudência, tendo em vista que inexiste texto expresso de lei capaz de produzir um entendimento pacífico. No entanto, Gonçalves (2012, p. 632), por exemplo, atribui a regulamentação aos artigos 929 e 930 do Código Civil, o último possibilitando ação regressiva contra o terceiro que criou a situação de perigo (BRASIL, 2002).

Todavia, em alguns casos a jurisprudência e até mesmo a legislação não têm admitido esta excludente de responsabilidade. Como se verifica, por exemplo, na Súmula 187 do Supremo Tribunal Federal que preceitua: “A responsabilidade contratual do transportador, pelo acidente com o passageiro, não é ilidida por culpa de terceiro, contra o qual tem ação regressiva” (BRASIL, 1964, p. 96). Mais tarde, essa súmula transformou-se no artigo 735 do Código Civil.

Assim, na responsabilidade contratual, Dias (2006, p. 926) ensina que “[...] o fato de terceiro só exonera quando realmente constitui causa estranha ao devedor, isto é, quando elimine, totalmente, a relação de causalidade entre o dano e o desempenho do contrato”.

O similar ocorre na responsabilidade extracontratual, também denominada aquiliana se o terceiro foi o causador exclusivo do prejuízo, não tendo o agente apontado também concorrido para o dano.

Venosa (2012, p. 65) acredita que, para que essa circunstância seja aplicada, além do fato de terceiro ser causa totalmente estranha ao evento, o aparente causador do dano deve provar que o fato era “inevitável e imprevisível”. Ocorre que essa exigência conduz a culpa de terceiro para o patamar de força maior, já explicado neste trabalho, visto que aquela elenca os mesmos requisitos. Nesse ponto, Cavalieri Filho (2012, p. 70) concorda com o caso acima ao dizer que “[...] o fato de terceiro, [...] equipara-se ao caso fortuito ou força maior, por ser uma causa estranha à conduta do agente aparente, imprevisível e inevitável”.

Entretanto, de acordo com Dias (2006, p. 930), a doutrina se divide e, portanto, há autores que “[...] são menos exigentes. Para eles, não é necessário que o fato de terceiro se apresente com os atributos da força maior, para ter efeito exonerativo”.

Conclui-se que o fato/culpa exclusivo(a) de terceiro só tem força para romper o nexo causal quando, por si só, produz o resultado, pois concorre com a atividade do agente causador do dano, apenas atenua a culpa, não havendo que se falar em exclusão da responsabilidade civil.

No documento Dano moral ambiental coletivo (páginas 35-39)