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Centro Democrático Social Partido Popular

No documento A reação portuguesa à guerra do Kosovo (páginas 90-94)

Como o CDS-PP não tinha um jornal partidário oficial, a procura de artigos de opinião e de ações de militantes tornou-se mais árdua. Os órgãos de comunicação social não disponibilizaram tanto espaço, nos seus jornais, ao CDS-PP como aos restantes partidos com assento parlamentar, no que concerne ao Kosovo. Em 1999, o seu presidente e líder era Paulo Portas197.

8.1. Programa para as eleições legislativas de 1999

Neste documento, o partido via a tradição atlântica do país como um dos seus interesses mais fortes e os conflitos étnicos e a instabilidade europeia como ameaças a uma escala superior à que Portugal conseguiria suportar sozinho. Visto que nenhum país poderia resolver todas as hipotéticas dificuldades na defesa do seu território, seria essencial a permanência numa aliança militar. A NATO parece ter sido a aliança escolhida pelos centristas como a que oferecia melhores condições de sobrevivência e estabilidade, não só para o país, mas também para a toda a região euro-atlântica198.

Todavia, o CDS-PP não pretendia que os estados europeus se encontrassem inseridos na aliança, sem algum grau de autonomia. Para isso, defendia que a UEO fosse o braço armado da UE, incluída na NATO e alicerçada numa política externa e de segurança comum forte199.

O partido considerava, conforme o que estava previsto no artigo 5º do Tratado de Washington –, que a NATO só deveria agir militarmente se um dos seus membros fosse atacado diretamente. A cimeira de Washington de 1999, que definiu o novo CE, esclareceu, segundo o CDS-PP, o propósito da guerra do Kosovo e as ações a tomar após o seu fim200.

Embora defendessem a participação na NATO e o cumprimento dos compromissos internacionais de Portugal, os centristas levantaram dúvidas sobre a ação militar no espaço da aliança sem mandato da ONU, mesmo seguindo o espírito da Carta

197 GOVERNO DE PORTUGAL. Vice-primeiro-ministro. Consultado a 02/08/2015. in

<http://www.portugal.gov.pt/pt/os-ministerios/vice-primeiro-ministro/conheca-a-equipa/ministro/paulo- portas.aspx>.

198 CENTRO DEMOCRÁTICO SOCIAL – PARTIDO POPULAR, “Programa de governo”, 1999, Lisboa,

p. 8.

199 CENTRO DEMOCRÁTICO SOCIAL – PARTIDO POPULAR, “Programa de governo”, 1999, Lisboa,

p. 8.

200 CENTRO DEMOCRÁTICO SOCIAL – PARTIDO POPULAR, “Programa de governo”, 1999, Lisboa,

91 da organização e das resoluções do Conselho de Segurança. Mesmo atacando a ideia de afastamento dos EUA, o programa afirmava a necessidade de um envolvimento ativo dos países europeus, os quais não podiam permitir que a supremacia e interesses dos norte- americanos levassem a NATO a agir em dissonância com a Carta das Nações Unidas201. O CDS-PP ainda subscrevia que a política externa nacional tinha de ter por base, não só os interesses político-económicos e de defesa de Portugal, mas também a procura da paz e a defesa dos Direitos Humanos, de que Portugal teria de ser sempre um garante. Apoiava, ainda, uma discussão generalizada para a institucionalização das possíveis concessões de soberania nacional a uma organização regional ou internacional202.

8.2. Posição dos membros do partido

O deputado Jorge Ferreira afirmou que, durante a guerra, não era percetível qual o objetivo político da NATO e que a UE não devia aceitar a liderança dos EUA. Contudo, ao jornal Público, o líder parlamentar Luís Queiró asseverou que Portugal teria de estar envolvido nas missões da aliança, mesmo que fosse num momento delicado e complexo, como era na altura203.

A 1 de Abril, Paulo Portas deslocou-se a Aviano, Itália, para visitar os militares portugueses aí estacionados, tendo passado o dia com estes, como forma de transmitir a solidariedade que a comunidade política teria de ter para com as tropas enviadas para um conflito, quer concordassem, ou não, com o propósito. Na visita, Portas deixou críticas ao primeiro-ministro por não esclarecer condignamente o país sobre a evolução da guerra e da participação portuguesa, comparando-o mesmo com Oliveira Salazar, ao afirmar que até o ditador havia informado o país sobre as guerras coloniais204.

Em Junho, em resposta a questões colocadas pelo jornal Expresso, Paulo Portas, que era o nº1 da lista do CDS-PP às eleições europeias, defendeu a participação na guerra, alertando que uma recusa em participar resultaria na saída da NATO. Mostrou-se, contudo, favorável a uma solução política que, envolvendo a aliança, não excluísse a Rússia e a ONU. A paz na região e o retorno dos refugiados seriam o mais importante.205

201 CENTRO DEMOCRÁTICO SOCIAL – PARTIDO POPULAR, “Programa de governo”, 1999, Lisboa,

p. 24.

202 CENTRO DEMOCRÁTICO SOCIAL – PARTIDO POPULAR, “Programa de governo”, 1999, Lisboa,

p. 25.

203 Rui FLORES, e Eunice LOURENÇO, “A culpa é do governo”. Público, 02/04/1999. in

<http://www.publico.pt/destaque/jornal/a-culpa-e-do-governo-131601> (Consultado a 13/06/2015).

204 Teresa OLIVEIRA, “Monteiristas de fora”, in Expresso, 02/04/1999, Lisboa. 205 “A hora do Parlamento Europeu”, in Expresso, 11/06/1999, Lisboa.

92 Durante a campanha para as eleições europeias, o cabeça-de-lista rejeitou a criação de um exército europeu206.

O antigo presidente do partido Diogo Freitas do Amaral foi uma das vozes mais críticas, em Portugal, da intervenção da NATO. Durante os bombardeamentos, afirmou que estes eram contra o Direito Internacional207, mostrando-se atónito pela aceitação internacional de uma ofensiva de uma aliança de carácter defensivo a um estado que não a atacara, nem planeara atacar nenhum dos seus membros208.

Num debate com António Guterres e Ramalho Eanes, em Maio, Freitas do Amaral censurou a subserviência europeia face aos EUA, país que, na sua opinião, decidira todas as ações da NATO no conflito. Condenou, mais uma vez, a ilegalidade dos ataques da aliança, pois surgiram sem o mandato do Conselho de Segurança. Significando o afastamento da ONU do processo, este facto tornava a organização irrelevante e em risco de desaparecer, como aconteceu, no período entre as guerras mundiais, com a Sociedade das Nações209.

Freitas do Amaral continuou, ao criticar a paragem das negociações para se proceder à guerra, pois haveria ainda medidas a utilizar para forçar a RFJ a aceitar a proposta de Rambouillet. Mais sanções seriam o instrumento ideal. Um embargo petrolífero – que só aconteceu durante a guerra – e o corte de relações diplomáticas entre os países europeus e a RFJ – que nunca foi concretizado – poderiam ter forçado Milosevic a aceitar uma proposta para o fim do conflito, sem o recurso à guerra210.

O efeito que os bombardeamentos poderiam ter na Rússia também foi abordado, com o antigo presidente do CDS-PP a avisar que estes davam aos extremistas a força que retiravam aos grupos democráticos, polarizando a sociedade russa e destabilizando a Europa211.

Já José Ribeiro e Castro entendia que a intervenção da NATO era um ato punitivo da RFJ e não compreendia como Portugal não contestava as obrigações que tinha no âmbito da NATO, ao mesmo tempo que receava a perda de soberania, devido à implementação da PESC. Criticou o Presidente da República, por não ter declarado a guerra e por não ter ouvido o Conselho de Estado sobre este assunto, bem como o facto

206 Cristina FIGUEIREDO, e Ângela SILVA, “A guerra da Europa”, in Expresso, 15/05/1999, Lisboa. 207 “Altos…”, in Expresso, 10/04/1999, Lisboa.

208 Sofia RAINHO, e Ana SERZEDELO, “Soares, Eanes e Freitas contra a NATO”, in Expresso,

10/04/1999, Lisboa.

209 Orlando RAIMUNDO, “Guterres discute por fim a guerra do Kosovo”, in Expresso, 29/05/1999, Lisboa. 210 Orlando RAIMUNDO, “Guterres discute por fim a guerra do Kosovo”, in Expresso, 29/05/1999, Lisboa. 211 Orlando RAIMUNDO, “Guterres discute por fim a guerra do Kosovo”, in Expresso, 29/05/1999, Lisboa.

93 de a Assembleia da República não ter tido oportunidade de autorizar a participação de tropas portuguesas no Kosovo212.

No rescaldo da guerra, a deputada Maria José Nogueira Pinto entendeu que o fim da Guerra Fria alterara os equilíbrios políticos e, por isso, seria necessário atualizar o Direito Internacional e as organizações internacionais, como a ONU. Considerou que o ataque da NATO não fora provocado pela RFJ e acreditava que a guerra fora malévola e dirigida de forma incompetente213.

Nogueira Pinto achava inaceitável o desprezo demonstrado para com a ONU e a Rússia, bem como a opção por ataques exclusivamente aéreos que causaram mortes civis. A deputada censurava o seguidismo europeu em relação aos EUA, considerando o conflito do Kosovo uma guerra sem vencedores214.

Tal como os outros partidos, o CDS-PP não conseguiu um consenso interno sobre a participação portuguesa na guerra do Kosovo. O partido considerava, então, que os compromissos internacionais de Portugal e a necessidade de impedir a continuação de um massacre apagavam as falhas, a nível do Direito Internacional, da intervenção militar. Os membros que não aceitavam a posição partidária criticavam, sobretudo, aspetos legais, como, por exemplo, a falta de mandato da ONU e o facto de o ataque não ter sido perpetrado por legítima defesa.

212 José Ribeiro e CASTRO, “A bagunça (III)”. Público, 28/03/1999. in <http://www.publico.pt/espaco-

publico/jornal/a-bagunca-iii-131419> (Consultado a 19/06/2015).

213 Maria José Nogueira PINTO, “As lições da guerra”, in Expresso, 11/06/1999, Lisboa. 214 Maria José Nogueira PINTO, “As lições da guerra”, in Expresso, 11/06/1999, Lisboa.

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No documento A reação portuguesa à guerra do Kosovo (páginas 90-94)