CAPÍTULO 2. CONFLITO DE CASAMANSA
2.5. Ciclo do conflito de Casamansa
Pretende-se com este ciclo identificar o conflito por fases de acordo com o grau de organização e intensidade esquematizado na figura (2.7).
Figura 2.7: Ciclo do conflito
Fonte: Adaptação do modelo (Moore, 1986).
Este ciclo do conflito é uma demonstração das fases do conflito de Casamansa e os níveis de sua intensidade ao longo dos 30 anos. O conflito interfere em todos os domínios das relações humanas e sociais manifestando-se em atos de violência, acordos, violações e desacordos como se descreve:
1. Latent conflict (Conflito latente) é caracterizado por tensões subjacentes, cujas causas não estão totalmente desenvolvidas e por isso o conflito ainda não é altamente polarizado (Moore, 1986: 16). As diferenças e os interesses divergentes das partes podem permanecer ocultos em relação ao público durante muito tempo. Alguns factos empíricos de natureza económica foram motivos de tensões entre o MFDC e o Governo senegalês indiciando um conflito latente. O MFDC acusou o Governo senegalês de ter marginalizado a região de Casamansa dos benefícios económicos, facto demonstrado pela expropriação de terrenos semiurbanos ou litorais, outorga de direitos da pesca e de exploração das florestas e atribuições de
High
intensity
Low
intensity
Latent
conflict
Emergent
conflict
Manifest
conflict
postos administrativos aos compatriotas do norte do Senegal, em prejuízo do sul. Com estes argumentos o MFDC conseguiu mobilizar parcialmente a juventude casamansense que abandonou os estudos e aderiu ao movimento. Esta era a fase do conflito latente derivado do sentimento de discriminação, a intenção secessionista do MFDC ainda não estava revelada;
2. Emergent conflict (Conflito emergente) - As partes são identificadas, elas reconhecem a divergência e os problemas são claros, mas não há negociação ou processo para a sua resolução (Moore, 1986). As tensões entre as partes não atingiram o limiar da violência, contudo pode haver viragem onde o uso da força torna-se cada vez mais provável (HIIK, 2002). A primeira manifestação organizada pelo MFDC em Ziguinchor (1982), reivindicando a independência de Casamansa foi um argumento político demonstrativo de um conflito emergente, em que as partes foram identificadas (Estado e o movimento separatista) reconheceram o litígio e os problemas existentes, contudo não se envolveram em negociações para a solução da crise, mas a divergência manteve-se criando tensões derivadas de resposta violenta das Forças governamentais. A segunda manifestação organizada em Ziguinchor em 1983, teve maior número de participantes, houve intervenção das forças de “Gendarmerie” senegalesas e dos confrontos com os elementos armados do MFDC resultaram mortos para as duas partes. A violência da resposta estatal deve-se ao facto do Governo entender que a sua autoridade política e soberania foram desafiadas internamente por grupos de cidadãos. Mas o Movimento das Forças Democráticas de Casamansa entendeu que se trata de um conflito entre duas sociedades distintas: casamansenses na sua maioria Jola e senegaleses, na sua maioria Wolof, obrigados a coabitar no mesmo espaço territorial sob as ordens de um único Governo da República do Senegal (Beck e Foucher, 2009: 98);
3. Manifest conflict (Conflito manifesto) – Esta fase caracteriza-se quando após os confrontos as partes envolvidas no conflito em curso iniciaram a negociação, mas o impasse mantém-se (Moore, 1986). Após vários confrontos armados as partes beligerantes iniciaram as negociações em 1990, das quais não resultaram acordo e manteve-se o impasse pela inflexibilidade das partes. O conflito tornou-se altamente polarizado e as partes convidaram uma terceira parte (Guiné-Bissau) a intervir para ajudar a encontrar solução pacífica;
4. High intensity (Alta intensidade) é um estado de alta tensão entre as partes caracterizado por ameaças de uso de força ou confrontos armados. Os vários
confrontos entre as Forças Armadas senegalesas e os guerrilheiros, assim como as emboscadas de ambos os lados em diferentes momentos e em várias localidades identificadas, demonstram graves crises caracterizando alta intensidade do conflito. A secessão, a luta pelo acesso aos recursos e afirmação de identidade (cultural, étnica e religiosa) pelo MFDC, a preservação de identidade nacional senegalesa e integridade territorial defendida pelo Governo senegalês são fatores endógenos determinantes na relação de conflitualidade entre as partes;
5. Low intensity (Baixa intensidade) é caracterizada pela acalmia, ausência de confrontos armados entre as partes. Verifica-se normalmente durante a negociação ou mediação com assinaturas de “acordos de cessar-fogo” ou de paz. É um período que não é de “guerra mas também não é de paz”, é de uma relativa acalmia. O conflito de Casamansa é caracterizado de baixa intensidade low intensity, com confrontos armados esporádicos e em 33 anos (1982-2015) as vítimas mortais não ascendem a 6.000 pessoas. Verifica-se menos mortífero que outros conflitos armados em África. O ciclo do conflito é dividido em cinco fases, em que os atores envolvidos (Governo e MFDC) manifestam de diferentes formas as divergências através de interação estratégica de dinâmicas de guerra e paz.
O conflito de Casamansa embora tenha efeitos desestabilizadores interno e transfronteiriço, não tem o risco de pôr em causa os equilíbrios internacionais. Enquadra a categoria de conflitos internos designados pelos “geopolíticos” de novos conflitos que não têm riscos de pôr em causa os equilíbrios internacionais e por isso são considerados conflitos de baixa intensidade, ainda que sejam mortíferos ou possam desestabilizar as regiões (Moati, 2004: 19). São conflitos atípicos pela sua durabilidade, muitas vezes qualificados como intermináveis, porque podem durar muitas dezenas de anos.
Este conceito de novos conflitos mereceu uma abordagem diferente ao nível internacional, a partir de 2001, com os ataques terroristas de 11 de Setembro que derrubaram as “Torres Gêmeas” do World Trade Center, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América.91 Estes tipos de conflitos nos Estados frágeis onde os grupos dos rebeldes têm normalmente ligações com organizações terroristas, beneficiando de financiamentos e armamentos, os efeitos transfronteiriços tendem a ser mais significativos e são considerados ameaça à paz e à segurança internacionais. Estado frágil é aquele em
91
Esses ataques ou atentados terroristas foram organizados pela Organização Fundamentalista Islâmica denominada “Al-Qaeda.”
que as instituições são incapazes de responder de forma adequada os diversos choques e problemáticas sociais.
Na África subsaariana, nomeadamente em Angola, em 27 anos de conflito (1975- 1992) entre o MPLA e a UNITA para o controlo do poder e acesso aos recursos (petróleo e diamante) estima-se 500.000 vítimas mortais; Libéria durante os 14 anos de conflito armado (1989-2003) foram cerca de 150.000 o número de vítimas mortais; Serra Leoa, durante 3 anos (1997-2000), foram 75.000 vítimas mortais e Ruanda no conflito entre grupos étnicos Tutsi e Utus (1994), só em três meses foram mais de 800 mil as vítimas mortais (Marut, 2010: 26). Estes conflitos eram de alta intensidade, bastante violentos, diferente do conflito de Casamansa.