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CIDADANIA: UM CONCEITO UNIVERSAL

No documento Anais Completos (páginas 151-156)

Falar de cidadania na contemporaneidade é instigar o diálogo e a reflexão em torno de temáticas para além do desenvolvimento da política institucional. Cidadania é uma busca constante pela concretização dos ideais de justiça que permeiam a sociedade organizada. É, antes de tudo, uma necessidade premente em tempos globalizados, nos quais ocorre a junção entre reflexão e ação.

A cidadania é um conceito presente em nosso cotidiano e expressa um conjunto de direitos e deveres que leva os cidadãos a se sentirem parte dos contextos políticos e vida pública. Todos os dias, em todos os lugares a cidadania confronta, questiona e transforma atitudes e pensamentos. Em termos práticos, ao defini-la precisamos nos aprofundar em sua inteireza sob pena de percebê-la pela metade. De outro lado se percebida friamente podemos deixar de considerar seu aspecto humano. Contudo, é preciso ressaltar que:

Falar em cidadania significa enfatizar o seu caráter de construção histórica, pois, como projeção da liberdade, constitui-se de significados e condicionantes plurais, os quais sugerem que não há uma essência única imanente ao conceito de cidadania. O que observa-se como inerente à ideia de cidadania é a participação, o agir para construir seu próprio destino. (BONAMIGO, 2000, p. 17).

A cidadania exige um repensar das estruturas de poder da sociedade e o efetivo alcance dos ideais políticos, históricos e culturais de igualdade, intrínsecos ao meio social. É um desafio ao desconhecido em que a cidadania se traduz como uma importante ferramenta na busca do desenvolvimento social.

A percepção de cidadania enquanto instrumento de concretização de direitos, importa repensar a concepção do termo e, a partir disso, reestruturar o liame existente entre o senso comum e o sentido histórico conceitual do conceito, já que o pensar como cidadão é uma das múltiplas facetas da sociedade hodierna. Entender a cidadania e educação como eixos temáticos da ética e democratização da construção de conceitos mais amplos garantidores de uma vida que contemple a dignidade aos cidadãos. Diante dessa reflexão e na tentativa de repensar as nuances que nos instigam a um repensar a educação e cidadania cita-se:

Tal tarefa complexa por natureza, pressupõe a educação de todos (crianças, jovens e adultos), a partir de princípios coerentes com esses objetivos, e com a intenção explícita de promover a cidadania pautada na democracia, na justiça, na igualdade, na equidade e na participação ativa de todos os membros da sociedade nas decisões sobre seus rumos. Dessa maneira, pensar em uma educação para a cidadania torna-se um elemento essencial para a construção da democracia social. (ARAÚJO, 2007, p. 11-12).

Dentre essas posições multilineares, a cidadania encontra amparo no conceito de justiça, sobretudo naquela denominada distributiva. A justiça, enquanto valor, encontra supedâneo nas ansiedades humanas e nos desejos de compartilhar e distribuir. Ora, a efemeridade do ser humano, o faz refletir sobre a possibilidade de, em iguais condições, receber ou distribuir bens, de forma que o ato de comunicação entre os seres humanos, nestes termos, reflete a ótica da justiça.

Não se pode olvidar, todavia, que os atos de compartilhar bem perpassa pelo processo de significação, indissociável ao ser humano, visto que só é possível compartilhar bens ou conceitos que detém alta carga de essencialidade a vida humana, justificando-se o seu caráter de processo social. Desse modo cidadania e justiça se

encontram num olhar múltiplo, interdisciplinar em que a reflexão acerca das práticas e posicionamentos sociais implica em repensar a forma de perceber o ser humano e o grupo social. Trata-se de alçar a democratização dos processos sociais em busca de valores fraternos voltados ao respeito à individualidade em uma sociedade plural.

EDUCAÇÃO E CIDADANIA: UM COMPROMISSO COM A IGUALDADE

Na contemporaneidade, haja vista o intenso fenômeno da globalização, a educação e cidadania impõe um olhar diferente sobre o verdadeiro significado de justiça, considerando as práticas sociais vigentes, mas sem desconsiderar as diferenças múltiplas entre os pares. Dissertar sobre educação e cidadania nos lança um olhar despretensioso voltado à transformação social e afastado dos pré-conceitos que carregamos nesse processo de aprendizagem a fim de melhor compreender o nosso papel na sociedade contemporânea.

A cidadania nem sempre se relaciona com a política e restringi-la a esse aspecto é retirar-lhe parte substancial da sua existência. A cidadania vai além. Ela impõe a reflexão constante e estimula o diálogo, pois é fruto das necessidades sociais. Nesses termos, a cidadania é parte do processo de construção de justiça, e por isso, evolui, acrescenta e precisa ser debatida.

De outro lado, a educação nos remete a uma crescente busca pela igualdade, coloca sob o olhar dos cidadãos, a importância de serem adotadas ações a fim de garantir a diminuição das desigualdades na esfera educacional, independentemente de qualquer âmbito ou posição político-filosófica. É preciso democratizar a igualdade educacional e modificar as estruturas de poder, nas quais a justiça se restringe a poucos. É preciso questionar e entender que educação e cidadania tem um compromisso com a igualdade. Neste condão, Tedesco (2015, p. 96-97) traz à baila em sua obra “Conversa sobre Educação e Ética: contribuições em Lima Vaz relevantes que diz:

Vive-se em uma sociedade que objetivou o corpo humano como ápice das relações entre humanos. Ela disseminou a morte e subjetividade em quase todos os setores sociais, inclusive nos ambientes escolares. Impôs-se a era da corporeidade como objeto científico que pode ser facilmente moldado conforme o gosto de cada sujeito, desejoso de seguir os padrões de beleza, impostos na formação do ethos contemporâneo.

Considerando as escritas do autor, percebe-se que há uma preocupação com a perda de virtudes que nos remete aos contextos propostos de cidadania e educação na contemporaneidade. Ao refletir sobre as considerações, se verifica a prudência e a urgência em reconhecer a necessidade dos debates referente a educação e cidadania que nos conduz a igualdade.

O olhar para o gênero humano remete à necessidade de transformação do indivíduo, para que este deixe apenas de existir, e passe a ser no meio da sociedade. Tal modificação, todavia, somente acontecerá com a educação, pois as práticas educativas se constituem enquanto caminho de conhecimento e aprendizado. Conforme Cortella (2014, p. 17) a “educação é tudo aquilo que nos molda, nos orienta, nos organiza em nossa trajetória.” Nesses termos, educação é, em síntese, sinônimo de desenvolvimento individual e social.

Registra-se a necessidade da educação pois somente ela é capaz de instigar transformações. Isso porque a educação opera a insatisfação no indivíduo, visto que conduz este ao caminho do conhecimento de si e do mundo. Em suma, “o ser humano se tornou uma presença no mundo, com o mundo e com os outros.” (FREIRE, 2011, p. 20). Observa-se, assim, que o caminho para a transformação de uma sociedade é a educação, porquanto, não há uma revolução intelectual sem ao menos existir uma faísca educacional na alma aflita do homem e o desejo de mudança do meio em que habita.

Ao lado das transformações individuais ocorre também o processo de emancipação. O ser humano alcança determinada autonomia para ver, aprender e discutir a partir do processo de ensino aprendizagem, de modo que “é necessário educar uma pessoa em qualquer idade para que se torne livre, isto é, autônoma, capaz de fazer por si mesma.” (CORTELLA, 2014, p. 27). Desse modo, tem-se como um meio de os indivíduos se tornarem livres é por meio da educação.

Por sua vez, a educação enquanto ato político democrático se traduz em ideais de mudança e cidadania, tendente à valorização da esfera individual e social. Neste sentido Cortella (2014, p. 27) leciona que “educar é, acima de tudo, ajudar a emancipar alguém nas suas capacidades e ideias.” Não há como olvidar que a prática educacional é uma prática formada, pois enquanto aprende, o sujeito se assumo como agente transformador. Com isso, verifica-se a grandeza e o sentido da existência do homem. Nos ensinamentos de Cortella (2016, p. 11): “uma vida pequena é aquela que nega a vibração da própria existência. [...] É quando se vive de maneira automática, robótica, sem uma reflexão sobre o fato de existirmos e sem consciência das razões pelas quais fazermos o que fazemos.”

Por fim, não se pode esquecer que a sociedade é construída a partir e sob as práticas educativas que defende, de modo que, seja uma prática transformadora, seja uma prática reprodutora das mazelas sociais, a sociedade está sendo construída e com ela as consequências dos atos que são defendidos pela nação enquanto coletividade. Daí decorre a necessidade de repensar os modelos educativos a fim de construir uma educação voltada para a cidadania.

CONCLUSÃO: UM CAMINHO INCONCLUSIVO ENTRE CIDADANIA E EDUCAÇÃO, COMO UMA

POSSIBILIDADE DE TRANSFORMAÇÃO

Ao juntar o conceito de educação, como ato formador, e cidadania, como ato de intervenção, tem-se a multiplicidade conceitual e a abrangência da temática em discussão. Os dois conceitos se efetivam como ferramentas voltadas à concretização de humanização e respeito às diferenças, considerando a complementariedade das duas atividades. O olhar da educação permite escolher o caminho e o viés da cidadania a corporeidade do sentido.

Assim, a partir das diversas nuances decorrentes da fusão conceitual, observa-se a necessidade de repensar as práticas pedagógicas e readequar o papel do educador, sobretudo em tempos frágeis em que ocorre a ruptura de diversos paradigmas. O olhar transformador importa em modificação das práticas educativas e intervencionistas com vistas ao alcance do conceito universal de igualdade.

O conceito da igualdade como ferramenta voltada à assunção do papel de que seres humanos diferentes devem ser vistos e respeitados em sua singularidade, impõe o olhar educativo e intervencionista da educação cidadã. Ambos complementam e devem servir de norte para o ato formador do ensino. Não se pode esquecer que o ser humano é fruto do seu processo de aprendizagem.

A assunção de uma postura crítica e questionadora, embasada nos ideais de justiça social é uma consequência da adoção de uma postura intervencionista na educação. Ao lado do saber programático, a educação forma para a igualdade. É preciso falar sobre o tema em um cenário político-jurídico repleto de inconsistências, já que a discussão sobre o tema é necessário para a reflexão-ação do papel de agente de transformação social, assumido por cada um de nós, em maior ou menor grau, em nosso cotidiano.

Ademais, ao lado das discussões sobre transformação, o discurso de uma educação integral, questionadora, que remeta à transformação das estruturas de poder vigente, encontra-se a igualdade material, formal e humana. A celeuma em torno disso ganha relevância a partir de uma escola e sociedade que inclua os desiguais e torne a respeitá-los na sua singularidade.

Desse modo, é preciso reassumir um compromisso sério com a educação, tendentes a vislumbrá-la na sua inteireza, com o olhar atento para a cidadania e igualdade, buscando resgatar o ser humano de sua efemeridade e inconstância, visto que somente com educação e cidadania será possível desenhar um amanhã mais justo.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, F. Ulisses. Ética e cidadania: construindo valores na escola e na sociedade/Secretaria de Educação Básica, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007.

BONAMIGO, Rita Inês Hofer. Cidadania: considerações e possibilidades. Porto Alegre: Dacasa, 2000. CORTELLA, Mario Sergio. Pensar bem nos faz bem! 2. ed. São Paulo: Ferraz & Cortella, 2014. 142 p. CORTELLA, Mario Sergio. Por Que Fazemos o Que Fazemos? São Paulo: Planeta, 2016. 174 p.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2011. SHATTUCK, Roger. Conhecimento proibido: de Prometeu à pornografia. Tradução S. Duarte. São Paulo: Compa- nhia das Letras, 1998.

TEDESCO, Anderson Luiz. Conversa sobre educação e ética: contribuições de Lima Vaz. Curitiba: Editora Prisma, 2015. VAZ, Henrique de Lima. Antropologia Filosófica I. São Paulo: Loyola, 2006.

VAZ, Henrique de Lima. Antropologia Filosófica II. Sao Paulo: Loyola, 1992.

VAZ, Henrique de Lima. Escritos de Filosofia IV: introdução à ética filosófica I. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. VAZ, Henrique de Lima. Escritos de Filosofia V: introdução a ética filosófica II. São Paulo: Loyola, 2000. VAZ, Henrique de Lima. Ética e Cultura. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2004.

VAZ, Henrique de Lima. Filosofia e Cultura. São Paulo: Loyola, 1997. VAZ, Henrique de Lima. Raízes da Modernidade. São Paulo: Loyola, 2002.

Talita Zanferari

Universidade do Oeste de Santa Catarina [email protected]

Maria de Lourdes Pinto de Almeida

Universidade do Oeste de Santa Catarina [email protected]

Thales Fellipe Guill

Universidade do Oestes de Santa Catarina [email protected] Financiamento: Programa de Bolsas Universitárias de Santa Catarina UNIEDU/Pós-Graduação Eixo temático: Teoria e Prática Educativa Comunicação oral

Resumo

Este trabalho teve como objetivo tratar sobre o conceito de trabalho para Karl Marx, e de educação para Dermeval Saviani, além disso debater a complementaridade dos dois conceitos chegando a discussão sobre a educação para a classe trabalhadora. Para isso foi realizada uma pesquisa bibliográfica além de sua metodologia ser classificada como histórico-crítica. A discussão possibilitou a conversação, articulação e complementaridade dos conceitos já que educação e trabalho desaguaram no debate sobre a educação para a classe trabalhadora sob a compreensão dos dois autores.

Palavras-chave: Educação. Trabalho. Classe. Karl Marx. Dermeval Saviani.

INTRODUÇÃO

Tratar do tema educação requer ir além do seu significado, mas a relevância da discussão sobre a mesma encontra-se na implicação e na forma como ela acontece no meio que está inserida, já que sua organização acompanha o contexto e as transformações da sociedade, o que inclui o trabalho, atividade essa considerada primordial para a transformação de algo essencial para a existência e sobrevivência humana). A educação para Saviani é vista como instrumento de luta, sendo esta para estabelecer a manutenção da hegemonia (VIDAL, 2011).

O trabalho para Marx é resultante do esforço e concentração de energia do homem, e seu valor, a mercadoria está diretamente ligada a quantidade e ao valor da dedicação a este trabalho (MARX, 1983). Embora

Marx em seus escritos não tenha se referido a educação, a leitura de alguns autores, incluindo Saviani, permite fazer e entender a aproximação entre ambos os conceitos, tema esse que será tratado no decorrer deste relato de pesquisa bibliográfica.

De acordo com as ponderações de Saviani (2000, p. 15), “[...] diferentemente dos outros animais, que se adaptam à realidade natural tendo a sua existência garantida naturalmente, o homem necessita produzir continuamente sua própria existência.” Sendo assim, ele precisa de conhecimento para ressignificar com o meio, o que só acontece através do trabalho.

Com base nestas reflexões, este trabalho tem como objetivo tratar sobre o conceito de trabalho para Karl Marx, e de educação para Dermeval Saviani, além disso debater a complementaridade dos dois conceitos chegando a discussão sobre a educação para a classe trabalhadora. Organizou-se sua estrutura da seguinte forma: discussão sobre os conceitos Trabalho para Marx e Educação para Saviani; a similaridade e complemento de ambos os conceitos; e por fim, a educação para a classe trabalhadora.

A origem e motivação para a escolha do tema deu-se devido estar estudando a temática Educação Superior no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unoesc. Este nível de ensino tem crescido cada vez mais no Brasil decorrente da democratização das universidades, o que inclusive oportunizou o ingresso da classe trabalhadora, tomando moldes que (des) favorecem o novo perfil do estudante. Para a discussão sobre a temática escolhida foram pesquisados os autores referência Karl Marx e Dermeval Saviani, mas também outros pesquisadores que comentaram os conceitos como: Magalhães e Silva Júnior (2011); Moura (2012); Nascimento e Silva (2015); Padilha (2012); Porto (2015); e Tumolo (2011).

No documento Anais Completos (páginas 151-156)

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