O DESENVOLVIMENTO INFANTIL
O desenvolvimento infantil está intimamente relacionado à interação da criança com o meio em que ela se encontra. Segundo Vygotsky (1998), a criança aprende e depois se desenvolve através das relações com o ambiente onde está inserida. Deste modo, o desenvolvimento de um ser humano se dá pela aprendizagem de tudo aquilo que este construiu socialmente ao longo da história da humanidade.
Ao se tratar do ambiente escolar, sendo este um espaço formal onde se dão os processos do ensino e da aprendizagem, estamos em um âmbito mais aprofundado, pois além de transmitir conhecimento acumulado, este processo deve se dar de forma organizada e mediada. Todas as ações realizadas pela escola e seus profissionais devem ser pensadas, refletidas, discutidas e planejadas, apresentando intencionalidade e finalidade, visando ao desenvolvimento global dos sujeitos envolvidos. Na Educação Infantil, esse processo não pode ser diferente, pois se considera que a vivência e o aprendizado compreendidos no período dos 0 aos 5 anos, constituem a base para todo o desenvolvimento posterior.
Desse modo, destaca-se a importância da escola como local para além dos cuidados biológicos da criança na Educação Infantil, etapa imprescindível da Educação Básica, fase na qual a criança deve se envolver, interagir e agir com o meio, com o outro e consigo mesma para apreender o mundo que a cerca, compreendendo para além das aparências, construindo significados. Assim, destaca-se o que Martins (2009, p. 94) aponta sobre o papel da escola:
Advogamos o princípio segundo o qual a escola, independentemente da faixa etária que atenda, deva cumprir a função de transmitir conhecimentos, isto é, de ensinar como lócus privilegiado de socialização para além das esferas cotidianas e dos limites inerentes à cultura do senso comum.
Nesse sentido, a Educação Infantil não pode se isentar do ato intencional de educar, prezando apenas pelo cuidar, mas igualmente, primar pelo equilíbrio entre o cuidar e o educar, para que as crianças possam aprender e desenvolver todas as suas potencialidades e habilidades.
De acordo com a periodização, feita por Abrantes (2011), a teoria histórico-cultural pode dividir a infância em épocas, sendo elas: a primeira infância (0 a 3 anos), infância (3 a 10 anos), e adolescência (10 a 17 anos). Com relação ao contexto escolar, a infância é compreendida em períodos, sendo o primeiro ano (0 a 1 ano), a primeira infância (1 a 3 anos), o pré-escolar (3 a 6 anos), a idade escolar (6 a 10 anos), a adolescência inicial (10 a 14 anos) e a adolescência (14 a 17 anos).
É no momento da primeira infância e na infância que a criança desenvolverá características, habilidades e aptidões que corroboram para sua constituição vindoura. Essas transformações, quantitativas e qualitativas do período da primeira infância, são consideradas fundamentais para o desenvolvimento da criança persistindo ao longo de toda sua vida. Esse período, assim se constitui:
[...] A base para as aprendizagens humanas está na primeira infância. Entre o primeiro e o terceiro ano de idade, a qualidade de vida de uma criança tem muita influência em seu desenvolvimento futuro e ainda pode ser determinante em relação às contribuições que, quando adulta, oferecerá à sociedade. Caso esta fase ainda inclua suporte para os demais desenvolvimentos, como habili- dades motoras, adaptativas, crescimento cognitivo, aspectos socioemocionais e desenvolvimento da linguagem, as relações sociais e a vida escolar da criança serão bem sucedidas e fortalecidas (PICCININ, 2012, p. 38).
Por mais que o desenvolvimento infantil seja realizado também no contexto escolar, não podemos desconsiderar que esse seja também efetivado nos espaços familiares e de convivência, com os quais, crianças tenham contato e interação para além da escola. Cabe considerar que o desenvolvimento infantil envolve diversos aspectos, entre eles, sociais, históricos, culturais, psicológicos e biológicos.
A AFETIVIDADE
Os processos afetivos estão conectados a funções psicológicas e ao desenvolvimento da consciência do ser humano como um todo. O lugar social que a criança ocupa no contexto das relações, suas experiências culturais e interações sociais constituem fatores indispensáveis para compreender a dinâmica e o desenvolvimento desses processos (VIGOTSKI, 1998). Quando nos referimos ao afeto, remetemo-nos às emoções e essas sofrem mudanças qualitativas ao longo do desenvolvimento da criança, em decorrência de seu crescente domínio de instrumentos culturais, entre os quais, se destaca a linguagem, que constitui uma conquista do sujeito, maior controle sobre si mesmo e sobre sua própria conduta.
Para Reginato (2013), o afeto é importante para o desenvolvimento da criança, pois: “É através da afetividade que nos identificamos e nos relacionamos com outras pessoas. Por isso, uma criança carente de afeição tende a encontrar dificuldades para se entrosar e se relacionar com as demais, o que pode interferir no processo de desenvolvimento.” (REGINATTO, 2013, p. 2).
Quando o sujeito experencia o afeto, essa vivência afetiva pode provocar uma alteração em suas capacidades de pensar, sentir e agir, de fato, sendo características potencializadoras do desenvolvimento saudável de uma criança.
O afeto, presente nos processos educativos pelos quais passa uma criança, é compreendido como uma humanizadora troca de relação entre sujeito e objeto, pois decorre do fato de impulsionar relações significativas entre a criança e o conhecimento dos objetos sociais e das pessoas, por intermédio de atividades mediadas pelo professor. O professor mediador cria possibilidades de envolvê-la positivamente, de mobilizar sua capacidade para conhecer e atribuir sentidos ao que está conhecendo, tendo contato, atuando inseparavelmente sobre os processos cognitivos e sobre os processos afetivos da criança (MELLO, 2006).
O sentido pessoal aparece como expressão de uma nova síntese e caracteriza-se por aquela qualidade que a significação adquire para o sujeito, com base em vivência, resultante da relação entre apropriação e objetivação do significado ou função social do objeto, como uma fusão do social e do indivíduo. Assim, o contexto escolar, através dos processos do ensino e da aprendizagem, pode ser promotor de significação e afetividade, uma vez que: “A ênfase no pedagógico coloca, à educação escolar, a tarefa de promover vivências positivas com o conhecimento, de forma a motivar o desejo de conhecer, de se apropriar dos objetos e das formas de relação com as pessoas e de se expressar.” (GOMES, 2013, p. 516).
Vygotsky (1998), explica a relação entre o afeto e intelecto e questiona a divisão entre o cognitivo e afetivo da dimensão psicológica. Para ele, não há como separar os interesses afetivos dos aspectos intelectuais. Oliveira
(1995) afirma que Vygotsky menciona, explicitamente, que um dos principais defeitos da psicologia tradicional é a separação entre os aspectos intelectuais, de um lado e os volitivos e afetivos, de outro, propondo a consideração da unidade entre esses processos. A autora aponta:
O pensamento tem sua origem na esfera da motivação, a qual inclui inclinações, necessidades, interesses, impulsos, afeto e emoção. Nesta esfera estaria a razão última do pensamento e, assim, uma compreensão completa do pensamento humano só é possível quando se compreende sua base afetivo-volitiva. (OLIVEIRA, 1995, p. 76).
Já Wallon, como aponta Oliveira (1992), mostra que a afetividade é expressa de três maneiras: emoção, sentimento e paixão. Essas manifestações surgem durante toda a vida do sujeito, mas, assim como o pensamento infantil, apresentam uma evolução que não pode ser considerada em perspectiva linear, mas uma evolução que se difere, pois é singular a cada indivíduo.
A emoção, segundo os apontamentos de Wallon (apud OLIVEIRA, 1992), é a primeira expressão da afetividade. Ela é ativada biologicamente e não é controlada pela cognição, pois quando alguém é assaltado e fica com medo, por exemplo, pode sair correndo mesmo sabendo que não é a melhor forma de reagir. O sentimento, por sua vez, tem um caráter mais cognitivo, é a representação da percepção e está presente nos momentos em que a pessoa já consegue falar sobre o que lhe afeta, como, por exemplo, quando se comenta sobre um momento de tristeza.
Já a paixão tem como característica o autocontrole em função de um objetivo. Ela se manifesta quando o indivíduo tem domínio cognitivo e, assim, pode controlar o medo, por exemplo, para sair de uma situação de perigo. Pelo fato de ser mais visível que as outras duas manifestações da afetividade, a emoção é considerada por Wallon (apud OLIVEIRA, 1992) como a forma mais expressiva de afetividade e ganha destaque dentro de suas obras.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA
A abordagem da pesquisa se caracteriza como qualitativa, trabalha com dados subjetivos, crenças, valores, opiniões, fenômenos e hábitos. Esse tipo de pesquisa não se preocupa com a representatividade numérica, e sim, com o aprofundamento da compreensão de um determinado tema de estudo ou mesmo um grupo social, de uma organização (GOLDENBERG, 1997).
A pesquisa qualitativa o