“A poesia não sobrevoa e nem se eleva sobre a terra a fim de abandoná-la e pairar sobre ela.
É
a
poesia que traz o homem para terra, para ela, e assim o traz para um habitar.” (HEIDEGGER, 2008, p. 169).O Fragmento ora indicado, pertence aos escritos2 de Martin Heidegger sobre o poema In Lieblicher Bläue3
do poeta alemão Friedrich Hölderlin. Antes de adentrar-se de fato no curso pretendido, a título de curiosidade, ou até mesmo, para um entendimento “mais efetivo”. Por que Heidegger recorre a Hölderlin para edificar em sua filosofia algo tão essencial? Essa questão é levantada pelo próprio Heidegger no texto Hölderlin y la Esencia de la Poesia, que acerta:
Hölderlin no se há escogido porque su obra, como una entre otras, realice la esencia general de la poesía, sino únicamente porque está cargada con la determinacíon poética de poetizar la propria esencia de la poesia. Hölderlin es para nostros en sentido extraodinario el poeta del poeta. Por eso está en el punto decisivo. (HEIDEGGER, 1973, p. 128).
Heidegger pondera que não recorreu a Homero, Sófocles, Shakespeare, Dante, ou Goethe, poetas muito “maiores” e mais “bem difundidos” que Hölderlin, justamente porque a busca pela essência da poesia não pode ser tomada de maneira geral, é necessário chegar, para o filósofo, à uma essência essencial, ou seja, a poesia nela mesma. Daí, que Hölderlin entra em cena, o “poeta dos poetas, o poeta da poesia”. Hölderlin realiza uma experiência poética com a linguagem, ou seja, uma experiência fundante. O poeta alemão pertence a geração de poetas adeptos aos ideais de cultura da Grécia antiga, aquilo que se chamou “grecomania.” (NUNES, 2011, p. 117). Daí a preocupação holderliana em de certa forma, viver a linguagem e não fazê-la meio para algo. Nesse ponto é que se pode compreender a linguagem como um acontecimento, manifestação, aparecimento, afeto, ela se mostra, se oculta, acontece.
Linguagem, portanto, não é instrumento, utensílio, meio de expressão, é um acontecimento, manifestação. Não, não se trata a linguagem, é ela quem nos trata, nos acerta, nos cerca, nos interpela:
Fazer uma experiência com a linguagem significa por tanto: deixarmo-nos tocar propriamente pela própria reivindicação da linguagem, a ela nos entregando ou a ela nos harmonizando. Se é verda- de que o homem, quer o saiba ou não, encontra na linguagem a morada própria de sua presença, então uma experiência que façamos com a linguagem haverá de nos tocar na articulação mais intima de nossa presença [...] (HEIDEGGER, 2008, p. 121).
2 “... Poeticamente o homem habita...” In HEIDEGGER (2008). 3 No azul sereno.
Deve-se assim, participar do vigor da linguagem, permitindo-se a uma experiência manifestante. Permitir- se a linguagem, dis-por-se, entregar-se, ouvi-la, é realizar uma experiência com ela, participar de seu vigor, de seu acontecimento: “Heidegger diz que “moramos na linguagem”; a linguagem é o incontornável [...]” (NUNES, 2011, p. 157).Assim, coloca-se que se habita na linguagem. Que se pode compreender por habitar? Heidegger (2008, p. 165) re-monta o sentido de habitar até então compreendido pela praticidade, ou seja, um espaço físico para se morar:
Não será o habitar incompatível com o poético? Nosso habitar está sufocado pela crise habitacio- nal. E mesmo que fosse diferente o que se entende hoje por habitar está açulado pelo trabalho, revolvido pela caça de vantagens e sucesso, enfeitiçado pelo lazer e descanso organizados.
Martin Heidegger (2008, p. 166) enfatiza que apalavra de Hölderlin diz habitar e, não se profere em nenhum momento que habitar se refere a espaço físico, um local material que o homem toma por residência. “Por isso deixemos de lado a representação corriqueira do que seja habitar.” Ao traçar o sentido de habitar, Hölderlin, como enuncia Heidegger (2008, p. 167), coloca em curso um entendimento, diga-se assim, mais pro-fundo, fundante, o poeta “vislumbra o traço fundamental da presença humana.” Assim sendo, fundamentalmente, pro-fundamente, habitar é existir.
Realizando uma escuta as palavras holderlianas, Heidegger adentra no sentido próprio do que é habitar, atende ao apelo mais íntimo da própria linguagem. O filósofo retoma o sentido ontológico (que fora esquecido) da palavra bauen, baun, bhu, beo (construir, habitar) que pertence a bin (sou), assim a maneira como o homem é se faz a maneira como ele habita. Habitar é a morada do ser-homem, essa morada (habitar). Desse modo, o homem “é à medida que habita”. (HEIDEGGER, 2008, p. 127). Habitar é a maneira como “eu sou” como “nós somos.” Habitar “constituí o ser do homem [...] é o traço fundamental do ser-homem.” (HEIDEGGER, 2008, p. 17).
Dispôs-se a fazer uma escuta das palavras heideggerianas a respeito do habitar poético de Hölderlin, até então, pode-se compreender que o apelo íntimo da palavra habitar acerta a própria existência, habitar é, pois, existir, isso é o que se profere da escuta. Precisa-se agora, avançar na escuta sobre o poético, pois ainda não se pode compreender de fato como é possível habitar/existir poeticamente. Que sentido haveria então entre habitar poeticamente?
Tendo em vista que a poesia é parte ilusória da linguagem, em específico, da literatura–produto onírico, “voo ao irreal e fuga para o idílico [...] A arte do poeta consiste em desconsiderar o real. Em lugar de agir, os poetas sonham.” (HEIDEGGER, 2008, p. 166). Habitar poeticamente não seria um atentado à filosofia? Não. Disponha-se! Mas, lembre-se “avançar um pé não é fazer jornada,”4 por isso, é preciso avançar por inteiro nessa escuta e, como
ajuíza Heidegger, precisa-se ouvir as palavras do poeta. Não se trata de um exercício raso e rápido, compreensão imediata, ouça-se mais uma vez o que Heidegger (2008, p. 169) fala: “a poesia não sobrevoa e nem se eleva sobre a terra a fim de abandoná-la e pairar sobre ela. É a poesia que traz o homem para terra, para ela, e assim o traz para um habitar.” Mas o que a poesia tem a ver com o homem morar na linguagem? É, pois, a poesia que conduz o homem para seu habitar. Como? Sendo assim, habita-se em verso? Não! Marcia Sá Cavalcante Schubak5 acena
que Dichtung no sentido Heideggeriano exprime melhor o sentido do poeticamente habitar de Hölderlin em vez de poesie: “Para não usar os verbos poetar, poetizar e, assim, evitar as conotações de inventar e fantasiar, optou-se por desenvolver o verbo alemão “dichten” para a sua forma latina original e traduzi-lo por “ditar poeticamente.” (HEIDEGGER, 2008, p. 170).
4 Referenciar Saramago.
Uma boa leitura de Heidegger sobre a poesia – e toda a filosofia, nos remete a necessidade de abandonar, de imediato, uma posição “clichê” de interpretar a poesia como dizer ilusório, jogo de palavras, combinação de letras, flerte, blefe com a verdade, irracionalidade, oponente da razão, etc. Sustenta-se com isso, que para além do clichê, poesia é um modo de vida, é o modo como se vê e se sente o mundo, as coisas e o seres, por isso o habitar pode ser essencialmente poético. Sendo esse modo de vida, é a poesia afetiva, ou seja, ela nos afeta (o aparecer, mostra-se, ocultar-se de Hölderlin!), daí que é possível realizar uma experiência com a linguagem poética.
No sentido heideggeriano, aponta-se que Hölderlin “vê o “poético” a partir da relação com esse habitar, compreendendo nesse modo vigoroso e essencial.” (HEIDEGGER, 2008, p. 167). O habitar pode ser então, de fato, essencialmente poético. Esse modo vigoroso é o acontecer pleno da linguagem. Linguagem pura! Sendo assim, o que é acontecer pleno da linguagem? E como isso é poético? O que é o poético para além do clichê? Em que configura “ditar poeticamente”? Escute-se Heidegger (2008, p. 170):
Poesia e pensamento encontram-se somente e enquanto permanecem na diferença de seus mo- dos de ser. O mesmo não se confunde com igual e nem tão pouco com a unidade vazia do que é meramente idêntico. Com frequência, o igual se transfere para o indiferenciado a fim de que tudo nele se convenha. O mesmo é, ao contrário, o mútuo pertencer do diverso que se dá, pela diferença desde uma reunião integradora. O mesmo apenas se deixa dizer quando se pensa a diferença. No ajuste dos diferentes vem à luz a essência integradora do mesmo. O mesmo reúne integrando o diferente numa unidade originária. O igual, ao contrário, dispersa na unidade pálida do um, somente uni-forme.
Primeiro: compreender poesia não é acontecer fantasioso e onírico,6 porém não é toda razão, não é,
pois, racional. Não se está tratando aqui de simples opostos: poesia x pensamento. Está-se reportando à uma “re- união integradora”. Nesse sentido que Heidegger entoa uma certa forma de cadência em relação ao ritmo do que se deve compreender por pensamento e poesia, arrisca-se auscultar que tal “re-união integradora” entre poesia e pensamento pode ser o que se está tomando por transação. Não se toma a relação entre o poético e o filosófico por simples antagonismos, pretende-se colocar que ambos, enquanto movimento de um ao outro, outro ao um, calham na dita “re-união integradora” que não excluí a diferença, mas integra, não sendo poesia e pensamentos iguais, mas, integrantes: “Ser reunido é divino, é bom; de onde vem então esse vício dentre os homens de só admitir o um, o uno?” (HÖLDERLIN, 2008, p. 170). Que é, pois, o que se deve entender por divino?
A poesia de Hölderlin, segundo Françoise Dastur em seu ensaio Hölderlin, Tragédia e Modernidade (DASTUR apud NUNES, 2011) carrega traços fundamentais com os temas (que são conflituosos): “a) antigo x moderno; b) nativo x estrangeiro c) terreno x celestial.” (DASTUR, 2011, p. 120) Preste-se atenção no tema c) terreno x celestial. Nós homens, estamos entre o terreno e o celestial, o divino, longe de ser o ser cristão iluminado, onipresente, onipotente e onisciente, ao qual o ocidente está habituado, é:
O divino é a “medida” com a qual o homem confere medida com seu habitar, à sua morada e demora sobre a terra, sob o céu. Somente porque o homem faz, desse modo, o levantamento de medida de seu habitar é que ele consegue ser na medida de sua essência. O habitar do homem repousa no fato de a dimensão, a que pertencem tanto céu como a terra, levantar a medida levan- tando os olhos. (HEIDEGGER, 2008, p. 173).
6 É de extrema relevância ressaltamos que poesia pode ser sim e o é, em muitos casos produto da fantasia e do onírico, (não
temos necessariamente, nenhum problema em relação isso!) ocorre porém, que nesse caso, em específico, estamos nos reportan- do a um direcionamento heideggeriano de poesia enquanto acontecer que excede a especulações da poesia em sendo, apenas fruto de tais elementos. No sentido heideggeriano de poesia, ela configura uma dimensão muito mais profunda e fundante no que tange a linguagem ao dasein e seu estar e acontecer no mundo.
Medida é “aparecer”, o homem levanta os olhos: “deixa ver no sentido de resguardar o que se encobre em seu encobrir-se.” (HEIDEGGER, 2008, p. 174). Heidegger (2008, p. 172) atribuí a poesia, o tomar de medida, daí que o homem habita poeticamente. Habitar poeticamente é a medida que o homem toma entre o divino (celestial) e o terreno: “o levantamento da medida constituí o poético do Habitar.” Se o habitar como anuncia Heidegger no texto Construir, habitar, pensar é resguardar7 a quadratura céu terra homem e divino, habitar poeticamente é a tomada de
medida do homem entre o céu e a terra, o modo como sua existência é conduzida na experenciação poética fundante chamada linguagem.