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DAS PRELIMINARES

No documento Anais Completos (páginas 69-71)

Sobre o que é possível estabelecer entre filosofia e poesia? Diálogo? Confronto? Relação? Encontro? Caso? Conexão? Transação?! O que se passará adiante é uma transação. Do Latim, transactio (concordância, trato), formada do prefixo trans (além, além de, através) mais agere (levar a, guiar) (ORIGEM DA PALAVRA, 2017) transação impele trato e movimento. Destaca-se que será tomado aqui somente ao sentido dito de transação enquanto movimento.

Benedito Nunes, em texto intitulado Hermenêutica e Poesia: o pensamento poético, citando Juan de Mairena, (heterônimo do poeta espanhol Antônio Machado), acerta: “Há homens, dizia meu mestre, que vão da poética à filosofia; outros que vão da filosofia à poética. O inevitável é ir de um ao outro, nisto como em tudo.” (NUNES, 2011, p. 14). Com isso, entende-se que poetas podem estar no acontecer da linguagem filosófica, assim

como, filósofos no acontecer da linguagem poética. Movimentação. Nunes evidencia que tal transação, engendra um ir (movimento!) do poético ao filosófico e vice-versa. Tal movimentação, contudo, não é subordinação de uma a outra.

Não, poesia não é instrumento da filosofia, não é enfeite de dizer filosófico “chato”, não é adorno de palavra dita “racional”. Filosofia não é dizer que poeta usa da boca para fora, não é justificativa de verso. Não no sentido que será ensaiada tal transação. Filosofia e poesia nem dizeres são, não são poesia e filosofia apenas e simples dizeres. Então, que dizem filosofia e poesia? Que tipo de transação é possível haver entre elas? Em que as duas questões anteriores têm a ver com o que se chama de ensino de filosofia?

Um passo de cada vez. Marcha!1

Responder as três questões anteriormente citadas, pede um exercício hermenêutico a respeito da (1) filosofia (2) da poesia e (3) do ensino de filosofia. Tal exercício vislumbrará, uma possibilidade de entendimento, de uma forma de se pensar a respeito do que consiste a transação desse triangulo. Um triângulo, dito assim: amoroso, que impele por consequência, um movimento amoroso.

Que o eros é força imprescindível, motriz, impulsionadora para o filosofar, não é novidade. Segundo a narrativa da gênese do eros, proferida pela sacerdotisa Diotima, em O Banquete de Platão, coloca-se aqui que o amor é fruto de uma oportunidade, de um ensejo. A pobreza (Penia) enfadada de sua condição pedinte, tomada por um estado de volúpia, ao avistar Poros (a riqueza) farto, teso, embriagado e inconsciente, deita-se ao seu lado, concebendo assim o amor. Com isso, não cabe ao eros, como lhe trata o vulgo, apenas uma fineza e beleza absoluta. O amor é assim descrito por Diotima:

é pobre, e muito longe está de ser delicado e belo como todos vulgarmente pensam. Eros na reali- dade, é rude, é sujo, anda descalço, não tem lar, dorme no chão duro, junto aos umbrais das portas, ou nas ruas, sem leito nem conforto. Segue nisso a natureza de sua mãe que vive na miséria. Por influência da natureza que recebeu do pai, Eros dirige atenção para tudo o que é belo e gracioso; é bravo, audaz, constante e grande caçador; está sempre a deliberar e urdir maquinações, a desejar, e a adquirir conhecimentos, filosofia durante toda sua vida, é grande feiticeiro, mago e sofista. (PLATÃO, 1994, p. 164-165).

O Eros platônico por ser, metade da mãe e metade do pai, não é falta nem plenitude, não é sábio nem tolo, é força desejante, por esse motivo, liga-se a filosofia: ama-se (e deseja) aquilo que não se tem, sendo assim Eros é desejo de procriar conhecimento. Eros não é imortal, mas constantemente renasce, sendo um cada eterno percorrer do que é belo e grande. Sendo o conhecimento vasto e belo para Platão, logo, é desejado por Eros. À parte disso, o amor por ser disposição entre as extremidades maternas e paternas, força oscilante, é também movimento. Eis o que o eros diz: movimento! Nesse sentido eros é, pois, transação. A transação é assim: erótica. Eis então, o que a Transação nos diz: disposição!

Fazer escuta a esse apelo transacional erótico (disposição!), significa aqui, o exercício hermenêutico sobre o que diz o triângulo amoroso (filosofia, poesia e ensino de filosofia). Desse modo, poder-se-á chegar a alguma presunção. Chegar a uma presunção, trata-se aqui, de algo que possa ser dito filosoficamente sobre o ensino de filosofia. Dis-por-se a dizer algo, no mínimo satisfatório sobre o ensino de filosofia, exige, pois, a tomada de um caminho. Que a transação impele movimento do poético ao filosófico, já se sabe. Sabe-se também que esse movimento transacional é erótico e, que por ser erótico é desejante, nesse caso, de conhecimento. Como então fundar filosoficamente esse percorrer transacional do filosófico ao poético?

1 Marcha, marchar, vem do francês marcher, “andar marcando passo”, do Frâncico markon, “tropeçar” (ORIGEM DA PALAVRA, 2017). Sendo assim, o caminho a ser percorrido, passo a passo, uma espécie de caminhada, jornada que impele uma possibili- dade de dúvidas, acertos e erros. Para “conhecer” precisamos correr riscos.

Tomar um caminho significa, já que a transação é percorrer do poético ao filosófico, dizer o que se trata por poético e por filosófico, e ainda, o que isso configura no ensino de filosofia. Somente assim, chegar-se-á a algo plausível a respeito dessa presunção: que essa transação é possível (tanto no que se entende por filosofia de modo “geral” e por filosofia enquanto disciplina escolar) na medida em que o fazer filosófico é necessariamente poético, a partir de uma vertigem (uma perda provisória de sentido, de equilíbrio, quase queda, uma espécie de ardência, desfalecimento, um assombro inaugural do filosofar). Não, filosofia não é poesia, poesia não é filosofia. Nesse sentido, aponta-se que a filosofia é – essencialmente, poética. Para fundamentar tal caráter essencialmente poético do filosofar partir-se-á de escritos de Martin Heidegger a respeito da poesia, em especial o texto “... Poeticamente o Homem Habita...” Coloque-se, então, presunção em curso.

No documento Anais Completos (páginas 69-71)

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