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DO EVANGELHO AO ADESTRAMENTO

No documento Anais Completos (páginas 187-189)

Com a vinda dos jesuítas para o Brasil a cultura nativa sofreria profundas alterações, haja vista que estes foram o elemento adestrador do índio. O Projeto Educacional Jesuítico não era apenas um projeto de catequização,

7 Cartas: Uma das diferenças entre a Companhia de Jesus e outras ordens é o volume de correspondência produzida desde sua

criação até sua extinção, em 1773. Além do caráter documental, a correspondência jesuítica tinha um cunho didático e edifican- te, sobretudo ao descrever os sucessos da empreitada da Companhia nas missões distantes, e destinava-se a ser lida nos colégios e outros estabelecimentos (HOLLER, 2006, p. 10).

8 Aldeamento: Na descrição dos aldeamentos que segue, o termo Aldeia é sinônimo de aldeamento. É preciso, pois, estar atento,

pois neste caso, “o termo aldeia carrega em si uma ambiguidade: ele designava as ‘vilas’ dos índios criadas por eles mesmos e é, também, empregado na documentação jesuítica para designar os povoados fundados com índios pelos jesuítas com o fim de melhor civilizá-los e catequizá-los; para evitar confusões, alguns autores tem preferido o termo aldeamento para designar os povoados criados pelos jesuítas das aldeias de criação não-jesuítica (KIST, 2009, p. 53).

mas sim um projeto bem mais amplo, um projeto de transformação social, pois tinha como função disseminar os interesses portugueses na colônia o que iria provocar mudanças radicais na cultura indígena brasileira. E segundo, o que se tem pesquisado, foi por meio da catequização que paulatinamente fundamentou um modelo próprio de educação que estas alterações foram forjadas.

Enquanto que Portugal, até o período do descobrimento,

vivera imerso na atmosfera medieval e ocupado com as intermináveis guerras santas contra os invasores mouriscos e guerras defensivas contra os espanhóis, começava apenas a despertar para a nova cultura da Renascença. Sem tradições educativas, o seus sistema escolar começava a es- boçar-se mui vagamente apenas. O analfabetismo dominava não somente as massas populares e a pequena burguesia, mas se estendia até a alta nobreza e família real. Saber ler e escrever era privilégio de poucos, na maioria confinados à classe sacerdotal e à alta administração pública. (MATTOS apud NETO; MACIEL, 2008, p. 175).

A ordem dos Jesuítas, por sua vez,

não foi, entretanto, criada só com fins educacionais; ademais, parece que no começo não figu- ravam esses entre os propósitos, que eram antes a confissão, a pregação e a catequização. Seu recurso principal eram os chamados “exercícios espirituais”, que exerceram enorme influência anímica e religiosa ente os adultos. Todavia pouco a pouco a educação ocupou um dos lugares mais importantes, senão mais importante, entre as atividades da Companhia. (LUZURIAGA apud NETO; MACIEL, 2008, p. 171).

Contudo, com a vinda para o Brasil e o objetivo de garantir a civilização9 da colônia, os jesuítas com seu

projeto educacional, e os portugueses que vieram para a Colônia brasileira em busca de riquezas, tiveram papel fundamental na formação da estrutura social, administrativa e produtiva da sociedade que estava sendo formada.

Segundo Neto e Maciel (2008), o trabalho de catequização e conversão do gentio ao cristianismo, motivo formal da vinda dos jesuítas para a Colônia brasileira, destinava-se à transformação do indígena em “homem civilizado”, segundo os padrões culturais e sociais dos países europeus do século XVI, e à subsequente formação de uma “nova sociedade”. Essa preocupação com a transformação do indígena em homem civilizado justifica-se pela necessidade em incorporar o índio ao mundo burguês, à “nova relação social” e ao “novo modo de produção”. Desse modo, havia uma preocupação em inculcar no índio o hábito do trabalho, pelo produtivo, em detrimento ao ócio e ao improdutivo.

Tarefa, esta que não mostrou-se nada fácil, haja vista que o modo de vida do índio é de subsistência e o trabalho forçado antagonizava esta cultura.

Sendo assim, uma das estratégias adotadas por Manuel da Nóbrega (apud NETO; MACIEL, 2008, p. 176) na conversão dos gentios foi a construção de aldeias de catequização, que se situavam próximas das vilas e cidades portuguesas. Essas aldeias eram habitadas pelos padres jesuítas e pelos índios a serem convertidos e destinavam-se a atingir três objetivos:

9 Civilização: era um conceito, segundo Norbert Elias (apud SABEH, 2009, p. 95), que expressava a consciência que o Ocidente

tinha de si mesmo, que os caracterizava e os orgulhava frente ao sentimento de superioridade em relação às sociedades antigas ou contemporâneas tidas como primitivas. Embora existissem diferentes concepções de “civilização” nas sociedades ocidentais (construídas a partir do sentimento nacionalista), o conceito expressava a diferença entre os povos e a tentativa de minimizar a desigualdade do “outro” a partir do estabelecimento do “dever ser” ocidental: imposição de costumes, comportamentos, moral, visão de mundo e religião que, uma vez assimiladas pelo “outro”, aludiam a uma forma social considerada mais complexa e desenvolvida, cujo reflexo era sentido no sistema político, no nível de desenvolvimento tecnológico e de sua cultura científica.

• objetivo doutrinário – que visava ensinar a religião e a prática cristã aos índios;

• objetivo econômico – visava a instituir o hábito do trabalho como princípio fundamental na formação da sociedade brasileira;

• objetivo político – visava a utilizar os índios convertidos contra os ataques dos índios selvagens e, também, dos inimigos externos.

Contudo as aldeias, produziram resultados positivos apenas inicialmente. Na medida em que os índios percebiam a coerção em que estavam sendo submetidos revoltavam-se e tornava-se problemas aos jesuítas. O que foi tornando esta relação cada vez mais hostil e de dominação clara.

CONCLUSÕES

A crise vivida na Europa no fim da Idade Média, com a queda do sistema feudal e por consequência, as condições políticas e econômicas que sustentavam a nação, a grande peste e as condições geográficas de Portugal foram elementos emergentes para provocar a nação a se superar. A classe de comerciantes favorecida pelos entrepostos de mercadorias embarcou junto com o Estado na conquista das terras além mar.

A partir da chegada dos portugueses no Brasil e da discussão de como estes poderiam usurpar as riquezas e matéria-prima natural ou produzida na nova colônia, haja vista a possibilidade da utilização da mão de obra existente in loco, Portugal forjou aliança com os jesuítas que embarcaram além-mar com o objetivo de civilizar povos indômitos levando-lhes ao alcance da palavra de Deus e em contrapartida a servidão ao senhorio.

Neste contexto, o primeiro momento de trabalho dos jesuítas no Brasil, conforme escritos, foi o de conhecer os gentios, ou seja, adaptação e construção de seu trabalho de catequese e conversão do índio aos costumes dos brancos. Esse trabalho se deu pela inserção dos jesuítas no mundo dos índios, envolvendo-se ao seu dia a dia, amansando-os, conhecendo-os e aos poucos incutindo seus ideais como corretos e únicos na vida destes povos a ponto de retirá-los de suas aldeias e adestra-los aos trabalhos necessários a manutenção da colônia.

Sugere-se aprofundamento no que se refere ao modelo de estudo desenvolvido pelos jesuítas no

No documento Anais Completos (páginas 187-189)

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