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A Cidade Aberta

No documento POR UMA CIDADE ABERTA (páginas 72-77)

5. Cidade Aberta

5.7 A Cidade Aberta

A analogia entre plataformas tecnológicas e cidade é oportuna. Talvez a centralização do planejamento se justifique ao longo dos Séculos XIX e XX, considerando a necessidade de desenvolvimento de algumas soluções planejadas e únicas, como os sistemas de esgoto

71 decorrentes das pesquisas de John Snow na Londres do Século XIX. Da mesma forma que Microsoft e Apple foram importantes no desenvolvimento de sistemas operacionais, ou que a TomTom contribuiu para o uso difundido de aparelhos de navegação veicular. Mas a tendência de transição para sistemas menos centralizados que é verificada nestes outros campos é, na cidade, ainda muito tímida.

Ainda que algumas tentativas tenham sido feitas para abrir o planejamento urbano à população, por meio, por exemplo, do Orçamento Participativo, o desenvolvimento das cidades continua sendo produto do trabalho executado dentro de caixas pretas, fechadas pelos governos municipais e pelo corpo técnico das administrações públicas. É, em alguns sentidos, uma batalha perdida. Como destaca West, os prefeitos são impotentes para definir a vida nas cidades:

“They can’t tell people where to live or what to do or who to talk to. Cities can’t be managed, and that’s what keeps them so vibrant. They’re just these insane masses of people, bumping into each other and maybe sharing an idea or two. It’s the freedom of the city that keeps it alive.” (WEST, 2010)

As cidades não podem ser gerenciadas. Dentro da cidade cada pessoa vive como quer. Mas as ações do poder público e a legislação urbanística que as regem – em outras palavras, o “sistema operacional” da cidade – tem consequências, largamente imprevisíveis, nestas definições. São o solo em que as cidades podem ou não prosperar.

A cidade de Nova Iorque inaugurou a criação de um tipo de planejamento, a partir do Século XIX, que cresceu e se tornou exponencialmente mais complexo, mas sem ter mudado fundamentalmente até hoje. A esse planejamento se dá o nome de euclidiano, em que mapas coloridos determinam o zoneamento de cada lote e, com isso, quais tipos de ocupações e usos são permitidos em cada um. Inicialmente ele delimitava áreas comerciais, residenciais e industriais, prescrevendo “caixas”, delimitadas por afastamentos e alturas máximas, dentro das quais os prédios deveriam estar inscritos. O reconhecimento da complexidade das cidades resultou na multiplicação do número de cores em cada mapa, além de mapas que se sobrepõem (como no caso de Áreas de Diretrizes Especiais, por exemplo) e uma infinidade de parâmetros cada vez mais complexos e aparentemente arbitrários. É difícil contestar o valor deste tipo de planejamento em seu contexto histórico; mas é igualmente difícil imaginar que a mesma lógica geral desenvolvida nos EUA há mais de um século seja capaz de balizar o desenvolvimento urbano dos quase dois mil municípios brasileiros dotados de Planos Diretores inspirados, em sua maioria, na mesma lógica – independente das peculiaridades de cada cidade e de cada população.

72 No momento em que o desenvolvimento das cidades deixou de depender exclusivamente das atitudes construtivas diretas e não reguladas dos seus cidadãos, iniciou- se uma ruptura entre a obtenção de conhecimento (diagnóstico) e a colocação em prática deste conhecimento com fins de planejamento (FRIEDMANN, 1987). Qualquer que seja a forma de planejamento adotada, há sempre uma lógica de obtenção e análise de dados que dá origem às definições de planejamento que balizarão o desenvolvimento urbano. Essa lógica é, via de regra, uma simplificação que, ainda que justificada pelo arcabouço tecnológico e político dominante, alija o povo da definição dos rumos da cidade ao separar a experiência pessoal do conhecimento processado. A disponibilidade de informação e a tecnologia de que dispomos atualmente permitem que se caminhe em direção à reversão desta tendência.

A cidade é, de certa forma, o produto dos intercâmbios entre os diferentes tipos de capitais que seus cidadãos fazem o tempo todo, como explorado no primeiro capítulo desse trabalho. Entretanto, parece que as regras que regem esses intercâmbios não sejamimutáveis e nem universais. A disponibilidade de informação é crucial para essa dinâmica; não apenas sua disponibilidade formal, mas a forma inteligível e acessível tecnicamente que ela oferecerá para as diferentes camadas da população.

A inteligência coletiva não é produto natural da soma de inteligências individuais. Ela é extremamente dependente não das capacidades de cada indivíduo, mas da forma e intensidade como elas se relacionam. Scott Page (2007), economista especializado em sistemas complexos da Universidade de Michigan, compara o desempenho de grupos compostos por indivíduos de alto QI com formações semelhantes, com outros grupos compostos por pessoas de QI médio mas formações profissionais variadas, concluindo que a “inteligência coletiva” dos grupos heterogêneos os torna mais aptos a resolver problemas complexos. Portanto, se o planejamento urbano brasileiro está em crise, com grandes porções de informalidade nos assentamentos urbanos e tem de lidar com camadas inteiras de população negligenciadas pelas políticas urbanas, não são mais urbanistas - ainda mais especializados - que conseguirão, individualmente, promover alguma mudança.

O sucesso de plataformas abertas como o Linux é indissociável da complexidade que é possibilitada pelo trabalho paralelo de milhões de voluntários que, sem incentivo financeiro, visam o uso do sistema de forma concomitante à sua melhoria. As relações destas plataformas com processos políticos horizontais aparece em “Anarchism Triumphant: Free

Software and the Death of Copyright”, de Eben Moglen (1999):

“O desenvolvimento do kernel do Linux provou que a internet tornou possível agregar conjuntos de programadores muito maiores do que qualquer fabricante comercial era capaz de pagar, juntados sem quase nenhuma

73 hierarquia em um projeto de desenvolvimento que veio a produzir mais de um milhão de linhas de código de computador – uma escala de colaboração entre voluntários não-pagos e geograficamente dispersos antes inimaginável na história humana.”

Um ponto fundamental do projeto é que, por ter sido lançado com uma licença GPL (General Public License),

“...as centenas e, eventualmente, milhares de programadores ao redor do mundo que decidiram dedicar esforços no desenvolvimento do kernel tinham a certeza de que seus esforços resultariam em software permanentemente livre, que ninguém poderia transformar em um produto proprietário. Todos sabiam que os demais poderiam testar, melhorar e redistribuir suas melhorias.”35

A analogia com sistemas abertos mostra que quanto mais as experiências e ideias individuais dos cidadãos (usuários) encontram caminho para a forma como a cidade (o sistema) se desenvolve, mais bem aproveitados e justamente distribuídos os diferentes capitais urbanos, e menor a lacuna entre a cidade real e a cidade planejada. Quanto maior o grau de autonomia que o planejamento urbano permite aos cidadãos, mais adequada a produção e manutenção do espaço urbano por parte de quem o faz e ocupa.

A soma das inteligências individuais só resulta em uma atuação coletiva inteligente se os indivíduos possuem um meio através do qual interagir de forma qualificada. Abrir o código- fonte da cidade permitirá tirar do meio político-financeiro a atribuição de planejá-la e chamar todos os cidadãos para que o façam.

Se o planejamento urbano ocidental está em crise, não são mais urbanistas ainda mais especializados que conseguirão, individualmente, promover alguma mudança. O sucesso do Linux decorre de sua capacidade de adaptação independente de um gerenciamento central. Tanto as cidades quanto seus cidadãos demandam o mesmo tipo de liberdade. É possível desenvolver interfaces, a exemplo da experiência do Waze, que permitem que nenhum usuário se situe nos extremos entre o controle pleno e a passividade: ninguém vai ser individualmente responsável por planejar tudo e ninguém vai ser mero agente passivo da cidade, cada um informando e se informando na medida de suas capacidades e demandas. O caminho não é inevitável: não vai acontecer instantaneamente, porque durante gerações aprendemos que certos aspectos da vida em sociedade, como as cidades, nos são dados de forma pronta. Mas é desejável: as plataformas colaborativas já são realidade em

74 diversos campos. Na cidade – talvez a mais importante plataforma colaborativa da humanidade – a grande informalidade e a complexidade da legislação que não resulta em qualidade urbana são provas da necessidade de criação destas interfaces. O papel do planejamento urbano é, mais do que desenvolver fórmulas precisas para cada pedaço da cidade, criar plataformas para permitir que as boas ideias dos milhões de habitantes das cidades deixem de depender de ações centralizadas para encontrar aplicação na produção do espaço.

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No documento POR UMA CIDADE ABERTA (páginas 72-77)