Na Marcha, o objetivo de chegar a Brasília tornou-se uma espécie de princípio, norte-ando as decisões e as ações de todos os que nela estavam implicados. Após a crise que ameaçou o seu prosseguimento, militantes e marchantes, sem-terra ou simpatizantes convertidos em caminhantes, “massa” e “lideranças” – distinções que se tornariam cada vez mais nítidas –, todos subordinavam toda e qualquer outra consideração ao fim último que dava sentido à própria Marcha: a condução ao seu termo. A realização desse fim tangível configurava a Marcha Nacional em seus propósitos políticos. O tácito reconhecimento desse fato pela “massa”, tanto quanto os procedimentos de persuasão e controle envidados pelas “lideranças”, contribuíra para calar insatisfações e críticas, quando da crise do domingo de Páscoa. Culminância do descontentamento, a crise não chegou a diminuir a disposição dos sem-terra de levar a Marcha Nacional à sua conclusão. Mas os dias que se lhe seguiram foram palmilhados com incerteza, dúvida, medo. Mais do que qualquer outra coisa, um temor feito de silêncio e desconfiança impôs-se para além da algazarra cotidiana de tantas pessoas juntas. Expressando tudo o que era possível ser dito, tudo o que não se podia dizer, a frase de um marchante é lapidar: “no combate não se conversa: é a morte!”
Para os sem-terra, a chegada da Marcha ao destino fixado era representada como uma vitória sobre o oponente que apostara no seu fracasso: o significado da Marcha Nacional fazia-se no contexto semântico de uma batalha ou combate. A vitória política da Marcha Nacional era a credibilidade social conquistada à afirmação de sua verdade, expondo no caminhar miúdo e penoso dos sem-terra a falácia de um inimigo, o governo federal. No seu limite derradeiro, como o freqüente uso da batalha como metáfora indica, a política é vivida como uma guerra. No momento da crise, a lembrança da vitória, antevista no “apoio da sociedade” ao longo do percurso da Marcha, foi reiteradamente contraposta à ameaça de derrota, a ser creditada unicamente à falta de unidade interna.
Nesse contexto, a frase do sem-terra apontava para a necessidade de concentração na finalidade da Marcha Nacional, a derrota do inimigo, que impunha o silêncio nas próprias fileiras – naquele momento, o silêncio das divergências e da crítica. Mas ao mesmo tempo a frase aponta para a guerra surda que assim se instalava no interior do grupo: o companheiro metamorfoseava-se em inimigo. Ao impor-se o silêncio a todos, a manifestação da palavra discordante tornava-se signo de morte, porque lida como sinal de ruptura.
A dinâmica interna da Marcha Nacional, estabelecida segundo uma estrutura hierárquica predefinida, tornou-se incerta na medida em que os fundamentos de valor que balizavam a legitimidade da hierarquia não eram, na opinião dos marchantes, exercidos. Eludidos em vista do êxito externo da Marcha, os valores ideais que os sem-terra sustentavam através da própria Marcha Nacional e que os unia não dei-xaram, contudo, de permanecer como parâmetro de julgamento. Esse julgamento não expresso apenas aprofundava o fosso estabelecido entre direção e marchantes, fosso que se renovava cotidianamente através da percepção das desigualdades entre eles. A insatisfação, a divergência, a crítica não tendo canais legítimos de expressão, manifestando-se esporádica e difusamente; ao mesmo tempo em que aumentavam o risco de ruptura, fortaleciam o círculo de silêncio. O temor da expulsão e a “neurose de infiltração” – como identificou alguém na Marcha – instaurou-se respectivamente entre marchantes e direção, fomentando a desconfiança e o medo.
Tendo deixado com pesar a Marcha Nacional quinze dias após o seu início, ao regressar-lhe a uma quinzena de seu encerramento não pude subtrair-me ao impacto das novas circunstâncias. O misto de tristeza e culpa com que dela me afastei, por injunções profissionais, é significativo porque denotava não apenas o zelo etnográfico contrariado, mas também uma espécie de compromisso pessoal com o seu sucesso.
Ele espelhava a capacidade de comprometimento e implicação gestados no interior da Marcha Nacional através dos ideais políticos propugnados – sintetizados no slogan “um Brasil para todos os brasileiros” – e dos nexos de sociabilidade nela engendrados, um pálido reflexo na pesquisadora dos efeitos inclusivos muito mais poderosos do MST sobre a condição existencial daqueles que nele ingressam. No ansiado retorno à Marcha Nacional, o encontro dos traços opressivos do MST como Organização, indissociáveis daqueles ideais libertários do Movimento, produziriam uma dura prova, reveladora das antinomias da ação social.
Se a posição de relativa externalidade implicava uma situação frágil, particularmen-te sujeita ao risco da suspeição – como posparticularmen-teriormenparticularmen-te se comprovaria –, ela também possibilitava um lugar de comunicação privilegiado ao propiciar uma interlocução múltipla, isto é, com a pluralidade de posições e percepções que a Marcha Nacional abrigava, a despeito dos esforços em contrário. Ela permitiu testemunhar o caráter par-cimonioso e seletivo da comunicação, quando diferentes sujeitos, mesmo partilhando a mais íntima convivência, expressavam entre si uma desconfiança dissimulada no seu oposto. Reféns de um processo desencadeado sobre o qual não mais possuíam o completo controle, o controle exercia-se, poderosamente, de todos sobre cada um e de cada pessoa sobre si mesma. Ele se exprimia principalmente como controle da comunicação, em que o dito encobria o não dito. O grau de insegurança gerado nesse contexto tornou-se verdadeiramente inaudito.
Sinal das lacunas de comunicação e dos mal-entendidos que se acumulavam, o meu retorno à Marcha foi retardado com a informação errônea, inadvertida ou não,
do local de pernoite dos sem-terra na cidade de Catalão. Entretanto, ao alcançá-la no acampamento às margens da rodovia BR-050, a receptividade da acolhida em nada os anunciava. Quinze dias antes do término da Marcha Nacional, o que logo se recortava ao olhar era a indisfarçável redução numérica de seu contingente. Expressão tangível do enfraquecimento dos nexos internos da Marcha Nacional era, também, a constituição de imensos vazios nas suas fileiras. Este era um sinal inequívoco, embora não verbal, do esgarçar dos liames que constituíam a Marcha Nacional enquanto grupo. Sempre atento, Antônio Rios registrou no dia 03/04, terça-feira:
O policial Fonseca da Polícia Rodoviária Federal parou a Marcha e falou: ‘não passam na frente da viatura enquanto os lá de trás não chegarem’. A coordenação ficou calada, sem ter o que dizer.
No dia seguinte, ele anotou:
No Km 249 da BR-050 tivemos que parar para esperar os atrasados. São pes-soas que não acompanham a marcha ou saem e ficam em postos de gasolina, não se preocupando com a Marcha.
Mudando o tom, mais adiante acrescentou:
O povo não está conseguindo caminhar organizado. Houve um distanciamento de mais de 500 metros.
Ciente da importância prática da expressão simbólica da unidade da Marcha Na-cional e também da resistência à sua imposição, a direção designou aos coordenadores de grupo a tarefa de organizar a fila com gritos de ordem, transferindo-lhes, também, o papel disciplinador dos seguranças. Pretendia-se vencer a recalcitrância dos mar-chantes através da força moral do grupo encarnada nas palavras de ordem e do poder de dissuasão dos líderes que lhes eram mais próximos. Desse modo, procurava-se estabelecer o ritmo da Marcha através de controle coletivo, com vaias aos infratores.
Assim, o dia três foi eleito por Antônio como o “dia internacional da vaia na Marcha”.
Significativamente, um membro da direção determinou aos coordenadores de grupo que “se alguém for lá para a frente, cortando a fila, é para perguntar: ‘você acha que é melhor que os outros?’”. Pode-se reconhecer na frase uma dupla inversão. Inversão do principal problema a ser enfrentado nas fileiras: o atraso dos marchantes e não o adiantar-se. Além disso, e sobretudo, ao sugerir o questionamento o líder transferia para os marchantes a acusação que estes faziam aos membros da direção. Por esse meio, através de insulto coletivo, operava-se um deslocamento que redirecionava a atenção de todos para um alvo entre os próprios marchantes, sobre eles momentaneamente catalisando as críticas.
De modo significativo, após duras acusações sofridas durante a crise do domingo de Páscoa, uma das principais “lideranças” da Marcha pouco ou nada se fazia pre-sente na caminhada. A maior injúria que, segundo relatos, lhe teria sido dirigida foi compará-lo ao presidente Fernando Henrique Cardoso: distante do povo e autoritário.
Exatamente a pretensão de supor-se “melhor que os outros”: superiormente desigual.
Mas a magnitude atribuída aos “problemas de organicidade” na Marcha Nacional pode ser reconhecida nas providências adotadas, na mudança dos líderes de referência – com deslocamentos que faziam militantes até então pouco destacados assumirem funções de direção e, também, a dianteira na Marcha –, tanto quanto na chegada de um membro da Coordenação Nacional do MST para cumprir a função especial, sem equipe que o secundasse, de responsável pela Disciplina.
Ao par dessas medidas, reuniões por estado foram realizadas com o fito de “or-ganizar a Marcha e o comportamento”. A partir de então, também, incrementou-se a elaboração das ‘místicas’ antes do início de cada dia de caminhada. A substituição por um controle coletivo nas filas, pelo menos, surtiu resultado: elas reorganizaram-se e o ritmo da caminhada não foi mais diminuído ou suspenso para desfazer os vazios nas fileiras. As vaias e apupos, as interpelações de ‘olha a fila!’, tornavam as passadas menos monótonas, embora cerceassem a formação de duplas de conversas e impusessem um ritmo uniforme aos marchantes. Se durante a caminhada a Marcha recompunha o seu perfil e a organização mostrava-se eficaz, a Organização não era competente em resol-ver ou contornar os problemas básicos de infra-estrutura que impunham um sacrifício adicional aos sem-terra. Além da ausência de caminhões-pipa que fornecessem água aos marchantes e da falta inclusive das sandálias havaianas que os calçavam, problemas com a alimentação permaneciam freqüentes. José Popik, em geral bastante comedido em suas observações, não deixa de anotar com ironia:
Campos Novos de Goiás. 05/04/97. Reunião com a coordenação depois de um belo café com um pãozinho dividido por quatro... O meu grupo está revoltado com a falta de comida. Diz que é uma vergonha nacional esta questão de falta de comida; quando a comida é boa é só uma migalha, mas quando não presta – como azeda, crua ou queimada – servem bastante. Mas ninguém é cachorro e nem porco para passar por isto. Se não tinham condições, então ponhassem menos gente na estrada. E quase deu paulera. Eu faço votos que isto termine numa boa já que estamos na reta final...65
É significativo que nessa passagem, inusitadamente, o coordenador de grupo José utilize o conectivo com e não o usual da ao tratar da reunião – dotando sua frase de uma significação menos inclusiva, neste contexto. No mesmo dia Antônio Rios escreve, denunciando um motivo a mais de descontentamento:
Café da manhã: café puro e uma metade de um pãozinho com margarina. O povo
reclamou muito. A coordenação não participa dessa alimentação. Vão para os restaurantes e com isso o povo fica em segundo plano.
Além da identificação destas e outras diferenças, a animosidade dos marchantes crescia graças ao não recebimento do prometido recurso para pequenas despesas pessoais. A percepção das diferenças contribuía para aumentar as suspeitas de desvio dos meios pecuniários que lhes seriam destinados. Mencionava-se grande número de acampados que trabalharam durante dias para levantar recursos para a Marcha Nacio--nal e questionava-se o destino desse dinheiro. A resposta continuava a ser a de que as regionais não os enviavam. Notava-se que membros da direção apareciam na caminhada apenas nas proximidades das cidades, quando reassumiam suas funções de oradores.
Percebia-se que alguns dentre eles deixavam de dormir com os marchantes nos barracos à beira da estrada. Suspeitava-se da veracidade das informações recebidas, a exemplo da quilometragem a ser percorrida, às vezes anunciada no início do dia: “a gente é como gato em saco, vai para onde mandarem”. A participação praticamente nula na tomada das decisões, a suspeita de desinformação, a falta de respostas aos questionamentos e demandas, a imposição – por diversos meios – do silêncio pelo temor da expulsão aprofundavam a percepção da distância entre “lideranças” e “massa” e a desconfortável impressão de se estar à mercê de uma vontade alheia.
Os problemas com bebida aumentavam, fazendo de muitos marchantes pedintes e tornando a passagem pelas cidades particularmente delicada para os membros da direção. A explicação dada pelos responsáveis pela condução da Marcha Nacional e por zelar pela sua imagem pública era, mais uma vez, a de que “veio tudo ‘lúmpen’, pessoas sem formação, não qualificadas, com pouco tempo de acampamento. Era para vir um pessoal selecionado”. Como já se fez notar, essa pecha era particularmente atribuída aos paulistas. O temor de sofrê-la aumentava o empenho dos militantes em circunscrever os problemas no interior das instâncias organizativas de cada estado.
Neste contexto, as animosidades regionalistas recrudesciam. Buscando diferen-ciar--se, muitos marchantes explicavam: “procuro agir certo, conforme as regras, porque eu represento muita gente, represento o meu acampamento”; “vim no lugar de outros, tinha muita gente querendo vir, mas fui o escolhido, preciso agir bem.”
Sinal do aumento da fragilidade dos mecanismos organizativos – derivado da perda de legitimidade daqueles que ocupavam o ápice da hierarquia e, no caso de alguns líderes, agravada por sua relativa ausência – foi a convocação de reunião do estado de São Paulo por parte de um coordenador de equipe. Sem conseguir propor um encaminhamento conseqüente à reunião, apenas dando lugar à expressão ao seu inconformismo com a “discriminação dos paulistas por causa de duas ou três pessoas, que serão expulsas”, a reunião fomentou dissensão. Sem atender à solicitação de no-mear aqueles que deveriam ser expulsos, a iniciativa do coordenador foi amplamente criticada, gerando revolta entre os paulistas. Por outro lado, o relato que Antônio Rios
faz provavelmente da mesma reunião mostra o esforço para reparar a união entre os marchantes e superar as dificuldades, assim como a tentativa de fortalecer o sentido da importância maior da Marcha Nacional:
Reunião do estado de São Paulo. Coordenador: Moreno. Objetivo: já que estamos chegando, vamos nos organizar. Todos os companheiros devem se conscientizar.
Antônio Rios colocou a situação que se encontra a organização da Marcha. Vêm acontecendo coisas erradas. Polaco: tem muitos pontos para resolver. Falou que nós estamos passando como o pior grupo da Marcha. Os outros estados estão achando que nós somos os piores. Nós estamos passando por bêbados. Temos apenas nove dias para chegar a Brasília. Falou que são três letras que eu defendo:
M-S-T. Companheiros de outros estados falam palavrões e isto não é visto. Mo-reno falou que não devemos ir atrás de outros exemplos, temos que agir do nosso jeito. Polaco perguntou quem é assentado? A minoria. Acampado é a maioria.
Companheiros reclamam de dinheiro.
A inusitada iniciativa de coordenadores de equipe e de grupo promoverem uma reunião de estado demonstra, como o próprio conteúdo das falas colhidas pelo mar-chante atesta, o reconhecimento de “coisas erradas” na organização e uma tentativa de saná-las. A urgência da mudança é colocada pela proximidade da chegada a Brasília.
O tom das falas é de admoestação e apelo, no esforço de concitar a uma mudança de atitude pessoal dos presentes. Mas o convite é feito através de uma interpelação coletiva:
“vamos nos organizar”, “os companheiros devem se conscientizar”, em clara concla-mação à unidade dos marchantes. E o suporte desse empenho – expresso na própria convocação da reunião e no apelo que nela se vocaliza – é a organização coletiva que reúne os sem-terra, o MST.
Mas a insatisfação generalizada perdurava entre os marchantes, que atribuíam à direção da Marcha Nacional a irresolução dos problemas e notavam “distância” na sua relação com eles, ao verificarem diferenças no cotidiano, percebidas como regalias.
“Têm dinheiro para a cerveja, para comer em restaurante, dinheiro que era para a Mar-cha, para melhorar a alimentação de todos, para a saúde...”; “usam o dinheiro da venda de material, de doações para a Marcha, para fazer churrasco”. Exemplo de outras, essas falas apareciam ora como forma de responsabilizar os membros da direção, quando partiam de marchantes, ora como acusação aos líderes paulistas, quando partiam de outros membros da direção. De modo que a distinção entre os estados, que opunha particularmente gaúchos a paulistas, mas não apenas eles, não se verificava apenas na apreciação dos líderes sobre os marchantes, mas também entre os próprios membros da direção da Marcha Nacional. Na perspectiva dos paulistas, os gaúchos eram mais conservadores e rígidos, enquanto se auto-apreciavam como mais “revolucionários”.
Na perspectiva dos gaúchos, os paulistas eram considerados “anarquistas”66.
Como observou Polaco, a maioria dos integrantes da Marcha era de acampados, sem-terra ainda à espera de conquistar o seu lote. Entre estes era maior o temor da ex-pulsão. Conforme afirmou um deles, embora calado, via as coisas, mas não falava nada.
Se fosse falar poderia ser expulso. “Fico quieto, se a massa perceber tudo bem, caso contrário não falo nada”. Na Marcha Nacional – como nos acampamentos – a situação do acampado era muito frágil67. O marchante resumiu: “o acampado que está aqui só com os pés e a força de vontade tem que ficar calado”. Desse modo, muitas vezes as manifestações de insatisfação apresentavam-se em expressões raivosas individualiza-das, xingamentos, alguma forma de insubordinação – como jogar o prato no chão ou atrasar-se nas fileiras. Mas não eram apenas os marchantes comuns que restringiam suas falas. Militantes que porventura expressassem o descontentamento geral sofriam recriminações e recebiam a pichação de “picuinheiro”68. Um deles, tendo tomado a iniciativa de criticar a coordenação em reunião, arrependeu-se. “Eu não poderia ter feito isso. Fui aprovado pela massa, mas repreendido pela coordenação”. A crítica, se fosse feita, deveria partir da massa e não dele, um coordenador. Encerrada num círculo em que nem marchantes nem militantes podiam falar, a crítica não podia ser exercida.
Apesar de todas as dificuldades, porém, os marchantes mantinham o firme pro-pósito de conduzir a Marcha a seu destino. Proveniente do estado de Santa Catarina, pai de duas crianças, Jocélio decidiu acampar. Com vinte e seis anos e segundo grau incompleto, trabalhava com empilhadeiras, tendo se especializado em prevenção de acidentes de trabalho. “Tenho profissão, não precisava estar aqui, mas quero mais, quero o melhor para minha descendência, para os meus filhos, e não só para eles”. Jocélio deseja que os filhos estudem, “tenham um futuro”. Resume: “não deixei de sonhar!”
Numa caderneta escreveu que o sonho de hoje é o sonho de um amanhã, como o hoje era o sonho de ontem69. Comparava o sofrimento na Marcha Nacional ao sofrimento de Cristo, “Cristo com a coroa de espinhos na cabeça”. Tendo pensado em desistir da caminhada, terminou por abandonar por completo a idéia. Guardava a lembrança das manifestações de apoio nas cidades; emocionava-se com a emoção provocada nas pes-soas com a passagem da Marcha pelas ruas; identificava-se com a raiva dos oradores no palanque e a transformava em coragem, vontade de prosseguir. Como Jocélio, os marchantes assumiam os propósitos coletivos da Marcha Nacional, convertendo-os no desígnio pessoal de conduzi-la a seu termo.
Na passagem da Marcha Nacional por Pires Belo, uma pequena povoação às margens da BR-050, no interior de Goiás, a cena de apoio popular, que tanto estimu-lava Jocélio e outros marchantes, repetiu-se. Como a Marcha não parou no povoado, a população deslocou-se para as imediações da estrada. Crianças de grupos escolares, professores e populares postaram-se ao lado da rodovia com cartazes, aplaudiam os marchantes e entoavam canções durante nosso transcurso. A simples passagem da Marcha Nacional despertava atenção, do mesmo modo que seus atos públicos. Como se verificou em Campo Alegre, pequena cidade anterior a Pires Belo, onde o prefeito,
um líder comunitário e uma líder estudantil saudaram os marchantes, em eloqüente demonstração de receptividade. Com sua passagem, a Marcha Nacional quebrava preconceitos. No depoimento feito durante o ato público, a líder estudantil afirmou que passara a conhecer os sem-terra após ter acompanhado a equipe de debates nas escolas.
um líder comunitário e uma líder estudantil saudaram os marchantes, em eloqüente demonstração de receptividade. Com sua passagem, a Marcha Nacional quebrava preconceitos. No depoimento feito durante o ato público, a líder estudantil afirmou que passara a conhecer os sem-terra após ter acompanhado a equipe de debates nas escolas.