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Pouso no Parque

No documento A marcha nacional dos sem-terra (páginas 39-50)

Acompanhada dos dois vereadores de Jundiaí, a Marcha prosseguiu até o local do próximo pernoite, no parque da cidade. Na entrada deste, os marchantes encontraram o vice-prefeito, que os aguardava para recepcioná-los. À tarde, visitaram-nos ainda o secretário da Administração e o secretário da Agricultura de Jundiaí. A Prefeitura tomou a cargo não apenas o almoço que em breve os marchantes receberiam, como também o jantar e o café da manhã do dia seguinte. Uma forte chuva no horário aprazado para o ato público, porém, provocou seu cancelamento. Os dividendos políticos imediatos da passagem da Marcha Nacional pela cidade foram, assim, aparentemente diminuídos. Da parte do MST, entretanto, o possível prejuízo seria de pouca monta. A própria Marcha já era o fato político relevante, não podendo de qualquer modo passar despercebida.

Por outro lado, a presença de personagens políticas durante a estadia da Marcha na cidade era um indicador do cumprimento de objetivos mais específicos. Ou seja, a identificação e estabelecimento de contato com pessoas e grupos simpáticos ao Mo-vimento70. Essa era uma das tarefas da equipe de infra-estrutura, composta por dois integrantes. Cerca de um mês antes do início da Marcha Nacional, essa equipe fez todo o seu trajeto, definindo previamente o roteiro que ela deveria seguir. Além disso, durante o percurso da Marcha, ela antecedia-lhe em alguns dias de modo a preparar sua chegada, estabelecendo os contatos necessários para assegurar a infra-estrutura de sua permanência nas cidades. Utilizando-se de informações devidas aos próprios integrantes locais do MST e, em sua ausência, à rede de contatos do MST com a Igreja, com sindicatos e partidos políticos, os membros da equipe de infra-estrutura dirigiam-se

às pessoas de influência simpáticas ao Movimento. Na falta de informações, procuravam diretamente os políticos e os representantes locais da Igreja. Deste modo, obtinham li-beração de espaços públicos para o repouso dos marchantes, locais para a instalação da cozinha da Marcha, às vezes o próprio fornecimento das refeições.

No parque, a tarde passou, a noite caiu para os marchantes. Após a chuva no fim do dia, muitos tiveram que procurar novo espaço para acomodar-se para o sono.

Os amplos galpões destinados ao repouso dos sem-terra foram alagados pelas gotas da chuva em seu telhado danificado. Cada qual procurava acomodar-se nos cômodos úmidos da melhor forma possível. Entretanto, nem o frio, nem as dores no corpo, nem o cansaço do dia abatiam os marchantes. Altas horas da noite, os sem-terra esbanjavam energia e disposição brincando e gingando em rodas de capoeira. Outros se divertiam exercitando a língua em ferinas e ritmadas trocas de palavras, no “desafio”. Outros, ainda, cantavam e dançavam ao som do acordeom em roda de vanerão. Na Marcha Nacional, a festa mesclava de alegria o sacrifício da luta. Afinal, a luta para os sem-terra – em acampamentos, ocupações ou marchas – é feita de dor e alegria, de sacrifício e esperança, de medo e coragem, de luto e vitória, de espera e ação.

QuArto diA

Mística

O renovado ânimo demonstrado por cada marchante à face dos rigores do dia-a-dia, sua coragem no enfrentar dificuldades, a força de prosseguir e a confiança manifesta ante os maiores obstáculos eram considerados na Marcha Nacional tanto uma virtude como um dever – do mesmo modo que o vigor moral esperado dos sem-terra nas mais diferentes circunstâncias. A demonstração de força moral é uma qualidade vista como um valor, mas trata-se de um valor que se espera cada sem-terra testemunhe. Mais que um atributo pessoal, porém, a capacidade de enfrentar dificuldades e a tenacidade em perseguir objetivos é encarada como um feito do MST como organização coletiva da luta, através da mística.

“A mística é o que une”. Por essa capacidade de promover a união, a mística é percebida como essencial ao MST, um Movimento cuja importância social deriva justamente da força coletiva que é capaz de agregar, da capacidade de arregimentar e organizar as “massas” – donde provém o significado verdadeiramente “estratégico”

conferido à sua autodefinição como “movimento social de massas”71. A mística é razão de poder eficaz. No MST considera-se que ela é o que alimenta nos militantes a esperança da mudança e neles nutre a vontade de lutar. É, portanto, uma das condições da própria continuidade da luta. No MST, a mística é construída em torno do próprio Movimento: de seus princípios e de seus objetivos. Ela é feita em torno dos símbolos do MST, sempre concebido sob uma representação de unidade. Com a mística do

Mo-vimento, através de seus símbolos, constitui-se uma identidade coletiva representada como portadora da luta, instrumento de transformação social.

Dada a importância que lhe é imputada, a mística é objeto de cultivo no MST. Na Marcha Nacional, como em todos os eventos do Movimento – que em certo sentido são, eles próprios, mística –, sua promoção era responsabilidade específica de uma equipe.

Na equipe de mística, os “cantadores do Movimento”, da equipe de animação, eram membros naturais porque “a mística toca a sensibilidade, a emoção, daí a importância do teatro, da música, da poesia, das palavras de ordem: são mística”. Além da utilização freqüente de todos esses recursos sensíveis, sempre que se fala de mística no MST os símbolos no Movimento são lembrados. Nele, são reconhecidos como símbolos con-sagrados – cujo uso é objeto de norma – a bandeira, o hino e o timbre72. Entre eles, a bandeira do MST possui inegável destaque por sua presença perene no cotidiano dos sem-terra, enquanto o hino costuma pontuar os momentos especialmente solenes de suas atividades. Em Jundiaí, após o desjejum e antes do início da caminhada, no quarto dia da Marcha Nacional, os sem-terra foram reunidos ao redor de uma das kombis que serviam à Marcha. Uma bandeira do MST foi-lhes apresentada:

Eu sou a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra. O vermelho significa o sangue de nossas veias, o sangue derramado por aqueles companhei-ros que tombaram pela luta pela terra; o branco significa a paz que buscamos, a paz que ainda não existe e pela qual nós lutamos, e o verde da bandeira significa a produção, significa também todos os latifúndios improdutivos que só criam mato, que só criam capim. O preto significa o luto pelos que tombaram pela luta contra esse sistema. O mapa em nossa bandeira significa que o Movimento Sem-Terra é um movimento nacional, está organizado a nível de Brasil. O ho-mem e a mulher significam a luta da família pela terra, a luta do hoho-mem, a luta da mulher para conquistar seu pedaço de chão. O facão significa, simboliza as ferramentas do trabalho, todas as ferramentas: a foice, a enxada, nós estamos representando na bandeira pelo facão. Compor a bandeira do Movimento, por ser tudo isso, por esse pano vermelho, branco e preto ser tão importante é que eu também exijo respeito por aqueles que me carregam. O meu lugar é sempre onde todos podem ver, é no mastro, erguida com as mãos. Não posso e não devo ser carregada como qualquer outro pano, amarrada na cabeça, na cintura, sendo utilizada como lençol e para sentar em cima. Somos todos trabalhadores e somos acima de tudo um Movimento, o Movimento Sem-Terra, que é representado por essa bandeira, a qual lutaremos para assentar em cada latifúndio desse país. Em todo lugar em que haja injustiça lutaremos para que essa bandeira esteja cada vez mais e mais alta!... MST...

“– A luta é prá valer!” Responderam juntos os sem-terra, enquanto o locutor anônimo dava lugar à música Bandeira da Vitória73. Após sua execução, prosseguiu

o orador:

Então que nós tenhamos a certeza e o desafio de erguer essa bandeira cada vez mais alto, de por onde passarmos ter essa bandeira no ponto mais alto que ela puder ser erguida. Então vamos agora... prá nós darmos continuidade à nossa marcha, vamos nos colocando nas filas...

Esta cena breve é um exemplo de “mística” realizada durante a Marcha Nacional.

Dando início à caminhada do quarto dia, ela expressa através da bandeira, símbolo maior do MST, o sentido da luta que ele empreende, da qual a Marcha Nacional era uma realização privilegiada. Nesta cena, a bandeira era suspensa por uma pessoa oculta, assim como quem por ela falava fazia-se invisível. Destacava-se tão só a bandeira, reforçando o caráter coletivo do símbolo. Sob a bandeira do MST, o indivíduo vale como parte do todo expresso pelo “coletivo”: ele é positivo apenas enquanto soma. É o todo que conta. O indivíduo é subsumido pelo coletivo que ela simboliza, valorizado como condição da luta que é a razão de ser do Movimento. Representação do MST como totalidade, entidade moral, a bandeira deve ser colocada, nas palavras do orador,

“no ponto mais alto que ela puder ser erguida”. Na própria fala não há transição entre a voz da bandeira, personificada num eu, e a do orador, que também é intérprete do seu significado; entre a bandeira que expressa o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e a audiência composta pelos sem-terra: “por ser tudo isso, por esse pano vermelho, branco e preto ser tão importante, é que eu também exijo respeito por aqueles que me carregam... somos todos trabalhadores e somos acima de tudo um Movimento, o Movimento Sem-Terra, que é representado por essa bandeira.”

Na mística da bandeira, os símbolos que a compõem condensam múltiplos sig-nificados da luta. Cores figuram-na temporalmente: no preto, o passado de luta, a luta presente no vermelho, e no branco, o futuro como vitória. Um desenho delimita seu lugar primeiro: o espaço moral da nação brasileira. A luta é sangue74: vida. E também sacrifício, luto. Ela é tanto esperança quanto ação, é desejo e renúncia. A bandeira sintetiza a memória da luta, é símbolo de sua unidade presente, símbolo de sua vitória futura. A bandeira recobre tanto a luta pela terra quanto a luta contra as injustiças. Na mística, o símbolo faz do homem e da mulher, família, e a estende primeiro como co-letividade anônima – o Movimento – para depois alargá-la no todo representado pelo território nacional e, por último, por um território que, em nome da justiça, não tem fronteiras75. Assim como o símbolo é síntese, ou melhor, é um agregado de significados, pode-se dizer que o coração da mística, que é a “alma do Movimento”, expressa-se na sentença: “Vermelha bandeira de todos os momentos, das horas de dor, lutas e alegrias, vales por mil pessoas valentes, pois por trás de ti somos milhões!”76. A mística do MST – lembrando Canetti, de Massa e Poder – é o sonho de igualdade presente na multidão.

“A mística é o espírito do MST, ela resgata todo o histórico, e a partir da história

você vê que tem muita coisa a ser feita”. “A mística é coletiva e pessoal; ela traz o horizonte do amanhã para o hoje; resgata o passado de lutas, celebrando a história de Zumbi, de Martí, de Conselheiro...”. No MST, a mística é importante por trazer à cons-ciência de seus membros a possibilidade da mudança. Donde a relevância da memória da luta, da comemoração das datas significativas e, não menos, da idéia de um sentido da História. Entre os sem-terra a mudança é sempre concebida realizando-se pela ação consciente da multidão, unida por um conhecimento da exploração, na luta contra injustiças históricas. Como ensina aos sem-terra uma “canção da luta”: “Sabemos que o capitalista/ diz não ser preciso ter reforma agrária/ seu projeto traz miséria/ milhões de sem-terra jogados na estrada/ com medo de ir prá cidade/ enfrentar favela fome e desemprego/ saída nessa situação/ é segurar as mãos de outros companheiros...”77. Se-gundo o ideário do MST, a dispersão é superada através de um saber que une, tornando os “milhões de sem-terra” capazes de promover a almejada mudança. Em muitas das canções do Movimento, ao vaguear sem rumo desses milhões “jogados na estrada”, substitui-se a luta feita pelos “companheiros de jornada/ dessa longa caminhada”. A marcha de multidões, na metáfora da luta como caminhada, é, portanto, uma realização prefigurada incansavelmente no repertório simbólico do MST.

Essa imagem de multidão em marcha é um sucedâneo daquela que descreve a multidão que faz a história78. A letra de outra música afirma: “vamos falar um pou-quinho/ dessa história que é formada/ com luta, com sofrimento/ com sangue que é derramado/ daqueles que dão as mãos/ aos companheiros massacrados/ pelo homem que é tirano/ com poder que é desumano/ com dinheiro que é roubado”. E o refrão repete: “perguntaram quantos somos, ei/ Gritamos somos milhões, ei, ei.” A letra dita:

“Agora vamos ouvir/ é a voz da maioria/ é o povo explorado/ pela tal da burguesia/

são donos do capital/ que juntou com a mais-valia/ às custas do sofrimento/ de várias categorias/ tem gente passando fome/ tem gente que nem tem nome/ outros comem bóia-fria// A caminhada não pára/ tá crescendo a animação/ tá crescendo a consciência/

com a organização/ a história está sendo escrita/ pelas nossas próprias mãos/ enfren-tando sofrimento/ e também perseguição/ mas isso não mete susto/ nós queremos o que é justo/ a conquista deste chão”79. História, luta, sofrimento, união, multidão, caminhada, consciência, organização, justiça, terra são categorias que se superpõem e se repetem nas canções, falas e discursos, como também na ação coletiva do MST.

Na marcha dos sem-terra, a história toma consistência de mito: explicação, criação e recriação do mundo.

A unidade da luta, concebida como fundamental pelos sem-terra, realiza-se no presente pela idéia da nação, mas o ultrapassa pela mística que condensa o tempo.

Através da mística, a História adquire densidade mítica. Ela é representada por uma oposição dual entre explorados e exploradores, numa luta cujo termo é definido pela vitória dos oprimidos. A noção de luta de classes funde-se com a noção cristã de sa-crifício e redenção dos fracos. Se por um lado enfatiza-se a consciência da História

como porvir repleto de potencialidades, por outro lado também se agrega a idéia de ser possível emprestar às suas transformações um sentido definido, que se pretende imprimir através da luta. A mística provê aos sem-terra a confiança na vitória em sua luta, ao trazer à consciência o poder coletivo manifesto na multidão. Juntos, eles se crêem fortes e capazes de moldar a história: “Estamos realizando o sonho, estamos fazendo a história. A história nos pertence”, como disse Gilmar Mauro na conclusão do discurso que deu início à Marcha Nacional. A capacidade humana de moldar a história segundo uma vontade coletiva é a grande crença iluminista – mito ocidental por excelência – reeditada pelos sem-terra.

Nesse plano de realização do sonho de mudança, a mística da luta ultrapassa fronteiras. Como canta a letra da música: “No fundo do mundo/ acontece um lugar/

perdido prá muitos/ difícil de achar/ pois para chegar/ é preciso sentir/ que o futuro existe/ naquele que insiste/ em repartir.// Terra de educar/ portal do amanhã/ quem chega pra ser/ trabalha cantando/ descobre sorrindo/ que o dia é mais lindo/ quando existe amanhã// Amanhã partirei/ terra de educar/ vou levando comigo/ o que sei e aprendi/ meu saber repartir/ e depois voltarei.// Eu venho de gente/ que luta e sofre/

trabalha, se mata/ pra encher outros cofres/ mas tem esperança/ num mundo melhor/

com igualdade e respeito/ e sem preconceito/ de riqueza e de cor”80. Pode-se dizer que o lugar designado pela canção é o da poiesis: criação. Nele, “o futuro existe”. A letra insiste: para encontrar esse lugar difícil de achar é preciso sentir, crer e partir, pôr-se a caminho. Como dita a poesia: esse lugar acontece, resulta de um fazer criativo. E evidencia-se num saber, pois que “terra de educar”. O saber/sentir que faz acontecer esse lugar é ponto de partida e de chegada, assim como acompanha o percurso: repartir

“chega pra ser”. Essa prefiguração de um porvir, cuja antecipação cria uma vontade coletiva, unindo para a ação, é realização da mística.

Veículo da mística, nas letras das músicas do MST, à representação de um presente adverso superpõe-se sempre a de um futuro alvissareiro. Trata-se de uma descrição feita de imagens concretas, próximas dos sem-terra, quase tangíveis no seu caráter vívido.

A mística consiste em repetir uma imagem do mundo, tornando-a crível: “Na vida de hoje/ poucos sabem como é/ não tem direito o homem/ muito menos a mulher/ Nesta dura vida/ a dor é mais comprida quando não se sabe por que é// E no entretanto/ o sonho se faz canto/ quando com coragem a luta é fé”81. No último verso dessa canção, o autor reafirma: “E no entretanto/ o sonho se faz canto/ quando a esperança é uma verdade.” A mística afigura-se, portanto, na repetição incansável do sonho, em que a terra, esperança concreta dos sem-terra, torna-se lugar de educar, de aprender e repartir um saber. No canto, através da mística do MST, este saber “por que é” torna menos dura a vida. Trata-se, porém, de um saber que se torna ação: “com sonho de bonança/

quem luta jamais cansa”82. O sonho consiste da ativação de uma utopia, como o verso define: “portal do amanhã”.

No plano da mística, a história já não abarca a esfera múltipla do possível, mas

circunscreve-se à certeza da vitória. Não só o tempo condensa-se: a geografia presente que delimita o espaço da luta na nação dá lugar a uma outra pátria ideal: “Quem sonha grande e põe os pés na estrada/ verá um dia se concretizar/ Latino-América uma grande pátria/ onde os abutres não irão vingar/ pois nessa pátria só terá justiça/ só vingará então fraternidade/ e a vitória de quem acredita/ em construir o mundo em liberdade// Uma cova funda enterrará pra sempre/ fome, miséria e alienação/ um broto novo nascerá das massas/ e o novo homem se erguerá do chão/ e prá cidade um novo projeto/ e o latifúndio agora em muitas mãos:/ socialismo pra quem faz a história/ e ainda carrega o sonho em suas mãos”83. É significativo que nessa pátria de justiça, um “novo homem se erguerá do chão”; ela será, também, a “vitória de quem acredita”, um mundo de fraternidade. Essas imagens, que poderiam ser encontradas em qualquer pregação cristã apresentam-se, porém, como um broto nascido das massas, um novo projeto, história feita por homens, com um nome mundano: socialismo.

Instrumento dinamizador da história, entre os sem-terra a mística é considerada fundamental. Ela ativa o sonho. “O fundamento é a capacidade de sonhar. O sonho é o nosso motor, se a gente não sonhasse a gente não estaria aqui, o Movimento Sem-Terra não existiria”. Outra militante afirmou: “As ocupações são o centro do Movimento, seu núcleo político”, para em seguida acrescentar: “a mística é a alma do Movimen-to”. Ocupar é fazer a luta, criar espaço, “constituir o mundo em liberdade” fazendo-o brotar das “massas”. O que significa, sendo a luta concebida no MST como processo educativo, erguer desse chão “o novo homem”. Nesse sentido, a luta política não difere da mística, pois é por ela motivada e constituída. Por essa razão a mística é consciente-mente exercida no MST, trabalhada e dramatizada por uma instância especializada – na Marcha Nacional, uma equipe.

Na Marcha Nacional, a mística era realizada sempre no começo do dia, antes do início da caminhada dos sem-terra, pois visava servir-lhe de motivação. Feita de símbolos, a exemplo da mística da bandeira, seus propósitos são concebidos como plenamente realizados quando, afetando a sensibilidade, ela toca a emoção. Por isso a mística sempre é feita com elementos imediatos: materiais corriqueiros, fatos correntes, acontecimentos próximos. Ela se compõe do eventual, “a melhor mística é aquela que acontece sem ser planejada”84. Bandeiras, cruz, velas, galhos retorcidos, frutos, flores, enxadas, sandálias havaianas, pratos, pedaços de lona: tudo pode ser material para ela.

Poesia é mística, música é mística, dança é mística85. Mas a mística também é feita de atos, gestos, dramatizações: braços erguidos, punho fechado, mãos dadas, abraços e também mímica e encenações teatrais. “Um ato público é mística”. Do modo como é

Poesia é mística, música é mística, dança é mística85. Mas a mística também é feita de atos, gestos, dramatizações: braços erguidos, punho fechado, mãos dadas, abraços e também mímica e encenações teatrais. “Um ato público é mística”. Do modo como é

No documento A marcha nacional dos sem-terra (páginas 39-50)