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“Encontro das Marchas”

No documento A marcha nacional dos sem-terra (páginas 154-158)

A semana que antecedeu a chegada da Marcha Nacional a Brasília foi marcada pelo encontro das Colunas Sul e Sudeste. No dia 09 de abril, uma quarta-feira, promovia-se a unificação. Esta era uma ocasião muito aguardada, significativa por efetuar o encontro de marchantes que tinham percorrido caminhos diversos, embora unidos pelo mesmo sacrifício e por um só objetivo. Era também considerado um momento crítico para a Marcha Nacional, pois cada Coluna possuía seus próprios ritmos e rotinas, uma dinâmica própria estabelecida por quase dois meses de caminhada. A tensão das circunstâncias internas da Coluna Sul em nada contribuía para minorar a apreensão que a necessidade de equacionar os aspectos organizativos do encontro das Marchas suscitava. Agravava--a, ademais, o assédio dos meios de comunicação de massa, que se tornaria crescente e continuado, constituindo-se em uma permanente fonte de preocupação para os líderes da Marcha Nacional. Jornalistas e repórteres de diferentes organismos de imprensa e de diversas redes de rádio e televisão do Brasil e do exterior passaram cada vez mais não só a realizar entrevistas com os líderes da Marcha Nacional, mas a acompanhar o cotidiano dos marchantes, tornando-os objeto de uma atenção crescentemente individualizada.

Os dias que antecederam o encontro das duas Colunas foram tomados por reuniões

entre os líderes com o fito de estabelecer as bases nas quais a Marcha Nacional pros-seguiria após sua unificação. Na Coluna Sul, além da caminhada ordinária, eles foram preenchidos com reuniões de estudo, como forma de preparação dos marchantes para a chegada a Brasília e, também, para que pudessem oferecer respostas melhor qualifi-cadas aos profissionais de comunicação. A crescente presença desses profissio-nais na Marcha Nacional deixava claro que logo não se poderia mais circunscrever sua atuação apenas às entrevistas de membros da direção. Os estudos a que se dedicaram os sem--terra consistiram da leitura de entrevistas feitas com os líderes da Marcha, de artigos escritos por membros da direção nacional do MST, além de um roteiro de perguntas e respostas elaborado a partir dos mais freqüentes questionamentos feitos aos membros da equipe de debates no seu trabalho ao longo de todo o percurso da Marcha Nacional.

Com o resultado do recenseamento, os sem-terra receberam novas fichas de ali-mentação e, também, fitas de identificação que distinguiam os marchantes comuns, os coordenadores de grupo, os membros da equipe de segurança, os coordenadores de esta-do e, finalmente, os membros da “direção política” da Marcha Nacional. Evidenciava-se a estrutura hierárquica da Marcha Nacional e o destacado papel da equipe de segurança.

Na Marcha, essa hierarquia era reconhecida pela distinção dos marchantes através de patentes militares – comandante, capitão, cabo etc. Particularmente empregado por alguns membros da direção, o tom de brincadeira servia para suavizar a expressão de algo que era uma concepção implícita da Organização e, ainda menos explícita, uma espécie de identificação.

Ante a aproximação de Brasília, o foco que a Marcha Nacional passou a receber dos meios de comunicação e as medidas tomadas no sentido do fortalecimento de sua organização, redobrou-se o cuidado com as fileiras e Antônio Rios pôde anotar com satisfação em seu diário: “a organização das filas está ótima!”. Além da organização das fileiras, a Marcha Nacional ganhou o suplemento estético das bandeiras do Mo-vimento, que passaram a tremular em maior profusão. Ela recebeu ainda reforço com a chegada de estudantes do TAC, curso secundário do MST. Embora numericamente pouco expressivo, o grupo viria de algum modo representar uma contribuição às iniciativas de organização da Marcha Nacional. Entretanto, sua participação nas ins-tâncias decisórias e mesmo nos grupos que compunham a Marcha foi limitada, tanto que os estudantes do MST receberam um fita de identificação diferenciada, destinada às pessoas do “apoio” – membros de diferentes entidades que passaram a agregar-se à Marcha Nacional nos seus derradeiros dias.

A compilação das questões feitas aos sem-terra durante todo o trajeto da Marcha Nacional, nos debates promovidos pela equipe de comunicação, apresenta um painel multifacetado de questionamentos que revelam as muitas dúvidas concernentes ao MST84. Realizou-se primeiro uma reunião da direção com todos os coordenadores de grupo para discuti-las, cabendo aos últimos conduzir o estudo com os demais marchantes em seus respectivos grupos. Entre as muitas respostas apresentadas às questões, algumas

explicitam princípios e valores do MST, a exemplo da concepção de reforma agrária:

“a reforma agrária não é só questão econômica, é saúde, educação, emprego, é questão social”. O sem-terra foi definido como “um cidadão como outro, com a diferença de que é excluído dos benefícios... o sem-terra que está organizado no MST começa a adquirir uma cidadania, lutando por terra... Bóia-fria, meeiro, agregado, aquele que tem origem no campo e não tem condições de trabalhar”. A questão a respeito dos líderes do MST obteve a resposta de que “quem manda é o povo, todos os acampados e assentados”, entretanto, na reunião comentou-se que “os líderes têm, mas não deveriam ter rega-lias...” Quanto à educação e à formação, os sem-terra responderam que “a educação é voltada para que o trabalhador se enraíze; a formação é voltada para que conheça o MST, conheça a realidade brasileira: sua situação e como mudá-la; todo trabalhador tem direito de ser informado; formação é desenvolver os valores do companheirismo, solidariedade, do ‘novo homem’.” A questão ideológica obteve a significativa res-posta de realizar-se “seguindo os princípios e normas do Movimento; no Movimento também há hierarquias, requer respeito às instâncias. Também porque é o coletivo que define, e portanto pode excluir”. Como também se respondeu a favor do trabalho coletivo nos assentamentos, depreende-se que no MST o coletivo apresenta diferentes níveis significativos: diz respeito à produção econômica, à forma de organização e ao modo de condução política do MST.

O esperado dia do encontro das Colunas Sul e Sudeste principiou com uma mís-tica que representava para os marchantes justamente o que eles realizariam poucas horas mais tarde. Nos derradeiros dias da caminhada, a concepção e a promoção das místicas ficaram ao encargo de equipes dos estados, que se revezavam na composição de seu enredo. No rodízio daquele dia, a mística ficara sob a responsabilidade dos estudantes do TAC. Secundada por músicas do Movimento e pelo “Hino da Marcha”, a mística consistiu em uma encenação que antecipava a experiência a ser vivida pelos marchantes, acompanhada de explicações que lhe conferiam significação. Antônio Rios registrou-a como segue:

09/04/97. Domiciano Ribeiro. BR-050. Mística: por responsabilidade do TAC.

Música “Assim ninguém chora mais”. Mística. 1. Fizeram duas filas represen-tando a Marcha. A faixa, as bandeiras à frente e a cruz. O senhor Luís estava no seu lugar, segurando a faixa. 2. Mensagem do dia 17 de abril em Eldorado do Carajás, 1996. 3. Foi formada outra Marcha para representar o encontro das duas Marchas. Todos se cumprimentaram, confraternizando-se.

Após o cumprimento, realizado ao som do hino da Marcha, as duas colunas reuniram-se, seguindo juntas. O texto lido antes da encenação do encontro, lembrava o porquê da Marcha Nacional. Recordava o dia 17 de abril de 1996, quando ocorreu o massacre de Eldorado do Carajás. Lembrava que “o massacre aconteceu porque os

companheiros bloqueavam uma BR exigindo a desapropriação da fazenda Macaxeira.

A resposta do governo foi repressão, que levou à morte 19 companheiros. Em reação a esta política anti-reforma agrária, de um governo que é contra ela, o MST organi-zou uma Marcha Nacional, que saiu no dia 17 de fevereiro de três pontos do país e hoje, dia 9 de abril acontece o encontro de duas das três Colunas”. Quem concebeu essa mística afirmou que sua intenção era relembrar o objetivo, o porquê da Marcha Nacional e celebrar aquele dia de encontro de ‘companheiros’ de origem diferente.

O próprio encontro das duas Colunas da Marcha Nacional aparece, assim, como mímesis da mística, já que esta o antecipou. Através das palavras proferidas, a lembrança do acontecimento motivador – quando sem-terra em marcha bloquearam uma rodovia – torna-se presente, do mesmo modo que, pela representação, é antevisto no presente o futuro encontro das Marchas. Verifica-se na mística a operação de uma condensação temporal, mas também do próprio sentido da ação: a luta pela terra em Eldorado do Carajás é a luta pela reforma agrária contra um governo que não a deseja, contra o qual a Marcha Nacional realiza-se, a favor da reforma agrária. Através de múltiplos meios hábeis – símbolos, música, palavra, encenação –, a mística constitui um sentido emocionalmente vívido para os sem-terra, elabora e confirma um núcleo de significa-ção. Esse poder da mística é ainda acrescido porque não há distinção substantiva entre atores e espectadores: são sem-terra que ocupam as duas posições, uns reconhecem-se nos outros, todos são atores de si mesmos.

Como nos dias precedentes, durante o horário de almoço realizaram-se reuniões dos grupos para proceder-se ao estudo. Neste dia, lia-se e discutia-se uma entrevista com o líder da marcha, veiculada por organismos de imprensa. O espaço crescente que, juntamente com a Marcha Nacional, o MST ocupava nos meios de comunicação, em reportagens, entrevistas, artigos de opinião – sobre seus acampamentos e assen-tamentos, líderes históricos e emergentes, formas de produção e organização etc. –, nela reverberava, servindo como meio de formação dos sem-terra e como expediente para mantê-los permanentemente ocupados. Todas as medidas tomadas, porém, não eludiam a insatisfação dos marchantes e a tensão que pesava sobre todos. Sinal do des-contentamento, por exemplo, nesta reunião de grupo recomendou-se aos marchantes, como anotou Antônio, “não vaiar a coordenação na Marcha”. A maciça presença dos diversos profissionais de comunicação, de empresas nacionais e estrangeiras, aumentava e dava uma nova dimensão à impressão de completo devassamento, permanente numa Marcha em que todos estavam com todos todo o tempo. O que, em contexto marcado pela desconfiança e o medo, amplificava as ansiedades.

Mas o olhar que do exterior pairava sobre os marchantes era, em geral, um olhar de curiosidade e simpatia. Os marchantes começavam a sentir o que se tornaria cada vez mais patente e de uma forma cada vez mais expressiva: eles foram se tornando

“heróis”, como notou um deles. As recepções organizadas pelas prefeituras – mesmo em cidades onde a Marcha mal entrava – e as manifestações de apoio popular ao longo

do trajeto desta semana tornavam-se mais e mais efusivas. As atenções e os olhares concentravam-se na Marcha Nacional e ela convertia-se um foco para o qual convergiam as lentes de câmeras fotográficas e de televisão. A contínua presença de diversos meios de comunicação através de seus jornalistas munidos de sofisticados equipamentos, contrastava com o cotidiano pobre dos marchantes, calcinados pelo sol e combalidos por quase dois meses de caminhada. Cada passo era filmado, as refeições perscrutadas, o sono registrado. Os marchantes iam perdendo o anonimato, e suas histórias de vida transformavam-se em objeto de interesse nacional ao serem coligidas em reportagens de jornal, rádio e televisão. Nem por isso o cuidado era diminuído: “a imprensa não é confiável”.

Nas diversas localidades no trajeto de Cristalina até Brasília, os sem-terra tornavam-se todos protagonistas principais e a Marcha Nacional era um espetáculo vivamente esperado. Em sua passagem por São Bartolomeu ela foi interrompida para a realização de recepção organizada pelo prefeito e vereadores com oferta do desjejum;

na fronteira do município de Luziânia, nova interrupção para um pequeno ato público com discursos do prefeito e do padre; no dia seguinte, no trevo da cidade, outro ato público com presença do prefeito, vereadores e grande número de pessoas. No entron-camento de Osfaya, a recepção contou com expressiva presença popular e queima de fogos; o almoço foi um churrasco oferecido pela comunidade, com cuja equipe um time de sem-terra jogou uma partida de futebol. Na saída da cidade, Antônio registrou:

“Tivemos o apoio de toda a população e estudantes. A maioria dos moradores saiu às ruas, mostrando o seu apoio ao Movimento Sem-Terra.”

Em Valparaíso, não satisfeitos em assistir a cena da passagem da Marcha Nacional, muitos acompanharam-na: “12:15, estamos chegando no local onde vamos almoçar. O povo está participando, caminhando ao nosso lado. Um grande número de estudantes de vários colégios corre ao nosso lado... Muitos fogos estão sendo soltos, para marcar a nossa chegada nesta localidade”. Seguiram-se à Marcha, ato público e cerimônia religiosa, com presença das principais autoridades locais. No limite entre Luziânia e o Distrito Federal, nova manifestação política, acompanhada de “bateria de fogos de duração de 15 segundos... No percurso até Gama o povo corria para apoiar. Em nome do Movimento o senhor Luís recebe um buquê de flores.” Mais rojões e fogos foram queimados na entrada da cidade-satélite de Gama e cestas de frutos simbolicamente ofertadas aos sem-terra que passavam. No centro da cidade, antes do ato público, a queima de fogos repetiu-se. As mulheres da Marcha receberam flores. Visitação de grande número de populares e muitas doações seguiram-se em Gama. Antônio sintetiza:

“Todas as cidades próximas de Brasília receberam muito bem o Movimento Sem-Terra.”

Personalidades políticas de renome nacional passavam a freqüentar a Marcha Na-cional: secretários de estado, deputados, senadores. Não vinham mais desacompanhados, vinham em caravanas. Como no dia do encontro das Colunas, quando, escoltados de assessores, oito deputados federais visitaram-nos no horário do almoço. Em nome deles

falou o deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, Padre Roque, identificado com a causa da reforma agrária. Padre Roque dirigiu-se aos sem-terra com palavras de apoio, expressando quase em oração: “Deus que é um só pode unir a todos, unirá vocês na Marcha”85. Os marchantes, portadores permanentes de uma mensagem, repetida e proclamada não só com palavras, por um momento transformavam-se de emissários em receptores: uma caravana de autoridades deslocava-se até eles. E recebiam, nas palavras do padre e deputado, uma admoestação e uma bênção. A consagração social que o longo percurso da Marcha Nacional operara, era, assim, expressa por detentores da autoridade política, sob uma forma, também, genuinamente religiosa.

No mesmo dia, do local do almoço dirigimo-nos pela BR-050 para a cidade goiana de Cristalina, onde encontraríamos a Coluna Sudeste, que vinha pela BR-040. Nesse dia, um carro de som acompanhou todo o trajeto, animando a caminhada com músicas do Movimento. O coordenador de São Paulo, reassumindo sua função de orador, acom-panhava a Marcha à sua dianteira. À medida que nos aproximávamos de Cristalina, freqüentes contatos eram por ele feitos com os líderes da Coluna Sudeste, por telefone celular. Os marchantes das duas Colunas acertavam o passo para chegarem simulta-neamente na Praça da Liberdade, onde seria celebrado o encontro. Acompanhava-nos intensa cobertura jornalística e, também, durante boa parte do trajeto, um helicóptero da polícia militar.

Chegando a Cristalina, dirigimo-nos para a Praça da Liberdade. Caminhando em sentido oposto, vinham os integrantes da Coluna Sudeste. Os marchantes defrontaram--se, afinal, estancando as duas Colunas a cerca de 500 metros de distância uma da outra.

Enquanto a Coluna Sul organizava-se em duas fileiras, a Coluna Sudeste apresentava--se relativamente desorganizada, emergindo da multidão, além da bandeira do Brasil, daquelas do MST, várias bandeiras representando os estados que a compunham. Após alguns minutos, reiniciou-se a caminhada, cada Coluna seguindo a avenida de modo a circundar a praça, até postar-se frente à outra em torno de um grande pátio circular, a uma distância de 50 metros. Após alguns instantes, destacaram-se comissões de frente compostas pelos integrantes mais idosos e pelas crianças de cada Coluna, que se aproximaram uma da outra e “se cumprimentam e abraçam num gesto de alegria”, como escreveu Antônio. Então, portando vários símbolos da Marcha Nacional como sandálias havaianas, pratos, canecas, bandeiras, foices e enxadas, o grupo dirigiu-se, em fila, para o centro do pátio da praça, enfileirando-se em frente às duas Colunas.

Alguns instantes antecederam o sinal de união das Colunas, quando os marchantes miraram-se, vendo nos outros sua própria imagem, como em espelho. Expressando a emoção desse momento, Antônio escreveu:

Depois de cinqüenta e dois dias de caminhada, se encontram as duas Marchas, Sul e Sudeste. Foi muito emocionante. Muitas bandeiras tremulantes, muitos corações sentindo no íntimo a emoção de um povo que luta.

Dado o sinal, os demais integrantes das duas Colunas aproximaram-se e se confra-ternizaram com abraços, passando a ocupar, juntos, o mesmo espaço central da Praça da Liberdade. Rojões e fogos de artifício foram soltos. No carro de som, animadores das duas Colunas revezavam-se comandando o ato público que se seguiu. Ato que trouxe a Cristalina alguns dos principais músicos do MST, teve declamação de poesia de mar-chantes e foi encerrado com a apresentação teatral de um grupo evangélico da cidade.

Problemas nos aparelhos de som contribuíram para provocar a dispersão dos mar-chantes, grande número dos quais, ao final do ato público, já se dirigira para o local de repouso. Sinalizando as dificuldades de organização que a reunião das duas Colunas implicava, o caminhão que trazia os pertences dos marchantes do Paraná e de São Paulo chegou tarde da noite, quando já não havia mais água para o banho nem espaço no Ginásio de Esportes que abrigava a Coluna Sul. À noite ouviu-se grande balbúrdia e muito barulho: entregue a si própria a “massa” mostrava-se inquieta. Empolgação pelo encontro ou extravasamento de tensões, protegida pela noite a multidão manifes-tava-se como tal. Ainda à noite, em meio à quase completa escuridão, um marchante desconhecido, com ar desesperançado, aproximou-se. Sua fisionomia cansada e triste emoldurou um diálogo breve, a fazer-me ver, com suas palavras, a diferença entre a minha presença, voluntária, e a dele, que ali estava por “falta de alternativa de vida”, acrescentando conclusivo “sair daqui seria para entrar na marginalidade...”. Apesar das aparências, a multidão não era a turba imaginada por Le Bon.

No plano da hierarquia da Marcha Nacional, diferenças internas criavam animosi-dade entre os líderes dos estados da Coluna Sul. Apesar de seu elevado grau, elas pouco se explicitavam – a não ser como rumores, às vezes de ruptura que, porém, jamais foi levada ao cabo. Durante a reunião da direção com todos os coordenadores de grupo no dia seguinte, nenhuma fissura transpareceu. Ao contrário, ao apresentarem-nos o

“grupo reduzido da direção” que comandaria a Marcha Nacional até Brasília, notava-se que era composto por um representante de cada estado que compunha a Coluna Sul e apenas um representante para todos os estados da Coluna Sudeste – o que suscitaria descontentamento entre os seus integrantes.

A reunião de unificação começou com uma breve mística, com a entoação do hino da Marcha Nacional, seguida da apresentação de todos os presentes: direção, coordena-dores de grupo e, também, da secretária do grupo 10 do Paraná86. Compunha-lhe a pauta:

1) unificação da coordenação e unificação dos setores; 2) grupo reduzido de direção;

3) identificação; 4) horários; 5) orientação para os coordenadores; 6) informes. Foi-nos comunicado que “hoje cedo se reuniram as direções das duas Marchas: agora é uma só Marcha”. Nessa reunião, decidiu-se pela manutenção da coordenação dos setores, que a partir de então seria formada por duas pessoas, sendo portanto compartilhada pelos responsáveis de cada Coluna. Informaram-nos a respeito da redefinição do uso dos veículos disponíveis. E, mais importante, inteiraram-nos que a direção decidira

conceder aos coordenadores de grupo maior “autonomia” na atuação disciplinadora junto aos marchantes nas fileiras e no controle de eventuais entrevistas. Foi-nos então comunicada a constituição da “direção reduzida”, que cumpriria o papel de

“direção política da Marcha Nacional”. O uso da fita de identificação, ressaltava-se, era obrigatório. Quanto ao horário de saída estabeleceu-se que seria às 7 horas da

“direção política da Marcha Nacional”. O uso da fita de identificação, ressaltava-se, era obrigatório. Quanto ao horário de saída estabeleceu-se que seria às 7 horas da

No documento A marcha nacional dos sem-terra (páginas 154-158)