O sétimo dia da Marcha Nacional, um domingo, não foi de descanso. Ao contrário, embora a Marcha não tenha seguido caminho, esse dia foi preenchido de “atividades oficiais”: reuniões de organização e avaliação pela manhã, um ato público seguido de culto ecumênico, mais reuniões à tarde, além de programação cultural constituída pela apresentação de uma banda musical e um show de mímica. Acontecimentos imprevistos, resultando em violência sofrida por sem-terra no Pontal do Paranapanema, precipitaram a realização de duas assembléias carregadas de intenso conteúdo emocional, gerando consternação e comoção entre os presentes. Além dessa extensa lista de atividades oficiais, programadas e inesperadas, os marchantes tiveram que se dedicar à tarefa mais prosaica de lavar suas roupas – tarefa trivial, mas nada simples dada a desproporção entre o número de interessados e o das torneiras disponíveis.
Logo no início da manhã, enquanto os marchantes aguardavam nas extensas e habituais filas o desjejum de café com pão, a Coordenação da Marcha reunia-se. Embora se tratasse de uma reunião ampliada – constituída pelos membros da direção, pelos coordenadores dos estados e pelos responsáveis pelas equipes de trabalho – e fosse realizada em local visível a todos, os demais integrantes da Marcha a ela não tinham acesso. Todos guardavam uma respeitosa distância, ninguém se atrevendo a aproximar--se muito do seu círculo. Finda esta reunião, seguiuaproximar--se outra da direção da Marcha
com os coordenadores de grupos em que se determinou sua reorganização, inclusive com alteração de coordenadores. Estabeleceu-se que se realizaria nova reunião com os coordenadores de grupo ao fim da tarde, às 16 horas, prevendo-se para depois desta, às 18 horas, reuniões dos coordenadores com seus respectivos grupos.
Ainda pela manhã, convocados a formar fileiras, os sem-terra partiram para a praça da Igreja Matriz de São Francisco de Assis, em Sumaré. Ali se realizou ato público com presença de vários políticos, como deputado federal e estadual, o vice-prefeito da cidade vizinha de Hortolândia e o prefeito de Sumaré184. Na seqüência dos discursos políticos, realizou-se um culto ecumênico celebrado por pastores evangélicos e quatro padres católicos, além de contar com a presença do bispo auxiliar da Arquidiocese de Campinas, representando o arcebispo Dom Gilberto Pereira Lopes. Durante o culto, o bispo auxiliar de Campinas, Dom Luiz Antônio Guedes, leu artigo publicado no dia anterior, em que o arcebispo afirmava considerar legítima a Marcha Nacional como forma de chamar a atenção da sociedade para os problemas fundiários e do desemprego.
Além da remissão ao êxodo dos judeus do Egito como uma caminhada de libertação guiada por Deus, tomou-se também como referência simbólica da Marcha Nacional outro exemplo bíblico, a ação profética de denúncia das injustiças. Emocionadas, di-versas pessoas choraram no culto ecumênico, durante o qual, ainda, Dom Luiz Guedes abraçou e beijou o senhor Luiz, o marchante mais idoso. Ao final, o grupo de mímica da Marcha fez encenação lembrando o assassinato de trabalhadores rurais em conflitos no campo. Findo o culto, os agricultores dos assentamentos locais do MST, Sumaré I e Sumaré II185 distribuíram frutas, legumes e verduras para a assistência.
A referência bíblica ao Êxodo não foi ocasional durante o percurso da Marcha Nacional. Nem o é na trajetória histórica do MST e na prática cotidiana de seus mi-litantes, particularmente aqueles dedicados à “frente de massas”, responsável pela arregimentação de novos sem-terra junto às populações marginalizadas. Ela ressoa bastante familiar, a oradores e audiência, e possui um inestimável valor de legitimação.
O livro do Êxodo é tradicionalmente interpretado pela Igreja como expressão para-digmática da realização do projeto divino de libertação de seu povo de uma situação de opressão. Este tema tradicional adquiriu novo matiz e assumiu nova relevância simbólica a partir da renovação da Igreja Católica, com o Concílio Vaticano II, e em função de um complexo movimento de mudança verificado na Igreja da América Latina, sedimentado pelo episcopado local nas resoluções de Medelín e Puebla. Esse movimento de mudança da Igreja na América Latina assumiu estatura teológica com o surgimento da “Teologia da Libertação”. Nela, o tema do exílio do povo hebreu no Egito e sua condução libertadora por Deus rumo à Terra Prometida assumiu singular significação e atualidade. Nomeando essa teologia voltada para a realidade local, a imagem da travessia libertadora feita pelos judeus através do deserto, transposta para o presente, converteu-se em símbolo de uma caminhada redentora dos pobres, através de uma espiritualidade vivida comunitariamente, fonte de ações coletivas que, em nome
da vida, lutam contra as estruturas sociais historicamente opressoras186.
Propagada desde a década de 1970 nas Comunidades Eclesiais de Base, onde a leitura da Bíblia era interpretada à luz da experiência de vida da comunidade de fiéis, junto com o trabalho de base realizado pelos agentes pastorais, a Teologia da Liberta-ção e as ações da “Igreja Popular”, nela inspiradas, foram fundamentais no estímulo ao surgimento de diversas organizações de trabalhadores rurais que, reunidas sob os auspícios da própria Igreja187, dariam origem ao MST. Fundo inesgotável de reserva moral da população como parte de sua “cultura bíblica”, os textos das Escrituras – entre eles o Êxodo –, ressignificados com a leitura promovida pela Teologia da Libertação, passaram a servir de fundamento de valor à politização da percepção da realidade con-creta da comunidade de fiéis, vivida no presente, tornando-se fonte de ações coletivas visando à sua transformação.
Quando a Igreja, premida pela necessidade de renovação no contexto de uma cosmovisão secular hegemônica, passou a explicitar o significado temporal de sua mensagem religiosa – redirecionando o “Reino de Deus” para a Terra – seus repre-sentantes não puderam mais impedir a verificada politização. Nesse contexto, mesmo seus segmentos mais conservadores não podem barrar uma apropriação politizada do texto bíblico do Êxodo, uma vez que a própria leitura tradicional o compreende como realização da “libertação do povo de Deus da escravidão no Egito”. Seus representan-tes são instados, pela própria lógica, a realizarem a decalagem. O percurso da Marcha Nacional, caminhada de homens e mulheres em nome da terra, não poderia deixar de ser assimilado à esperança da Terra Prometida. De fato, a repetição do mitema bíblico pelos sem-terra tornou-se tema repetidamente lembrado durante sua caminhada. Su-cedendo o ato público, a celebração ecumênica que encerraria a primeira semana da Marcha Nacional seria apenas uma das inúmeras ocasiões que da-riam lugar a esse espelhamento. Assim: “Na celebração, os sem-terra foram comparados aos hebreus que deixaram o Egito conduzidos por Moisés. ‘A marcha remonta à saída do povo de Deus da escravidão do Egito em busca da terra prometida’, disse d. Luiz. O padre Nelson Ferreira, da Pastoral Rural, completou: ‘Eles vão para Brasília se encontrar com o faraó e gritar para que ele devolva as terras griladas e roubadas’”188.
No retorno ao alojamento no Caic – Centro de Atenção Integral à Criança –, um incidente serviu para demonstrar que a passagem da Marcha Nacional não despertou apenas a aprovação da população das cidades, testificada por acenos de transeuntes, buzinas de motoristas e gritos de estímulo na passagem das fileiras, por seu compareci-mento constante nos atos públicos e nos locais de alojacompareci-mento da Marcha, pelas doações espontâneas e organizadas. Um motorista de caminhão – que, segundo relatos, estaria armado – incomodado com a espera provocada pela passagem das fileiras, começou a insultar os integrantes da Marcha Nacional. Suas injúrias foram revidadas com agres-são física por parte de alguns sem-terra. O entrecho terminou com a intervenção de autoridades locais e da polícia, que afastou o motorista. De volta ao Caic, os sem-terra
tiveram por almoço dominical, doado pela Prefeitura de Sumaré, um churrasco feito em grandes covas no chão, à moda gaúcha, com carne cortada em pedaços, à paulista.
Os marchantes regalaram-se com o churrasco e puderam fugir da monotonia e insipidez do cardápio cotidiano de arroz e feijão, ou arroz, feijão e macarrão, acompanhados de carne, usualmente cozida, quando em vez alguma “verdura”: alface ou tomate.
Como previsto, por volta das 16 horas realizou-se mais uma reunião dos coor-denadores de grupo com a direção da Marcha189. Nela, seguindo uma pauta mais ou menos corriqueira, a direção repassou aos coordenadores encaminhamentos gerais de
“disciplina”, orientações quanto às reuniões a serem realizadas com os grupos e justi-ficativas com respeito às dificuldades de encaminhamento da organização da Marcha.
Foram feitas admoestações para aumento do rigor na regulação e controle das fichas de alimentação pelos coordenadores e de um empenho de todos na organização e disciplina nas fileiras da Marcha; os coordenadores de grupo receberam recomenda-ção de advertirem os marchantes da necessidade do respeito ao horário de silêncio à noite e de dedicarem maior atenção no cuidado com a higiene pessoal, cabendo-lhes lembrá-los, ainda, da obrigatoriedade do uso do uniforme da Marcha Nacional; foram também apresentadas aos coordenadores as dificuldades financeiras enfrentadas pela Marcha; com eles trataram-se de problemas relativos à prostituição, ao assédio sexual às marchantes e ao consumo excessivo de bebida alcoólica, discutindo-se as medidas necessárias para coibir transgressões; insistiu-se na necessidade de evitarem-se revides a eventuais insultos de transeuntes e motoristas e de redobrar a vigilância para que marchantes não fizessem pedidos de dinheiro à imprensa e à população; recomendou-se um especial cuidado com as palavras – “senão sai no jornal e vai desmoralizar”. Além dessas instruções gerais foram apresentadas aos coordenadores de grupo justificativas quanto aos constantes atrasos nas refeições – perene motivo de insatisfação.
Essa seria, via de regra, a rotina das questões tratadas nas reuniões da direção da Marcha com os coordenadores de grupo. Como a pauta, o curso dessas reuniões era rotineiro: convocada após a reunião própria da direção, aos coordenadores de grupo era apresentada uma pauta previamente definida, geralmente dividida em três partes principais: “informes”, “questões concretas” e “encaminhamentos” – também objeto de decisão prévia. Variando em detalhe e extensão conforme as circunstâncias, a lista de assuntos tratados nas reuniões da direção da Marcha com os coordenadores de grupo iria subseqüentemente compor a pauta das reuniões destes com seus respectivos grupos.
Nestas reuniões os coordenadores repassavam os “informes” – geralmente a respeito da repercussão nacional da Marcha, seja nos veículos de comunicação de massa, seja na evolução da atitude do governo federal com relação a ela; comunicavam as característi-cas gerais do seu próximo destino – cidades, vilarejos, acampamento; apresentavam as medidas de “disciplina” e os “encaminhamentos”, ou seja, as decisões de mudança na sua organização interna. Completava o rol recomendações de especial atenção quanto ao tratamento a ser dispensado à população em geral e, particularmente, aos jornalistas.
Dispondo de telefones celulares, a direção da Marcha mantinha-se em permanente contato com a Direção Nacional do MST e, particularmente, com o Comando Nacional da Marcha, localizado na Secretaria do MST em Brasília. O Comando Nacional centra-lizava as informações sobre as três Colunas, sendo responsável pela divulgação, para Agências de Notícias, dos passos da Marcha Nacional – inclusive mantendo atualizada uma página na Internet a seu respeito. Além disso, mantinha a direção de cada uma das Colunas informada a respeito das demais e, principalmente, a respeito da repercussão nacional da Marcha, com os “informes de conjuntura”. Estes informes, francamente positivos, eram repassados aos sem-terra e também alimentavam os discursos na pas-sagem da Marcha Nacional pelas cidades.
Na tarde deste primeiro domingo, pouco havia ainda a ser mencionado quanto ao impacto político mais amplo da Marcha Nacional – o que em breve mudaria. Nessa reunião com os coordenadores de grupo, a direção frisou a necessidade de todos segui-rem o Regimento Interno – na falta de um Regimento específico da Marcha, que viria a ser apresentado aos marchantes na terceira semana da caminhada, em 06/03 – estaria em vigor o mesmo dos Acampamentos190. Repassou-se aos coordenadores de grupo a tarefa de “fazer uma avaliação dos componentes do grupo” e fazer com os grupos uma reunião de avaliação geral. Nova reunião dos coordenadores de grupo com o “comando geral” ficou agendada para o dia seguinte.
Ao longo do curso da Marcha Nacional, os coordenadores de grupo eram perio-dicamente incumbidos de fazer um levantamento das principais insatisfações junto aos marchantes. Descontentamento com o trabalho dos seguranças nas fileiras, solicitações e reclamações quanto à distribuição de objetos de uso pessoal – como sandálias havaianas, sabonete, papel higiênico etc –, insatisfação com a distribuição das doações, protestos contra os contínuos atrasos das refeições e, ocasionalmente, sua insuficiência eram as queixas mais freqüentes. Uma vez levantadas nos grupos pelos coordenadores as reclamações eram por eles levadas às reuniões com a direção. Eventualmente, reuniões da direção da Marcha com os coordenadores de grupo serviam para ratificar decisão de expulsão de marchantes – em geral por uso indiscriminado de bebida e furto.
Além dos temas referidos, na reunião de avaliação da primeira semana da Marcha Nacional discutiu-se o problema da sua “falta de organicidade” que, supunha-se, era a causa dos freqüentes problemas de organização interna. Preocupação constante no MST, a necessidade de “organicidade” e a sua falta são consideradas os principais problemas como “Organização”. A categoria parece responder tanto pelo sentido de integração das diferentes “instâncias” do Movimento, quanto por sua sintonia com os objetivos maiores do MST. Freqüentemente utilizada durante processos de avaliação interna, a “falta de organicidade” empresta uma certa impessoalidade à avaliação de erros e falhas na consecução das ações do MST. Num sentido positivo, sua presença é vista como uma conquista da Organização realizada através do empenho e dedicação pessoal do conjunto dos militantes, na medida em que, coletivamente, eles respondem
com disciplina às responsabilidades assumidas perante ela. É esse empenho coletivo que, supõe-se, pode garantir não só o fluxo de comunicação entre as diferentes instâncias, permitindo a transmissão permanente das estratégias cambiantes do MST como, por conseqüência, é capaz de assegurar a efetivação de uma ação sincrônica e concertada do Movimento como um todo.
O MST reveste-se de um forte conteúdo moral para seus integrantes. Isto pode ser verificado no valor que os militantes atribuem aos seus princípios e objetivos gerais de luta, que idealmente deve perpassar suas ações coletivas, às próprias relações dos membros entre si e à responsabilidade destes para com a “Organização”. A fidelidade pessoal do militante aos princípios e objetivos gerais do MST, expressa na dedicação integral a cada “tarefa” concreta, é vista como um sinal de valor, cuja carência é tra-duzida como “vício”. Os “vícios” individuais são objeto de “vigilância”, “crítica”,
“autocrítica” e “punição educativa”, enquanto os erros da Organização são freqüente-mente reconhecidos sob o título genérico da “falta de organicidade”. Como essa falta é vista como o avesso de uma ação empenhada por parte dos militantes, tal perspectiva favorece o deslizamento da crítica à Organização para a crítica aos “vícios” ou “desvios ideológicos” dos seus membros, herança das “formas artesanais de trabalho”. Aliada à forte estrutura hierárquica do MST, esse deslocamento implica o esvaziamento, ou melhor, a impossibilidade da crítica aos procedimentos organizativos e de tomada de decisão internos191. Junto com esses procedimentos organizativos – entre os quais se destaca a forma de preparação e condução das reuniões192 – esse modo de categorizar, e sua lógica subjacente, tem importantes implicações na configuração do MST como Organização: nas suas relações internas assim como na interação estabelecida com sua base social. Como não poderia deixar de ser, como se verificará oportunamente, ela terá profundas e graves conseqüências na própria condução da Marcha Nacional.
A aludida decalagem pode ser notada, por exemplo, no silêncio protetor obser-vado na relação entre marchantes e membros eminentes das instâncias da Marcha Nacional193. Do mesmo modo, ela explica os “ruídos de comunicação” experimentados por mim no diálogo com alguns militantes. Questionados quanto à violência infligida pela Organização ao indivíduo – à face do fato de os marchantes serem submetidos a uma rotina diária de 18 horas de atividades extenuantes, agravada pela carência quase absoluta de infra-estrutura básica, como água e medicamentos, sem mencionar a falta de alimentação adequada – mais de um militante respondeu afirmativamente: “sim, o individualismo é grande”. Acrescentando: “embora as coisas sejam feitas no coletivo, as pessoas agem de maneira individualista”. E completavam: “falta solidariedade” ou
“é preciso aumentar o espírito solidário”. Esclarecidos que o questionamento tratava da violência da Organização para com as pessoas, a resposta terminante limitava-se à constatação: “há problemas”.
Enquanto transcorria a reunião da direção da Marcha com os coordenadores de grupo, iniciava-se a apresentação da Banda Municipal “Tom Jobim”, de Hortolândia,
para os demais integrantes da Marcha Nacional. Postada em uma das laterais da quadra de esportes em que estávamos alojados, a banda começou a apresentar sua programação para uma assistência composta por marchantes e visitantes, principalmente moradores dos assentamentos vizinhos. Ela fazia uma “apresentação especial de estímulo para os integrantes do MST do estado de São Paulo na Marcha para Brasília”, conforme indicado no Programa “Tocando a Luta pela Terra”, distribuído aos presentes. A apresentação, porém, foi interrompida para o anúncio de uma notícia grave.
Um membro da direção da Marcha informou que no Pontal do Paranapanema, a reocupação da Fazenda São Domingos fora recebida a bala por seguranças privados. A primeira notícia era que havia doze pessoas refém dos pistoleiros, duas mulheres inter-nadas em estado grave na UTI, uma das quais com um tiro no peito, mais dez pessoas desaparecidas, talvez assassinadas. Espanto, estupor, consternação, revolta, indignação tomaram conta da assembléia. Um estado de atonia, acompanhado de total mudez, tomou lugar à vivacidade de movimentos e sons há pouco observáveis. O anúncio peremptório e dramático parecia ter promovido um descentramento geral: não havia foco externo a mobilizar a atenção de todos nem, aparentemente, centro interno capaz de direcionar as vontades individuais. Pondo fim a esse súbito lapso do tempo, um padre tomou a palavra. Restabelecia-se um centro para a multidão, e nas palavras ela encontrava uma direção. O padre expressou a indignação de todos com os assassinatos, lembrou aos presentes a responsabilidade da luta, conclamando-os a manterem a firmeza, “sem medo”. Pediu que todos dessem as mãos uns aos outros e rezassem em comum o “Pai nosso”. De mãos dadas, cabeças baixas, os sem-terra rezaram emocionados, em alta voz. Finda a oração, cobrando ânimo, ergueram-se vozes de vários pontos do meio da multidão. Sucessivamente, levantaram as conhecidas palavras de ordem, respondidas em coro pelos demais. O sentido de união de propósito e de reintegração em um todo acudia os sem-terra reunidos. Falou-se então que seria necessário aguardar informações mais seguras para saber que atitude tomar.
Desfeito o clímax da comoção, em que uma tensão centrípeta sobre a multidão dos sem-terra sucedeu a uma força centrífuga, disseminou-se uma espécie de lassidão entre os presentes, todos mais ou menos atônitos. A multidão reunida passara rapidamente de um esvaziamento do tempo para um tempo forte, da dispersão para a concentração moral, de uma perda de direção para uma reafirmação simbólica do sentido da luta.
Como retornar ao tempo e atividades prosaicos? Um membro da direção da Marcha, então, rompeu a apatia e o atordoamento geral dizendo: “nós hoje não sabemos o que fazer, eu como todos. Mas acho que a vida continua, a luta continua e a banda também deve continuar”. Foi o que ocorreu. Do outro lado de onde se concentrara a assembléia para ouvir as notícias, a banda recomeçou a tocar. As atenções voltaram-se para o novo
Como retornar ao tempo e atividades prosaicos? Um membro da direção da Marcha, então, rompeu a apatia e o atordoamento geral dizendo: “nós hoje não sabemos o que fazer, eu como todos. Mas acho que a vida continua, a luta continua e a banda também deve continuar”. Foi o que ocorreu. Do outro lado de onde se concentrara a assembléia para ouvir as notícias, a banda recomeçou a tocar. As atenções voltaram-se para o novo