Um dos pontos nevrálgicos da relação entre o MST e o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso é a notória sensibilidade do presidente com a “imagem” do país no exterior, por um lado, e a intensa repercussão internacional dos massacres de trabalha-dores rurais ocorridos em sua gestão, além da crescente visibilidade do próprio MST, por outro44. Juntamente com os relatórios anuais de assassinatos no campo, realizados pela Comissão Pastoral da Terra, e as sucessivas menções de desrespeito aos direitos humanos – para as quais o número de mortes no campo e sua perene impunidade muito contribui – em relatórios de organismos como Anistia Internacional, American Watch e Organização dos Estados Americanos, a crescente atenção recebida pelo MST no âmbito internacional contribui para a involuntária inclusão da questão agrária na pauta das questões discutidas por representantes do Estado brasileiro no exterior. Pouco antes do início da Marcha Nacional, desdobramentos da visita do presidente da República à Itália iriam suscitar atritos entre o governo federal e a Igreja Católica no Brasil, favorecendo o processo de reaproximação entre Igreja e MST e implicando um posicionamento oficial, pela instituição religiosa, de apoio ao MST e à marcha a Brasília.
Dias antes do início da Marcha Nacional, em visita à Europa, o presidente Fernando Henrique Cardoso teve inúmeras vezes que responder a questionamentos relativos à
questão agrária, recebendo sucessivas críticas por sua gestão. Na Itália, um grupo de 68 intelectuais ligados a dez universidades enviou ao presidente do país, Oscar Luigi Scalfaro, e à Embaixada brasileira documento denunciando a concentração de terras e os massacres de trabalhadores rurais no Brasil. O manifesto foi divulgado enquanto o presidente brasileiro recebia o título de doutor honoris causa em ciência política, na Universidade de Bolonha. O próprio reitor da Universidade, Fábio Roversi-Monaco, fez menção ao tema em seu discurso, na entrega do título ao presidente brasileiro.
O presidente disse ontem, com irritação, que os críticos não são sérios e des-conhecem a realidade brasileira. No seu desabafo, feito durante entrevista na sede da embaixada brasileira junto à Santa Sé, o presidente atacou também o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), que em sua opinião é um movimento primitivo e imaturo. ‘Se o MST imagina que vai substituir o Estado, está sonhando. Está numa utopia regressiva, que não vai funcionar’, disse Fernando Henrique. O assunto reforma agrária ocupou os últimos dois dias do presidente da Europa... Ontem, foi a vez do papa João Paulo II tocar no assunto.
‘O respeito pelas populações indígenas, o empenho por uma reforma agrária atuando de acordo com as leis vigentes, a preservação do meio ambiente, entre outras motivações, justificam iniciativas sempre corajosas visando ao enobreci-mento da causa democrática’, recomendou o papa45 (Jornal do Brasil, 15/02/97).
Involuntariamente levado a tratar da questão agrária brasileira no cenário do
“Primeiro Mundo”, premido pela repercussão dos conflitos fundiários no exterior e pelo reconhecimento internacional do MST, o presidente Fernando Henrique Cardoso optou por desqualificar as críticas e classificar como “primitivo” o MST. Mas a inad-vertida inclusão da questão agrária na pauta de sua viagem internacional não se deveu apenas à pressão da opinião pública e de intelectuais: foi tema no encontro oficial do presidente brasileiro com o chefe de Estado da Santa Sé, investido de autoridade religiosa sobre milhões de fiéis católicos em todo o mundo. A reforma agrária ganha-va, assim, um reforço moral importante, além de ser inserida na relação entre os dois Estados – talvez motivo principal da “irritação” do presidente divulgada pela imprensa e, conseqüentemente, de sua afirmação de uma pretensão do MST de substituir-se ao Estado, caracterizando-a como uma “utopia regressiva”.
Dias depois, na segunda semana de transcurso da Marcha Nacional, o ministro Raul Jungmann foi “enviado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para obter a adesão do presidente da CNBB, Dom Lucas Moreira Neves, ao programa oficial de reforma agrária”46. Fosse esse ou não o caso, o ministro dava continuidade a gestões governamentais anteriores para a constituição de um fórum de discussão da questão agrária, como fizera ao convidar o presidente da CUT, Vicente Paulo dos Santos47. Entretanto, como acontecera antes com o presidente da central sindical, em lugar de
apoio o convite motivou críticas.
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) criticou ontem o ‘processo de isolamento do governo contra o MST’ (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e se ofereceu para mediar a retomada do diálogo entre eles. A posi-ção da CNBB foi comunicada ao ministro Raul Jungmann (Política Fundiária).
Ele visitou ontem o presidente da entidade, Dom Lucas Moreira Neves. Dom Lucas é considerado integrante da ala conservadora da Igreja Católica, que não tem ligações com os sem-terra. A Folha apurou que a direção do MST marcou uma audiência hoje com o presidente da CNBB (Folha de São Paulo, 27/02/97).
Além de criticar o “isolamento do movimento social” pelo governo durante o en-contro com o ministro da Reforma Agrária, numa atitude inusitada desde o início de suas funções à frente da CNBB, Dom Lucas fez severas críticas ao governo, em entrevista coletiva realizada no mesmo dia. Os jornais noticiaram que os bispos que integram a cúpula da CNBB – presidência e Comissão Episcopal de Pastoral – pressionaram Dom Lucas para que a entidade se manifestasse sobre as declarações do presidente Fernando Henrique. Em entrevista à TV Bandeirantes, o presidente afirmou que se queixara ao papa da atitude de alguns padres “que se excedem porque não compreendem a diferen-ça entre um governo que quer melhorar e um governo fechado para o clamor social”.
Antes, o presidente havia dito que o papa quer uma reforma agrária “dentro da lei”, ao condenar as invasões de fazendas48.
Os bispos da Igreja Católica, disse Dom Lucas, ficaram perplexos e magoados com o fato de o conteúdo da conversa do presidente com o Papa ter sido divulga-do. O presidente da CNBB disse que pretende discutir o assunto com o Papa no próximo encontro que tiverem. ‘A CNBB não aceita essas críticas. Nos pareceu inconveniente pôr essas críticas no contexto de um relato com o papa João Paulo II. Não existe uma reforma agrária do papa e outra dos bispos. Muitos padres de-fendem a reforma agrária sob ameaças e com sacrifício. Estamos realizando o que o Santo Padre nos transmite’, disse Dom Lucas (Correio Brasiliense, 27/02/97).
O bispo reafirmou em entrevista coletiva:
‘O ministro pediu a participação da CNBB num fórum permanente pela reforma agrária. Eu disse a ele que nesse fórum nenhum movimento social envolvido com a terra poderia estar excluído, inclusive o MST. Isso é contraproducente’49 (Jornal do Brasil, 27/02/97).
‘Em um fórum sobre reforma agrária, um movimento popular que tem respaldo da população tem que participar. O governo deveria retomar o diálogo com o MST. A política de isolamento não é boa. Não foi pedido à Igreja, mas ela poderá
ser interlocutora’, disse Dom Lucas (Correio Brasiliense, 27/02/97).
Naturalmente, a infeliz colocação do presidente da República suscitou o espírito de corpo da Igreja, multifacetada e complexa, cindida por significativas diferenças internas, mas ciosa da importância pública de sua aparente unidade. A clara e firme defesa da necessidade de reconhecimento do MST enquanto um ator relevante e legí-timo na questão da reforma agrária não foi incidental. Serviu mesmo para reafirmar a congruência da ação de membros da própria Igreja com a orientação de seu mais alto dignitário, na interpretação do episcopado publicamente posta em questão pelas palavras do presidente da República. Vinda de uma instituição altamente hierarquizada como a Igreja, a tomada de posição do presidente da CNBB, particularmente sendo ele reconhecido como representante da “ala conservadora”, demonstrou, quando menos, um compromisso público e oficial da Igreja no Brasil com a reforma agrária. Entretanto, ela apenas ratificou um comprometimento prático de parte dessa Igreja, particularmente nos anos recentes.
Nos dias seguintes, manchetes noticiaram que “bispos católicos assumem apoio aos sem-terra” e reportagens afirmavam que “episcopado e clero decidiram ficar do lado dos sem-terra”, interpretando o fato como uma derrota infligida ao governo federal em sua tentativa política de isolar o MST.
As duas derrotas impostas à iniciativa do governo legitimam uma retomada na ação pastoral. Depois de, ao longo de 15 anos, ter-se afastado da linha de frente da questão agrária, período em que o MST se desligou da Comissão Pastoral da Terra (CPT), ganhando vida política própria, a Igreja ressurge organicamente ao lado dos sem-terra. ‘Somos filhotes da Igreja’, resumiu João Pedro Stédile, um dos líderes nacionais do MST, depois de sair da sede da CNBB.
Após a audiência com o presidente da CNBB, concedida no dia seguinte ao encontro de Dom Lucas com o ministro da Reforma Agrária. A aproximação do MST com a cúpula da Igreja Católica e a união de sem-terra, bispos e padres no combate ao governo parece que vai além da questão agrária. A relação passa pelo combate ao modelo econômico e pela política de privatização, principalmente no caso da Companhia Vale do Rio Doce. As divergências sobre a venda da em-presa provocaram um mal-estar entre a Igreja e o presidente Fernando Henrique Cardoso em dezembro (O Estado de São Paulo, 02/03/97).
As declarações do presidente apenas precipitaram a enunciação formal de apoio da CNBB ao MST e, especialmente, à Marcha Nacional. A aproximação MST-Igreja já vinha se verificando há algum tempo, após o afastamento relativo que se seguiu à constituição do Movimento e ao esforço de autonomia política empreendido por seus dirigentes, por um lado, e à crise do papel de mediação antes desempenhado pela instituição religiosa50, por outro. Atravessando uma fase de empenho no processo
de legitimação e de ampliação social do apoio à reforma agrária – expressa no lema
‘Reforma Agrária, uma luta de todos’ –, o MST, através de seus líderes, não deixou de identificar o valor da importância moral e institucional ainda representada pela Igreja Católica no Brasil e de reconhecer o significado estratégico de uma reaproximação em novas bases. Parte do processo de alargamento da compreensão dos requisitos políticos necessários ao seu projeto de reforma agrária, a esfera de crítica social veiculada também se amplificou no MST. Por suas origens, os fundamentos dessa crítica – contrária à determinação exclusivamente econômica da dinâmica social, em nome da preeminência do valor da pessoa – não poderiam estar muito distantes daqueles a partir dos quais a própria Igreja manifesta-se em sua crítica so-cial. Não é portanto incidental a coinci-dência de ambas as instituições na avaliação de temas sociais de relevância nacional51. A Marcha Nacional não apenas revelou no seu decurso essa afinidade de fundo, no contínuo apoio material e moral recebido das igrejas e comunidades locais, como permitiu sua expressão pública através da instituição que representa oficialmente a Igreja Católica no Brasil, a CNBB. Os efeitos dessa tomada de posição não demoraram a manifestar-se. Uma mesma reportagem informa que “A Igreja Católica vai mobilizar cerca de 500 pessoas de entidades e escolas religiosas de Brasília para receber os sem--terra que participam da Marcha Nacional pela Reforma, Agrária Emprego e Justiça”;
ao mesmo tempo, anuncia um reposicionamento do presidente da República: “O porta-voz da Presidência, Sérgio Amaral, afirmou ontem que o governo não condena o apoio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) à marcha dos sem-terra a Brasília”. E prossegue: “Segundo Amaral, esse apoio é um assunto do ‘órgão’ cató-lico. ‘O governo não tem nada contra os sem-terra, tem sim contra a violência’, disse Sérgio Amaral. O porta-voz disse que o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), a UDR (União Democrática Ruralista) e fazendeiros têm desrespeitado a lei e praticado violência”52.
No contra-ataque, Gilberto Portes, membro da direção nacional do MST, re-presentante político do Movimento em Brasília acusou o ministro Nelson Jobim de estar “usando métodos da ditadura militar”. A declaração foi feita após a primeira reunião, em Brasília, da Coordenação Nacional da Marcha, com a presença dos coordenadores das Colunas Sul, Sudeste e Oeste. Aproveitando a oportunidade de um evento, o MST fazia repercutir sua posição: “‘É um absurdo ordenar revistas em nossos acampamentos. Somos nós que levamos tiros e terminamos sendo os primeiros a ser vistoriados. Quero ver quando é que o governo vai prender as armas dos latifundiários’, afirmou. A assessoria de Jobim afirmou que o governo não pode controlar a ação das polícias militares e civis, responsáveis pela busca nos acampa-mentos dos sem-terra”53.
Mais uma vez, como sempre, a violência foi usada como símbolo na disputa.
O presidente que fala pelas palavras de seu porta-voz, realiza, simultaneamente, um deslocamento e uma identificação: não é contra os sem-terra, mas contra a violência,
e equipara o MST à UDR e a fazendeiros armados. O porta-voz dos sem-terra atua de modo semelhante ao comparar os métodos do governo aos da ditadura militar. O ministro da Justiça, por seu turno, após fazer gestões para a realização de operações de desarmamento a serem implementadas pelas polícias militares, pela voz de seus as-sessores, afirma não ter poder sobre ela. A violência é sempre signo e responsabilidade do “outro”. Assim, ainda na esteira dos acontecimentos no Pontal do Paranapanema, a Marcha Nacional fazia-se caixa de ressonância, tanto na esfera local, ao longo de seu percurso, quanto na esfera nacional, em reuniões que se tornavam públicas através dos meios de comunicação. Finda a segunda semana de sua caminhada, a Marcha Nacional prosseguia e já demonstrava a frustração das expectativas daqueles que apostaram no seu fracasso. Após os quinze primeiros dias, avançando regular e organizadamente conforme a previsão de seus promotores, a Marcha Nacional dava mostras de que alcançaria, sim, o seu destino. Era uma questão de tempo: os sem-terra iriam chegar a Brasília, à pé.
Tanto já era esperada a sua chegada, que já se tomavam iniciativas para regular sua ainda imprevisível forma e conseqüências. Iniciavam-se as gestões do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, junto ao governo do Distrito Federal, no sentido de proibir e impedir manifestações em frente ao Congresso Nacional. O temor dessa plebe desconhecida e quase descalça, que marchava a Brasília sob o nome de sem--terra, mostrava sua face no pedido de proibição de manifestação pública diante da comumente chamada “casa do povo”, ou melhor, “casa dos representantes do povo”, ou simplesmente “a casa”. “A casa”, de fato, não é o lugar da multidão, embora seja tida como ambiente por excelência da democracia. Na “casa” certamente faz-se política, embora ao público não se quisesse reservar, então, nem o lugar de fora!
‘Quando o Distrito Federal e o governo federal não puderem manter a ordem, o Estado acabou’, disse... Indagado se não teme um confronto entre os sem-terra e a polícia, o presidente do Congresso Nacional fez um desafio: ‘Não temo nada.
Acho até que se tiver, não é mal. Por quê? Porque isso se define. Não pode ficar a vida inteira um país indefinido em relação a posições’. O senador defendeu a realização da reforma agrária no país, mas desde que a ‘ordem seja mantida, porque, caso contrário, não vai haver nem reforma agrária nem governo’ (Folha de São Paulo, 03/02/97).
A proibição de realização de manifestações foi justificada pelo presidente do Sena-do como necessária à garantia da ordem e esta como princípio definiSena-dor, por excelência, do Estado e da existência do governo. A manifestação pública de protesto representada pela Marcha Nacional foi, portanto, tomada como ameaça à ordem, à autoridade, ao governo e ao Estado. Colocado ante a possibilidade de um confronto violento entre sem-terra e polícia, o presidente do Senado desnudou, no reconhecimento do veredicto
da força, o elemento final, embora extremo, de definição da política. Seguindo a mesma lógica, a resposta do MST ao óbice levantado pelo presidente do Congresso foi dada pela direção da Marcha Nacional:
‘No Brasil é normal tratar a questão social como coisa de polícia. Não vamos nos admirar. Perdoamos a ignorância dele’, disse ontem Edivair Lavratti, um dos coordenadores da marcha. Para Lavratti, essa postura de ACM representaria um
‘grave erro’. ‘Ele está contrariando pesquisas que dizem que a população apóia a reforma agrária e o MST’. Lavratti afirmou que ainda não havia uma definição sobre o local do acampamento na cidade. ‘Mas, depois dessa provocação, acho que vamos acampar lá mesmo. Não estranharemos se houver confronto e se eles agirem com violência. Mas vamos ver quem grita mais alto’, afirmou. O MST espera reunir pelo menos 3.000 pessoas em Brasília no dia 17 de abril, quando a marcha deve chegar à cidade (Folha de São Paulo, 03/02/97).
Estando a Marcha Nacional ainda distante de Brasília, essa polêmica apresenta-se como mais um episódio da guerra de declarações, na qual a ostensiva afirmação de força, de parte a parte, é uma estratégia fundamental. Significativamente modestas, as expectativas do MST quanto ao impacto da chegada da Marcha a Brasília confirmam a importância do confronto verbal.
Entretanto, a certeza da chegada da Marcha Nacional a Brasília implicou uma mudança de posição dos diferentes atores da cena política. Se num primeiro momento o anúncio dos propósitos amplos que a norteariam, feito ao final do Encontro da Coor-denação do MST, em janeiro, redundara numa crítica acerba até de seus mais próximos aliados – a CUT e o PT –, a previsão de uma chegada vitoriosa a Brasília resultou em reposicionamento de seus mais fortes concorrentes, os sindicatos dos trabalhadores rurais, através de sua agremiação nacional, a Contag – Confederação dos Trabalhadores da Agricultura. A postura de intransigência conservada pelo ministro extraordinário da reforma agrária em suas declarações, mesmo após as gestões conciliatórias tanto da CUT quanto da CNBB, sustentadas pelos representantes de ambas as entidades durante as reuniões com o ministro, deram oportunidade à manifestação crítica da Contag, tida até então como importante aliada do governo.
‘Na saída da conversa com Dom Lucas, no entanto, o ministro Raul Jungmann manteve seu discurso... ‘O governo vê com bons olhos toda vez que a lei for cumprida. Minha expectativa é que os estados assumam sua parte na responsabi-lidade’. O elogio de Jungmann à ação policial contra os sem-terra em São Paulo acabou com a neutralidade que a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag) vinha demonstrando no embate do governo federal com o MST. O presidente da Confederação, Francisco Urbano, disse que o ministro Jungmann ‘enlouqueceu’ e tomou uma atitude que não combina nada com a reforma agrária: ‘Se ele acha que vai acalmar a UDR pedindo ação policial
contra sem-terra está muito enganado. Pelo contrário, isso vai reforçar a vio-lência. Terra é questão de justiça social e não de segurança nacional. Isso é de um autoritarismo extremo. Nem o regime militar fez isso com tamanho aparato público. Eu não me alio ao governo para reprimir movimento social’, disse Urbano, rompendo explicitamente com o apoio que a Contag vinha manifes-tando às ações do ministro nos últimos meses (Correio Brasiliense, 27/02/97).
No seu surgimento, como anteriormente mencionado, o MST reuniu as experiên--cias de luta não apenas de organizações comunitárias de fundo religioso, associações de produtores, associações de atingidos de barragens e outras, como também das pri-meiras iniciativas das chamadas oposições sindicais, que se contrapunham ao modelo assistencialista imposto ao sindicalismo rural durante o regime militar. Entretanto, com sua crescente capacidade de arregimentação e organização, ganhando visibilidade, o MST cedo tornou-se um concorrente dos STRs no campo político. A perda de influ-ência junto aos associados com a falinflu-ência do modelo assistencialista, agravada pela crise do próprio sindicalismo em geral, importou numa mudança das formas de luta de vários sindicatos rurais, que também passaram a organizar acampamentos e ocupa-ções54. Entretanto, tanto as formas de organização dos acampamentos quanto o modo negociação dos sindicatos com os organismos governamentais implicados na reforma agrária, como o Incra, diferem daqueles empregados pelo Movimento, o que se reflete
No seu surgimento, como anteriormente mencionado, o MST reuniu as experiên--cias de luta não apenas de organizações comunitárias de fundo religioso, associações de produtores, associações de atingidos de barragens e outras, como também das pri-meiras iniciativas das chamadas oposições sindicais, que se contrapunham ao modelo assistencialista imposto ao sindicalismo rural durante o regime militar. Entretanto, com sua crescente capacidade de arregimentação e organização, ganhando visibilidade, o MST cedo tornou-se um concorrente dos STRs no campo político. A perda de influ-ência junto aos associados com a falinflu-ência do modelo assistencialista, agravada pela crise do próprio sindicalismo em geral, importou numa mudança das formas de luta de vários sindicatos rurais, que também passaram a organizar acampamentos e ocupa-ções54. Entretanto, tanto as formas de organização dos acampamentos quanto o modo negociação dos sindicatos com os organismos governamentais implicados na reforma agrária, como o Incra, diferem daqueles empregados pelo Movimento, o que se reflete