O dia 17 começou cedo. Às cinco horas da manhã foram acesas as luzes do Ginásio do Caic, no Núcleo Bandeirante. A excitação era grande. Todos se apressavam em enrolar os colchonetes, arrumar a bagagem, fazer o toalete matinal. Os poucos chuveiros eram disputados. Na noite anterior, como nos dias antecedentes, chegaram novos integrantes à Marcha: estudantes, sindicalistas, militantes do MST – classificados como “apoio”, a eles estariam destinados os derradeiros lugares nas suas fileiras. Como acontecera nos dias precedentes, também, era grande a presença de jornalistas, que filmavam, fotogra-favam, entrevistavam os marchantes comuns; escolhiam famílias para acompanharem durante todo um dia13; procuravam detalhar a vida dos sem-terra e sua experiência na Marcha Nacional – casais que se formaram, sonhos para o futuro. Erigidos à posição de astros, os marchantes, no entanto, mantinham sua rotina diária. Exceto pelo fato de que este era um dia especial: bradavam com alegria, “é hoje ou não é?”.
Sim, era o dia esperado por todos. Enquanto a direção da Marcha se reunia, nós ultimávamos os preparativos para a saída. Com o desjejum reforçado, recebemos as camisetas e bonés que deveriam ser envergados nesse dia. O cuidado e esmero na aparência pessoal ganhavam o reforço dos uniformes novos. Do carro de som vinham informações e música. A alegria e ansiedade eram contagiantes14. Às sete e trinta foi dado o sinal de partida. Os primeiros lugares nas fileiras eram disputados de modo aguerrido. A faixa de abertura com o título Marcha Nacional por Reforma Agrária, Emprego e Justiça, emblema da caminhada, também foi renovada, substituída por outra maior e mais larga, com as palavras pintadas em negro sobre fundo vermelho. Seguin-do a enorme faixa vinha a cruz conduzida por Rogério, aSeguin-dornada, como sempre, das bandeiras do Brasil e do MST. Atrás, a faixa branca usual, com o senhor Luís, o mais velho marchante, segurando-a em sua posição costumeira, ao centro. Vinham depois um jovem conduzindo a bandeira do MST em mastro de vários metros15 e Ricardo, com a bandeira de Minas Gerais e uma garrafa de água encimada por cruz, equilibrada na cabeça16. Duas fileiras de marchantes alongavam-se nas laterais. Muitas bandeiras do MST enfeitavam-na, colorindo a caminhada de vermelho. As bandeiras dos estados, que se distribuíam inicialmente ao longo da fileira, foram deslocadas para o centro, ficando próximas à conduzida por Roberto.
Era uma caminhada festiva: colorida pelas muitas bandeiras, animada pela alegria e orgulho dos marchantes. Dos carros de som que nos acompanhavam, líderes do MST revezavam-se na condução de palavras de ordem e em discursos inflamados. Neles tinham rápida passagem fotógrafos, cinegrafistas e jornalistas executando o trabalho de cobertura. Seguranças do Movimento cuidavam para impedir a sua superlotação, distinguindo-se dos demais marchantes por uma tarja preta amarrada ao braço. Na avenida, ao lado das fileiras de sem-terra, motoristas diminuíam a velocidade de seus
carros e buzinavam, em sinal de aprovação e em sintonia com o ritmo da caminhada.
Nas proximidades do Campo de Aeromodelismo, na entrada do Eixo Rodoviário Sul, os passos dos marchantes começaram a diminuir, tornado-se mais lentos. Dos carros de som, os discursos emudeceram. Os sem-terra aproximavam-se em silêncio do local de encontro das Marchas. No alto de um viaduto, sob o qual passávamos, avistamos os marchantes da Coluna Oeste em caminhada. A alegria tomou conta de todos. No Campo de Aeromodelismo concentrava-se já uma pequena multidão, que nos aguar-dava. Dois carros de som, ao modo de palanque, postavam-se um em frente ao outro, separados por uma enorme bandeira do MST ao chão17. Em um deles concentravam-se as autoridades e representantes das entidades – CUT, Cimi, CNBB, UNE, Adunb –, no outro, as equipes de jornalismo. Vindas de direções contrárias, as fileiras das duas Colunas desfizeram-se para formar uma aglomeração de sem-terra nas laterais livres da bandeira. Separados por ela, frente a frente, encontravam-se os marchantes das Colunas Sul/Sudeste e os sem-terra da Coluna Oeste.
Dando início à cerimônia do encontro das Marchas, tocou-se o hino à bandeira,
“Ordem e Progresso”, relembrando aos sem-terra o sentido de sua longa jornada: “é por amor a essa pátria-Brasil, que a gente segue em fileira”18. Um líder nacional do MST fez a saudação às duas Colunas, enfatizando a importância da unidade: vindos de muitos estados diferentes, todos os marchantes pertenciam a um único Movimento, o MST – proclamação que se confirmava na reunião dos sem-terra em torno à sua bandeira. No palanque, a vice-governadora do Distrito Federal deu oficialmente as boas-vindas aos integrantes da Marcha Nacional19. E arrematou as palavras de felicitação vestindo sua camiseta distintiva. Do carro de som, do lado oposto, ergueu-se uma faixa negra com os nomes dos sem-terra assassinados em Eldorado do Carajás, numa primeira homenagem nesse aniversário de sua morte. Maria Prestes, viúva de Luís Carlos Prestes20, e Plínio de Arruda Sampaio, ex-deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, descerraram uma placa, inaugurando o marco comemorativo ao encontro das Marchas. Em seguida, a Banda da Polícia Militar tocou “Glória”. Após esta exibição, os sem-terra cantaram o hino do MST, adornando o uníssono das palavras com um mesmo gesto de erguer o braço esquerdo com punho fechado, durante o refrão. Ao término do hino, o coordena-dor do ato convidou os representantes de diferentes entidades sociais, que auxiliaram a Marcha Nacional no seu percurso, a suspenderem a bandeira do MST que separava as Colunas: “sem a sua ajuda não estaríamos aqui”. Nesse momento, sob a enorme bandeira erguida, os sem-terra formaram uma única multidão, selando com abraços o encontro das Colunas, em confraternização emocionada21.
O encontro das Marchas teve uma “mística” forte, capaz de emocionar os sem--terra e neles fortalecer a vontade de prosseguir “a luta”, recriando ao mesmo tempo, simbolicamente, a unidade do MST. Um encontro também simbolicamente constituí-do pela unidade da luta: o marco da luta presente foi inaugurado através da memória da luta passada. Num único ato, afirmava-se a continuidade da “luta” e suas diferenças.
A Marcha Nacional, pacífica, era recebida pela população e pelas autoridades, em contraste com a Coluna Prestes – como lembrou a viúva do líder. A “glória” da Mar-cha Nacional foi louvada nada menos que pela Polícia Militar, cuja reserva de força e violência é histórica e comumente contraposta aos sem-terra – os nomes das vítimas do massacre de Eldorado do Carajás, o próprio calendário, que marcava o dia da chacina, a demanda de Justiça portada pela Marcha Nacional não deixavam esquecer. A fala do líder sem-terra marcava o sentido do encontro da Marchas, integrando o acontecimento na ordem moral que o sustentava, a unidade do MST. À fala do líder correspondeu o uníssono dos sem-terra, na entoação do hino e no gesto simbólico do abraço múltiplo sob uma única bandeira. Os diferentes estados, as três Colunas reuniam-se e formavam o que sempre foram: uma só Marcha. Com o auxílio de representantes das entidades de apoio, isto é, da sociedade civil organizada, a bandeira do MST foi erguida: símbolo da busca uma outra unidade, ou antes, união. Cristiane, uma marchante da Coluna Oeste de catorze anos, descreveu sua experiência desse momento.
Foi, assim, um encontro muito lindo!... Muito lindo!... Nos encontremos: na mesma hora, as Marchas se cruzaram!... Fizeram uma cruz... As duas se encon-traram! Daí, nós se abracemos, e teve uma hora que ergueram uma bandeira bem grande – que tinha uns cem metros, sei lá... Se abracemos embaixo da bandeira com o pessoal das outras Marchas! Nós fizemos duas, quatro filas enormes! E já fomos recebendo a população... Aquilo foi muito emocionante!... De ter aquela população tão grande recebendo nós!... Para a gente brigar contra essa política que está aí hoje! (Santos, Andréa P. et alli, 1998: 48)22.
O encontro das Colunas permaneceu uma experiência significativa para os sem--terra, lembrado como um dos momentos mais marcantes da Marcha Nacional. No limiar de Brasília e da recepção popular que a coroaria, a celebração de sua unidade sob a bandeira do MST era também a afirmação da união das forças de cada um na luta por um mesmo objetivo que, naquele momento, era representado e alcançado pela conclusão do longo percurso. O potencial significativo desse momento especial foi ampliado pelo intervalo de tempo em que os sem-terra das Colunas ficaram frente a frente, mirando-se como em espelho. Nesse momento de suspensão, os marchantes viam nos outros a longa jornada percorrida, percepção confirmada pela canção “Ordem e Progresso”, pela entoação em comum do hino do Movimento e pela confraternização sob a bandeira do MST. Nas palavras de Cristiane, as Marchas fizeram uma cruz nesse momento síntese23, como portaram cruz ao longo do trajeto. No encontro das Marchas, os sem-terra uniram-se sob a bandeira única, como a conduziram por todo o percurso.
O movimento das Colunas era, naqueles instantes, o mesmo que motivara a Marcha Nacional em todos os momentos24.
Em seguida ao “abraço” das Marchas, deu-se o “abraço” recíproco entre popula-ção e marchantes: refeitas e multiplicadas as fileiras, os sem-terra iniciaram a jornada
final, adentrando em Brasília. “E já fomos recebendo a população... Aquilo foi muito emocionante!... De ter aquela população tão grande recebendo nós!...” Nas palavras de Cristiane, os sem-terra recebem a população que os recebe. E desse encontro alvissa-reiro, da mística desse grande encontro que era a própria Marcha Nacional, tirava-se a energia “para a gente brigar contra essa política que está aí hoje!”. Na fala dessa sem--terra ainda menina, com uma vida marcada pela violência, expressava-se o sentido da Marcha Nacional, no momento de sua conclusão. “Então, tem uma série de lutas!
Se eu fosse pensar só no meu mundo!... Se fosse pensar no meu mundo, eu não estava aqui, na Marcha, a essa hora, ajudando a lutar por justiça!”25. Saindo do seu mundo, de sua realidade relegada, os sem-terra puseram-se na estrada para lutar por justiça, brigando contra “essa política”, ocupando o espaço público, fazendo política nas ruas, avenidas e praças das cidades até chegar à capital do país.
Um clima de festa tomava conta das avenidas de Brasília. A população descia às ruas, vestida de camisetas com mensagens de apoio à reforma agrária e à Marcha Na-cional. Das janelas dos edifícios pendiam bandeiras brasileiras. Com elas, moradores acenavam para os marchantes. Aplausos, buzinas, gritos de apoio, o som ensurdecedor de apitos dos populares faziam um dueto com os discursos inflamados que os oradores proferiam do alto dos carros de som. A Marcha Nacional entrou sob ovações no Eixo Sul. “À frente iam batedores da PM, ambulâncias e Polícia Civil, como numa escolta de honra”26. O ritmo imposto à caminhada, porém, tornava os marchantes concentrados na formação das fileiras. As quatro filas alongavam-se na avenida, numa formação mantida com esmero. Seguranças evitavam que estranhos caminhassem entre elas.
Uniformizados, os sem-terra mantinham-se coesos e tornavam sua passagem ainda mais vibrante com o sem-número de bandeiras vermelhas que adornavam as fileiras.
Aqui e ali, velhos e mulheres conduziam instrumentos de trabalho. Os passos seguiam rápidos, como se tomados pela vertigem de chegar. Ao seu lado, muitos populares tentavam segui-los. Rosas vermelhas eram distribuídas a cada sem-terra. Copos de água eram-lhes ofertados27. Nas margens da avenida, pessoas emo-cionadas choravam.
A marcha ocorreu disciplinada à semelhança de uma parada militar e coorde-nada como se fosse um desfile de escola de samba. A estratégia dos líderes era evitar que os sem-terra se dispersassem ou reagissem a eventuais provo-cações ao longo do percurso. Antes de sair do acampamento na manhã, todos os sem-terra foram uniformizados com bonés vermelhos e camisetas brancas com a sigla do MST pintada também de vermelho... A maioria dos sem-terra carregava a bandeira vermelha do MST. Sempre que o carro de som ordenava, os trabalhadores agitavam as bandeiras e gritavam palavras de ordem, como se estivessem fazendo uma coreografia... Havia poucas pessoas carregando foices, facões e enxadas. A maioria mulheres e velhos (O Estado de Minas, 18/04/97).
Em sua chegada a Brasília a Marcha Nacional comportava os elementos formais
de duas das principais manifestações de rua do país, extensivamente estudadas por Roberto DaMatta em seus aspectos antagônicos. Porém, conforme notou o jornalista, a Marcha reunia sem contradição as qualidades formais de ambos, carnaval e parada militar28. Disciplina e uniformidade militares conjugavam-se sem descontinuidade com coordenação rítmica, modulada em movimento e som. Assim, o silêncio era cortado por palavras de ordem e a marcha contínua das fileiras era fantasiada com a coreografia das bandeiras. Silêncio, grito, movimentos, tudo era concertado. Os sem-terra agiam como um corpo único. Mais do que nunca, nesse dia, juntos eles corporificavam o MST, assim como sua caminhada convertia-se numa Marcha Nacio-nal, reunindo a tríade simbólica constituída por procissão, parada e carnaval. Sacrifício, ordem e in-versão estavam presentes em diferentes níveis de representação. A concentração que os sem-terra depositavam na caminhada emprestava-lhe um aspecto solene. Mas a festa que a recepção popular promovia inscrevia-se também na manifestação que a Marcha Nacional ensejava, coroando de sucesso o sacrifício da longa jornada. Graças a ele, os excluídos ocupavam o proscênio dos acontecimentos, sem causar temor. Em breve, a invasão das fileiras dos sem-terra pelos demais manifestantes dissolveria com elas as distinções, impondo na mistura o domínio soberano da festa.
A velocidade imposta à caminhada impedia que os marchantes prestassem atenção aos discursos proferidos por diversas personalidades nos carros de som. Além disso, se a velocidade foi uma estratégia dos líderes para evitar tumultos29, ela impedia, também, uma maior interação com a multidão que os recepcionava. O reforço da característica militar nesse dia acentuava o contraste com a passagem da Marcha Nacional pelas demais cidades, quando seus oradores estimulavam a interação dos marchantes com a população – de resto, espontaneamente realizada. A concentração dos sem-terra, a manutenção das fileiras, a ordem padronizada da Marcha Nacional conferiam-lhe o aspecto castrense que impressionou mais de um observador. Entretanto, a rigidez era também propositadamente quebrada, nas respostas dos sem-terra aos comandos vindos dos oradores no carro de som, que emprestavam ares de coreografia carnavalesca à Marcha. Alheia a esse centro ordenador, a vibração popular conferia força e triunfo à Marcha Nacional, cingia a caminhada e animava os marchantes como se estivessem em uma festa de rua, o que de fato acontecia.
Na altura das Super Quadras 12, a caminhada teve uma rápida interrupção. À frente da grande faixa de abertura, seguiam até esse momemnto famílias formadas por pais, mães e filhos. Ao contrário dos demais marchantes, não envergavam o uniforme da Marcha Nacional. Nessa parada, contudo, eles receberam camisetas e bonés, vestiram-nos e passaram para trás da faixa de abertura, colocando-se entre as fileiras: foram incluídos na Marcha Nacional ao tornarem-se, simbolicamente, sem-terra. Em carro de som estacionado logo atrás, representantes sindicais do Distrito Federal discursavam. Mas a interrupção da caminhada foi breve. Ela retomou o curso, de forma ainda mais veloz.
Praticamente corríamos. A custo as fileiras eram mantidas. Paradoxalmente, a
veloci-dade imprimida à Marcha parecia ser um meio de as manter intactas, isto é, resistentes à invasão e dissolução pela pressão da aglomeração circundante. Nas imediações das Super Quadras 5, deu-se outra breve suspensão da caminhada no encontro dos sem--terra com os sindicalistas urbanos. Concentrados no acampamento na Esplanada dos Ministérios, de lá eles partiram em marcha para reunir-se aos sem-terra. À frente, de braços dados, distinguia-se uma comissão formada por membros da Executiva Nacional da Central Única dos Trabalhadores. Atrás, veio uma multidão multiforme e caótica, feita de representantes de distintas categorias sociais.
Então se deu a união do “alicate com a enxada”, tão anunciado pelos alto-falantes.
Fundiram-se o rural e o urbano. De seu caminhão, a CUT conclamava “os bandos de ratazanas a sair dos ministérios porque a inundação está chegando”. Como um rio recebendo vários afluentes, a marcha transbordou. As colunas foram desfeitas. Discursos simultâneos sobrepuseram-se. As lideranças tentaram uma organização pelos microfones. Misturaram-se palavras de ordem. “Saiu Fernan-do Collor, pode sair FHC”, gritava um grupo. Um oraFernan-dor prometia um lugar na farinheira quando o ministro Raul Jungmann for demitido “porque não queremos vê-los desempregado”. Fogos de artifício espocavam no ar. Uma ala de apitos incorporou-se ao que já era mais uma passeata do que colunas. Às vezes, a palavra era passada para os sem-terra. Os vivas eram para a “unidade dos trabalhadores”.
Falaram petroleiros, metalúrgicos, secundaristas, índios, senadores, deputados, ex-funcionários públicos, sindicalistas. “Vamos ocupar Brasília”, pediam todos os alto-falantes. E a passeata parou na Esplanada dos Ministérios para descanso, almoço e chuveiro. Caixões simbólicos circulavam na multidão, um deles para Fernando Henrique Cardoso. Com seu cocar amarelo e azul, o cacique xavante Simão. Ele juntou-se à marcha para obter a cabeça do presidente da Funai, que
“está deixando morrer as crianças da tribo” (O Estado de São Paulo, 18/04/97).
A profusão de acontecimentos simultâneos impôs mesmo ao texto jornalístico uma construção descritiva, quase etnográfica. A limitação linear da escrita é nele contornada pela apresentação entrecortada dos fatos. A imagem da inundação sai da fala do orador para o texto, poderosa na enunciação da confluência de muitos cursos. Curso de grupos humanos que se encontram em caminhada, curso de cenas diversas que se sucedem e misturam, curso de diferentes meios de expressão que se entrecruzam. Nessa afluência verifica-se o transbordamento de símbolos, atos, palavras, gestos. Mistura que reúne vários conteúdos articulados ao que sequer alcança articulação: discursos, palavras de ordem, gritos, vivas, apitos, fogos. A disposição, porém, é uma só, e anuncia-se em um crescendo: “‘Vamos ocupar Brasília’, pediam todos os alto-falantes”.
Nesse encontro, a formação da Marcha foi precariamente mantida, a despeito dos esforços dos seguranças sem-terra. Apenas sua dianteira manteve-se intacta, circundada por um cordão de isolamento feito por marchantes. Atrás, como escreveu o jornalista, a
Marcha transformou-se em passeata, formada por uma multidão multiforme. Dos alto--falantes de vários carros de som provinham discursos que se sobrepunham, duplicando no ar a mixórdia humana que se espraiava na avenida30. “Os discursos dos líderes em cima dos caminhões de som eram repetidos pelas pessoas que aderiam à marcha, que criaram vários slogans criticando ou pedindo a renúncia de FHC”31. Ao aproximar-se da Rodoviária Central, ponto de encontro dos Eixos Sul e Norte e início da Esplanada dos Ministérios, a Marcha recebeu uma chuva de papéis picados que desciam em profusão das janelas dos edifícios do Banco Central e da Caixa Econômica Federal. Foguetes e rojões ribombavam e brilhavam no céu de Brasília, fazendo um contraste com o cin-zento que, excepcionalmente, o tomava. Vindos em sentido contrário, do Eixo Norte, os marchantes de uma Coluna local formada por sem-terra do Distrito Federal, juntaram--se ao rio humano. “Como um rio recebendo vários afluentes, a marcha transbordou”.
Uma outra corrente, procedente da Catedral Metropolitana, dirigiu-se para o local da confluência da multidão. “Por volta do meio-dia, uma comissão de frente da esquerda deu os braços ao lado da Catedral de Brasília e formou uma corrente humana de lado a lado de uma das pistas da Esplanada dos Ministérios”32. No Grancircolar, onde foram montadas as barracas do Acampamento Nacional que então se iniciava, um grupo formou-se em torno do mais velho marchante, o senhor Luís. Enquanto dos carros de som os discursos competiam em decibéis e a multidão alargava-se por todos
Uma outra corrente, procedente da Catedral Metropolitana, dirigiu-se para o local da confluência da multidão. “Por volta do meio-dia, uma comissão de frente da esquerda deu os braços ao lado da Catedral de Brasília e formou uma corrente humana de lado a lado de uma das pistas da Esplanada dos Ministérios”32. No Grancircolar, onde foram montadas as barracas do Acampamento Nacional que então se iniciava, um grupo formou-se em torno do mais velho marchante, o senhor Luís. Enquanto dos carros de som os discursos competiam em decibéis e a multidão alargava-se por todos