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CAPÍTULO I – REGIMES INTERNACIONAIS: CONTEXTO E TEORIA

1.3 TEORIAS DE REGIMES INTERNACIONAIS

1.3.3 Teorias baseadas no conhecimento

1.3.3.2 Cognitivismo forte

As teorias que buscam compreender os regimes internacionais, de acordo com o cognitivismo forte, centram suas análises em modelos que enfatizam o racionalismo econômico. Entretanto, elas não conseguem explicar profundamente os fenômenos que permeiam o cenário internacional. Tais cognitivistas afirmam que em vez de buscar entender como os atores racionais compreendem o mundo, conforme faz o cognitivismo leve, deve-se procurar analisar como os atores sociais se auto-percebem no mundo. Nesse contexto, os atores fazem parte de uma sociedade internacional formada por instituições que são entidades cognitivas (expectativas mútuas, crenças sobre padrões de comportamento etc.)145.

Fonte: HASENCLEVER, Andreas; MAYER, Peter; RITTBERGER, Volker. 1997, op. cit., p.156.

FIGURA 4 – A ontologia do cognitivismo forte

A figura 4 mostra um modelo básico que destaca a ontologia do cognitivismo forte. Percebe-se que as regras fundamentais, ao terem legitimidade e ao estarem internalizadas

144 NYE, Joseph Jr. Nuclear learning and U. S. – Soviet security regimes. International Organization, New

York, v. 41, n. 3, p. 371-402, summer 1987.

145 HASENCLEVER, Andreas; MAYER, Peter; RITTBERGER, Volker, 1997, op. cit.

REGRAS FUNDAMENTAIS ATORES INTERESSES CONHECIMENTO BUSCA POR COOPERAÇÃO REGIME INTERNALIZAÇÃO LEGITIMIDADE

na sociedade, acabam por levar à criação de regimes. Elas, todavia, influenciam também as escolhas dos atores em situações específicas, pois agem sobre os interesses e o conhecimento, que, portanto, habilitam os atores a participarem de atividades cooperativas que culminam também na criação de regimes. Nesse caso, o conhecimento não só influencia os interesses dos atores como forma as suas identidades.

Pode-se dividir o cognitivismo forte em três esferas de análise: a abordagem da sociedade internacional, que enfatiza o poder da legitimidade, a abordagem da ação comunicativa, que destaca o poder do argumento, e o construtivismo, que mostra o poder da identidade146.

A abordagem da sociedade internacional afirma que os Estados se sentem coagidos a cumprir as normas e as regras em virtude da existência de um senso de obrigação que os fazem acatar os acordos internacionais. As normas, por si só, exercem uma influência à conformidade. Os atores, portanto, são atraídos por uma força autônoma que os leva a sujeitarem-se às normas147. Duas questões merecem ser destacadas. Em primeiro lugar, um Estado tem a tendência de seguir normas por perceber que uma ação independente e oportunista pode dificultar sua própria sobrevivência a longo prazo. Assim, o Estado, ao perceber que tem necessidade de fazer parte da sociedade internacional, acaba por respeitar as exigências dessa sociedade. Conforme destaca Bull, não há sociedade sem a crença de que seus membros respeitarão suas obrigações148.

Em segundo lugar, o comportamento de um Estado em relação a um acordo depende da legitimidade desse acordo. O senso de obrigação, portanto, aumenta à proporção que cresce o grau de legitimidade do acordo. Dessa forma, acordos considerados legítimos são cumpridos autonomamente pelos Estados. Os acordos não-legítimos, todavia, necessitam dispor de instrumentos coercitivos para serem seguidos149.

A legitimidade, nesse caso, pode ser definida como um atributo de obrigação que induz os Estados a cumprirem voluntariamente acordos. O grau de legitimidade depende de quatro variáveis: a precisão, que diz respeito à inteligibilidade da norma, a validação simbólica, que se refere à relação da norma com os pressupostos tradicionalistas

146

HASENCLEVER, Andreas; MAYER, Peter; RITTBERGER, Volker, 1997, op. cit

147 CHAYES, Abram; CHAYES, Antonia Handler, summer 1993, op. cit.

148 BULL, Hedley. The anarchical society: a study of order in world politics. Basingstoke: Macmillan, 1977. 149 HURRELL, Andrew. International society and the study of regimes. In: RITTBERGER, Volker. Regime

estabelecidos na sociedade internacional, a coerência, que averigua a conexão de uma norma com princípios já estabelecidos e a aderência, que verifica se a norma faz parte de uma estrutura legal, em específico, regras e normas já existentes150.

Segundo a abordagem da ação comunicativa, os regimes internacionais devem ser analisados de acordo com os discursos desenvolvidos pelos Estados. Tais discursos devem ser compreendidos como conversas, debates, ações comunicativas que ocorrem entre os membros de uma comunidade com o objetivo de buscar consenso sobre a criação, interpretação e aplicação de normas. Nesse contexto, a constante comunicação entre os Estados cria uma convergência de expectativas que justifica e que garante a permanência de um regime. Assim, a ação estratégica, que pode ser compreendida como as escolhas que os atores fazem levando em consideração os arranjos normativos e buscando alcançar os melhores resultados, deve ser substituída pela ação comunicativa, que procura, por meio do entendimento mútuo, coordenar o comportamento dos atores com a utilização de argumentos151.

A figura 5 demonstra como o discurso contribui para a convergência de expectativas. Suponha, por exemplo, dois atores A e B. Cada um deles interpretará a realidade de maneira diferente e, portanto, tendem a defender, em um primeiro momento, regras que levem em consideração seus entendimentos individuais preliminares. Obviamente, haverá conflito de opiniões que serão expostos e estarão bastante visíveis nos discursos. Com base no processo argumentativo de ambos, pode-se chegar a uma interpretação comum da realidade que levará à convergência de expectativas e, concomitante, à criação de regimes.

150 FRANCK, Thomas M. The power of legitimacy among nations. New York: Oxford University Press, 1990

Apud HASENCLEVER, Andreas; MAYER, Peter; RITTBERGER, Volker, 1997, op. cit.

151 KRATOCHWIL, Friedrich V. Rules, norms, and decisions: on the conditions of practical and legal

Fonte: HASENCLEVER, Andreas; Mayer, Peter; RITTBERGER, Volker. 1997, op. cit., p. 178.

FIGURA 5 – A dependência dos discursos na convergência de expectativas

A abordagem construtivista, em regra geral, busca analisar as identidades e os interesses dos Estados, destacando como essas variáveis são socialmente construídas152. Assim, pode-se afirmar que o construtivismo é uma teoria estrutural que procura compreender o sistema internacional. Ele apresenta três características básicas. Em primeiro lugar, os Estados são as unidades de análise essenciais, em segundo lugar, as estruturas mais importantes no sistema de Estados são intersubjetivas e, por fim, as identidades e os interesses são construídos no interior de uma estrutura social, logo eles não são criados de maneira exógena153.

A identidade pode ser definida como os diversos significados que cada ator atribui a si mesmo, levando em consideração também a perspectiva dos outros atores. Dessa forma, por meio da análise da identidade, pode-se compreender não apenas o papel específico e as expectativas de um ator, mas a própria estrutura social do mundo construída coletivamente. A identidade, portanto, é um esquema coletivo que auxilia os atores a determinarem quem cada um (indivíduo) é e quem todos juntos (indivíduos que participas do coletivo) são em uma estrutura social caracterizada por entendimentos e expectativas compartilhadas. Enfim,

152 RUGGIE, John Gerard, 2002, op. cit.

153 WENDT, Alexander. Collective identity formation and the international state. American Political Science

Review, Washington, v. 88, n. 2, p. 384-396, june 1994. R e a l i d a d e Interpretação A Interpretação B Regra A Regra B C o n f l i t o Discurso I n t e r p r e t a ç â o c o m u m Expectativa convergente

a identidade é adquirida por meio de um processo de socialização que ocorre nas estruturas intersubjetivas do sistema internacional154.

A identidade, de um lado, pode ser individual, portanto, egoísta, e de outro, coletiva, dessa forma, solidária. A primeira é fundamental nas etapas iniciais de construção de regimes, pois serve como força impulsionadora para os Estados, e a segunda é indispensável para a manutenção dos regimes criados, já que, pela identidade coletiva, cada ator respeita os demais como membros de uma mesma comunidade. A cooperação entre os Estados, ao evoluir, pode modificar, parcialmente ou não, a tipologia da identidade, modificando-a de individual para coletiva155.

As estruturas intersubjetivas, nesse contexto, devem ser compreendidas como os conhecimentos e as expectativas sociais compartilhadas que se encontram presentes nas instituições internacionais. Os Estados, por meio de tais estruturas, analisam os custos e os benefícios de suas diversas opções e fazem as suas escolhas. O comportamento dos Estados, enfim, depende do que o mundo parece ser (como os atores percebem o mundo) e também do modo como cada Estado entende o seu papel no mundo (como cada ator percebe a si mesmo).

Em suma, o cognitivismo forte, ora defendendo a presença de normas em uma sociedade internacional como forma de guiar o comportamento dos Estados, ora afirmando a prática de discursos como condição para a estabilidade de regimes, ora destacando o poder da identidade, tem procurado demonstrar que nem tudo é tão objetivo, concreto, fixo e mutável, como defendem as abordagens baseadas no poder e no interesse.

154 WENDT, Alexander, june 1994, op. cit.

155 WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics.