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CAPÍTULO I – REGIMES INTERNACIONAIS: CONTEXTO E TEORIA

1.3 TEORIAS DE REGIMES INTERNACIONAIS

1.3.3 Teorias baseadas no conhecimento

1.3.3.1 Cognitivismo leve

Os cognitivistas leves afirmam que a criação de regimes está relacionada diretamente à percepção que os atores têm acerca dos assuntos internacionais. Nesse contexto, pode-se afirmar que tal percepção é um produto parcial das crenças dos atores e que essas últimas são relativamente independentes dos recursos materiais que eles possuem. Apesar da inovação de seus argumentos, algumas características da teoria baseada no interesse são reafirmadas por essa abordagem. Dentre outras questões, essas teorias definem o Estado como um maximizador racional de utilidade e asseveram que a maneira como a utilidade é percebida depende do conhecimento, e que, por sua vez, ainda está ligado aos recursos materiais136.

133 YOUNG, Oran R., summer 1989, op. cit. 134

WENDT, Alexander. Collective identity formation and the international state. American Political Science

Review, Washington, v. 88, n. 2, p. 384-396, june 1994.

135 JÖNSSON, Christer. Cognitive factors in explaining regime dynamics. In: RITTBERGER, Volker (ed.).

Regime theory and international relations. Oxford: Clarendon Press, 1993. p. 202-222.

Três aspectos são bastante enfatizados pelos cognitivistas leves: o papel desempenhado pela interpretação, a necessidade de informação científica e a relevância da intersubjetividade dos significados compartilhados. Adler e Haas afirmam que a interpretação está localizada entre a vontade humana e a estrutura internacional137. Nesse contexto, ela tem relação direta com o conhecimento, pois ele não apenas molda a percepção dos atores sobre a realidade como busca explicitar as questões mais importantes para os tomadores de decisão. Assim, os interesses dos atores não podem ser considerados como simplesmente dados. Na verdade, eles devem ser analisados levando em consideração a maneira como os atores compreendem o mundo.

A informação recebida pelos tomadores de decisão é um outro assunto que merece destaque, pois ela é extremamente relevante em razão sobremaneira do ambiente de incerteza que caracteriza o cenário internacional. A informação, nesse contexto, deve ser a mais acurada possível. A cientificidade da informação, nesse caso, oferece uma base mais segura e confiável para a tomada de decisão dos atores, que, portanto, ampliam as suas funções, já que, além de buscarem poder e riqueza, procuram reduzir também as incertezas138. Assim, como os atores não conseguem avaliar todas as possíveis conseqüências das suas ações, eles utilizam as pesquisas e os aconselhamentos da comunidade científica como redutores de incerteza.

Os atores, antes de criarem algum regime, devem concordar preliminarmente que há um problema em comum que deve ser solucionado conforme critérios estabelecidos em conjunto. O problema a ser resolvido tem um significado específico para cada ator. Quando ele resolve se unir a outros atores para resolvê-lo, então, cria-se uma rede subjetiva de significados que passa a ser compartilhada. Assim, para haver acordo, torna-se necessário uma compreensão coletiva do problema. Caso contrário, cada um atribui-lhe

individualmente seu próprio significado, o que inviabiliza qualquer ação cooperativa139. A ontologia do cognitivismo leve pode ser percebida na figura 3. O conhecimento,

nesse contexto, influencia os interesses, que ao serem compartilhados, podem levar à cooperação. Caso haja cooperação, então, há a criação de um regime. Percebe-se,

137

ADLER, Emanuel e HAAS, Peter. Epistemic communities, world order, and the creation of a reflective research program. International Organization, New York, v. 46, n. 1, p. 367-390, winter 1992.

138 HAAS, Peter. Introduction: epistemic communities and international policy coordination. International

Organization, New York, v. 46, n. 1, p. 1-35, winter 1992.

claramente, que o movimento é auto-renovável, pois a criação do regime não finaliza o processo. Dessa forma, a possibilidade de feedback pode tanto reforçar o conhecimento inicial, garantindo a manutenção do regime, quanto modificá-lo, criando um novo regime.

Fonte: HASENCLEVER, Andreas; MAYER, Peter; RITTBERGER, Volker. 1997, op. cit., p. 155.

FIGURA 3 – A ontologia do cognitivismo leve

As mudanças nos comportamentos dos atores, dentre outros motivos, ocorrem sobremaneira em razão das modificações nas crenças normativas e nas crenças causais. As primeiras podem ser compreendidas como idéias sistematizadas que procuram criar critérios para diferenciar o certo do errado. As segundas podem ser definidas como crenças sobre as conseqüências das ações que servem como termômetros individuais acerca do que pode ser feito o alcance dos objetivos140.

Se fosse possível dividir o cognitivismo leve em etapas, a seguinte ordem serviria como orientação: surgimento das idéias, conhecimento consensual e processo de aprendizagem. Na verdade, essas três fases podem ser compreendidas com base na concepção de que cada ator, inicialmente, possui uma idéia sobre determinado assunto. Quando os atores tiverem idéias mais homogêneas, especialmente em virtude da existência de pressupostos mais científicos, existe um conhecimento consensual. Nesse último caso, torna-se imprescindível a presença de uma comunidade científica que dê bases e molde às idéias dos atores. Por fim, o processo de aprendizagem pode causar, ou não, alterações nas idéias iniciais dos atores.

140 GOLDSTEIN, Judith; KEOHANE, Robert O. Ideas and foreign policy: an analytical framework. In:

GOLDSTEIN, Judith e KEOHANE, Robert O. (Eds.). Ideas and foreign policy: beliefs, institutions and

political change. Ithaca: Cornell University Press, 1993, p. 3-30.

Conhecimento Interesses Busca por Cooperação

Regime

No princípio de tudo, havia uma idéia. Essa frase contundente destaca o papel que os cognitivistas leves atribuem à idéia, que influencia o comportamento dos atores de três formas. Em primeiro lugar, as idéias oferecem um mapa dos caminhos que podem ser percorridos pelos atores. Nesse contexto, as crenças normativas auxiliam a definição das preferências dos atores, e as crenças causais exercem influência sobre a seleção dos meios mais adequados para fazer valer essas preferências. Em segundo lugar, as idéias, quando amplamente compartilhadas, podem servir como pontos focais. Nesse caso, elas auxiliam os atores a visualizarem as soluções mais adequadas para os seus problemas. Por fim, as idéias, caso sejam incorporadas às estruturas institucionais existentes, podem criar mecanismos para obrigar os atores a fazerem alterações em seus comportamentos141.

O conhecimento, para influenciar a criação e a modificação de regimes, deve ser compartilhado pelos tomadores de decisão. Assim, ele deve estar embasado em argumentos científicos, pois os cientistas tendem a ver os fatos tecnicamente e, portanto, fazem análises mais próximas da realidade. Nesse contexto, a existência de uma comunidade epistêmica, que pode ser definida como uma rede de profissionais de reconhecida competência em uma determinada área de pesquisa, torna-se essencial. Vale destacar que o conhecimento produzido pela comunidade epistêmica só influencia a cooperação internacional se houver elevados graus de incertezas entre os tomadores de decisão, de consenso entre os cientistas e de institucionalização da comunidade científica142.

A existência de um conhecimento científico sobre um assunto que é objeto de discussão entre tomadores de decisão, por fim, faz que eles tenham uma forte propensão à revisão de seus conceitos. As mudanças nas crenças, todavia, podem ou não fazer que os atores modifiquem seus comportamentos. Quando eles decidem fazer algum tipo de alteração nos seus comportamentos iniciais, então, diz-se que ocorreu um processo de aprendizagem143. Ele pode ser simples, se o ator utiliza o novo conhecimento para

141

GOLDSTEIN, Judith; KEOHANE, Robert O., 1993, op. cit.

142 HAAS, Peter, winter 1992, op. cit.

143 HAAS, Peter. Epistemic communities and the dynamics of international environmental co-operation. In:

RITTBERGER, Volker (ed.). Regime theory and international relations. Clarendon Press: Oxford, 1993, p. 168-201.

possibilitar o alcance de um mesmo objetivo, ou complexa, se o ator tem que refazer a sua ordenação de preferências e até mesmo adaptar-se a novos resultados144.