4.1 CICLO 1/GRUPO 1 – EQUIPE DE PRODUÇÃO: CONHECIMENTO SOBRE O
4.1.6 Coleta de dados para avaliação dos efeitos do plano
Apresentamos o relatório do Censo ao grupo e as primeiras impressões foram de aspectos estéticos e/ou técnicos, por exemplo, questionaram o porquê de a legenda ser azul para o gênero feminino e vermelho para o gênero masculino; que algumas opções deveriam estar em ordem crescente e/ou decrescente dependendo do resultado.
A Figura 24 apresenta o gráfico, já com as cores alteradas sobre o gênero dos alunos por nível. Observamos que a maioria dos alunos do Cead/Ifes é do gênero feminino, salvo nos cursos Técnico e Tecnólogo, que há maior número de alunos do gênero masculino.
Figura 24 - Gênero por nível do curso
Fonte: A autora (2012).
Dada a dificuldade entre os participantes sobre o quê propor de mudanças relacionadas ao gênero, trouxemos Ramos (2005), que apresenta um estudo sobre os tipos psicológicos e suas contribuições para a psicologia educacional, organizacional e psicologia clínica, devido a sua relação com o design educacional de uma maneira geral. Resumimos alguns recortes da sua pesquisa relacionada aos gêneros, que aponta tão somente algumas tendências que existiriam.
− O gênero masculino, normalmente, tende aos tipos: pensamento extrovertido e pensamento introvertido. No pensamento extrovertido suas atitudes estão relacionadas
a uma ordem lógica e objetiva das ideias, apesar de aceitar trabalhar colaborativamente, tendem a ser autoritários. No pensamento introvertido, temos a atração pelos pensamentos abstratos e a lógica subjetiva pode apresentar uma personalidade fria.
− O gênero feminino, normalmente, tende aos tipos: sentimental extrovertido e sentimental introvertido. A de tipo sentimental extrovertido tende a permanecer fiel aos valores sociais, costuma ter um grande círculo de amigos, é acolhedora e afável, mas se o sentimento falha pode ter pensamentos de autodesvalorização. A de tipo sentimental introvertido, costuma ler muito, porém tem dificuldade de se estruturar de maneira teórica, pode ter um comportamento autoritário por se julgar sempre correta.
A Figura 25, retirada do Censo, sobre a importância do recurso da EaD utilizado e os gêneros, corrobora em alguns aspectos com Ramos (2005), pois o gênero masculino tende a gostar mais das mídias visuais e são mais autônomos, já que não dão a mesma importância ao apoio do tutor presencial e do tutor a distância, comparado ao gênero feminino.
Figura 25 - Recurso da EaD, por gênero
Fonte: A autora (2012).
Não existe um pensamento comum sobre a validade na melhora do processo de ensino e de aprendizagem se levarmos em consideração os estilos de aprendizagem nos conteúdos educacionais. Por exemplo, o fato de um aluno ser mais auditivo, não implica ‘obrigatoriamente’ em afirmar que ele irá aprenderá mais ou menos se receber seus conteúdos no formato de áudio, mas não podemos negar as diferenças individuais do aluno e aqui se inclui o conhecimento sobre os gêneros também. O Universal Design for Learning corrobora nestes aspectos por sua característica de apresentar conteúdos e atividades de maneira
múltipla, alcançando os alunos com diferentes estilos de aprendizagem e os alunos com deficiência.
Quando apresentado a Figura 26, referente à faixa etária, o grupo ficou muito atento e motivado: "Isso muito me interessa, saber a idade dos alunos. Com essa resposta a gente vai poder ver qual é o curso, qual é a idade. E vamos pensar em desenvolver coisas que possam atender essa pessoa. Por exemplo, pessoas com 60 anos, nada de letras pequenas" (MOEMA, 08/10/2012, informação verbal). Nessa fala, percebemos a preocupação em nível de aspectos técnicos em virtude da formação da maioria do grupo.
A perspectiva do designer educacional é diferente, pois além da preocupação estética e técnica, o aspecto pedagógico é importante, por exemplo, dada às diferenças de idade em um mesmo curso é preciso pensar em práticas que atendam a todos, mas respeitando suas diferenças. Nas atividades individuais, dada a não familiaridade de alguns com a tecnologia, devido ou não à idade, essas deverão ser muito mais detalhada do que para o grupo de nativos digitais. Nas atividades em grupo esta questão é suavizada, pois cada membro do grupo tende a auxiliar nas questões que possui maior domínio de conhecimento, alguns na escrita, outros nas pesquisas e/ou nas ferramentas utilizadas para a apresentação.
Figura 26 - Faixa etária por nível do curso
Fonte: A autora (2012).
Algumas discussões afirmavam a necessidade de se estabelecer correlações entre algumas questões, para ter algo mais próximo à realidade do aluno. Por exemplo, sobre a pergunta relacionada à renda familiar foi questionado: "O salário não define a condição socioeconômica e sim o número de pessoas que sobrevivem com a renda" (MOEMA, 08/10/2012, informação verbal).
Podemos perceber que quanto maior a escolaridade melhor o nível de renda das pessoas, apesar de existirem pessoas com pós-graduação com renda entre um a dois salários mínimos, mas ninguém com menos de um salário mínimo. Podemos afirmar que a condição socioeconômica dos alunos do Cead/Ifes é muito diversa.
A maioria dos alunos é oriunda de escolas públicas, sendo que em muitos municípios do interior do Espírito Santo (ES) não possuem a opção de escolas particulares. Diferente da realidade dos alunos localizados na capital ou próximo a ela, cujos alunos são oriundos de instituições privadas, com maior representatividade de aprovados nas universidades públicas.
Na pergunta sobre o tipo de conexão, para a ‘surpresa’ do grupo a maioria utiliza banda larga, desmistificando a dificuldade de acesso à Internet em alguns municípios do ES. Ainda assim 11 alunos afirmaram usar a conexão discada. Observamos que mesmo as cidades da área urbana apresentavam um caso ou outro isolado de uso da linha discada.
A informação sobre aspectos tecnológicos na EaD é importante, pois a partir dele o designer educacional avaliará os tipos de mídias a ser utilizado e a forma de distribuição mais adequada, algumas opções: ambiente virtual de aprendizagem, CD/pendrive ou até mesmo o uso exclusivo do material impresso. No Cead/Ifes a forma de distribuição das mídias tem sido realizada por meio do ambiente virtual de aprendizagem, no caso o Moodle. Alguns cursos também disponibilizam o material impresso.
Outra questão discutida foi sobre a área de conhecimento e experiência profissional do público-alvo, para facilitar o planejamento da criação das mídias a partir da realidade dos alunos e de seus contextos de aprendizagem, visando à motivação dos alunos a partir das suas experiências. Esta questão é reforçada pelo excerto:
A área de conhecimento é muito interessante para a mídia. Sempre nos colocam muito a questão que a gente tem que trabalhar para também atender a minoria, mas em casos como esse, onde existe a predominância por uma área de conhecimento, acho que a gente pode trabalhar pela maioria. Não sei, mas é a minha visão hoje. Quem fez humanas, mas não é da área de exatas que predomina em determinado curso, acho que essa pessoa deverá se adaptar - Moema, 08/10/2012, informação verbal.
As Figuras 27 e 28 apresentam a área de atuação profissional e a área de formação na graduação por nível de ensino.
Figura 27 - Área de atuação, por nível
Fonte: A autora (2012).
Figura 28 - Área de formação na graduação, por nível
Fonte: A autora (2012).
Apesar de cada nível apresentar uma área em destaque, um designer educacional deve planejar os conteúdos e as atividades de forma a atender a heterogeneidade das turmas e uma possível solução se dá pela resolução de problemas. Uma reflexão a partir de Pozo (1998, p. 160):
[...] para que se configurem verdadeiros problemas que obriguem o aluno a tomar decisões, planejar e recorrer à sua bagagem de conceitos e procedimentos adquiridos é preciso que as tarefas sejam abertas, diferentes umas das outras, ou seja, imprevisíveis. Um problema é sempre uma situação de alguma forma surpreendente.
O grupo apresentou certa passividade inicial durante a apresentação dos resultados do Censo, mas aos poucos a discussão ficou mais ativa, alguns relataram sobre questões que vivenciaram em sua adolescência e que hoje seria considerado bullying, alguns não compreenderam o motivo de questão cultural (Figura 29) ser um dos itens de maior destaque na pergunta relacionado às formas de preconceitos.
Estudar e pesquisar o preconceito é tarefa árdua, mas urgente. Árdua, porque quando se aborda o preconceito, também se deve tratar de como os seres humanos apropriam-se da realidade e agem frente a ela. Urgente, porque o preconceito é uma
construção deturpada da realidade, presente nas ações e emoções do cotidiano (MARTINS, 1998).
Sobre a questão cultural, Moema disse "Posso dar um exemplo. Eu era de São Gabriel da Palha, a maioria é descendente de Italiano, se você não é, acaba sendo discriminado" (08/10/2012, informação verbal).
Figura 29 - Preconceitos, por nível
Fonte: A autora (2012).
Outra questão que chamou a atenção foi o destaque ao preconceito relacionado ao fato de realizar um curso a distância. Essa questão também está relacionada à cultura, pois muitos, ainda definem a EaD como uma educação para as minorias, de baixo esforço e de menor qualidade.
Em determinado momento, novamente, o silêncio dos participantes e expressões de desânimo foram observadas. Esse fato corrobora com a importância dos conteúdos/discussões estarem relacionados às experiências e a motivação de cada indivíduo.
Nas questões em que eles podiam vislumbrar algo, recomeçava a participação, mas em virtude do tempo e o tamanho do documento foi proposto ao grupo uma leitura antes da próxima reunião para discussão sobre os resultados e que tipos de ações poderiam ser implementadas. "De posse dessas informações a gente vai amadurecer e pensar em algumas soluções. Mas agora, sem parar para analisar não dá para pensar nas mudanças, precisamos de um tempo" (MOEMA, 08/10/2012, informação verbal). Posteriormente, somente uma participante assumiu ter lido, mas que ainda precisava amadurecer melhor as informações do Censo.
Outras questões relacionadas à análise de aprendizes e o contexto de onde se dá a aprendizagem que puderam ser encontradas no Censo, dizem respeito:
− Alunos com deficiência, dos 592 respondentes 20 responderam possuir algum tipo de deficiência, sendo: 15 alunos com deficiência visual, três alunos com deficiência auditiva e dois com deficiência motora. Esse fato chamou a atenção do grupo, pois até o momento somente um aluno havia apresentado laudo médico sobre baixa visão. Na opinião de uma pedagoga convidada para participar do grupo, estes alunos ‘invisíveis’ podem significar várias questões.
• Levei os dados do Censo na reunião do NAPEE, nenhum coordenador tinha
conhecimento. Esses alunos não se registraram no sistema acadêmico e nem no ato da matrícula. A sensação que tenho é que estes alunos têm medo do preconceito, da retaliação, tem gente que tem conhecimento dos direitos, vem com advogado, família, já cobrando tudo - Sandra, convidada, 14/12/12, informação verbal.
− 85% dos alunos residiram por mais tempo na zona urbana e 15% na zona rural.
− Dos 592 respondentes, 236 alunos possuem conhecimento em inglês e 104 em espanhol.
− Com relação ao espaço para estudos: 69% responderam ser adequados, 27% consideraram pouco adequado e 4% afirmaram ter um espaço inadequado.
− 82% dos alunos são oriundos das escolas públicas, 10% de escolas particulares e 8% distribuídas, entre pública e particular.
− O computador utilizado para o curso a distância em sua maioria é adequado e utilizado na residência, mas compartilhado por outros membros da família. 37% dos alunos não compartilham seus computadores. A maioria lida de maneira tranquila, mas 6% afirmaram, ainda, precisar de ajuda para realizar um curso a distância.
− Dentre os problemas no polo de apoio presencial, destacou-se: acesso lento a Internet (46%), realização de provas on-line (17%) e há falta de um profissional de Informática no polo (14%).
− 34% dos alunos já haviam realizado um curso a distância anterior ao Cead/Ifes.
− Quanto ao horário disponível para estudar é muito heterogêneo, mas a maioria possui o período noturno e os finais de semana.
As informações apresentadas possuem questões importantes relacionadas ao Design Educacional, por exemplo: a duração das atividades, a motivação e/ou desmotivação causada pelo ambiente de estudo, as questões culturais que devem ser observadas nas leituras e nas atividades propostas, o conhecimento prévio sobre diversos assuntos visando a envolver desde
o aluno com maior dificuldade em determinada disciplina, quanto aquele aluno que precisa de novos desafios.
O meio de transporte utilizado pelos alunos e o tempo de chegada ao polo apresenta-se de maneira muito heterogêneo, variando entre menos de 30 minutos a mais do que duas horas. Algumas análises são possíveis, temos alguns alunos que percorrem um longo trecho a pé para chegar até o polo e outros, apesar do carro próprio demoram a chegar por questões geográficas. Esse fatores têm uma relação direta com a motivação do aluno, 40% dos alunos afirmaram que um de seus maiores desafios para ser um aluno de EaD é o deslocamento até o polo (Figura 30).
Figura 30 - Principais desafios de ser um aluno de EaD
Fonte: A autora (2012).
Algumas questões foram inseridas no Censo visando um Design Educacional inspirado no UDL. A Figura 31 apresenta os diferentes recursos utilizadas na EaD e foi solicitado aos alunos que relacionasse cada um deles com o grau de importância: ‘Não considero importante’, ‘Importante’ e ‘Muito importante’. Observamos que o uso do áudio não foi considerado um recurso muito importante’ pela maioria, talvez pela falta de cultura do Cead/Ifes na utilização nesse tipo de recurso, assim como o chat que tem sido subutilizado segundo registros encontrados em algumas salas virtuais.
Apesar dos tutoriais e dos vídeos serem considerados ‘muito importante’ pela maioria dos alunos, tivemos o destaque para a interação com o tutor a distância e o material impresso. Essa análise reforça o atendimento aos diferentes estilos de aprendizagem sem desconsiderar que o desenvolvimento de outras habilidades é necessário, a fala da Moema sobre esta questão é um pouco contraditória, pois tem a visão da 'obrigatoriedade' da adaptação: "Temos a cultura de pouca leitura e mais televisão. Acho que as pessoas têm que se adaptar, ler é importante, apesar de não ser o preferido de algumas pessoas. Não tem como estudar sem ler" (13/08/2012, informação verbal).
Figura 31 - Sobre os recursos da EaD
Fonte: A autora (2012).
Nas discussões sobre os recursos da EaD foi levantada sobre questões técnicas inerentes a preparação de um vídeo, tutorial e/ou animação. De acordo com o grupo os roteiros enviados pelos professores muitas vezes não são sincronizados. Será mesmo que um vídeo educacional tem que ter o mesmo rigor de um vídeo de publicidade ao preocupar-se com cada cena e o tempo de áudio que ocorre na mesma? Essa questão surgiu várias vezes no grupo e dada à característica do mesmo, predominou a opinião que sim, deve ter o rigor e as técnicas de produção de vídeo.
Um dos desafios do Grupo 1 foi fazê-los perceber que um novo saber era necessário dada a atuação deles na área de educação, repleta de subjetividades e de diferenças.
No Grupo 2, que será discutido a diante, os professores acreditavam que apesar da importância referente à qualidade das mídias, alguns professores sentem-se mais confortáveis em produzir suas mídias de modo amador em seu ambiente de trabalho e/ou residencial,
outros já não possuem tal habilidade, mas sentem-se desconfortáveis em ter que gravar um vídeo em estúdio, por exemplo. Temos aqui uma reflexão importante: Até que ponto o professor precisa mergulhar nas novas tecnologias, desenvolvendo novas habilidades? Podemos inverter essa atividade aos alunos, cuja maioria é nativo digital? Ou será melhor inserirmos narradores profissionais para a criação das mídias que exigem o áudio? O Design Educacional deve atentar-se à motivação dos alunos, mas, não podemos esquecer que os professores também precisam estar motivados em sua atividade enquanto docente.
Outra questão do Censo foi sobre os diferentes estilos de aprendizagem (Figura 32), tendo o destaque para a opção: Praticando e Manuseando o conteúdo (38%) e Lendo e fazendo resumos (37%). Chama-nos a atenção o fato dos alunos na questão anterior considerarem os vídeos e as animações como recursos muito importantes, mas ao serem questionados sobre como aprendem melhor, optam pela prática. Essa questão corrobora sobre a aprendizagem significativa de Ausubel, mas também aponta à importância do uso das mídias na motivação do aluno em seu processo de aprendizagem, Pozo, nos diz que: “[...] não há cognição sem emoção” (2005, p. 110).
Figura 32 - Sobre a aprendizagem
Fonte: A autora (2012).
A Figura 33 corrobora com uma das diretrizes do UDL que deve ser inserida no Design Educacional, ao observarmos que o futuro da EaD almejado pelos alunos está relacionado a múltiplas formas de representação de um mesmo conteúdo e formas diferenciadas de avaliação, mesmo com alguns percentuais de diferença encontrados por nível. Por exemplo, no técnico temos mais de 20% dos alunos que desejam o uso da Tecnologia 3D.
Figura 33 - Futuro da EaD
Fonte: A autora (2012).