CAPÍTULO 2 – COMANDO E CONTROLE NAS FORÇAS SINGULARES
2.1 COMANDO E CONTROLE NA MARINHA DO BRASIL
Segundo Félix (2008, p. 8): “[e]m todas as marinhas, desde os tempos mais remotos, as funções de comandar e controlar sempre estiveram presentes. Elas são as bases de todos os planejamentos e da execução de todas as operações”.
A importância do C² para uma Força Naval, além de ser primordial para o trâmite de informações desta com seu comando superior, também reside na eficaz e segura troca de informações entre seus meios. Conhecer o posicionamento de suas unidades, de unidades neutras e, dentro do possível, das unidades inimigas é essencial para a tomada de decisão, ao passo que um eficaz e confiável sistema de comunicações é primordial para a transmissão, execução e acompanhamento das decisões.
Após a tragédia de 11 de setembro de 2011, enquanto os Estados Unidos da América buscavam aperfeiçoar a proteção e segurança de seus cidadãos, “surgiu naquele país o conceito de Maritime Domain Awarness (MDA), entendido em português como Consciência dos Domínios Marítimos” (GARCIA, 2008, p. 21). Conforme Garcia, essa conscientização marítima implica em possuir informações oportunas e fidedignas a respeito de todas as áreas e fatos relativos a um mar, oceano ou outra via navegável. Isto inclui todas as atividades marítimas relacionadas,
infraestrutura, pessoas, carga, navios ou outros meios que deveriam ser do conhecimento e controle do Estado.
Faria (2012) realça o fato de que a vulnerabilidade do setor marítimo gerou a necessidade de se obter o domínio e o conhecimento dos fatos advindos do mar. Assim, o conceito de Consciência do Domínio Marítimo trata do efetivo entendimento de qualquer fato, associado com o domínio marítimo global, que possa impactar na segurança e defesa, na economia ou no meio ambiente.
No contexto nacional, a Marinha do Brasil (MB), para contribuir com a garantia da soberania nacional, cumprir com as responsabilidades na área Salvamento e Resgate (SAR) do país e atender às diretrizes estabelecidas na END, busca dispor de um Poder Naval6 que, além de possuidor de outros requisitos, seja integrado por um sistema de C² “essencial ao pleno exercício da soberania nacional em uma área tão rica quanto extensa” (BORGES, 2007, p. 13). Os sistemas navais de C² devem contribuir para o processo de tomada de decisão da Autoridade Marítima, no que se refere à fiscalização de todas as atividades realizadas nas águas jurisdicionais brasileiras e no acompanhamento e patrulhamento do tráfego marítimo e fluvial de embarcações na sua área de responsabilidade.
A par dessas considerações iniciais, o Manual de Comunicações da Marinha do Brasil apresenta o C² naval como:
Uma atividade fundamental para o êxito das operações militares em todos os escalões de comando. Como atividade especializada, sua execução se baseará em uma concepção sistêmica, com métodos, procedimentos, características e vocabulário que lhe são peculiares. Vincula e permeia todas as atividades operacionais e de apoio, sincronizando-as e permitindo ao comandante adquirir e manter o indispensável nível de consciência situacional para a tomada de decisões adequadas às circunstâncias do ambiente operacional, para a expedição de ordens e para o controle de sua execução (BRASIL, 2006b, p. 12).
Viveiros (2007) descreve que o C² na MB possui seu arcabouço doutrinário previsto em publicações normativas emitidas pelo Estado-Maior da Armada (EMA), pelo Comando de Operações Navais (ComOpNav), pela Diretoria-Geral de Material da Marinha (DGMM) e pela Diretoria de Comunicações e Tecnologia da Informação _____________
6 O Poder Naval é o componente militar do Poder Marítimo de uma nação e compreende os meios navais, aeronavais e de fuzileiros navais; as bases; as estruturas de comando e controle, de logística e administrativa.
da Marinha (DCTIM). Nesse contexto, a MB estabelece os princípios e diretrizes aplicáveis ao C² em publicações diferentes, em que pese, nos dias atuais, as atividades de tecnologia da informação e comunicações (TIC) convergirem e serem tratadas conjuntamente no âmbito do C².
De acordo com o manual Doutrina de Comunicações da Marinha (BRASIL, 1999), que trata do Sistema de C² da Marinha (SISCOM)7, cabe ao ComOpNav, estabelecer os requisitos de C² para situações de conflito, bem como verificar seus atendimentos, ressaltando que as atividades de C² devem ser realizadas desde o tempo de paz, visando manter seu aprestamento. A DGMM cabe planejar, coordenar e normatizar as atividades de C² da MB; tais ações devem ser coordenadas com o ComOpNav e assessoradas pela DCTIM.
Já no contexto da tecnologia da informação (TI), cujos pressupostos doutrinários na MB são definidos pela Doutrina de Tecnologia da Informação da Marinha (BRASIL, 2007), identificam-se como princípios aplicados ao C², o estabelecimento de uma infraestrutura de TI que permita a conectividade dos meios envolvidos em um teatro de operações e destes com organizações de terra que os possam suprir de informações necessárias à execução das tarefas básicas do Poder Naval.
De acordo com o manual Doutrina de Comunicações da Marinha (BRASIL, 1999), independentemente do emprego associado da TI, bem como do contexto do C², são requisitos fundamentais atinentes às comunicações navais: a confiança (garantia de que as comunicações expedidas alcançarão o destinatário); a segurança (garantia de preservação contra violações ou revelações não desejadas); a rapidez (garantia de encaminhamento em tempo compatível); a flexibilidade (possibilidade de emprego de meios alternativos) e a integração (capacidade de um sistema de comunicações integrar-se a outro), cuja importância relativa de cada um é dependente da atividade de comunicações navais em execução.
Por seu turno, o manual Normas Para a Troca de Informações no Sistema Naval de Comando e Controle (SisNC²) (BRASIL, 2014a), do Comando de Operações
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7 O SISCOM, de acordo com a Doutrina de Comunicações da Marinha (BRASIL, 1999), constitui-se no conjunto de meios materiais, recursos humanos e normas, estruturados para o exercício das atividades de C² na MB.
Navais, define que a estrutura do SisNC² é formada pelos Centros: de Comando do Teatro de Operações Marítimas (CCTOM) - que é o órgão central e responsável pela interligação com o SISMC², de Comando dos Distritos Navais (CCDN), de Comando da Esquadra (CCESQ), do Comando da Força de Fuzileiros da Esquadra (CCFFE), de Comando do Controle do Tráfego Marítimo (CCTraM), de Comando da Força no Mar (CCFMar) e de Comando da Força em Terra (CCFTer). A interligação entre esses Centros é feita por meio da Rede de Comunicações Integradas da Marinha (RECIM)8
e pelo Sistema de Comunicações Militares por Satélite (SISCOMIS)9.
Figura 8 – estrutura do Sistema Naval de Comando e Controle
Fonte: o autor
Além dos aspectos citados, Daros (2007) destaca que o Sistema Naval de C² é definido pelo ComOpNav como um conjunto integrado de instalações, equipamentos, comunicações, doutrinas, procedimentos e pessoal essenciais para o comandante planejar, dirigir e controlar as ações da sua organização visando atingir uma
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8 Rede que interliga as estações terrestres fixas e navios atracados por meio de linhas físicas ou enlace de micro-ondas (BRASIL, 2007b).
9 O SISCOMIS é o principal canal de comunicação de dados militares operacionais, sendo composto por um segmento espacial e um terrestre. Trata-se de uma infraestrutura de Tecnologia da Informação (TI) completa para enlaces digitais, por meio de satélites de comunicações e de enlaces terrestres.
determinada finalidade, abrangendo, em sua estrutura, os níveis de decisão operacional e tático. Para o autor, a exploração da atividade de C² no SisNC² será realizada por meio de Centros de Comando (CC) principal, secundários, periféricos e eventuais. O CC do Teatro de Operações Marítimo (CCTOM) é o principal, e está ligado diretamente aos secundários. Estes são os seguintes: CC do Comando do Controle Naval do Tráfego Marítimo (CCTRAM), CC dos Distritos Navais (CCDN), CC de Operações da Esquadra (COE), CC da Força de Fuzileiros da Esquadra (CCFFE) e CC da Diretoria de Hidrografia e Navegação (CCDHN). Os demais CC são os periféricos, ligados aos CC secundários, e os CC eventuais, ligados diretamente ao CCTOM. Dessa maneira, o SisNC² foi desenvolvido para apoiar o processo de tomada de decisão do Comandante do Teatro de Operações Marítimo e possui como seu órgão central o Centro de Comando e Controle do Teatro de Operações Marítimo (CCTOM).
Considerando os sistemas previamente apresentados, a principal atenção do SisNC² deve ser a movimentação de navios militares estrangeiros ou de outros navios de Estado. Essas movimentações, por suas especificidades, devem ser previamente autorizadas pelo Estado-Maior da Armada, sendo efetivamente controladas pelo Comando de Operações Navais. É importante destacar que o SisNC² já tem acesso às informações do Sistema de Informação Sobre o Tráfego Marítimo (SISTRAM), reforçando o conceito de interoperabilidade entre os sistemas da MB.
Outra questão fundamental é conhecer como está configurada a arquitetura de C² naval e observar de que maneira os dados são convertidos em informações. Igualmente central é verificar se os sensores, transmissores e computadores possuem medidas de desempenho, referenciadas como a disponibilidade e a confiabilidade.
Conforme Daros (2007), o SisNC² para exercer o monitoramento e o controle das áreas marítimas e fluviais de interesse, nos níveis estratégico e operacional, recebe informações dos seguintes sistemas:
a) Sistema de Identificação Automática (AIS, em inglês) que permite a identificação e monitoramento de navios sem a necessidade de comunicação por voz. O AIS transmite e recebe, na faixa de rádio VHF, informações de um determinado navio no mar disponibilizando nome, indicativo internacional, tipo de navio, posição, rumo, velocidade, carga e porto de destino. Por exigência da emenda à Convenção
SOLAS-7410, a instalação do equipamento é obrigatória em navios mercantes com tonelagem superior a 300 toneladas envolvidos em viagens internacionais, navios de passageiros e navios de carga com mais de 500 toneladas. De modo a permitir o controle de embarcações na área marítima brasileira, é necessário estabelecer estações em terra que façam a interrogação das embarcações. Existem 39 estações fixas de AIS situadas o longo da costa brasileira, bem como 63 estações instaladas em navios da MB;
b) Sistema de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélites (SREPS) que realiza o acompanhamento remoto da posição das embarcações de pesca por meio do recebimento de sinal do Sistema de Posicionamento Global (GPS, em inglês) hospedado nas embarcações de pesca. Esse programa foi instituído por iniciativa conjunta da Marinha do Brasil, do Ministério da Pesca e Aquicultura e do Ministério do Meio Ambiente, para fins de monitoramento, gestão pesqueira e controle das operações da frota pesqueira. A participação no PREPS é obrigatória para todas as embarcações pesqueiras com comprimento total igual ou superior a 15 metros, e inclui embarcações de pesquisa pesqueira. A embarcação participante do PREPS possui um equipamento com um botão de “pânico” que ao ser acionado gera um aviso de socorro e e-mails automáticos para os centros de coordenação de Salvamento e Resgate (SAR), alertando sobre o ocorrido (ROBERTO, 2012).
c) Sistema de Informação Sobre o Tráfego Marítimo (SISTRAM) que tem por propósito manter o acompanhamento da movimentação de embarcações na área de responsabilidade SAR do Brasil. Sua importância foi comprovada quando do acidente com a aeronave da Air France, no dia 31 de maio de 2009. O conhecimento do posicionamento dos navios mercantes próximos da área do sinistro, possibilitou que os mesmos fossem orientados para a área com o objetivo de prestar auxílio (GARCIA, 2008);
d) Sistema de Identificação e Acompanhamento de Navios a Longa Distância (LRIT, em inglês), que teve sua concepção a partir da iniciativa norte-americana de monitorar, à maior distância possível da sua costa, os navios no mar, de modo a permitir, a tempo, uma reação a qualquer ato de terrorismo contra seu território. Esse _____________
10 Convenção da International Maritime Organization para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar, tradução do termo em inglês Safety of Life at Sea (SOLAS).
sistema de identificação e acompanhamento não é um AIS de longo alcance, como seria possível imaginar, pois o AIS produz, automaticamente, uma emissão aberta de informações por rádio VHF. Por seu turno, o LRIT prevê o envio de informações (identificação do navio, posição e hora) por parte do navio, via satélite, somente para um endereço de e-mail pré-estabelecido, que são os Centros de Dados do LRIT designado pelo respectivo governo contratante (GARCIA, 2008); e
e) Sistema Integrado de Radiogoniometria (SIR), composto por um conjunto de estações radiogoniométricas11 distribuídas ao longo da costa brasileira que, por meio do monitoramento e da interceptação de sinais eletromagnéticos na faixa HF de rádio, determinam a posição no mar de uma estação emissora. Cabe destacar que esse sistema tem sua eficiência reduzida ao longo do tempo, visto que, cada vez menos as comunicações no mar são realizadas na faixa de HF (ROBERTO, 2012).
Dessa forma, o sistema de C² naval é capaz de proporcionar a ampliação da consciência situacional, o incremento da velocidade do processo decisório e o aperfeiçoamento do controle da ação planejada por intermédio de sistemas dedicados, os quais coletam e compartilham dados e informações de interesse da Amazônia Azul12. A vigilância dessa área marítima promove a garantia da soberania brasileira, apoiando o processo de tomada de decisão da autoridade marítima de modo a conduzi-lo a escolhas adequadas e oportunas.
Além disso, o sistema naval tem a capacidade de interagir de forma integrada com outros sistemas nacionais, como o Sistema Militar de Comando e Controle (SisMC²) do MD, o Sistema de Monitoramento e Vigilância de Fronteiras (SisFron) do Exército Brasileiro e o Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro (SisDABra) da FAB. Portanto, a vigilância e o monitoramento de grandes áreas marítimas pressupõem a análise de grande quantidade de dados heterogêneos, advindos de fontes diversas.
No contexto nacional, esse quadro de complexidade é agravado pelo perfil territorial brasileiro, com extenso litoral a ser vigiado e a possibilidade de o Brasil _____________
11 Radiogoniometria é o método que tem por objetivo determinar, mediante o emprego de sinais radioelétricos, a direção entre duas estações, uma transmissora e outra receptora.
12 A Amazônia Azul representa a extensão atlântica, além do litoral e das ilhas oceânicas brasileiras, sobre a qual o Estado possui responsabilidades, reconhecidas pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). O mar territorial brasileiro equivale a aproximadamente 3,6 milhões de quilômetros quadrados. Esta área poderá ser ampliada para 4,4 milhões de quilômetros quadrados em face da reivindicação brasileira junto à Comissão de Limites das Nações Unidas (VIDIGAL, 2006).
estender os limites de sua plataforma continental, com vastas reservas de recursos naturais de elevado valor econômico, devendo, portanto, dispor de meios para exercer a vigilância, o controle e a defesa de suas águas jurisdicionais, conforme citado na minuta da Política Nacional de Defesa (BRASIL, 2016).
Sendo assim, no âmbito da Marinha do Brasil, o C², no nível estratégico, está voltado para o monitoramento da área de responsabilidade de busca e salvamento do país, e para a fiscalização e manutenção da soberania nas águas marítimas nacionais. No nível operacional, os sistemas de comando e controle auxiliam o Comandante do Teatro de Operações Marítimas na realização de suas tarefas e, no nível tático, esses sistemas de consciência situacional permitem uma eficiente compilação de dados, necessários ao emprego de uma força-tarefa naval.
Por fim, o sistema naval de C² permite ao Comando de Operações Navais (CON) ter uma visão dos meios que trafegam na área de responsabilidade do Brasil ou em um teatro de operações determinado, ao proporcionar acurada consciência situacional da área marítima, e, consequentemente, uma rápida reação a eventuais ameaças detectadas e identificadas, contribuindo para a proteção e a defesa do espaço marítimo nacional.