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COMANDO E CONTROLE NO EXÉRCITO BRASILEIRO

No documento INSTITUTO MEIRA MATTOS (páginas 63-70)

CAPÍTULO 2 – COMANDO E CONTROLE NAS FORÇAS SINGULARES

2.2 COMANDO E CONTROLE NO EXÉRCITO BRASILEIRO

O Comando e Controle no Exército Brasileiro é estruturado pelo Sistema de Comando e Controle do Exército (SC²Ex) que possui duas vertentes: o Sistema Estratégico de Comando e Controle do Exército (SEC²Ex) e o Sistema de Comando e Controle da Força Terrestre (SC²FTer). O SC²Ex tem como órgão central o Estado-Maior do Exército (EME).

Segundo o Manual de Campanha EB20-MC10.205 - Comando e Controle, o SEC²Ex utiliza a base física instalada em tempo de paz e tem a missão de proporcionar o apoio integrado ao processo decisório em todos os níveis organizacionais. Por seu turno, o SC²FTer gerencia a informação operacional e exerce o apoio integrado ao processo de C² no preparo e no emprego operativo da Força Terrestre. Dessa forma, o manual de Comando e Controle apresenta que “o SC²FTer interliga-se ao SEC²Ex para o atendimento das necessidades de preparo e de emprego da FTer” (BRASIL, 2015a, p. 4-6).

A figura a seguir ilustra como o SEC²Ex interage no preparo do Exército ao aproximar os vários processos relacionados ao SC²FTer às áreas funcionais de logística, mobilização, pessoal, ensino, cultura, operações, ciência e tecnologia, economia e finanças.

Figura 09 - Concepção Lógica do SC²Ex

Fonte: Manual EB20-MC-10.205, Comando e Controle (2015a).

O SC²FTer integra o SisMC² ao Centros de Comando e Controle das demais Forças, ou órgão civis ou militares por intermédio do Centro de Comando e Controle da Força Terrestre (CC²FTER) (BRASIL, 2015a). Destaca-se que, o CC²FTer, operado pelo Comando de Operações Terrestres (COTER), apoia o emprego em campanha da F Ter por meio dos sistemas operacionais de combate relativos à manobra, inteligência, apoio de fogo, defesa antiaérea, mobilidade, proteção e logística.

Verifica-se que a estrutura do Sistema de Comunicações do Exército (SisCOMEx) é composta pelo Sistema Estratégico de Comunicações (SEC) e pelo Sistema Tático de Comunicações (SISTAC). Conforme a análise de Cordeiro (2014), o SisCOMEx é a infraestrutura de tecnologia da informação que viabiliza a ligação entre os níveis de comando no espaço de batalha. Ela é o meio pelo qual as informações são coletadas, monitoradas, armazenadas, processadas, fundidas, disseminadas, apresentadas e protegidas.

Dessa maneira, o SEC é o conjunto de meios de comunicações e canais privativos utilizados pelo Exército desde o tempo de paz. “Ele destina-se a assegurar as ligações necessárias ao alto comando do Exército, aos Grandes Comandos, às Guarnições Militares em suas sedes ou a qualquer escalão estacionado no exterior”

(BRASIL, 2015a, p. 4-8). O SEC é composto pela Rede Corporativa do Exército (EBNet), pelas Redes Rádios Fixas e pela Rede Integrada de Telecomunicações do Exército. Ressalta-se também, sua integração com o SISCOMIS e o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON). O sistema engloba uma base física e uma estrutura flexível que provê a F Ter uma composição que facilita a passagem da situação de preparo para a de emprego, sem profundas alterações no sistema.

Segundo o General Juarez Aparecido de Paula Cunha, antigo Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT), em palestra ministrada na ECEME no ano de 2016, o órgão central do SEC é o Centro Integrado de Telemática do Exército (CITEX) que tem a missão de proporcionar as bases física e lógica13 para o funcionamento do SEC²Ex e sua integração ao SC²FTer e ao Sistema Militar de Comando e Controle (SisMC²). Subordinados ao CITEX há sete Centros de Telemática de Área (CTA) e cinco Centros de Telemática (CT). Esses são encarregados de apoiar o Comando Militar de Área, ou a Região Militar ao qual estiver vinculado. Esses 13 elementos formam o Sistema de Telemática do Exército (SisTEx) (BRASIL, 2015).

Para reforçar a relevância do C² estratégico, as Normas Relativas à Organização e ao Funcionamento das Estações Rádio da Rede Rádio Fixa do Sistema Estratégico de Comunicações destacam que a Rede Rádio Fixa (RFF) é o meio de contingência do SEC que opera, de forma ininterrupta, na faixa de alta frequência (High-frequency). Por ela, é possível a transmissão de dados, de voz (fonia), a integração radio-telefone e telegrafia (BRASIL, 2003). De acordo com a referida norma, “a RRF subdivide-se em uma Rede Rádio Fixa Principal (RRFP) e em Redes Rádio Fixas Secundárias (RRFS). A RRFP é formada pela Estação Rádio pertencente ao CITEx, e pelas estações próprias dos CTA e CT” (BRASIL, 2003, p. 17). Abaixo ilustram-se as 13 estações que compõem a RRFP dedicadas ao C² estratégico e de maneira redundante ao C² operacional.

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13 A base lógica, na área de TI, refere-se ao conjunto de todas as atividades e soluções providas por recursos de computação que visam a produção, o armazenamento, a transmissão, o acesso, a segurança e o uso das informações (FREITAS, 2006, p. 85).

Figura 10 - Diagrama das Redes Rádio Fixa Principal e Secundária

Fonte: Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército.

Outra estrutura de C² do SEC é a Rede Integrada de Telecomunicações do Exército (RITEx). Conforme Freitas (2006), a rede surgiu em 1994 para estabelecer comunicações telefônicas privativas entre todos os Comandos Militares, com maior segurança e praticidade. Para tanto, aproveitava-se de Linhas Telefônicas Privativas contratadas da Empresa Brasileira de Telecomunicações (EMBRATEL) para a transmissão de telegrafia automatizada, que eram compartilhadas com sinais de voz.

Ainda consoante Freitas (2006), em 1999, uma rede do tipo Frame Relay14 foi contratada da empresa pública SERPRO, que atua como integradora da administração federal, a fim de ligar o Alto Comando do Exército aos Comandos subordinados de cada região do país. Embora o objetivo inicial fosse a transmissão de dados, posteriormente houve a convergência do canal de voz da RITEx para ela, gerando economia para a Força, ao substituir a infraestrutura de C² privada da EMBRATEL, por uma governamental do SERPRO.

Atualmente, sob gestão do CITEx e suas Organizações Militares subordinadas, a RITEx trafega sobre a rede de dados corporativa do Exército (EBNet). Para tanto _____________

14 Tecnologia de comunicação em rede que não possui controle de erros e de fluxo, e baseia-se na divisão das informações digitais a serem transmitidas em quadros (TANENBAUM; WETHERALL, 2011, p. 357)

utiliza a transmissão de voz em tecnologia Voz sobre IP (VoIP)15, eliminando a necessidade da contratação de canais privativos onde as redes metropolitanas do Exército alcançam.

Para gerenciar nacionalmente o C² estratégico do EB destaca-se a Rede Corporativa Privativa do Exército (EBNet) que agrupa serviços de comunicação digital de dados, voz e imagem. Ela serve, ainda, de infraestrutura para o compartilhamento de informações entre as Organizações Militares e dos serviços abrigados no sítio do CITEx, órgão responsável por seu gerenciamento (FREITAS, 2006).

Na referida palestra ministrada na ECEME em 2016, o General Juarez analisou que a EBNet é a principal estrutura estratégica de telecomunicações do Exército Brasileiro. Seu backbone16 é contratado da EMBRATEL e liga o CITEx aos CT/CTA, formando uma rede análoga à Rede Rádio Fixa Principal, baseado na tecnologia IP/MPLS17. Por sua vez, os CT/CTA formam redes metropolitanas (MAN18) e se conectam às Organizações Militares em nível regional. As organizações que não são cobertas por essas MANs utilizam o método de Acesso Remoto Seguro (VPN19). Essa estrutura capilar abrange 545 OM e representa mais de 150 pontos de presença em todo o país (BRASIL, 2014).

No que tange ao Sistema Tático de Comunicações (SISTAC), o Manual do Exército Brasileiro C-11-1, Emprego das Comunicações, faz referência ao conjunto de meios de comunicações e informática pertencente às Organizações Militares Operacionais, destinados ao preparo e emprego de tropas. Sua utilização ocorre em missões de adestramento ou em operações de campanha, possui enlaces com menor capacidade e maior mobilidade (BRASIL,1997). O referido manual descreve que a finalidade básica do SISTAC é ligar um comando a seus subordinados. Dessa forma,

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15 VoIP é a abreviação para "Voz sobre IP", proveniente do inglês Voice over Internet Protocol. Também conhecida como telefonia IP ou telefonia em banda larga, o VoIP consiste no roteamento da conversação através da internet ou de uma rede de computadores específica, transformando as informações faladas em dados passíveis de serem transmitidos pela internet.

16Backbone é uma rede principal por onde os dados dos usuários da internet trafegam. Ele controla o esquema de ligações centrais de um sistema mais abrangente com elevado desempenho.

17 MPLS sobre IP é um protocolo de comutação da camada de rede (TANENBAUM; WETHERALL, 2011, p. 357).

18Metropolitan Area Network: rede que abrange uma geograficamente próxima, com frequência uma cidade (TANENBAUM; WETHERALL, 2011, p. 23).

19Virtual Private Network é um tipo de conexão que se sobrepõe à rede pública, fornecendo segurança à comunicação (TANENBAUM; WETHERALL, 2011, p. 821).

esse sistema envolve o estabelecimento de centros de C² que servem a postos de comando específicos e podem apoiar, também, unidades e instalações situadas em suas proximidades (BRASIL,1997, pp. 4-16).

De maneira complementar, o Manual de Campanha Comando e Controle apresenta as seguintes capacidades do SISTAC: gerência de redes, gerência de serviços, proteção cibernética, gerência de informações visuais, interface e integração, instalação e comunicações (BRASIL, 2015a, pp. 4-8).

Ao analisar o SISTAC, destaca-se o Sistema de Comunicações de Área (SCA) como um subsistema que envolve o estabelecimento de centros nodais (CN)20, tendo em vista atender os locais de maior concentração de unidades no terreno e as operações futuras. O SCA, representado na figura abaixo, é constituído por assinantes móveis e fixos, dotado de transmissões automatizadas, de modo a cobrir a área de operações, assegurando ao usuário encontrar próximo, uma porta de entrada. Ainda, o Manual C 11-61, Comunicações na Divisão de Exército, apresenta o sistema à semelhança dos telefones móveis integrantes de uma malha de telefonia celular (BRASIL,1995, p. 3-2).

Figura 11 - SCA de uma Divisão de Exército

Fonte: Brasil (1995, p. 3-10). _____________

20 Os CN são os nós troncais do sistema, com a função central de trânsito, para onde convergem todas as ligações e, através de enlaces de grande capacidade de tráfego (BRASIL,1997, p.4-24).

Cabe ressaltar que o SCA tem acesso ao Sistema Nacional de Telecomunicações e às estações fixas ou móveis do Sistema de Comunicações Militares por Satélite (SISCOMIS) desdobradas em uma área de operações. Dessa forma, permite o estabelecimento de ligações com outros elementos, inclusive fora de um Teatro de Operações, o que aumenta as possibilidades de rotas alternativas de comando e controle.

Sendo assim, o Manual C-11-1, Emprego das Comunicações aponta que essas estruturas são dotadas de tecnologia que permitem aos seus assinantes móveis e fixos o estabelecimento de ligações automáticas, seguras e imediatas para qualquer parte da zona de ação. Sua distribuição em determinada Área de Operação é feita de forma celular, assegurando que o usuário, aonde quer que se encontre, tenha sempre próximo a ele uma porta de entrada ao sistema (BRASIL, 1997).

No que tange ao material de C² do SISTAC, a aquisição dos equipamentos é centralizada pelo Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército (CComGEx), desde 2010. Essa medida aperfeiçoou as funções logísticas de suprimento de manutenção, ao levar em conta o ciclo de vida do material. Tal convergência proporcionou as Organizações Militares um incremento na quantidade e qualidade do material empregado nas operações (BRASIL, CComGEx, 2014).

Atualmente, o SISTAC utiliza o sistema APCO 2521, com equipamentos fornecidos pela Motorola, e outro sistema rádio digital multibanda da empresa Harris (família FALCON RF-7800). Nas viaturas militares, foi adotado um Sistema Multimídia para Intercomunicação Veicular (SOTAS) da empresa brasileira Omnisys (subsidiária da companhia francesa Thales). Tais sistemas dotam o SC2FTer com capacidades de consciência situacional, planejamento e gerenciamento de operações, tratamento de incidentes, sincronização das ações ou apoio à decisão. Ainda, permitem o estabelecimento de um sistema físico de C² operacional, capaz de transmitir e receber dados e voz integrados.

No contexto do SC²FTer, cabe destacar o Sistema de Apoio a Decisão, C² em Combate (C²Cmb), iniciado em 2003 e composto pelo software de C² e a infraestrutura de telecomunicações. O sistema agrega uma série de ferramentas de apoio à decisão,

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todas digitais e, na sua maioria, georreferenciadas, facilitando sua utilização pelos decisores. O C²Cmb, conforme análise de Cordeiro (2014), é uma ferramenta de apoio a decisão e foi desenvolvido para que sua distribuição seja livre de quaisquer custos de licenciamento para utilização. O programa é baseado em banco de dados e em software de sistema de informações geográficas de código aberto, totalmente integrado à interface de usuário, a qual pode ser executada tanto em plataformas Windows quanto Linux. O sistema está configurado para funcionar sob forma distribuída, ou seja, sem emprego de um servidor central, mesmo operando sobre redes HF22.

Cabe destacar que o C²Cmb é um sistema de C² vital para as operações militares da F Ter, possibilitando a formação da consciência situacional, a sincronização das ações entre os elementos envolvidos, bem como o tratamento de incidentes ocorridos ao simular múltiplos cenários táticos. O programa é uma ferramenta de apoio à decisão para permitir a condução de operações militares, de qualquer natureza e foi usado pelo Comando de Operações Terrestres, na Força de Paz no Haiti, desde 2005 e nas ligações diárias com os Comandos militares de Área. Portanto, os Sistemas de C² do Exército Brasileiro são robustos e foram concebidos de forma a se integrarem. No SEC, ressalta-se o princípio da confiabilidade, obtida pela Rede Rádio Fixa que serve de meio de contingência para todo o sistema. Destaca-se, ainda, o papel da EBNet nesse sistema. Nela estão hospedados todos os serviços computacionais corporativos da Força Terrestre, o que integra todas as Organizações Militares em território nacional e no exterior. No SISTAC foi caracterizado o fundamento da amplitude de desdobramento ao estar estruturado de maneira a permitir o apoio necessário às tropas em operações.

No documento INSTITUTO MEIRA MATTOS (páginas 63-70)