• Nenhum resultado encontrado

1.5 IDENTIFICAÇÃO E QUANTIFICAÇÃO DE ALGUNS INTERESSES PROTEGIDOS

1.5.15 COMO IDENTIFICAR O MERO DISSABOR/ABORRECIMENTO

É inerente à vida humana o conflito de interesses, o choque de ideias, a beligerância e até mesmo animosidade decorrente das diferenças entre as pessoas. Por mais paradoxal que seja, é bom que haja um nível mínimo de conflitos, discordâncias e desacordos, uma vez que dessa forma o ser humano passa a ter empatia pelo outro, passa a se colocar no papel do outro no sentido de buscar compreensão das diferenças e do respeito das mesmas. Assim, pessoas, ideias e interesses se chocam, isso é a vida, de modo que “aborrecimentos comuns do dia a dia, meros dissabores normais e próprios do convívio social, não são suficientes para originar danos morais indenizáveis” (trecho do voto do Relator do Recurso Especial n. 1652567/PA, Ministro Ricardo Villas Bôas Cuevas, em julgamento realizado perante o Superior Tribunal de Justiça, com acórdão publicado dia 29/08/2017).

Deste modo, o mero dissabor ou mero aborrecimento veio sendo construído pela jurisprudência brasileira em casos concretos, onde “se reconhece a ocorrência de um ilícito que causou uma interferência na situação jurídica extrapatrimonial do indivíduo, mas se nega que essa interferência seja tamanha, a ponto de existir dano moral” (VERBICARO; PENNA E SILVA; LEAL, 2017, p. 90). Nesse sentido, acentua Ernest Weinrib que não é qualquer dano ou desvantagem que será considerada uma injustiça para os propósitos da compensação por danos (WEINRIB, 2013, p. 26).

Assim, mesmo havendo violação a um interesse tutelado, é possível rechaçar a indenização por danos morais de gravames que se equiparam a miudezas do cotidiano, a problemas corriqueiros que todos enfrentam nas batalhas do dia. Nessa linha, um atraso de voo de 15 minutos causa um dano existencial que se compara ao elevador parado de um prédio que force os condôminos a subirem de escada; atraso na informação de que, em virtude da incompatibilidade curricular, a estudante retornaria significativos períodos do curso de enfermagem em sua transferência

universitária39; desconto em conta corrente de parcela de mensalidade relativa a revista que não

teve o contrato renovado40; o dano por paralisação do serviço de internet por alguns minutos é

comparável à porta que se encontra emperrada, tornando necessário acionar um chaveiro; o vício de um eletrodoméstico que foi adquirido e teve que ser levado à loja para a substituição é equiparável à uma entrada fechada da faculdade que exige a volta no quarteirão à pé para entrar pela entrada liberada. Em todos estes casos eventual pedido de dano moral deve ser julgado improcedente, sob pena de suportar-se o crescimento da hipersensibilidade que torne inviável a vida em sociedade, como explica Antônio Santos Jeová:

Há pessoas que diante de qualquer pretexto, ficam vermelhas, raivosas, enfurecidas. Não se pode dizer que não houve lesão a algum sentimento. Seria proteger alguém que não suporta nenhum aborrecimento trivial, o entendimento que o dano moral atinge qualquer gesto que cause mal-estar. Simples desconforto não justifica indenização. Existe um mínimo de incômodos, inconvenientes ou desgostos que, pelo dever de convivência social, há um dever geral de suportá-los. Existe um piso de inconvenientes que o ser humano tem de tolerar, sem que exista o autêntico dano moral (2015, p. 79/81).

Outros exemplos de mero dissabor/aborrecimento são fornecidos por esse mesmo autor: se um motorista xinga outro depois de uma manobra arriscada ao volante, não se vá inferir que adveio dano moral; desabafo de cliente com o funcionário mais próximo e que passe mais tempo ouvindo- a; árbitro de futebol que, no estádio ouve de torcedores enraivecidos adjetivos pouco recomendáveis (2015, p. 81).

A grande celeuma se instaura quando o Poder Judiciário passa a estender o manto do mero dissabor/aborrecimento para situações concretamente caracterizadoras de dano moral indenizável, nivelando o nível ético da sociedade por baixo e não contribuindo em nada para estabelecer diretrizes de comportamentos intoleráveis no bojo da convivência em sociedade. Manifesta-se profunda revolta diante de pretensões indenizatórias julgadas improcedentes relativas à espera de

39 Trata-se de julgado do Superior Tribunal de Justiça, que, no julgamento do Recurso Especial 1655126/RJ, com

acórdão publicado dia 14/08/2017, de Relatoria da Ministra Nancy Andrigui, asseverou que “nem toda frustração de expectativas no âmbito das relações privadas importa em dano à personalidade, pois é parcela constitutiva da vida humana contemporânea a vivência de dissabores e aborrecimentos”.

40 Nesse sentido já decidiu o Tribunal de Justiça de São Paulo, no julgamento da Apelação n. 0000898-

32.2013.8.26.0495, de Relatoria do Desembargador Caio Marcelo Mendes de Oliveira e acórdão publicado dia 21/08/2014.

4 horas em fila de banco; envio não autorizado de cartão de crédito41; atraso na entrega de imóvel;

pequenos acidentes de consumo; agressões verbais de vizinho ou colega de trabalho; alimentos contendo corpo estranho, dentre outras. Em todas essas circunstâncias o dano experimentado não se equipara ao elevador parado e a porta emperrada, não possuindo o mesmo nível de problemas enfrentados no dia-a-dia, pelo que não podem ter a pretensão indenizatória rechaçada sob o argumento do mero dissabor/aborrecimento.

Nessa perspectiva, cabe sublinhar o artigo intitulado “O mito da indústria do dano moral e a banalização da proteção jurídica do consumidor pelo Judiciário brasileiro” (VERBICARO; PENNA E SILVA; LEAL, 2017, p. 90), o qual investiga como o desenvolvimento da jurisprudência envolvendo dano moral promoveu ideias que limitam a proteção jurídica extrapatrimonial, como a categoria do “mero aborrecimento”. Nessa pesquisa, os autores mostram que o Judiciário muitas vezes enxerga o autor da demanda como alguém que deseja enriquecer e que quando se opta pelo juizado especial, já se interpreta que se trata de uma discussão secundária, rechaçando pretensões indenizatórias legítimas ou acolhendo-as em valores pífios, contribuindo em última instância para a reiteração da prática ilícita (VERBICARO; PENNA E SILVA; LEAL, 2017, p. 85/86).

Concluem que a propagada ideia de que as condenações em dano moral afetam a saúde financeira das empresas, que são as maiores demandas do Judiciário e que são fixadas em montas elevadas não se sustentam diante de pesquisas empíricas e dados oficiais, que demonstram que o dano moral é a décima terceira maior demanda no Brasil na justiça comum e que apenas 3% das indenizações são fixadas acima de R$ 100.000,00 (VERBICARO; PENNA E SILVA; LEAL, 2017, p. 81/84). Diante disso, a referida pesquisa demonstra que o desisteresse por uma investigação séria de critérios de quantificação do dano moral é um dos sintomas do descrédito que demandas envolvendo dano moral possuem no Brasil, o que dialoga com a presente tese, que se prega um resgate de parâmetros de quantificação do dano moral interessados na real magnitude do dano sofrido pela vítima.

41 Nesse sentido, já decidiu o Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Agravo Regimental no Agravo em Recurso

1.6 A PROBLEMÁTICA ENVOLVENDO A (DES) NECESSIDADE DE DANO-PREJUÍZO