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Competindo

No documento Lidando com Maternidade (páginas 146-149)

6. APRESENTANDO OS RESULTADOS

6.3. Percebendo que consegue

6.3.7. Competindo

Enquanto algumas estratégias podem dar uma impressão de não confrontação ao sistema, a quarta estratégia descoberta mostra-se explicitamente ativa. COMPETINDO é uma estratégia mais relacionada ao papel gerencial e parece-nos trazer uma significação de transposição à categoria ENCAIXANDO NO SISTEMA.

Mesmo quando a competição ocorre no ambiente familiar, traz relações com a vida profissional e o papel gerencial da mulher.

A gente teve um momento de carreira que eu era inferior, depois a gente se equiparou. Daí eu deslanchei. Isso incomodou ele [marido]. A gente teve alguns estresses de: “- Ah, ganha mais. Ah...”. Mas aí eu meio que abafei o caso e falei: “- Vamos seguir e tal”. E aí, de repente, quem parou foi a minha carreira, e a dele deslanchou. (E5)

Competir implica na assunção de riscos que podem tanto ampliar como reduzir a percepção de autoeficácia, PERCEBENDO QUE CONSEGUE que, por sua vez, tem reflexos na avaliação da autoimagem.

Conseguindo superar o oponente, a identidade no papel é reforçada. Deste modo, denota um meio indireto de conquistar, aumentar e manter principalmente a identidade SENDO MULHER GERENTE. Quando o resultado da competição não é alcançado, a percepção de conseguir controlar os acontecimentos envolvidos reduz-se com prejuízos para a autoimagem em relação ao papel implicado.

A mulher da outra área pediu a minha cabeça. Ela foi e deu a minha cabeça para essa outra área. Eu pensei muito em sair do banco, nessa ocasião.

Porque eu falei: “- Puxa, eu sou superprofissional”. Em nenhum momento eu desrespeitei a pessoa. Mas eu me senti muito desrespeitada profissionalmente, entendeu? (E5)

A competição ocorre com adversários homens e mulheres, com superiores ou pares, com outros ou consigo mesmas.

Ele [chefe] me tirou do posto que eu estava, me colocou em uma outra situação, dizendo que eu não estava enquadrada ali. E todo mundo dizia: “- Não estou entendendo”. [...] Então ele não queria competir comigo. Então ele me tirou um pouco de lado. (E3)

Contudo, dificilmente de uma forma clara para si própria de que está competindo. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que informam não competirem, descrevem comportamentos de competição. Esse aspecto nos indicou que COMPETINDO apresenta uma propriedade de indeterminação.

E é uma questão de perfil, tem pessoas que, um exemplo, que entram em uma organização multinacional, já entra com aquele objetivo que quer uma carreira no exterior. Esse nunca foi o meu objetivo, mas aconteceu de ter a oportunidade de ir para o exterior. Eu deixo um pouco as coisas acontecerem. (E6)

E logo após:

Então, mas ao mesmo tempo assim, quando estava tendo esse processo de seleção, vamos dizer, o meu diretor na época falou assim: “- Pensem em quem vocês acham que seria a pessoa ideal para fazer esse trabalho”. Está bom. Eu perguntei para ele assim: “- Eu posso me candidatar?” Ele falou assim: “- Você pode, mas eu tenho opção por fulano”. Eu falei: “- Está bom, mas eu posso? Se eu tiver porta para me candidatar, eu gostaria de me candidatar”. (E6)

A falta de clareza de que estão de fato COMPETINDO parece estar associada ao significado atribuído. Competir é interpretado como um comportamento masculino associado à briga, à disputa. As formas mais sutis de competição, menos combativas, não são interpretadas como competição de fato.

Então, é meio assim... Eu não percebi. A realidade é essa, porque eu não tinha aquela competição para ganhar. E, sim, de fazer um serviço diferente. Então, acho que a preocupação sempre foi em fazer uma coisa diferenciada. Não do homem ou da mulher, mas diferenciada em termos de proposta. (E10)

A mesma informante logo após:

Porque eu sou um homem: eu brigo com todo mundo. Eu não tenho... Eu sou dura. (E10)

A categoria COMPETINDO, como uma expressão de ser capaz de superar supostos oponentes, é intrinsecamente incorporada de relações de poder e é a categoria onde estas relações se mostram mais explicitamente.

Eu acho que, aí, é uma vantagem que, hoje, as mulheres podem ter. Porque eu acho que a forma que a gente exerce esse poder é muito mais sutil, no geral. (E9)

Na medida em que gênero estabelece não apenas um sistema para diferenciação, mas também para definição de status, as relações de gênero e poder tornam-se indissociáveis.

Eu não brigo por poder, e o homem briga muito por poder. A mulher também, tem mulher que também. O ser humano briga por poder, digamos assim. E a minha característica não é [brigar por poder]. (E4)

As relações de gênero, embora nem sempre claras como sendo uma relação de gênero, principalmente quando o oponente é do mesmo sexo, às vezes encontram-se presentes como um pano de fundo da competição. O exemplo a seguir mostra como uma competição entre secretárias pela promoção para uma função de coordenação traz elementos de relações de gênero e poder, nesse caso atribuído ao fato de estar “desvantajosamente” grávida.

Ao ponto de criar uma função de coordenadora para a área de consultoria.

Porque eu fui pegando esses trabalhos aos poucos. Só que aí eu estava grávida, eu estava de seis, sete meses. E aí eu fui concorrer com as outras secretárias. [...] Eu tinha criado as tarefas, e aí eu tive que concorrer com elas, mas eu estava grávida.

(E1)

O campo onde se busca ocupar posições dominantes parece definir não apenas a interpretação do tipo de poder detido pelas pessoas que competem, como também as formas de exercício de poder que podem trazer melhores resultados.

E o tamanho de como eu vejo algumas mulheres que eu percebo que elas têm algo que é do poder feminino, que engana muito bem os homens. [...] E essas mulheres são as que mais conseguem conduzir os homens. Elas conseguem conduzi-los. Então, isso para mim é ideal para se viver aqui, para se trabalhar nesse âmbito gerencial. (E3)

Em outros momentos COMPETINDO mostra-se entrelaçado com outras formas de estruturação social, tais como classe social.

Eu acho que isso breca algumas coisas dentro da sua vida profissional, porque depois eu tentei me inscrever em um monte de programa de trainee e não consegui. Não fui nem chamada para as entrevistas, porque a faculdade [que cursou] não é uma faculdade de ponta. (E8)

Ou formação profissional que no contexto de algumas organizações são fortes estruturadoras das relações e do estatuto social.

Eu não era engenheira, era mulher e o que eu sempre percebi era o seguinte, qual era o lema, né? Dizia o seguinte: “- Eu tenho que trabalhar dez vezes mais para já chegar no estágio inicial de um engenheiro”. Para dizer: “- Olha, eu sou tanto quanto, para começar a conversa”. Para começar a conversa de um engenheiro recém-formado, eu tinha que trabalhar muito mais para chegar e dizer:

“Olha, eu estou aqui no mesmo patamar desse cara”. Mas não me incomodava isso, lá atrás. Não me incomodava, mas eu percebia. (E4)

Em outras ocasiões, gênero se torna o motivo inequívoco para a definição dos padrões de avaliação de quem é o melhor.

Quando ele [gerente] saiu, eu fui chamada, ele disse que eu era a pessoa que tinha todo o perfil para entrar naquele cargo, para assumir o cargo. Só que o outro rapaz também tinha muito perfil, e por ser homem, ele [diretor] achava que ele era esteio de família, que ele deveria ocupar a posição. [...] E aí, ele falou que ele, além do mais, era um cara muito resistente. Usou uma coisa infeliz para caramba, porque... resistente até fisicamente mais do que eu mulher. Que jogou futebol de perna quebrada, falou assim. Aí eu falei: “- Mas eu só queria saber se ele pariu três. Se nós vamos medir resistência, é por aí”. (E3)

Se gênero é um padrão explícito ou implícito de avaliação nos momentos de competição relativos à vida profissional das mulheres, para aumentar as possibilidades é necessário transpor as condições que revelam o pertencimento à categoria mulher. Como já demonstrado anteriormente, as mulheres optam por adotar posturas e comportamentos que interpretam como assexuados ou masculinizados.

Outra disposição de transposição da condição de gênero diz respeito à concorrência entre vida familiar e vida profissional. Essas duas esferas da vida social são geralmente vistas como antagônicas e mais concorrentes para mulheres do que para os homens. A mulher deve na competição mostrar-se desimpedida dessa concorrência para ter vantagem sobre os oponentes.

Então assim, vieram os espanhóis23, cada um, a gente não teve nem entrevistas individuais, foi uma mesa redonda, conversaram com todos. Uns colocaram alguns empecilhos: “- Ah, porque eu preciso voltar a cada 15 dias, por causa de família”. Enfim, cada um tinha uma situação. E eu coloquei na mesa assim: “- Se precisar ir agora, eu passo em casa, pego o meu passaporte e vou”.

Então, não sei. (E6)

Outra propriedade de COMPETINDO concerne à conduta dos atores sociais na busca por uma posição dominante. Assim, as formas de competição variam em uma dimensão que pode ser percebida como transparente e íntegra ou, por outro lado, escusa. Evidencia-se, por exemplo, no relato de uma informante, a preocupação de ao competir exercer apenas formas de poder que são interpretadas como justas.

Eu acho que o poder exercido de forma clara, limpa é um poder. O outro, eu não sei se é poder isso, se é uma forma diferente. Porque aí eu classifico que essa forma mais direta, mais objetiva, mais transparente, limpa, íntegra é a forma.

Não importa se ela [mulher] tenha poder ou não, mas é a forma que tem que ser tida. (E4)

No documento Lidando com Maternidade (páginas 146-149)