6. APRESENTANDO OS RESULTADOS
6.4. Relacionando as categorias
As relações entre as categorias foram observadas a partir de uma lente teórica: o interacionismo simbólico estrutural. O interacionismo simbólico estrutural pressupõe que identidades são significados construídos e internalizados pelas pessoas a partir das interações que vivenciam pessoalmente ou observam em outros, no desempenho dos papéis sociais.
Papéis, por sua vez, são as expectativas de comportamento associadas a posições dentro de uma estrutura social. Nem todo papel torna-se uma identidade, para tanto é necessário que haja identificação. Papéis não determinam as ações, mas restringem-nas.
Isto posto, declaramos que o inter-relacionamento revelado das categorias levou-nos a reconhecer que LIDANDO COM MATERNIDADE ocupa a função central do modelo que representa o desenvolvimento das identidades de gênero no trabalho de mulheres gerentes.
Esta categoria inter-relaciona-se de forma direta com a construção, reconfiguração e manutenção das identidades SENDO MULHER MÃE e SENDO MULHER GERENTE.
Figura 6: Modelo de inter-relacionamento direto entre a categoria central e as categorias identitárias
Também se relaciona com as categorias identitárias de forma intermediada pela categoria PERCEBENDO QUE CONSEGUE.
Figura 7:Modelo de inter-relacionamento indireto entre a categoria central e as categorias identitárias
LIDANDO COM MATERNIDADE é diferente de lidar com a maternidade. A segunda pressupõe a maternidade como uma experiência direta de ser mãe, não uma abstração simbólica A primeira inclui a experiência de ter filhos, mas não exclusivamente e mostra-se presente para todas as informantes, as que têm e as que não têm filhos inclusive.
Esta categoria se relaciona de formas variadas com as demais categorias e com diferentes significados.
Uma maneira como a categoria LIDANDO COM MATERNIDADE se relaciona com a identidade SENDO MULHER MÃE é quando a experiência de tornar-se mãe se impõe à mulher, a despeito de uma prévia consideração sobre maternidade ter sido feita ou não. Duas situações exemplificam esta experiência de imposição. Uma é caso de uma gravidez precoce.
Esta normalmente ocorre sem que haja uma consideração prévia sobre a maternidade.
Também pode ocorrer uma maternidade previamente pensada e considerada, mas não planejada ou desejada. É o caso de quando, apesar da decisão por não ter filhos, uma mulher é surpreendida pelo anúncio de gravidez.
Relaciona-se ainda com a identidade de papel de mãe quando a maternidade, mesmo previamente planejada e desejada, traz experiências não antecipadas, como o nascimento de gêmeos, uma atitude de rejeição por parte do pai ou problemas e complicações ao longo da gravidez e posteriormente. Em todos esses casos as experiências de maternidade vivenciadas são diferentes daquelas antecipadas pelas mulheres.
Nestes casos a categoria carrega a representação da necessidade de levar a cabo as experiências que a maternidade não imaginada traz durante a gravidez e a criação dos filhos.
As mulheres antecipam as experiências de maternidade quando observam as próprias mães, as avós, irmãs etc. Além disso, os meios de informação em geral também mostram experiências
diversas de maternidade. Essas maternidades são internalizadas antecipadamente à experiência de ter filhos propiciando o desenvolver do que poderíamos chamar talvez de uma protoidentidade de MULHER MÃE.
A Maternidade é culturalmente associada a uma necessidade biológica, um instinto (maternal) ao qual as mulheres seriam subjugadas pelo simples pertencimento a uma categoria social: a fêmea da espécie humana. Dessa forma, quase como um destino inexorável, desde cedo a menina vivencia antecipadamente a experiência da maternidade e vai ao longo da vida construindo essa configuração imaginada de MULHER MÃE.
Quando a maternidade torna-se uma experiência real, vivida pessoalmente, pode trazer elementos não correspondentes àqueles antecipados. Esse processo demanda a construção de novos significados para a maternidade simultaneamente à vivência dos papéis maternos como ficar cuidando de um filho ou conciliar o trabalho com amamentação, entre outros. Começa então a construir-se uma identidade definitiva de MULHER MÃE. Não mais um esquema apenas, uma protoidentidade, mas sim uma identidade, que embora sempre em construção, mostra-se com todos os seus contornos relativamente definidos.
Essa relação mostra-se bidirecional, pois ao mesmo tempo em que a concepção de Maternidade é significada a partir das experiências vividas com o nascimento dos filhos, as experiências são também interpretadas a partir dos significados atribuídos aos papéis de mãe.
Quando lidar com as experiências da maternidade resulta em autoavaliações positivas para a autoimagem, a identidade SENDO MULHER MÃE é reforçada. Dessa forma as mulheres buscam criar mais oportunidades e condições em que possam exercer essas atividades que aumentam a positividade da identidade. Quando lidar com as experiências resulta em autoavaliações negativas, são ressignificadas, esvaziadas de seu valor simbólico, para adequarem-se à autoimagem no papel de mãe. Neste caso, LIDANDO COM MATERNIDADE traz o significado de enfrentar a dissonância cognitiva buscando atenuá-la.
LIDANDO COM MATERNIDADE traz ainda outros significados, decorrentes de outro tipo de relação. A categoria relaciona-se reciprocamente com as identidades SENDO MULHER MÃE e SENDO MULHER NÃO MÃE na medida em que implica em uma tomada de decisão sobre tornar-se ou não mãe, para aquelas mulheres cuja maternidade como experiência é precedida de uma consideração sobre os significados atribuídos ao papel de mãe. Neste caso a categoria representa o processo de formação de atitude em relação à experiência de maternidade. Um processo que se apresenta de forma não linear, uma vez que a maternidade vai sendo ressignificada em função das experiências vivenciadas.
Ao posicionarem-se sobre quais experiências são consideradas desejáveis ou com quais situações pertinentes à Maternidade pretendem lidar, as mulheres também se posicionam sobre qual identidade é almejada.
SENDO MULHER NÃO MÃE é normalmente interpretado como a não possibilidade ou desejo de lidar com as experiências da maternidade. Ela tem, contudo, certa subordinação à identidade SENDO MULHER MÃE.
A centralidade da maternidade para a autodefinição das mulheres tem a forma de um mandato de tal modo que, quando escolhem não ter filhos, vão de encontro às forças sociais e culturais. Assim para as mulheres cuja identidade SENDO NÃO MÃE é construída, ainda podem usar de artifícios para tornarem-se mulheres com a identidade SENDO MÃE em um sentido menor, restrito, temporário. Esses artifícios são manifestos por meio de ações que carregam o significado de ser mãe, como alimentar, dar carinho, mas são direcionados a outras interações que não os filhos, tais como sobrinhos ou animais. O movimento inverso não é percebido. Apesar de mulheres com filhos poderem, eventualmente, tornarem-se mulheres sem filhos, a identidade MULHER MÃE, uma vez desenvolvida pela experiência da maternidade, parece tornar-se permanente assim como a atitude sobre Maternidade. Neste caso, a relação da categoria LIDANDO COM MATERNIDADE com as demais traz o significado de levar em consideração, formar uma opinião ou juízo sobre a Maternidade.
LIDANDO COM MATERNIDADE também se relaciona com a identidade SENDO MULHER GERENTE, de formas distintas para as mulheres que têm filhos e para as que não têm filhos. Dentre as gerentes com filhos a categoria também se mostra significada de forma ligeiramente diferente para aquelas que se tornaram mães antes de assumirem funções gerenciais e para aquelas que já eram gerentes quando se tornaram mães.
LIDANDO COM MATERNIDADE é interpretado por meio de atividades e situações que simbologicamente representam ser mãe. Ser uma mulher em função gerencial geralmente representa um investimento de tempo e atenção que pode tornar-se concorrente à observância dessas atividades.
Para as mulheres gerentes cuja identidade SENDO MULHER NÃO MÃE se apresenta, o LIDANDO COM MATERNIDADE assume a perspectiva de opção, que vai além da mera formação de atitude. Em outras palavras essas mulheres visualizam a maternidade como uma concorrência à vida profissional e decidem não dedicar tempo e atenção a essas atividades e situações, tendo assim maior disponibilidade para o investimento nas atividades que implicam na preservação da identidade que procede do papel gerencial.
Entretanto se a experiência de maternidade não faz parte da vida dessas mulheres, a
concepção de Maternidade ainda faz. Ao se identificarem, fazem-no pela contraposição das suas experiências de vida às das mulheres com filhos. Apresentam-se como mulheres sem filhos, portanto NÃO MÃES. Lidam com Maternidade de uma forma comportamental, mas preservam muitos dos significados construídos ao longo da vida com mães reais ou fictícias.
LIDANDO COM MATERNIDADE tem nesse cenário o significado de adotar uma atitude e envidar ações em relação à Maternidade.
Para as mulheres com filhos, por sua vez, LIDANDO COM MATERNIDADE é construída sobre as disposições de conciliar o investimento na carreira com a disposição para a realização pessoal dessas atividades. Quando a identidade SENDO MULHER MÃE prevalece, pela existência de filhos seja por escolha ou por acaso, as atividades simbolicamente representantes da maternidade que devem ser realizadas pessoalmente são ajustadas à disponibilidade de investimento de tempo, atenção e dedicação necessária para a preservação da identidade SENDO MULHER GERENTE.
A disponibilidade de investimento para ambos os papéis não é estática. Essa dinâmica de investimento proporciona duas facetas identitárias da mulher gerente com filhos.
LIDANDO COM MATERNIDADE aqui é também significado como movimentação entre SENDO GERENTE MÃE e SENDO MÃE GERENTE.
A identidade SENDO MULHER GERENTE é, na maioria das vezes, fonte de uma autoavaliação positiva assim como a maternidade. Nesses casos esforços são envidados para a preservação das identidades, mas que implicam em contínuos ajustes por meio de LIDANDO COM MATERNIDADE. Esses ajustes por vezes se caracterizam em renúncias na vida profissional, tais como de futuras promoções, ou até a desistência do próprio cargo quando envolve a disponibilização de maiores investimentos, por exemplo, mudanças de localidade etc.
Por outro lado pode resultar na delegação de atividades pertinentes ao papel de mãe.
Atividades que simbolicamente representam o cuidar de filhos podem ser repassadas a outros deixando de ser realizadas pessoalmente. E para tanto têm que ser ressignificadas, esvaziadas de seu conteúdo simbólico.
Para terem mais disponibilidade de investimento na função gerencial e na carreira, as mulheres que têm filhos podem contar com auxílio de outras pessoas, normalmente mulheres, como avós, babás ou escolas de período integral. O mesmo raramente poderia ser feito com a função gerencial, principalmente por estar atrelada a um cargo e a um contrato que pressupõem a realização pessoal das atividades que a constituem.
Neste tipo de relação LIDANDO COM MATERNIDADE traz o significado de enfrentar, dar conta das demandas dos papéis concorrentes.
A categoria LIDANDO COM MATERNIDADE também se relaciona com as identidades SENDO MULHER MÃE e SENDO MULHER GERENTE de forma indireta. Ou seja, a categoria PERCEBENDO QUE CONSEGUE funciona intermediando a relação entre percebendo-se como sendo e agindo como tal.
Quando relacionada diretamente às identidades a categoria LIDANDO COM MATERNIDADE é interpretada a partir dos significados atribuídos às experiências, mesmo antes de serem vivenciadas. Quando intermediada pela categoria PERCEBENDO QUE CONSEGUE, os significados são construídos sobre os resultados percebidos das experiências diretamente vivenciadas.
PERCEBENDO QUE CONSEGUE é significado tanto a partir da autoavaliação de conseguirem controlar as situações e eventos pertinentes ao desempenho dos papéis sociais como das avaliações feitas por outros.
O processo de desenvolvimento da identidade pode ser visto como um processo circular e bidirecional entre o ambiente social e o self. A percepção de ser capaz de controlar eventos do ambiente social aumenta a autoestima, levando a uma forte identificação com o papel. Uma vez que o papel traz maiores identificações, torna-se identidade. Identidades mais positivas são ativadas mais frequentemente, porque as pessoas buscam criar situações onde elas possam se tornar salientes.
Os eventos e situações relativos ao modelo que aqui propomos originam-se no desempenho dos papéis pertinentes à vida organizacional, dos pertinentes à vida familiar e dos que emanam da intersecção dessas duas ambiências.
Algumas vezes, outros podem não reconhecer os esforços das mulheres, ou impor-lhes situações contrárias aos seus desejos e expectativas. Estas situações geram sentimentos de baixo controle sobre seu ambiente social. A percepção de incapacidade de controlar ou de não ser bem-sucedida no enfrentamento aos eventos tem um efeito de interromper o processo de identificação.
Quanto mais se percebem com controle sobre os resultados de seu desempenho, ou quanto maiores retornos positivos recebem, maior o investimento e dedicação emocional para com as demandas do papel, e maior a identificação com o papel, portanto mais forte o comprometimento e a saliência dessa identidade.
Quando não se percebem controlando os resultados de seu desempenho ou não se sentem reconhecidas no desempenho do papel, redirecionam o investimento emocional para
identidades que geram maior retorno de reconhecimento e, portanto, maior percepção de conseguir controlar os eventos e situações pertinentes ao papel.
Apesar da imagem de concorrência entre os papéis que muitas vezes surge nos relatos, PERCEBENDO QUE CONSEGUE pode funcionar indiretamente de um papel para outro, principalmente quando se refere aos eventos e situações que se situam na intersecção entre os papéis, mas também por um tipo de transferência. Quando a percepção de conseguir controlar essa concorrência entre papéis é alta, paradoxalmente as mulheres aumentam o investimento em ambas as esferas da vida. Sentem-se seguras e capazes para aumentar o investimento em todos os papéis interconectados, e por isso sentem-se mais identificadas, reforçando assim ambas as identidades.
A transferência ocorre quando a percepção de autoeficácia em um ambiente gera uma sensação de bem-estar que acaba propiciando melhores desempenhos no outro ambiente.
Enquanto o papel de mãe parece ser mais sujeito à autopercepção de controle, o papel gerencial parece repousar mais fortemente, embora não exclusivamente, na obtenção de formas externas de reconhecimento que elevam a percepção de controle.
Como os padrões de “bom desempenho” no papel de mãe não são formalizados, as atividades pertinentes a esse papel podem ser mais facilmente ajustadas para se adequar à percepção de controle sem prejuízo identitário. Isso não significa que as pressões informais, externas ou internalizadas, sejam menos fortes do que as pressões formais a que é submetido o papel gerencial, apenas que são mais subjetivas. Enquanto uma mãe pode considerar fundamental dar banho, outra ajusta o horário para levar a filha à escola. Ambas as atividades embora carreguem o mesmo significado, o cuidar, são distintas em termos comportamentais.
Os padrões de bom desempenho nas funções gerenciais, ainda que variem em função do contexto, são mais compartilhados e objetivamente definidos. Ademais é um papel formalmente posicionado em uma estrutura hierárquica. Nesses casos o bom ou mau desempenho é mais frequentemente medido por padrões externos.
Finalmente, as categorias identitárias relacionam-se diretamente entre si.
Figura 8: Modelo de inter-relacionamento direto das categorias identitárias
Os dados revelaram como as identidades de gênero no trabalho de mulheres que se encontram em posição gerencial repousam fortemente sobre a construção e reconstrução da concepção de maternidade, que independentemente da existência ou não de filhos molda a identidade das mulheres desde muito cedo como MULHERES MÃES. Produzir novas configurações identitárias de gênero passa então por lidar com essa concepção, possibilitando a partir daí múltiplas identidades, MULHER MÃE, MULHER NÃO MÃE, MÃE GERENTE, GERENTE MÃE dentre outras, que se organizam dinamicamente frente às experiências e interações.
SER MULHER GERENTE é em parte lidar com a identidade de MULHER MÃE construída paulatinamente desde a primeira boneca.