• Nenhum resultado encontrado

Sendo Mãe e Sendo Não mãe

No documento Lidando com Maternidade (páginas 122-125)

6. APRESENTANDO OS RESULTADOS

6.2. Identidades de gênero no trabalho da Mulher gerente

6.2.1. Sendo Mãe e Sendo Não mãe

Identidades podem ser construídas a partir de experiências vivenciadas ou antecipadas.

Podem ser imaginadas e construídas sobre essas imagens.

Era um sonho assim, uma programação assim, aí, já começa: “- Não, eu vou terminar a faculdade”. Aí, já namorava, tal. Aí, fui para a Alemanha, voltei, a gente programou, casou. “- Ah, casou? Então, tá. Daqui a uns três, quatro anos eu vou engravidar do primeiro. Aí, depois de uns, também, três, quatro anos, engravido do segundo”. (E13)

Gerente mãe

Gerente Não mãe Mãe gerente

Gerente Mãe

Identidades de gênero do

trabalho da Mulher Gerente

Tanto quanto a identidade SENDO MÃE pode ser construída ainda antes da experiência de ter filhos, a identidade SENDO NÃO MÃE também é construída sobre a condição de não ter filhos, seja essa condição desejada ou decorrente de impossibilidades não sujeitas ao controle do indivíduo. Quando a gravidez ocorre para uma mulher cuja identidade de NÃO MÃE já se encontra construída, essa não se desfaz simplesmente com a notícia da maternidade. Um novo processo de construção de significados tem que ser acionado para incluir a experiência que se apresenta, como se pode observar na fala da informante que após ter decidido juntamente com o marido não ter filhos, descobre-se grávida aos 35 anos de idade.

Quase desmaiei. Não, eu e o meu marido, né? “- Como assim mãe? Eu vou ser mãe? Não estou entendendo”. Eu fiquei em pânico. (E12)

Mas, talvez pela forte socialização da Maternidade para as mulheres, a identidade SENDO NÃO MÃE pode ser rapidamente desfeita em favor da nova identidade SENDO MÃE, condizente com a experiência de maternidade que se apresenta.

Foi rápido. Não, daí foi rápido. O pânico, para mim14, foi muito mais rápido [...]. (E12)

Entretanto, a identidade SENDO MÃE, uma vez internalizada, parece nunca ser integralmente desconstruída. Ou seja, a identidade SENDO NÃO MÃE não parece ter preponderância sobre SENDO MÃE.

A hora que dá aquele instinto maternal, eu já pego os sobrinhos, já passeio e tal. (E2)

E mesmo sem terem filhos há uma significação da Maternidade como sendo uma condição natural a qualquer mulher. Condição essa que traz a característica de conferir às mulheres capacidades instintivas, distintivas e superiores em relação aos homens, até mesmo em campos específicos e que não trazem nenhuma relação com exercício da maternidade. É por exemplo o que se percebe no relato abaixo de uma mulher que não tem filhos, mas que avalia que assim como outras mulheres, pela possibilidade biológica de tê-los, desenvolve uma faculdade especial em relação aos homens.

Então, ele [chefe] dizia assim: “- Vem cá [...] Cheira este balanço [financeiro] aqui e vê se você não encontra alguma coisa. [...]”. Não foi o meu caso. Mas por ter a maternidade, [a mulher] tem o sentido um pouquinho mais aguçado. Não sei. Então, a gente sente alguma coisa. (E12)

Embora a identidade SENDO NÃO MÃE não seja uma simples oposição à identidade SENDO MÃE, sua construção de certa forma opera como um espelho no que concerne a certas propriedades, muitas vezes funcionando como um contínuo da dimensão.

14 Em relação ao tempo que ela observou como necessário para o marido render-se à experiência de paternidade.

A perspectiva de Maternidade como um exercício de cuidar, de ser responsável por outro e de dedicar tempo e atenção mostra-se compartilhada para ambas as formas identitárias. Entretanto, a forma como são significadas essas propriedades distingue-se nas dimensões para as duas facetas identitárias.

O tempo, atenção e disposição para o cuidar são visivelmente interpretados como limitados para a identidade SENDO NÃO MÃE. Dessa forma, o tempo e a atenção investidos na criação dos filhos ou no cuidar de alguém são interpretados como tendo que ser subtraídos de outra esfera da vida e, portanto, limitados e inflexíveis. Isto é perceptível no relato de uma informante sem marido e sem filhos que expõe suas razões para não alterar esse quadro.

Mas hoje, é assim: “- Ah, pelo amor de Deus, alguém que te tome um tempo”. Está me tomando tempo, não está agregando à minha vida, está tirando.

(E4)

Essa percepção de limitação da disponibilidade de tempo e das disposições para o cuidar revela-se como uma constante da identidade SENDO NÃO MÃE quando manifesta dentre as informantes sem filhos, mas também para a identidade SENDO MÃE para aquelas que, apesar de em um momento considerarem a possibilidade de não ter filhos, agora os têm, mas ainda pequenos.

Porque eu tenho muitas colegas que chegam em casa e conseguem fazer uma academia, conseguem fazer outras coisas que também são importantes: você ter o seu tempo. E, hoje, eu não tenho. Eu não me dou esse direito, porque o tempo livre eu quero estar com eles. (E9)

Conforme os filhos vão ficando mais velhos as perspectivas de tempo parecem ganhar uma configuração mais elástica que pode decorrer da menor demanda pela presença física da mãe, mas também pelo ganho de competência sobre as circunstâncias relativas à maternidade.

Na perspectiva do cuidar a construção de SENDO MÃE não se restringe à interação com filhos, mas também com os próprios pais ou figuras paternas. Tornar-se mãe é significado como deixar de ser filha. Pois, ser filho é associado a ser cuidado e ser mãe ao cuidar.

Daí, ela [amiga] falou assim: “- Você tem que deixar de ser filha para passar a ser mãe. Então, assim, enquanto você tiver essa postura imatura, de filhinha, você não vai ser mãe nunca”. Então, assim, eu vivi esse processo porque eu virei mãe e eu tive que viver esse processo. (E12)

Observa-se essa transição de “filha cuidada” para “mãe cuidadora” no relato a seguir.

E o meu pai, hoje eu tenho certeza que ele fez o que era melhor, mas assim, com 16 anos, ele fez assim: “- Você não teve uma filha? Então toma que é sua. Você cuida”. (E8)

A mesma informante relata o sentimento de desamparo e tristeza que vivenciou porque achava que os pais tinham a obrigação de ajudá-la a cuidar de uma criança, aparentemente

porque ainda era informada por um tempo biossocial em que se identificava como filha e, portanto, necessitando ser cuidada.

O cuidar como propriedade significativa da Maternidade é muitas vezes construído sobre as interações com outras mulheres significantes investidas dos significados simbólicos de mãe.

E eu tenho muito da minha avó nesse sentido de... Porque foi a pessoa que me criou, foi a pessoa que esteve comigo. Então uma das coisas que, hoje, eu cobro da minha mãe, é que ela não é um modelo de avó para a minha filha. (E5)

Percebemos que na busca de criarem espaços que possibilitem mais investimento de tempo para a vida profissional, quando da opção pela maternidade, as mulheres buscam apoio para o cuidado dos filhos em sua rede social, buscando restringir esse apoio a pessoas que sejam interpretadas como outras “mães” significativas. Assim, de certa forma, contribuem para a manutenção da divisão de papéis tradicionais de gênero e outras divisões sociais.

Porque uma coisa é você ficar com uma avó, com uma tia, com alguém da família. Outra coisa é você ficar com a empregada [...]. (E5)

Eventualmente os papéis tradicionais de gênero podem ser modificados e o cuidar ficar sob a responsabilidade do homem.

E eu sou mais linha dura e o meu marido é coração puro, paciência desse tamanho, eu já tenho a paciência bem mais curta. [...] E quando eu fui para a Holanda, ele passou a ter que lidar com a figurinha chamada [filho]. E eu vi que ele começou a endurecer mais e todo o relacionamento mudou, dentro de casa. Ele começou a me apoiar mais, passou a não ter tanta tolerância com o [nome do filho], começou a reprimir mais o [filho]. E nós começamos a tomar decisões os três juntos. (E6)

Na medida em que os papéis se modificam pareceu-nos haver uma reconstrução identitária mais perceptível. Embora permaneça um sentimento de transgressão da estrutura social internalizada e incorporada nos papéis sociais.

Olha, hoje, eu sinto assim, que eu poderia me ausentar facilmente, que o [filho] lidaria tranquilamente. E às vezes até eu me sinto culpada, bate aquele sentimento assim: “- Puxa vida, ele gosta mais do pai do que de mim” (E6)

No documento Lidando com Maternidade (páginas 122-125)