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Saliência

No documento Lidando com Maternidade (páginas 47-50)

3. REVISÃO DA LITERATURA

3.2. Identidade

3.2.2. Self, Identidade e Identidade Social

3.2.2.3. Saliência

Ainda que a base de explicação do self possa ser diferente para as duas teorias, ambas reconhecem que os indivíduos desenvolvem a identidade, social ou pessoal, a partir dos significados proporcionados por uma estrutura social. Desse caráter social da estruturação do autoconceito emana uma perspectiva do self como uma organização de múltiplas identidades.

Dado o considerável número de categorias às quais um indivíduo possa pertencer e os diversos papéis que precise desempenhar, o self pode constituir-se de uma multiplicidade de identidades sociais e de identidades de papéis que podem ser concorrentes ou inconsistentes

umas com as outras impondo ao indivíduo a necessidade de priorização (ASHFORTH e MAEL, 1989).

Dessa forma, a construção do autoconceito, quer seja ela baseada em papéis, quer em categorias sociais, é uma constante busca de balanceamento entre aquilo que somos, aquilo que a sociedade espera que sejamos e aquilo que desejamos ser na sociedade.

Essa busca de equilíbrio confere a ambas as abordagens teóricas um caráter altamente dinâmico em que as múltiplas identidades, sociais ou de papéis, adquirem saliência a partir de estímulos internos e externos ao indivíduo. O processo de imposição de uma identidade sobre a outra é, contudo, entendido de forma distinta pela Teoria da Identidade Social e pela Teoria da Identidade.

Para a TIS, a saliência, exatamente assim denominada, é uma resposta às alterações contextuais que resulta da acessibilidade e adequação de uma identidade social sobre as demais (STETS e BURKE, 2000). Na busca de maximizar o significado para o contexto específico de interação, o sistema cognitivo ativará a categoria social mais disponível, que melhor explique as diferenças e similaridades entre os grupos relevantes (HOGG, TERRY e WHITE, 1995) e que mais favoreça a autoestima (ASHFORTH e MAEL, 1989).

A disponibilidade ou acessibilidade de uma identidade corresponde à prontidão com que uma categoria é ativada, como resultado dos objetivos e expectativas de uma pessoa em relação ao contexto. Enquanto adequação corresponde aos aspectos normativos e comparativos de congruência entre a identidade saliente e o contexto. Normativa porque implica na saliência de uma identidade adequada às normas culturalmente descritas e prescritas. Comparativa porque resulta da percepção de diferença intragrupal menor do que a intergrupal (STETS e BURKE, 2000).

Alem da influência do contexto imediato de interação para a saliência de uma identidade, as mudanças das relações intergrupais ao longo do tempo também funcionam como marco referencial (HOGG, TERRY e WHITE, 1995).

Identificar-se como homem ou mulher no contexto organizacional é deste modo tanto uma resposta aos aspectos mais imediatos da interação, como também às concepções culturais atribuídas a essas categorias e à forma como estão relacionadas nas diferentes sociedades e ao longo da história.

A ideia de saliência como processo de priorização também está presente na Teoria da Identidade, mas é definida a partir de comportamentos (HOGG, TERRY e WHITE, 1995).

Para Stryker e Burke (2000) a saliência na TI é definida como a possibilidade de uma identidade de papel ser invocada por uma pessoa ao longo de uma variedade de situações ou,

alternativamente, por diversas pessoas em uma situação específica. Quanto mais forte for a penetração de um papel na estrutura social, maior será a probabilidade de que ela venha a ser invocada por várias pessoas e seja fonte de identificação, portanto uma identidade de papel.

Quanto mais fortes forem os laços de uma pessoa com uma identidade de papel específica, também maior será a probabilidade de que essa identidade seja saliente para ela. Como a identidade de papel é relacional, os laços a uma identidade específica estão associados à força e profundidade dos laços mantidos com outras pessoas por meio de um papel (STETS e BURKE, 2000). Esse processo é conhecido na TI como comprometimento com uma Identidade. O comprometimento com uma identidade em especial é maior se a pessoa percebe que as relações sociais mais significantes podem ser perdidas pela perda de um papel (HOGG, TERRY e WHITE, 1995).

Outro componente no entendimento da saliência para a Teoria da Identidade é a hierarquia. Diferentemente da Teoria da Identidade Social, onde a identidade é vista como uma resposta ao ambiente, na Teoria da Identidade a hierarquia de papéis é vista como uma bússola que orienta o indivíduo na busca e criação de oportunidades em que possa ativar uma identidade saliente (STETS e BURKE, 2000). Em outras palavras, são guias comportamentais. Não se trata aqui apenas de uma questão de agência-estrutura, mas também dos vínculos emocionais do indivíduo com o papel.

Em comum as teorias admitem que uma identidade, seja ela decorrente de um papel ou uma categoria social, não ocasionará efeitos para o indivíduo ou seu ambiente se ela não for ativada ou se tornar saliente. Entretanto, Stets e Burke (2000) argumentam que para a TI a saliência concerne apenas à probabilidade de uma identidade ser ativada e não necessariamente à sua ativação e, de fato, apenas a ativação de uma identidade traz efeitos visíveis para o ambiente.

A análise dos autores pode parecer contraditória, pois a simples probabilidade alta de uma identidade ser ativada significa que se trata de uma identidade saliente, sem que seja necessário que seja ativada, mas, por outro lado, uma identidade altamente saliente funciona como um propulsor na busca de situações onde ela possa ser ativada.

Entender como uma identidade pode ser mais saliente para uma pessoa implica tanto no entendimento dos fatores ambientais que contextualizam e restringem a ativação de uma identidade sobre as demais bem como o comprometimento individual e coletivo com identidades e papéis específicos.

No documento Lidando com Maternidade (páginas 47-50)