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Tempo

No documento Lidando com Maternidade (páginas 116-121)

6. APRESENTANDO OS RESULTADOS

6.1. Lidando com Maternidade

6.1.2. Tempo

O TEMPO revela-se como subcategoria que se integra à categoria DECIDINDO A MATERNIDADE.

Essa subcategoria traz duas configurações: a primeira, TEMPO BIOSSOCIAL, diz respeito a quando a maternidade deva ou possa ocorrer e a segunda, TEMPO PRESENCIAL, refere-se a quanto do tempo da mãe deve ser dedicado à criação dos filhos em contraposição a quanto do tempo da gerente deve ser dedicado à organização.

Ambas têm caráter simbólico na medida em que existem como significados subjetivos sobre os quais a realidade é desejada, antecipada, construída e adaptada.

O tempo simbólico, contrariamente ao tempo medido em horas e segundos, tem propriedade de ser elástico e não linear, ou seja, é mutável na medida em que é significado subjetivamente.

Por isso o tempo biológico de reprodução, que normalmente ocorre na faixa dos 15 aos 50 anos, é diferente do tempo biossocial de reprodução convencionado socialmente em um espaço de tempo bem menor, e é ainda diferente do tempo biossocial de reprodução definido individual e subjetivamente, frente aos significados pessoais investidos na concepção de Maternidade.

Eu estava com 31 anos. É uma fase maravilhosa para ter filho, eu indico.

[...] Então eu estava boa profissionalmente. Como mulher eu estava bem. (E1)

O mesmo ocorre com o tempo presencial, onde a presença física é demandada pelos outros, tais como os filhos,

É muito corrida a minha vida pessoal, quer dizer, os filhos reclamam para caramba, eu quase não fico em casa. (E3)

os cônjuges,

No familiar, eu acho que existe uma cobrança maior sim, da sua presença maior, também, em casa. Então, às vezes, eu saio daqui (empresa), sei lá, 20 horas, 21 horas, 22 horas, então ele (marido): “- Puxa, você não estava em casa. Eles perguntaram de você, choraram”. (E9)

as organizações,

[...] hoje, vamos dizer, eu tenho as minhas horas para estar aqui dentro e eu não me queixo de estar longe da minha vida pessoal, por um tempo X. (E6)

mas também, e principalmente, por si mesmas,

Então, eu não vou sacrificar a minha convivência com ela (filha). Eu já acho que eu sacrifico muito. Eu tenho um sentimento de culpa. (E12)

6.1.2.1. Tempo biossocial

Quanto ao TEMPO BIOSSOCIAL, revela que a maternidade biológica é regida por um relógio e a Maternidade socialmente internalizada é regida por outro. Distinto do tempo

puramente biológico, o tempo biossocial implica na percepção de juventude e senectude para desempenhar a contento as atividades pertinentes à maternidade.

A possibilidade de maternidade, do ponto de vista puramente biológico, pode ocorrer desde muito cedo e pode estender-se até certa idade, mas a experiência de maternidade implica em muito mais que ter filhos, implica em tornar-se mãe.

Hoje essa experiência é ótima. Hoje é ótima, porque eu não tenho uma filha, eu tenho uma amiga. Mas assim, com 16 anos foi muito complicado ser mãe.

(E8)

Se você quer ficar grávida, fique com 30. (E1)

Seria lícito pensar que a maternidade como experiência é um fator que interfere no trabalho feminino, senão o principal fator, mormente quando as condições socioeconômicas não viabilizam obter formas mais custosas para o cuidado dos filhos. Entretanto para as mulheres que obtiveram oportunidades de ascensão profissional alcançando posições hierárquicas mais elevadas nas organizações em que atuam, a questão financeira pode não se apresentar como fator mais relevante, visto que os ganhos salariais normalmente possibilitam a contratação de profissionais que possam auxiliar no cuidado da casa e dos filhos.

Nesses casos, a concorrência entre a carreira e a maternidade parece ser mais conflitante no que diz respeito à sobreposição dos anos biologicamente mais apropriados para a maternidade com os principais anos de investimento na ascensão da carreira profissional.

Quando a maternidade não ocorre antes do avanço na carreira, as mulheres tendem a postergá-la até o limite onde acreditam que “tempo” biossocial ainda seja válido.

Aí, eu falei assim: “- Ah, vou ter que esperar com isso”. Aí, até chegar lá perto dos 35 que eu falei: “- Não, agora eu tenho que tomar uma decisão. Até fisicamente, o relógio biológico uma hora vai falar: “- Não dá mais”. (E9)

Se por um lado buscam retardar ao máximo a maternidade, por outro, ao postergarem demasiadamente, tendem a considerar que o “tempo” de ser mãe já passou e decidem por não ter filhos.

E aí foi indo, eu fui crescendo na carreira, e aí você vai adiando, até que chegou um dia, eu falei: “- Bom, agora também já passou da hora”. (E2)

O controle sobre quando a maternidade deva ocorrer pode ser maior ou menor em função da percepção de prontidão para ela.

Eu acho que, assim, a maternidade para mim foi uma coisa muito boa, no sentido de que eu queria, mas não era uma coisa que eu queria tão rápido. E aí acabou vindo. E eu sofri no primeiro tempo e depois eu superei. Enfim, e eu fui aprendendo. (E5)

E parece também ocorrer em função da percepção de necessidade de um tempo dedicado à maternidade, que é interpretado como não disponível por um lado, e como limitado do ponto de vista biológico do outro. Em outras palavras, que tem um prazo para

expirar e por isso é interpretado como elemento de pressão para uma decisão sobre a maternidade.

Quer dizer, um planejamento [para não ter filhos] até que sim, por um bom tempo, teve que evitar. Porque não era uma coisa que daria [teria tempo] para a gente ter. Depois, já foi ficando com um pouco de idade e aí acaba evitando por consequência. (E10)

Essa percepção traz-nos a segunda configuração da subcategoria tempo.

6.1.2.2. Tempo presencial

Em TEMPO PRESENCIAL, além da concorrência entre a disponibilidade biológica e o período mais propício para o investimento na carreira, pesa também a própria noção subjetiva de um tempo vivenciado de forma pessoal, interpretado como indispensável ao exercício da maternidade e ao desempenho dos papéis profissionais.

Diz respeito por um lado à significação do tempo necessário à criação dos filhos em que a mãe se faça presente pessoalmente, e não por intermédio de outros.

Não precisa estar ali o tempo inteiro, não é uma coisa assim: “- Ah, não dá para substituir vários papéis”. Acho que vários papéis da mãe podem ser substituídos por um pai. (E6)

Por outro lado a presença física e a disponibilidade em relação ao trabalho também são significadas subjetivamente, influenciadas pela persistência de práticas organizacionais que estimulam a cultura de visibilidade e de comparecimento.

Eu brinco muito, assim, eu falo assim: “- Não tire férias, porque seu chefe pode perceber que você não faz falta”. (E12)

Como as racionalizações das organizações em relação aos aspectos que caracterizam a maternidade estão relacionadas a um processo de atribuição de significado que valoriza a presença visível e a dedicação integral do trabalhador, a maternidade é significada como uma circunstância que implica em um tempo de ausência ao trabalho. Primeiramente no tempo em que corresponde uma das formas de proteção da mulher em relação à maternidade: a licença-maternidade.

E toda vez que eu dizia: “-Estou grávida” era um tumultozinho. Porque...

“- Ah, mas quanto tempo de licença você vai ficar? Você vai emendar férias ou não? É, porque a gente precisa, não pode deixar parado”. Bom, enfim, a gente sentia aquela pressão. (E3)

Mas também como a possibilidade de que esse tempo se estenda definitivamente incorrendo na saída da mulher profissional.

Então assim, a gente tinha algumas dificuldades e em alguns momentos eu até pensei de parar de trabalhar para poder ficar com o [filho]. (E6)

O estar presente na organização é de tal forma internalizado, que a licença-maternidade, como um período de ausência, é então significada como uma ameaça à carreira.

Aí eu pensava assim: “- Vai que eu tiro licença e ele acha que eu não faço falta”. (E12)

Levando as mulheres a negociarem (vide E1) ou abdicarem desse direito (vide E12).

Aí eu fiz um acordo lá com meu chefe, que, [...] em diminuir a minha licença. Assim eu teria acho que quatro, cinco meses, eu fiquei dois meses e meio. E depois, mais dois meses e meio em meio período. Então, quer dizer, eu conciliei e continuei com o cargo. (E1)

E eu sou tão louca por trabalho que eu voltei antes da minha licença terminar. E meu chefe não queria, meu presidente aqui, Brasil. [...] E ele falava assim: “- Não, mas você está louca. Não pode voltar antes, não pode”. (E12)

Se estar presente na organização faz parte de um modelo cultural, estar presente em casa, cuidando pessoalmente dos filhos também é subjetivamente interpretado a partir das interações sociais em que os papéis internalizados de familiares, dos cônjuges ou o emprego de outras soluções (escolas integrais, babás, empregadas domésticas, etc.) são confirmados ou desconfirmados.

Ficou muito na mão da minha mãe, minha mãe que ajudou muito a criar.

Em mão de empregada, enfim, assim a gente foi levando até agora, tudo já grande.

(E3)

Porque eu acho que essa questão da mãe trabalhar fora, ficar com empregada, a gente terceirizar muito a educação dos filhos, eu não sei que filhos que a gente vai preparar lá na frente. (E5)

Contudo a construção das identidades se dá a partir das ações significantes. A relação mútua entre identidades e comportamentos ocorre através do compartilhamento de significados comuns. Para ter uma identidade, de acordo com o significado que essa identidade tem, a pessoa busca se comportar de maneira que ela interpreta como tendo o mesmo significado. A maternidade é então vivenciada por meio do desempenho de certas atividades que incorporam o significado de cuidar e assim a identidade “mãe” é preservada.

Eu chego em casa, eu tenho que dar banho, eu tenho, ainda, coisas para fazer com eles. Mas essa foi uma opção minha, porque eu achava que se eu fizesse diferente, eu ia estar mais ausente. (E9)

Esse trabalho adicional é vivenciado de forma ambígua. Por um lado é gerador de um esforço físico e emocional.

É coisa, assim, de chegar hora, assim, de você, sozinha, chorar e falar: “- Ah, estou cansada, não tenho tempo para mim. Não dá para fazer uma unha, um cabelo, nada”. (E11)

Por outro, proporciona gratificação reforçando a positividade da identidade de mãe.

Porque eu não quero deixar parecer que: “- Ah, os filhos são um peso”.

Não, é supergostoso. Eu dou toda essa atenção para eles porque é um barato, é uma delícia. Te dá uma energia muito boa os descobrimentos que eles têm, todos os questionamentos. É muito gostoso. (E9)

As configurações identitárias que são construídas e reconstruídas em face dos significados depositados na noção de tempo e em torno das experiências que antecedem e sucedem a maternidade e a carreira, se revelam em duas versões: SENDO MÃE e SENDO NÃO MÃE. A primeira desdobra-se em duas facetas identitárias, mais visivelmente dinâmicas, e contextualmente situadas a partir das interações com os outros na intersecção da identidade gerencial: SENDO MÃE GERENTE e SENDO GERENTE MÃE. Ambas não chegam a constituir identidades de papéis distintos, mas sim apresentações de uma mesma identidade que conjuga mais de um papel e que responde dinamicamente às circunstâncias, alternando a saliência para um dos papéis.

Não fico ligando: “- Amor. Filhinha”. Não. O dia é assim, assim, assim: “- Só se der algum problema, me liga. Se não der, à noite a gente conversa”. Porque se não, não dá. (E7)

Os dados apontam ainda que embora TEMPO BIOSSOCIAL e TEMPO PRESENCIAL estejam mais fortemente vinculados com a categoria DECIDINDO A MATERNIDADE, que concerne ao desenvolvimento de atitudes e ações relativas à maternidade e, dessa forma, tornar-se Mãe ou Não mãe, são também fortemente relacionados com a percepção de controle sobre os eventos pertinentes à maternidade em relação à vida profissional.

A essa percepção de domínio ou sujeição sobre seu meio denominamos PERCEBENDO QUE CONSEGUE, sobre a qual falaremos mais adiante.

No documento Lidando com Maternidade (páginas 116-121)