6. APRESENTANDO OS RESULTADOS
6.3. Percebendo que consegue
6.3.2. Conciliando
Conciliar, balancear, ponderar, são as formas expressas para indicar uma estratégia no gerenciamento das exigências das identidades emanantes dos papéis, quando esses são interpretados como concorrentes, especialmente quando são significados pela dedicação da presença física e da atenção.
Quando se percebem CONCILIANDO de forma eficaz, as mulheres sentem-se satisfeitas consigo mesmas e essa positividade reforça a identificação com os papéis de mãe e de gerente.
Então eu consegui muito provar isso, aí foi uma coisa muito legal. [...]
Então eu fiz o papel materno também. Mas eu consegui conciliar. (E1)
A capacidade de conciliar é vista como resultado de aprendizagem, por meio da própria experiência, na medida em que as contingências se apresentam.
Você aprende a lidar melhor com tudo isso [conciliar]. Mas é um estresse adicional. Isso eu não posso negar. (E9)
A propriedade cognitiva de CONCILIAR, i.e., as informantes percebem que podem aprender a conciliar se for necessário, vincula-se a uma outra propriedade de caráter motivacional, ou seja, que implica em volição. Embora haja um reconhecimento de que o CONCILIAR as vidas familiares e vida profissional possa ser aprendido, não é necessariamente desejado ou buscado. Por isso, ainda que a mulher possa ter a percepção de que se tivesse que fazê-lo, aprenderia, não é necessariamente sua escolha.
Então é uma escolha mesmo [não casar e ter filhos], agora é uma escolha [...]. Então, eu não saberia conciliar, não sei se é porque eu não tenho isso. (E4)
Conciliar muitas vezes implica em ressignificar as ações. Dessa forma, pequenas atividades podem ganhar mais peso e outras perderem, de tal forma que a percepção de conseguirem controlar as exigências pertinentes aos papéis possa ser ajustada à identidade.
Bom, tem coisa que eu gosto de fazer. [...] Quando eu chego em casa, as crianças já jantaram, já tomaram banho e tal. É brincar um pouquinho, ficar um pouquinho com eles, colocar o pijama, dar o leitinho, escova o dente e vai dormir.
Mas, por exemplo, eu gosto de fazer a lancheira da minha filha e de separar o uniforme. Tem coisas que eu gosto: essa parte escolar, eu amo. Então, vou, olho a lição, vejo a agenda todo dia, essas coisinhas eu gosto de fazer. [...] Mas, contas, fora débito automático, é a empregada e meu marido que cuidam. (E13) 17
Papéis são fontes de identidade quando ocorre a identificação. Ou seja, quando o desempenho do papel é fonte de uma autoavaliação positiva. Por outro lado, quando o
17 A informante tem a função de controller da organização, o que compreende, dentre outras responsabilidades, gerenciar e responder pelas contas da organização.
desempenho do papel não gera identificação, pode ser mais fácil abdicar da atividade, esvaziando-a de significados, sem que haja prejuízo identitário ou necessidade de reconfiguração. Por exemplo, o papel da dona de casa, responsável por algumas tarefas domésticas.
Uma coisa que também sempre me ajudou... Eu decidi que se eu quisesse trabalhar eu tinha que ter uma empregada diarista. Eu sempre tive empregada. Mas para quê? Para limpar a casa, lavar e passar a roupa e lavar a louça. Comida, a minha empregada nunca fez. (E11)
Mas, não é a tarefa que conta e sim o significado que está investido nela. Se a atividade traz consigo algum significado pertinente a uma identidade de papel, ou seja, ao desempenho de um papel com o qual há identificação, os esforços envidados para sua execução serão maiores.
Não tem jeito. Eu não deixaria de levar meus filhos para o pediatra todo mês ou quando tivesse alguém doente. Não tem jeito. Isso aí a gente... É o mínimo que a gente tem que fazer pelos filhos. Não dá para delegar isso, essa responsabilidade. (E11)
Dessa forma, percebemos que o papel configurado socialmente é ajustado ao papel internalizado subjetivamente. Algumas atribuições culturalmente estabelecidas como pertinentes ao papel são desempenhadas e outras repassadas a outrem.
Em outros momentos abdicar pode significar uma percepção de redução de autoeficácia, ou seja, da capacidade de conseguir controlar o seu meio. Parece-nos que estas situações podem demandar maiores esforços para a adequação, pois implicam não somente em uma reconfiguração da identidade, ou seja, quem eu sou, mas também envolvem a perda de poder, que posição eu ocupo nesta estrutura.
E, no começo, esse monte de gente [empregada e babá] na minha casa me deixou meio, assim... Sabe? Tirou o meu status quo, assim, de: eu sei onde está tudo, está tudo sob meu controle, eu digo o que fazer na hora tal. (E12)
Percebemos na categoria CONCILIANDO a propriedade de ser ajustável à percepção de controle tanto quanto a percepção de controle é modificada em função da capacidade de conciliar. Ou seja, na medida em que as mulheres não conseguem, ou não querem conciliar demandas concorrentes dos papéis, o significado investido na ação pode ser (re)direcionado para outras pessoas como substitutas correlatas.
Não precisa estar ali o tempo inteiro, não é uma coisa assim: “- Ah, não dá para substituir vários papéis”. Acho que vários papéis da mãe podem ser substituídos por um pai. (E6)
Embora a categoria tenha sido nomeada a partir de um código in vivo, na realidade não há de fato uma conciliação, no sentido de que ocorra sempre um equilíbrio entre papéis. Na maioria das vezes a conciliação ocorre mais pela abdicação de direitos ou supressão de tempo destinado à vida familiar em prol da empresa.
Por retratar uma necessidade de preservação da identidade de gerente, o desequilíbrio que muitas vezes manifesta-se no CONCILIANDO não parece ser claramente percebido. Ao tornarem-se gerentes as mulheres passam a ocupar a posição dominante na estrutura organizacional, assimilando assim um modo de pensar institucionalizado pela organização pertinente a essa posição. Se o desequilíbrio de papéis faz parte desse modelo predominante ele é assimilado como normal. Essa assimilação pode ser observada quando a informante E5 usa a expressão “se entregam de verdade”, significando que outras formas de agir, mais equilibradas, não são verdadeiras, portanto não representam o modo de pensar da instituição.
Normalmente, o que eu vejo, assim, os exemplos de mulheres que eu vejo, quando elas começam a evoluir efetivamente, e aí elas vão subindo nas suas posições, se elas se entregam de verdade, é mais difícil manter esse equilíbrio.
Então, normalmente, ou elas se separam, ou elas vivem um casamento meio de fachada. (E5)
Nessas situações CONCILIANDO parece mais uma forma de evitar confronto ou de assimilação, em que temendo trazer necessidades que possam evidenciar sua diferença perante a maioria formada por homens, conciliam então desequilibrando as demandas das partes.
E, realmente, as coisas não são de graça. A gente abre mão, sim, de uma série de coisas. A gente opta. (E 11)
O desequilíbrio começa a tornar-se mais patente quando os esforços envidados em prol dessa preservação identitária de gerente não parecem mais serem suficientes. Isto se evidencia no relato da informante E8 que perdeu algumas atribuições pertinentes à posição gerencial em recente processo de fusão.
Na verdade, assim, eu acho que ter o nível gerencial não é o problema. O problema são as atribuições e as responsabilidades. [...] Mesmo porque a equipe que eu tinha, não tenho mais. Então, eu, hoje, eu gerencio a mim mesma e ao meu trabalho. Então eu acho que ter o nível gerencial não é o problema, eu acho que o problema é, assim, você conseguir dar conta de todo o seu trabalho dentro de um curto espaço de tempo. (E8)
Nesses momentos o desequilíbrio passa a ser avaliado como tal, ou seja, como um investimento de esforços que não estão trazendo os retornos desejados. Nessas horas possibilidades de redirecionamento desses esforços começam a ser consideradas, em vista da perda de identificação com o papel.
Eu acho que, na minha situação, [é] péssimo. Porque se eu tivesse mudado de emprego18, mas ido para uma posição bacana ou para uma posição similar à que eu tinha, ou para um salário, eu teria tido alguns ganhos. Mas eu não tive ganhos. [...] Então, já passaram 1.000 coisas pela minha cabeça. E as últimas, é até abrir um negócio próprio. (E5)
18 A informante usa a expressão mudar de emprego, mas na realidade relata que as transformações ocorridas na organização após a fusão pela qual passou são tantas que é como se tivesse mudado de emprego.