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Teoria da Identidade

No documento Lidando com Maternidade (páginas 44-47)

3. REVISÃO DA LITERATURA

3.2. Identidade

3.2.2. Self, Identidade e Identidade Social

3.2.2.2. Teoria da Identidade

Baseada nos pressupostos do interacionismo simbólico, na Teoria da Identidade a identificação reproduz de uma maneira muito parecida a estruturação precedente da sociedade

e sua influência na formação do self, mas baseia-se nos papéis sociais que cada pessoa exerce e não no reconhecimento de pertencimento a grupos e categorias sociais (HOGG, TERRY e WHITE, 1995).

Papéis referem-se ao conjunto de normas, comportamentos e atitudes, descritos e prescritos aos indivíduos que se encontram em uma relativa posição social, com referência aos outros dentro do mesmo sistema social (KOMAROVSKY, 1992). São os símbolos culturalmente construídos, que designam as posições relativamente estáveis dos distintos componentes de uma estrutura social (STETS e BURKE, 2000), configurados a partir das expectativas sociais anexadas a essas posições (STRYKER e BURKE, 2000).

Na Teoria da Identidade, a identidade corresponde à identificação do self como um ocupante de determinados papéis e à incorporação dos significados, expectativas e desempenho que lhe estão associados. Dessa forma o autoconceito ou a noção de “quem sou”

emerge dos papéis sociais desenvolvidos a partir das interações com outros. Como cada pessoa desempenha uma variedade de papéis sociais, o self constituir-se-á como uma estrutura multifacetada que comporta os significados que cada pessoa vincula aos diferentes papéis.

Esses componentes são denominados identidades de papéis (HOGG e TERRY, 2000;

STRYKER e BURKE, 2000).

Assim como na Teoria da Identidade Social, a Teoria da Identidade também entende a construção do self a partir da refletividade do outro, no entanto não um outro prototípico, reconhecido como categoria social, mas um outro complementar reconhecido como ocupante de uma posição na estrutura social do contexto de ação. É por isso originada a partir da diferenciação ao invés da uniformidade.

Paradoxalmente, a noção de self, que nos proporciona o senso de individualidade, é inseparável da compreensão do outro. Assim o papel de um homem ou uma mulher na posição de gerente, o que constitui uma categoria social dentro das organizações, pode ser o de chefe em relação aos(às) seus(suas) subordinados(as), o de parceiro(a) ou competidor(a) em relação a um de seus pares ou de subordinado(a) em relação ao nível hierárquico superior.

Todos esses papéis estão presentes na concepção interacional de self de pessoas ocupantes de uma mesma categoria social, a de “gerente”.

Algumas categorias sociais mais amplas, como identidade de gênero, sobressaem-se mais fortemente que outras e exercem um efeito sobre a natureza das relações entre os papéis e sua posição relativa na estrutura social em que a pessoa se encontra, impactando indiretamente a construção do self (HOGG, TERRY e WHITE, 1995).

Usando o exemplo acima, embora mulher e homem tenham uma multiplicidade de papéis e tragam consigo expectativas de comportamento anexadas às posições ocupadas nas redes de relacionamentos da categoria gerente, que deveria ser comum a ambos, as categorias homem ou mulher trazem também um conjunto de expectativas e práticas institucionalizadas pelo sistema de gênero (MARTIN, 2003; RIDGEWAY e CORRELL, 2004) com diferentes consequências para cada um. Tais expectativas na maioria das vezes impõem-se sobre a categoria gerente, gerando as expectativas distintas de comportamento para um e outro na construção e a interiorização das identidades sociais e de papéis.

Um exemplo é o estudo de Shaw e Hoeber (2003) com três organizações esportivas inglesas onde os discursos de masculinidade e feminilidade se apresentavam como reforço à hierarquia social, associando o discurso de masculinidade com as posições mais altas e influentes e o discurso de feminilidade com as posições menos influentes. Entretanto, de forma contraditória, as mulheres que se encontravam nas posições superiores eram vistas como “inapropriadas” quando adotavam um discurso mais assertivo, geralmente associado à masculinidade. Dessa forma gênero como categoria social sobrepõe-se à condição hierárquica.

Hogg, Terry e White (1995, p. 264) argumentam que os papéis “proporcionam um senso de identidade individual distinta dentro de um grupo, talvez satisfazendo a necessidade de diferenciação intragrupal”. Mas a noção de distinção pode não se aplicar sempre na relação entre papéis e categorias. Por exemplo, Fearon (1999) argumenta que alguns papéis são também categorias sociais e vice-versa, como “mãe”, portanto não servindo à causa da distinção. O autor admite, entretanto, que a identidade pessoal possa muitas vezes servir a esse propósito.

“Identidade pessoal é a identidade social cujo conteúdo estou mais comprometido com ou motivado por, uma que supera as demais quando tenho que fazer escolhas que implicam em violar o conteúdo normativo de uma ou outra de minhas identidades sociais. [...]. Identidade pessoal pode ser concebida em termos que intencionalmente afasta as afiliações de grupo”. (FEARON, 1999, p. 22, tradução nossa)

Ao mesmo tempo em que o desenvolvimento do autoconceito tem um caráter dinâmico e múltiplo, sendo reconstruído constantemente em função do outro, caracteriza-se também por uma propriedade de continuidade e consistência ao longo do tempo (MACHADO, 2003).

O indivíduo busca constantemente a percepção de unidade subjetiva, um senso de permanência do autoconceito. Entretanto o desempenho de papéis sociais muitas vezes se

destina a atender às expectativas do outro sobre as formas de conduta para uma posição específica na estrutura social, contrariando muitas vezes a intenção original de ação.

Nesses casos não ocorre a identificação com o papel, e não havendo identificação não se torna fonte de identidade. Quando a discordância entre a expectativa do outro e as próprias torna-se frequente pode-se apresentar uma ruptura no senso de unidade e permanência do self, constituindo-se como uma crise de identidade (ERIKSON, 1998).

Essa natureza mecânica do self, que lhe confere tanto o caráter dinâmico como estático, decorre em parte da necessidade de reduzir a dissonância entre os papéis sociais internalizados e a percepção do próprio desempenho nesses papéis. Percepção essa resultante da autoavaliação ou do retorno recebido sobre a avaliação dos outros (HOGG, TERRY e WHITE, 1995).

Um atendimento satisfatório às expectativas investidas a uma identidade de papel não apenas confere à pessoa uma confirmação de eficiência, mas também uma autoavaliação positiva que, por sua vez, reflete em aumento da autoestima (HOGG, TERRY e WHITE, 1995).

Como um papel só existe em relação a outro, um desempenho satisfatório de uma identidade de papel só pode ser avaliado na relação com os papéis complementares. Satisfazer as expectativas de uma identidade de papel implica na coordenação e negociação com o contrapapel, na manipulação do ambiente a fim de controlar os recursos sobre os quais o papel tem responsabilidade (STETS e BURKE, 2000) e na elaboração dos significados investidos nessas interações.

No documento Lidando com Maternidade (páginas 44-47)