5 ENTRE RASGOS E REMENDOS: ANALISANDO A ABORDAGEM
6.1 Compreendendo o futsal: um jogo ou uma modalidade?
Na primeira indagação do questionário de partida, buscou-se identificar a compreensão dos alunos acerca do que eles entendem ser o futsal. Inicialmente, trazemos uma informação interessante, no que se refere à nomenclatura utilizada pelos mesmos para definir esta prática. A maioria dos alunos ― ressalvados alguns entendimentos relacionados à diversão, competição, atividade em quadra, entre outros ― apresentou o futsal como sendo um “jogo de bola”. Ou seja, figura-se uma perspectiva que nos remete a observar que o entendimento dos alunos acerca dessa prática mostra-se ligeiramente desnudado da influência da percepção de esporte institucionalizado, portanto, não alinhado a uma concepção fechada desta prática.
O que nos parece, nessa compreensão, é o sentido dado a essa prática. É preciso ter claro que conceituar jogo, conforme adverte Kishimoto (2017), não é algo tão fácil. Diferenciar o jogo de futebol profissional e o de várzea teria relação com o rigor no cumprimento das regras ou com o prazer manifesto no jogo coletivo? Ou, seriam ambas as explicações? Além do mais, um mesmo comportamento pode ser visto como jogo ou não (KISHIMOTO, 2017).
De acordo com os PCN’s32 (BRASIL, 1997), ao discutir o conceito de cultura corporal de movimento, há uma reflexão no sentido de apresentar que as práticas realizadas na cultura humana estão atreladas, necessariamente, ao sentido que cada um faz delas, podendo ter um caráter, a título de ilustração, mais utilitário ou mais subjetivo e simbólico. Nesse último, as práticas são mais realizadas com o fim em si mesmas, por prazer ou divertimento.
Kishimoto (2017) ressalta que para melhor compreendermos o termo jogo é preciso que ele seja percebido sob três níveis. Um deles diz respeito à presença de um sistema de regras que permite identificar, em qualquer jogo, uma estrutura sequencial que é específica a ele, dado à sua característica própria. O outro nível refere-se ao jogo enquanto objeto, no qual ganha forma nos elementos integrantes de cada jogo, como o tabuleiro e as peças do jogo de xadrez. Há ainda um que estaria relacionado a um sistema linguístico que funciona dentro de um contexto social, sendo resultado de um conjunto de fatos ou atitudes que dão significado. Não se reduz a mera ação de ser nomeado, mas tem um sentido social que a ele é inerente.
Esse último aproxima-se, a nosso ver, do caráter subjetivo e simbólico destacado pelos PCN’s e nos faz ponderar que o entendimento apresentado pelos alunos investigados revelam características muito próximas de uma identidade cultural da comunidade e, por isso, presentes nos diversos modos de jogos, inerentes às representações que os mesmos elegem enquanto formas de jogar. Por esse motivo, pode-se admitir uma concepção aberta do jogo, no qual os aspectos determinantes e restritivos das regras “impostas” pelas confederações e federações esportivas não encontram tanto espaço, de modo que as alterações no modo de jogar um esporte podem ser plenamente aceitáveis, por mais que não sigam as regras oficiais. Essa possibilidade de variação do jogo esteve manifesta nos relatos de dois alunos. Eles, ao serem questionados se existiam diferentes formas de jogar futsal, afirmaram: “Sim: futsal com chuteira com dois na linha um no gol” (Ariano Suassuna); “Sim, fora de quadra com menos jogadores” (Raquel de Queiroz).
A partir desses relatos, vemos que os alunos manifestam possibilidades outras de se jogar o futsal, distintas do modo normativo ao qual sugere o esporte institucionalizado. Assume-se o caráter de um jogo mais subjetivo e simbólico, principalmente porque “os jogos podem ter uma flexibilidade maior nas regulamentações, que são adaptadas em função das condições de espaço e material disponíveis, do número de participantes, entre outros” (BRASIL, 1997, p. 70).
Uma parcela menor de alunos se refere ao futsal como sendo um esporte; em maior proporção, outros afirmam ser o futsal um jogo para aprender; enquanto um grupo mais restrito atribuiu o futsal como sendo uma vivência pautada na brincadeira.
Já no questionário de saída, identificamos uma inversão no modo como eles compreendem o futsal. Se no primeiro momento predominou o entendimento do futsal enquanto jogo, agora os alunos conseguem entender essa prática como modalidade esportiva.
Não é, necessariamente, que agora o entendimento esteja pautado na lógica formal e rígida do esporte institucionalizado. O que nos parece é que, antes, muitos alunos não tinham vivência nessa modalidade e pouco dela conheciam, como é o caso das meninas. Agora, o acesso a um conhecimento mais próximo do que seja futsal serviu de lente para “enquadrá-lo” como um esporte. O jogar futsal, no entanto, parece estar permeado pelas subjetividades e simbolismos dos sujeitos que a praticam, fazendo as adequações necessárias para uma prática possível para eles, como ainda conseguimos visualizar. Nesse sentido, a pesquisa de Fávero (2016) traz evidências
de que com boas práticas e trabalho é possível desenvolver o conteúdo esporte – futsal nas aulas de educação física, considerando-se o protagonismo do educando.
Os Jogos de Solicitação Tático-Técnica (JSTT) influenciaram positivamente no aprendizado dos alunos do ensino médio da EEMOP; existiu trabalho coletivo frequente para o enfrentamento de situações-problemas apresentadas pelos JSTT; os JSTT contribuíram para a tomada de decisões; os JSTT promoveram motivação e interesse pelo esporte educacional; ocorreram desenvoltura e aceitabilidade dos alunos ao participarem de aulas com a presença de alunas (FÁVERO, 2016, p. 71-72).
A ampliação dos referenciais ― uma das bases do paradigma da multirreferencialidade ― permite pensar, de acordo com Câmara (2014, p. 102), os múltiplos aspectos que compõem e interagem com o objeto, “sendo, ao mesmo tempo, determinantes e determinados, processuais e que se metamorfoseiam em direções que não poderiam ser previstas”. Para o autor, assim como propõe a multirreferencialidade, é fundamental a ampliação dos saberes para o aprofundamento da percepção da realidade. Na constituição dos saberes a serem apreendidos:
[...] não é possível desconsiderar nem mesmo o senso comum enquanto forma de percepção da realidade, por mais objetivada que pareça ser. Todos os olhares são necessários, até mesmo para que possam ser negados. Excluir, já de forma imediatista, é partir de uma verdade pré-determinada e, de acordo com nossa concepção, as construções e compreensões devem se dar no percurso, na experiência perceptiva, a partir do acesso a diferentes saberes (CÂMARA, 2014, p. 157).
A mudança de percepção em alguns alunos, pressupomos, ocorre em virtude dos referenciais acerca do conteúdo em questão, o qual foi abordado em sala de aula na forma de conceitos e reflexões e que configuram a prática do futsal como um esporte33. No entanto, é preciso deixar claro que não se trata de uma aula com enfoque reduzido a esses conceitos normatizados, mas uma discussão que admite tais configurações do futsal enquanto esporte e, que consiste em uma abordagem mais ampla, perspectivando os múltiplos referenciais que com ele dialogam e interagem. Reconhecem-se e se legitimam as diversas possibilidades de práticas, as
33 É importante destacar que em uma pesquisa pautada na multirreferencialidade, é o processo, o percurso, a pedra basilar para construção de entendimento, de modo as reflexões construídas não devem se consideradas não somente a partir de um resultado alcançado. Esse resultado deve estar em constante diálogo com o processo, tecendo fios e dando vida as compreensões levantadas.
suas relações e aproximações possíveis com temas transversais, estes segundo os PCNs (BRASIL, 1998), que são: Ética, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Saúde, Orientação Sexual, como também Trabalho e Consumo, assim como com a ideia apresentada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), na qual especifica que aos sistemas e redes de ensino cabe incorporar aos currículos e propostas pedagógicas, a abordagem de temas contemporâneos que afetam a esfera da vida humana, abordados, preferencialmente, de forma transversal e integradora (BRASIL, 2017). Neste modo, é possível identificar outros temas de interesse, de acordo com o contexto específico do grupo social. Para evitar visões reducionistas, é importante que o esporte seja abordado no contexto da escola para além de um saber fazer, admitindo um saber sobre o fazer que, na ótica de Darido (2018, p. 6), a educação e a educação física devem considerar não só o fazer, mas também:
[...] fatos, conceitos, como conteúdos, todos no mesmo nível de importância. Nesse sentido, o papel da Educação Física ultrapassa o ensinar esportes, ginástica, danças, jogos, lutas, danças, práticas corporais de aventura para todos, em seus fundamentos e técnicas (dimensão conceitual). Ao contrário, a Educação Física na escola busca garantir o direito do aluno de saber o porquê dele realizar este ou aquele movimento, isto é, quais conceitos estão ligados àqueles procedimentos (dimensão conceitual).
Ainda nessa perspectiva de superação de uma visão monóloga da prática do esporte ― pautado exclusivamente nos seus aspectos técnicos e táticos ―, possibilitamos uma amplitude de referências que pudesse permitir aos alunos a reflexão e a compreensão, de modo mais elaborado, dos conhecimentos inerentes a cada conteúdo proposto. Considerando essa estratégia, podemos perceber nas respostas de alguns alunos, no questionário de saída, indícios que evidenciam uma visão mais elaborada do que a manifestada inicialmente.
Dessas, podemos destacar a fala de Ariano Suassuna, ao afirmar que para ele o futsal é: “um esporte que a gente aprende a ter ensinamentos regras e se diverte” (sic), assim como as respostas de José de Alencar e Clarice Lispector:
[...] é um esporte com conceito de jogar bola e se divertir, ganhando ou perdendo e aprender” (José de Alencar) (sic);
[...] futsal é como se fosse jogar bola só que tem posições de jogo diferentes, diferentes formas de praticar o jogo, são várias formas de vivenciar o jogo” (Clarice Lispector) (sic).
Não se quer dizer aqui que o que se objetiva é a mera superação do entendimento naturalizado do senso comum, em relação ao esporte, antes compreendido pelos alunos como “jogo de bola” para, consequentemente, postular aos alunos a compreensão do futsal enquanto ideia fechada, por meio dos conhecimentos que delimitam a modalidade.
Reitero que as discussões aqui pretendidas e desenvolvidas foram muito além desse referencial do esporte ― enquanto objeto de técnicas, regras e informações ― que o definem enquanto tal. Ainda assim, esse aspecto se fez essencial às discussões, pois o mesmo é parte de uma realidade cultural presente nas relações sociais, em suas diversas instâncias. Nesse sentido, negá-lo seria negar também a própria essência deste trabalho,o qual se ancora em uma abordagem multirreferencial e que traz em sua essência o reconhecimento da complexidade que, segundo Ardoino (1992 apud BURNHAM, 1998, p.41), é o que contém, engloba “[...], o que reúne diversos elementos distintos, até mesmo heterogêneos, envolvendo uma polissemia notável. Tratar a complexidade para esse autor implica lançar mão de um estatuto de análise bem diferenciado”.