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O CONCEITO DE ETHOS DE ARISTÓTELES E O CONCEITO DE ETHOS

PERSUASÃO À DA ADESÃO DOS SUJEITOS A UM CERTO DISCURSO

O ethos é uma temática discutida desde a antiguidade. Ela foi utilizada, primeiro, pelo filósofo Aristóteles, que coloca o ethos como parte de sua tríade, composta também pelo logos e pelo pathos como meio de prova. Nessa época, a concepção de ethos era apresentada como: designadora das virtudes morais que garantiam credibilidade ao orador. Atualmente, o ethos, segundo Eggs (apud EGGS, 2008, p. 30, grifos do autor),

[...] está ─ com exceção dos trabalhos de Dominique Maingueneau ─

praticamente ausente da pesquisa atual em linguística, em pragmática e em teoria da argumentação. [...] os vestígios do ethos estão realmente presentes na pesquisa moderna, frequentemente

escondidos, ou melhor, rechaçados para outras problemáticas ─ seja

como condição de sinceridade, na teoria dos atos de linguagem de Searle, como princípio de cooperação ou como máximas

conversacionais em Grice, seja como máximas de educação, de modéstia ou de generosidade, em Leech e em outros autores. Basta

ler as passagens sobre “a adaptação do orador a seu auditório” ou sobre “a pessoa e seus atos” ou sobre “o discurso como ato do orador”, em Perelman, para se dar conta de que o ethos está sempre presente como realidade problemática de todo discurso humano.

Eggs (2008) mostra a realidade atual da apresentação do ethos em diferentes correntes teóricas: em forma de vestígios, escondidos, rechaçados. Apresenta os autores que tratam o ethos dessa forma, quais sejam: Searle, Grice, Leech, Perelman, entre outros. Porém, ressaltamos que, neste trabalho, nos interessa somente a teoria de ethos discursivo de Maingueneau (2008b) e Charaudeau (2006), que comungam a mesma visão. A seguir, iremos abordar algumas premissas do ethos aristotélico e do ethos de Maingueneau (2008b), seguidos de autores que acrescentam questões pertinentes aos princípios teóricos de ethos abordados pelos últimos dois autores citados.

O ethos, segundo Aristóteles (apud MAINGUENEAU, 2008b), está ligado à noção de justiça e verdade. Então, para persuadir o auditório, para mostrar uma imagem positiva de si mesmo, o orador pode se valer de três qualidades: prudência (a phronesis), virtude (a aretè) e benevolência (a eunoia).

A noção de ethos apresentada por Aristóteles é chamada de ethos retórico, havendo outras concepções, como a da Pragmática, representada por Ducrot (apud MAINGUENEAU, 2006), e a da Análise do Discurso, com os estudos de Dominique Maingueneau.

Ducrot (apud MAINGUENEAU, 2006) afirma que o ethos não é o elogio que o orador faz sobre si mesmo, pois isso poderia chocar o público, mas a aparência que lhe conferem o ritmo, a entonação, a escolha das palavras, os argumentos, sendo, na qualidade da fonte da enunciação, revestido de determinadas características que, por ação reflexa, tornam essa enunciação aceitável ou não.

Barthes (apud MAINGUENEAU, 2008a, p. 70) define o ethos chamando a atenção para a sua característica essencial: “São os traços do caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importa sua sinceridade) para causar boa impressão. [...] O orador enuncia uma informação e, ao mesmo tempo, ele diz: eu sou isto, eu não sou aquilo”. Ainda nessa perspectiva (da sinceridade do orador), Charaudeau (2006, p. 116) afirma que

[...] todo sujeito que fala pode jogar com máscaras, ocultando o que ele é pelo que diz, e, ao mesmo tempo, o interpretamos como se o que ele dissesse devesse necessariamente coincidir com o que ele é. Há uma espécie de desejo de essencialização, tanto por parte do locutor quanto da do interlocutor, nessa busca de sentido do discurso.

Portanto, ao analisarmos, interpretarmos um ethos que o orador constrói ao produzir um enunciado sobre si, a sua sinceridade pouco importa, até porque é quase impossível depreender a sinceridade do orador em um discurso, pois, conforme Charaudeau (2006, p. 116) afirma, “todo sujeito pode jogar com máscaras, ocultando o que ele é pelo que diz”, em prol do seu objetivo, que é fazer com que um maior número de pessoas concorde com sua fala. Podemos perceber essa realidade muito claramente nos discursos dos políticos, na época da campanha eleitoral, em que tentam parecer o mais sincero possível ─ mesmo que seja através de máscaras ─ para garantirem um maior número de votos, pois o povo sente a necessidade disso.

Maingueneau (2008b, p. 17) apresenta a sua perspectiva de ethos discursivo, que, inclusive, é a que adotamos neste trabalho:

A perspectiva que defendo ultrapassa em muito o domínio da argumentação. Para além da persuasão por meio de argumentos, essa noção de ethos permite refletir sobre o processo mais geral de

adesão dos sujeitos a um certo discurso.

A perspectiva de ethos que Maingueneau (2008b) defende, denominada de ethos discursivo, apesar de ser bem diferente da perspectiva da retórica antiga pois ultrapassa a persuasão, indo em direção à adesão , não é infiel “às linhas de força da concepção aristotélica” (MAINGUENEAU, 2008b, p. 17).

A retórica tradicional ligou estreitamente o ethos à eloquência, à oralidade em situação de fala pública (assembleia, tribunal...), mas cremos que, em vez de reservá-la para a oralidade, solene ou não, é preferível alargar seu alcance, abarcando todo tipo de texto, tanto os orais como os escritos. Todo texto escrito, mesmo que o negue, tem uma “vocalidade” que pode se manifestar numa multiplicidade de “tons”, estando eles, por sua vez, associados a uma caracterização do corpo do enunciador (e, bem entendido, não do corpo do locutor extradiscursivo), a um “fiador”, construído pelo destinatário a partir de índices liberados na enunciação (MAINGUENEAU, 2008b, p. 17).

Ele mostra que a sua perspectiva de ethos discursivo abarca todo tipo de texto, tanto os orais quanto os escritos, diferentemente da perspectiva da retórica antiga, que estava ligada à oralidade. Afirma que todo texto tem um “fiador”, que é construído pelo destinatário na enunciação.

Ainda em relação à sua perspectiva de ethos discursivo, acrescenta à discussão a questão do “fiador”:

Com essa perspectiva, optamos, então, por uma concepção “encarnada” do ethos [...]. Esse ethos recobre não só a dimensão verbal, mas também o conjunto de determinações físicas e psíquicas ligados ao “fiador” pelas representações coletivas estereotípicas. Assim, atribui-se a ele um “caráter” e uma “corporalidade”, cujos graus de precisão variam segundo os textos. O “caráter” corresponde a um feixe de traços psicológicos. Quanto à “corporalidade”, ela está associada a uma compleição física e a uma maneira de vestir-se. Mais além, o ethos implica uma maneira de se mover no espaço social, uma disciplina tácita do corpo apreendida através de um comportamento. O destinatário a identifica apoiando-se num conjunto

difuso de representações sociais avaliadas positiva ou

negativamente, em estereótipos que a enunciação contribui para confrontar ou transformar: o velho sábio, o jovem executivo dinâmico, a mocinha romântica... (MAINGUENEAU, 2008b, p. 18).

Maingueneau (2008b) optou por uma concepção “encarnada” do ethos discursivo, recobrindo, além da dimensão verbal, o conjunto de determinações físicas e psíquicas ligados ao “fiador” por meio de representações coletivas estereotípicas. Ao fiador, é atribuído um “caráter” e uma “corporalidade”. O primeiro termo corresponde a um feixe de traços psicológicos e o segundo, além de estar

associado aos traços físicos, à maneira de se vestir, está ligado a representações sociais avaliadas positiva ou negativamente.

O autor apresenta, ainda, a forma como o leitor, o intérprete, se apropria do ethos discursivo que o fiador constrói:

Propus designar com o termo “incorporação” a maneira como o

intérprete ─ audiência ou leitor ─ se apropria desse ethos.

Convocando de maneira pouco ortodoxa a etimologia, podemos fazer render essa “incorporação” sob três registros:

─ a enunciação da obra confere uma “corporalidade” ao fiador, ela

lhe dá corpo;

─ o destinatário incorpora, assimila um conjunto de esquemas que

correspondem a uma maneira específica de se remeter ao mundo habitando seu próprio corpo;

─ essas duas primeiras incorporações permitem a constituição de um

corpo da comunidade imaginária dos que aderem ao mesmo discurso (MAINGUENEAU, 2008b, p. 18).

Portanto, esses três registros são uma amostra, pistas para o leitor depreender, apropriar-se do ethos discursivo construído pelo escritor do texto.

O autor mostra que o ethos de um discurso resulta da interação de diversas instâncias, tais como:

[...] ethos pré-discursivo, ethos discursivo (ethos mostrado), mas também os fragmentos do texto nos quais o enunciador evoca sua

própria enunciação (ethos dito) ─ diretamente (“é um amigo que lhes

fala”) ou indiretamente, por meio de metáforas ou de alusões a outras cenas de fala, por exemplo. A distinção entre ethos dito e

mostrado se inscreve nos extremos de uma linha contínua, uma vez

que é impossível definir uma fronteira nítida entre o “dito” sugerido e o puramente “mostrado” pela enunciação. O ethos efetivo, construído por tal ou qual destinatário, resulta da interação dessas diversas instâncias (MAINGUENEAU, 2008b, p. 18-19, grifo do autor).

O autor revela que há uma relação entre a imagem construída antes do evento e outra no momento do evento, criando um ethos pré-discursivo e outro discursivo. Ele apresenta a distinção entre o ethos mostrado e o ethos dito ─ que são derivações do ethos discursivo. Porém, vale ressaltar que as fronteiras entre

esses dois não são nítidas. Já o ethos efetivo é o resultado da interação dessas diversas instâncias.

Charaudeau (2006, p. 115), alinhado ao pensamento de Maingueneau (2008b) sobre ethos discursivo, acrescenta que

o ethos relaciona-se ao cruzamento de olhares: olhar do outro sobre aquele que fala, olhar daquele que fala sobre a maneira como ele pensa que o outro o vê. Ora, para construir a imagem do sujeito que fala, esse outro se apoia ao mesmo tempo nos dados preexistentes

ao discurso ─ o que sabe a priori do locutor ─ e nos dados trazidos

pelo próprio ato de linguagem.

Portanto, é no cruzamento de olhares ─ do outro sobre quem fala e daquele que fala sobre a maneira como ele pensa que o outro o vê ─ que é construído o ethos discursivo.

Na próxima seção, abordaremos a leitura na perspectiva dialógica.