No dicionário Aurélio, o termo estágio é conceituado como um tempo de aprendizado, exercício, prática, tirocínio (de advogado, médico, dentista etc.); uma situação transitória, de preparação, de aprendizado, de especialização que alguém faz numa repartição ou em qualquer organização, pública ou particular.
Juridicamente, o instituto do estágio tem contornos precisos definidos na versão atual da Lei e Regulamento que o disciplinam: Lei n. 6.494/77 e Decreto n. 87.497/82, com as devidas modificações e atualizações implementadas ao longo do tempo.
O artigo 2º do Decreto n. 87.497/82, que é a norma regulamentadora da Lei especial n. 6.494/77, define o estágio curricular, in verbis:
Considera-se estágio curricular, para os efeitos deste Decreto, as atividades de aprendizagem social, profissional e cultural, proporcionadas ao estudante pela participação em situações reais de vida e trabalho de seu meio, sendo realizada na comunidade em geral ou junto a pessoas jurídicas de direito público ou privado, sob responsabilidade e coordenação da instituição de ensino.
A definição legal leva à conclusão de que “há prevalência da aprendizagem sobre a expressão econômica do trabalho”, como expressa Camino, que em suas reflexões sobre essa forma especial de aprendizado, destaca que “o estudante vai trabalhar para aprender, embora seu trabalho integre-se entre os fatores de produção ou contribua para a atividade-fim do concedente”.120
O estágio é, pois, uma fase da aprendizagem escolar que se realiza, geralmente, em empresas públicas ou privadas, podendo as instituições de ensino também conceder estágios.
Na definição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), “estágio prático designa o período – geralmente obrigatório – durante o qual as qualificações adquiridas no correr da formação prática dada pelo ensino técnico e profissional, podem ser experimentadas e evidenciadas nas empresas”.121
Note-se que a definição da UNESCO analisa o estágio sob o estrito aspecto
curricular, considerando essa modalidade de aprendizado como “geralmente
obrigatória”. E levando-se em conta o cenário no qual foi criado, ou seja, quando da criação dos cursos técnicos para as atividades industriais e comerciais e da necessidade de tal treinamento nos cursos de magistério e também em alguns cursos superiores, parece correto definir o aprendizado prático como condição necessária e obrigatória à formação do profissional nas áreas em que determinados currículos assim o exigissem ou, pelo menos, recomendassem.
Todavia, o alargamento das possibilidades de treinamento via estágios, dado por diversos dispositivos e interpretações posteriores à sua criação, levou ao alcance de muitos alunos a prerrogativa de estagiar fora do ambiente escolar, tendo ou não o currículo do curso feito tal exigência. Daí por que não mais se poder definir, na prática, o estágio como “geralmente obrigatório”, muito embora pareça ser essa a melhor interpretação a ser feita no que diz respeito à vontade do legislador. Os aspectos curriculares do estágio são analisados mais adiante, em tópico específico deste capítulo.
Conforme Oris de Oliveira, a aprendizagem escolar, como modalidade da formação técnico profissional, comporta alternância entre a parte teórica e a parte prática, esta última de caráter laboratorial, propiciada pelos equipamentos de que a escola dispõe. A rigor, a aprendizagem escolar pode realizar-se integralmente nos limites do estabelecimento de ensino, mas “por mais perfeito e atualizado que seja o equipamento escolar, a parte prática de sua aprendizagem não tem o mesmo ritmo de 121 OLIVEIRA, Oris. Trabalho e Profissionalização do Jovem. São Paulo: LTr, 2004. p. 146.
uma empresa, em que os postulados de produção e até o relacionamento humano têm fisionomia própria”.122
É importante sublinhar que embora o estágio possa se realizar na empresa ele não se confunde com a aprendizagem empresária, a qual tem por objetivo o treinamento de aprendizes empregados na empresa. O estágio curricular focaliza alunos “sem vínculo de emprego” e se constitui de “uma fase da aprendizagem escolar”. Daí a necessidade de uma correlação entre o conteúdo teórico desenvolvido na escola e as tarefas que, como prática, são desenvolvidas na empresa, sob pena de desvirtuar-se os objetivos do instituto e caracterizar-se legítima relação de emprego.
A Lei n. 8.859, de 23 de março de 1994, acrescentou o parágrafo 3º ao art. 1º da Lei n. 6.494/77, no qual explicita-se a finalidade do estágio, que deve ser a de “propiciar a complementação do ensino e da aprendizagem e ser planejados, executados, acompanhados e avaliados em conformidade com os currículos, programas e calendários escolares”.
Julpiano Chaves Cortez sintetiza o objetivo do estágio curricular como “a complementação do ensino e da aprendizagem. Ele é o instrumento de integração entre a reflexão e o fato, entre a inteligência e a experiência, entre a escola e a prática”.123
Ao comentário de Cortez, acrescenta Camino o argumento de que é o estágio
a única forma eficaz de propiciar ao estudante a experiência da profissão, que só se adquire no fazer diário, na vivência e na superação das dificuldades naturais e inevitáveis, quer de natureza técnica, quer de natureza pessoal, na convivência no ambiente de trabalho. Não há trabalho em laboratório, seja ele o mais perfeito e sofisticado, que substitua a lição natural da vida.124
De fato, como em toda aprendizagem, também na escolar parece produtiva a alternância entre as partes teórica e prática, sendo esta última propiciada por laboratórios e oficinas de que disponha a escola. Todavia, nem sempre a escola tem estrutura para oferecer esse aprendizado prático, tornando-se importantes os convênios
122 OLIVEIRA, Oris. Estágio Profissionalizante – Bolsa de Aprendizagem. Revista LTr, São Paulo, ano. 59,
n. 3, mar. 1995. p. 321.
123 CORTEZ, Julpiano Chaves. Estágio de Estudantes na Empresa: comentários à Lei n. 6.494, de 7 de
dezembro de 1977 e ao Decreto n. 87.497, de 18 de agosto de 1982. São Paulo: LTr, 1984. p. 23.
firmados com as empresas para que nelas os alunos possam complementar seu aprendizado.
E ainda que a escola disponha de estrutura adequada ao aprendizado prático, ainda lhe faltarão instrumentos para reproduzir todo o contexto que envolve o mundo da empresa, sua hierarquia, o relacionamento entre seus empregados, seu tempo de produção, sua busca por padrões de qualidade, as exigências do consumidor e da competitividade etc. O laboratório da escola se diferencia muito da realidade de uma empresa, e vivenciar essa realidade é extremamente enriquecedor para o estagiário
Saliente-se, contudo, que a aprendizagem prática deve estar intimamente ligada à teórica, e ambas vinculadas a um mesmo currículo escolar que deve ser supervisionado pela instituição de ensino. Qualquer estágio desvinculado desses parâmetros constituirá legitima relação de emprego.
Independentemente do aspecto profissionalizante, para o qual se destina prioritariamente, o estágio poderá assumir a forma de “atividade de extensão”, mediante a participação do estudante em empreendimentos ou projetos de interesse social (art. 2º da Lei n. 6.494/77). Depreende-se da leitura dessa norma que, além do estágio profissionalizante, há também o estágio “comunitário”. Oliveira destaca alguns exemplos de estágio comunitário, como os antigos Projetos “Integração” e “Rondon”. Atualmente há vários programas que desenvolvem estágio comunitário, como o “Cidadania Jovem”, patrocinado pela Fundação Abrinq – Pelos Direitos da Criança e do Adolescente, “e muitos outros incentivando o lazer, o esporte, conjuntos musicais junto a populações mais carentes, instruindo sobre aleitamento materno, sobre alimentação, saúde”.125
As escolas de educação especial, destinadas aos alunos com necessidades especiais ou portadores de deficiência, ou excepcionais, também podem desenvolver programas de estágio, independentemente do nível escolar, podendo ter este aprendizado um cunho social ou profissionalizante. A prerrogativa somente foi concedida em 23 de março de 1994, pela Lei n. 8.859/94, que alterou o art. 1º da Lei n. 6.494/77 e incluiu essas escolas no rol das instituições de ensino autorizadas a
desenvolver essa espécie de aprendizagem.126 Para Oliveira, essa possibilidade vai ao
encontro da “nova visão que se tem da ‘inclusão’ da pessoa portadora de deficiência em todos os setores da sociedade”.127
Ainda que se tenha conhecimento da possibilidade de realização de estágios de cunho social, comunitários ou desenvolvidos por escolas de educação especial, interessa aos objetivos do presente trabalho analisar, prioritariamente, a modalidade
profissionalizante, ou curricular, que seja remunerada por bolsa, pois é nela que surgem
os problemas mais relevantes que irão se refletir diretamente no direito do trabalho.