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O estágio profissionalizante, no direito brasileiro, dá origem a uma relação jurídica complexa e triangular, ou tripartite, como o definem algumas teorias, da qual participam a instituição de ensino, que encaminha, a entidade concedente, que recebe, e o aluno, que pratica a aprendizagem.

Trata-se de uma relação de natureza jurídica civil, uma vez que a própria Lei instituidora, Lei n. 6.494/77, em seu artigo 4º, estabelece que a prática não cria vínculo de emprego de qualquer natureza. 128 Há de se considerar, no entanto, que em havendo

verdadeiro labor, desvirtuando-se os objetivos legais, caracterizar-se-á o vínculo de emprego.

Eventualmente, poderá compor a relação um quarto sujeito, os chamados agentes de integração, dos quais se ocupará em tópico dedicado à responsabilidade das partes, mas, necessariamente, o instituto jurídico requer a participação dos três primeiros sujeitos referidos.

126 Originalmente, o art. 1º da Lei n. 6.494/77 somente autorizava o desenvolvimento de programas de

estágio aos cursos de nível superior, profissionalizante de 2º grau e Supletivo, vinculados à estrutura de ensino público e particular.

127 OLIVEIRA, 2004. Op. cit., p. 147.

128 Lei n. 6.494/77, art. 4º. “O estágio não cria vínculo empregatício de qualquer natureza e o estagiário

poderá receber bolsa, ou outra forma de contraprestação que venha a ser acordada, ressalvado o que dispuser a legislação previdenciária, devendo o estudante, em qualquer hipótese, estar segurado contra acidentes pessoais”.

Dec. 87.497/82, art. 6º. “A realização do estágio curricular, por parte do estudante, não acarretará vínculo empregatício de qualquer natureza”.

Maurício Godinho Delgado define bem a natureza jurídica da Lei de Estágio:

Esse vínculo sociojurídico foi pensado e regulado para favorecer o aperfeiçoamento e complementação da formação acadêmico- profissional do estudante. São seus relevantes objetivos sociais e educacionais, em prol do estudante, que justificaram o favorecimento econômico embutido na Lei do Estágio, isentando o tomador de serviços, partícipe da realização de tais objetivos, dos custos de uma relação formal de emprego. Em face, pois, da nobre causa de existência do estágio e de sua nobre destinação – e como meio de incentivar esse mecanismo de trabalho tido como educativo -, a ordem jurídica suprimiu a configuração e efeitos justrabalhistas a essa relação de trabalho lato sensu.129

Trata-se, portanto, de “procedimento didático-pedagógico” de competência das instituições de ensino, a quem cabe a regulação da matéria (art. 3º do Decreto n. 87.497/82)130, não acarretando vínculo empregatício de qualquer natureza entre o

estudante e o estabelecimento concedente, ainda que permitida sua remuneração por bolsa ou outra forma de contraprestação que venha a ser acordada (art. 4º da Lei n. 6.494/77 e art. 6º, caput, do Decreto n. 87.497/82).

Assim, quando remunerado, o trabalho realizado pelo estudante junto à empresa ou órgão da Administração pública poderá em tudo se assemelhar àquele desenvolvido em um contrato de emprego, mas assim não o é porque a Lei, expressamente, o exclui desse vínculo. E somente assim se caracterizará se a aprendizagem prática obedecer aos requisitos formais e materiais previstos na Lei, dos quais, então, se passará a ocupar.

O primeiro requisito formal diz respeito às partes envolvidas no estágio, exigindo- se, na formalização do contrato, a participação da instituição de ensino, do estudante e da entidade concedente. Sobre a qualificação das partes, que também se constitui de requisito formal, se tratará no próximo tópico.

129 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 4. ed. São Paulo: LTr, 2005. pp. 323- 324.

130 Dec. 87.497/82, art. 3º “O estágio curricular, como procedimento didático-pedagógico, é atividade de

competência da instituição de ensino, a quem cabe a decisão sobre a matéria, e dele participam pessoas jurídicas de direito público e privado, oferecendo oportunidade e campos de estágio, outras formas de ajuda e colaborando no processo educativo”.

É também requisito formal a celebração de um contrato escrito entre a instituição de ensino e o concedente e do “Termo de Compromisso”131, também escrito, o qual

assinarão as três partes envolvidas no contrato.

Camino explica a complexidade dessa relação tripartite salientando que, certamente para evitar a fraude, o legislador afastou qualquer possibilidade de formação consensual do contrato, devendo o mesmo se processar de maneira formal. E é complexo porque, necessariamente, resultante de duas relações jurídicas interligadas: “o contrato escrito entre a instituição de ensino e o sujeito concedente, que titulamos como contrato básico-originário e o termo de compromisso, que instrumentaliza o contrato derivado, entre o estagiário e o sujeito-cedente” (grifos da autora).132

Essa bem elaborada síntese de Camino vai ao encontro do que preconiza o art. 5º do Decreto regulamentador n. 87.497/82, deixando claro que o “instrumento jurídico” referido na norma jurídica nada mais é do que, na visão da autora, o “contrato formal” do estágio, que dará suporte legal ao “contrato derivado” estabelecido por Termo de Compromisso, também escrito, que deverá ser firmado entre estudante e concedente.133

A idéia da autora encontra respaldo nos parágrafos 1º e 2º do art. 6º do Decreto n. 87.497/82, que exige, para caracterizar a inexistência de vínculo empregatício, a celebração do “Termo de Compromisso”, no qual deverá constar a referência do “instrumento jurídico a que se vincula”.134

Portanto, parece perfeitamente correta a interpretação de Camino, já que o Termo de Compromisso, por si só, não se viabiliza juridicamente sem o instrumento jurídico que lhe dá suporte.

131 A Lei n. 6.494/77 chamou o contrato de estágio de “Termo de Compromisso”, seguindo o mesmo

caminho adotado pela Instrução Normativa n. DASP-52, de 1976, destinada a orientar os órgãos públicos no tocante à execução do Decreto n. 75.778/75, que dispunha sobre o estágio de estudantes no serviço público federal. (CORTEZ. Op. cit., pp. 25-26).

132 CAMINO. Op. cit., p. 629.

133 Dec. 87.497/82, art. 5º “Para caracterização e definição do estágio curricular é necessária, entre a

instituição de ensino e pessoas jurídicas de direito público e privado, a existência de instrumento jurídico, periodicamente reexaminado, onde estarão acordadas todas as condições de realização daquele estágio, inclusive transferência de recursos à instituição de ensino, quando for o caso”.

134 Dec. 87.497/82, art. 6º, § 1º. “O Termos de Compromisso será celebrado entre o estudante e a parte

concedente da oportunidade do estágio curricular, com a interveniência da instituição de ensino, e constituirá comprovante exigível pela autoridade competente, da inexistência de vínculo empregatício”. § 2º “O Termo de Compromisso de que trata o parágrafo anterior deverá mencionar necessariamente o instrumento jurídico a que se vincula, nos termos do artigo 5º”.

Constitui-se o Termo de Compromisso, portanto, em um meio de prova da relação de estágio, sem o qual a relação de aprendizagem é nula, constituindo-se o vínculo de emprego. E sem a assinatura da escola, o Termo não é válido.

É de se atentar que essa pré-constituição da prova do contrato não será exigida para os casos de estágio comunitário, cuja validade se presume por meio das ações comunitárias de cunho social.135

O terceiro requisito formal desse contrato é a necessidade do estudante, em qualquer hipótese, estar segurado contra acidentes pessoais, que poderá ser contratado pela instituição de ensino ou pela entidade concedente.136 Falar-se-á sobre

esse seguro no tópico dedicado aos aspectos de segurança e previdência social.

Poderá o estudante receber uma bolsa de complementação educacional, ou “bolsa auxílio”, como é comumente chamada, não se constituindo, entretanto, em requisito, mas mera faculdade, ainda que seja paga na maioria dos contratos de estágio.

Os requisitos materiais para configuração do instituto buscam assegurar a efetiva formação acadêmico-profissional do estudante e estão nitidamente expressos nos parágrafos 2º e 3º do artigo 1º da Lei n. 6.494/77.

O primeiro desses requisitos é que o estágio se verifique em unidades que tenham condições reais de proporcionar experiência prática na linha de formação do estudante, devendo também o aluno estar em condições de realizar o estágio. Significa dizer que não só o ramo de atividade do concedente deve ser compatível com a linha de formação do estudante como também a atividade na qual se desempenhe deve guardar vínculo direto com a carga teórica do curso.

O segundo requisito material é que o estágio deve propiciar a complementação do ensino, devendo ser planejado, executado, acompanhado e avaliado em

conformidade com os currículos, programas e calendários escolares.

Deve manter o estágio, portanto, vínculo direto com o currículo do curso desenvolvido pela instituição de ensino, a quem compete, com exclusividade, a regulação da matéria.

135 Lei n. 6.494/77, art. 3º, § 2º: “Os estágios realizados sob a forma de ação comunitária estão isentos de

celebração de termo de compromisso”.

Parece correto supor que o instituto criado pela Lei n. 6.494/77 e seu Regulamento somente possibilitam a realização de estágios vinculados à grade curricular do curso ou, pelo menos, que sejam implementados, quando não obrigatórios, com o acompanhamento direto da instituição de ensino, por meio de agentes designados para tal mister. Não há impedimentos legais para que os investimentos realizados pela instituição de ensino nesse trabalho sejam ressarcidos, pelo menos em parte, pelas entidades concedente, desde que não repassados ao aluno.137

Na prática, os estágios que costumam estar inseridos na grade curricular dos cursos são os obrigatórios, que compõem a carga horária total do ensino profissionalizante, podendo ser desenvolvidos dentro da instituição de ensino ou em ambientes externos com ela conveniados. Via de regra, não são remunerados por bolsa, ao contrário, exigem matrícula na instituição de ensino que, quando particular, demanda contribuição pecuniária do estudante. Essa espécie de estágio, quando realizado em ambiente externo à instituição, costumam ter acompanhamento e supervisão direta do professor contratado pela instituição de ensino para administrar seu andamento. Os estagiários têm encontros periódicos com o orientador da disciplina de estágio, devendo apresentar trabalhos e relatórios de produtividade que serão avaliados de acordo com as exigências do curso. Esses são os estágios legitimamente denominados curriculares.

As escolas também costumam desenvolver programas de estágio em âmbito institucional, na forma de atividades complementares aos respectivos cursos, ainda que não exigidos em seus currículos. Na prática, esse aprendizado também tem sido considerado como curricular, desde que mantido o vínculo com os conteúdos disciplinares de cada curso. O aspecto curricular do estágio será tratado em tópico próprio.

Registre-se que os estágios profissionais de caráter complementar, não obrigatórios, são os que costumam ser remunerados por bolsa e, justamente por essa razão, exigem da instituição de ensino um acompanhamento ainda mais cuidadoso, sob

137 Decreto n. 87.497/82, Art. 10. “Em nenhuma hipótese poderá ser cobrada ao estudante qualquer taxa

pena de responsabilizar-se, solidariamente, por eventual vínculo de emprego imputado ao concedente que deu causa ao desvirtuamento do instituto.

2.4 As partes envolvidas e suas responsabilidades