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Capítulo 2 – A QUALIDADE DO ENSINO SUPERIOR NO CONTEXTO

2.6 Conceito de Qualidade do Ensino Superior

A educação do homem moderno é considerada, por um grande número de países, como um problema de excepcional dificuldade e, as Instituições de Ensino Superior estão cada vez mais conscientes da importância que tem a melhoria da qualidade das suas diversas actividades. A qualidade do ensino superior57 e da formação é um objectivo dos países e, é considerada realmente necessária num amplo leque de processos e não só como mera resposta formal e obrigatória às avaliações externas.

As Instituições de Ensino Superior devem satisfazer as novas necessidades educativas, profissionais e sociais de uma sociedade do conhecimento mundial e dar resposta à evolução dela resultante que, nessa perspectiva desenvolvem um esforço no sentido de melhorar a qualidade exigida dos serviços que prestam, desenvolvendo se necessário, novas iniciativas (individualmente ou através da colaboração no âmbito de associação a nível do ensino superior) centradas na melhor qualidade do ensino e da aprendizagem.

As transformações económicas e tecnológicas e as suas consequências no mercado de trabalho lançam novos desafios às Instituições de Ensino Superior e que, por um lado, o constante aumento do afluxo de estudantes às Instituições de Ensino Superior, que se verificou nas últimas décadas, obrigam os países a enfrentar a tarefa de organizarem os seus sistemas de ensino superior e as relações destes com os Estados e a sociedade por forma a que sejam respeitadas as normas académicas existentes, os objectivos de formação, os padrões de qualidade, a autonomia e, ou, a independência das Instituições de Ensino Superior, segundo as estruturas pertinentes de cada país, bem como a necessidade de prestar contas à sociedade e de a informar.

Os sistemas de garantia da qualidade poderão contribuir para o reconhecimento mútuo das qualificações académicas e profissionais.

Por exemplo, no âmbito da União Europeia, de acordo com o Livro Branco sobre o «Crescimento, Competitividade e Emprego» (Comissão Europeia, 1993), o

Livro Branco «Ensinar e Aprender – Rumo à Sociedade Cognitiva» (Comissão Europeia, 1995) e o Livro Verde sobre «Educação, Formação e Investigação» (Comissão Europeia, 1996) é notória a importância de um ensino de qualidade para o emprego e o crescimento da Comunidade Europeia e para a sua competitividade ao nível mundial, é posta em evidência a ligação existente entre, por um lado, as funções cultural e social do ensino e da formação e, por outro, a sua função económica e, em consequência, as várias facetas do conceito de qualidade; que a transparência dos sistemas de ensino é manifestamente importante à mobilidade transnacional. Porém, é útil entender o que é a qualidade do ensino ou de uma forma mais abrangente a qualidade da educação.

O objectivo de alcançar a educação primária universal figura entre as prioridades da comunidade internacional desde a Declaração Universal do Direitos Humanos (1948), a qual refere que a educação58 primária deverá ser gratuita e obrigatória para todas as crianças59 de todas as nações60. Esta meta foi objecto, posteriormente, de sucessivas reafirmações nos tratados internacionais e nas declarações das conferências das Nações Unidas em múltiplas ocasiões. Na maioria dos instrumentos jurídicos, no entanto, nada é referido no que concerne à qualidade da educação.

Ainda que alguns tratados internacionais tenham abordado a questão da qualidade da educação, ao especificar a necessidade de oferecer uma educação que tenha em conta os direitos humanos, o desporto, a igualdade entre os sexos, etc., não se referiram, regra geral, nem de maneira expressa, à eficácia que pode e deve esperar-se dos sistemas educativos para alcançar a qualidade.

Todavia, o alcance da participação universal na educação dependerá, fundamentalmente, da qualidade da educação oferecida. Por exemplo, a qualidade do ensino oferecido aos estudantes e os conhecimentos por estes adquiridos podem influir

58 A educação, de acordo com o n.º do Artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, deverá «visar à

plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz».

59 «Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos», de acordo com o n.º 3 do Artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

60 De acordo com o n.º 1 do Artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: «Toda a pessoa tem direito à

educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório».

decisivamente na duração da sua escolaridade e no seu interesse pela escola (por exemplo, em Portugal, verifica-se uma alta taxa de insucesso escolar. São vários, certamente, os factores que contribuem para esta situação, os quais se torna necessário identificar). Além disso, a decisão das famílias de incentivar os seus filhos a estudar depende, provavelmente, da sua opinião que têm sobre a qualidade do ensino e da aprendizagem oferecidos, isto é, se vale a pena a família investir tempo e dinheiro para que os seus filhos frequentem o ensino. A função da educação – ajudar as pessoas a alcançar os seus próprios objectivos económicos, sociais e culturais e contribuir para uma sociedade melhor, servida por bons dirigentes e mais equitativa – fortalecer-se-á se a qualidade for melhor. A escolarização permite às pessoas desenvolver as suas capacidades criativas e emocionais, e adquirir os conhecimentos, competências, valores e atitudes necessários para se converterem em cidadãos responsáveis, activos e produtivos.

Fundamentalmente, a educação, é um conjunto de processos e resultados definidos qualitativamente.

Uma das primeiras declarações de princípios acerca da qualidade da educação figurou no relatório da UNESCO «Aprender a ser, A Educação do futuro», elaborado pela Comissão Internacional para o Desenvolvimento da Educação61 presidida por Edgar Faure62. A Comissão observou, também, que a noção de «aprendizagem ao longo da vida» e «pertinência» eram particularmente importantes. Nesse relatório, foi feita, também, especial referência à ciência e à tecnologia, e frisou-se que a melhoria da qualidade da educação exigia o estabelecimento de sistemas nos quais se pudesse aprender os princípios do desenvolvimento científico e da modernização, respeitando os contextos socioculturais dos estudantes.

Posteriormente, foi publicado outro relatório intitulado «A educação encerra um tesouro», apresentado à UNESCO pela Comissão Internacional sobre a Educação

61 O objectivo fundamental da mudança social era a erradicação das desigualdades e o estabelecimento da equidade. Há que recriar o objecto e o conteúdo da educação tendo em consideração, por sua vez, as novas características da sociedade e o contexto em que se insere.

para o Século XXI, presidida por Jacques Delors63. Segundo este relatório, a educação ao longo da vida assenta em quatro princípios base ou pilares:

• Aprender a conhecer -reconhece que os estudantes constroem os seus próprios conhecimentos diariamente combinando elementos endógenos e exógenos (externos);

• Aprender a fazer -centra-se na aplicação prática do que se aprende; • Aprender a viver juntos, aprender a conviver com os outros -

corresponde às capacidades imprescindíveis em que todas as pessoas têm iguais oportunidades para alcançar o desenvolvimento individual;

• Aprender a ser -faz-se referência às competências necessárias para que as pessoas desenvolvam plenamente o seu potencial.

Este conceito de educação proporcionou uma visão integrada e global da aprendizagem e, por conseguinte, o que constitui a qualidade da educação.

A importância de alcançar uma educação de boa qualidade ficou vincada como uma das prioridades da UNESCO, na Mesa Redonda Ministerial sobre uma Educação de Qualidade celebrada em Paris, em 2003.

A qualidade do ensino superior é um conceito «multidimensional» (UNESCO, 1998), que deverá compreender as suas diversas funções e actividades em particular o ensino e programas académicos, a investigação e bolsas, os recursos humanos, os estudantes, os edifícios, as instalações, o equipamento e os serviços à comunidade e ao mundo universitário.

Uma autoavaliação interna e uma avaliação externa realizadas com transparência por especialistas independentes, na medida do possível, especializados a nível internacional, são essenciais para a melhoria da qualidade. Deverão criar-se instâncias nacionais independentes, e definir-se normas comparativas de qualidade, reconhecidas no plano internacional. Com vista a ter em conta a diversidade e evitar a

63 Foi eleito para dirigir a Comissão Europeia em 1985, cargo em que se manteve durante três mandatos até 1994. O seu trabalho envolveu um profundo relançamento da construção europeia. Foi ele quem propôs o «objectivo 1992» (supressão das fronteiras aduaneiras e fiscais entre os estados membros). Principal inspirador do Acto Único (1986), presidiu ao Comité encarregado de estudar o projecto para uma União Económica e Monetária (1988-1989). Os trabalhos deste «Comité Delors» são em grande medida a base dos êxitos económicos e monetários do Tratado de

Maastricht e do nascimento da moeda única europeia. Foi também o iniciador das políticas estruturais da União «Pacote Delors», da Carta Social Europeia e do programa educativo Erasmus (Ocaña, 2004).

uniformidade, deverá prestar-se atenção devida às particularidades dos contextos institucional, nacional e regional. Os protagonistas devem ser parte integrante do processo de avaliação institucional.

A qualidade requer, também, que o ensino superior seja caracterizado pela sua dimensão internacional, ainda que se tenham em conta os valores culturais e as situações nacionais: (i) a criação de sistemas interactivos; (ii) os projectos de investigação internacionais; (iii) o intercâmbio de conhecimentos; (iv) a mobilidade de docentes e estudantes.

Para alcançar e manter a qualidade nacional, regional ou internacional, certos elementos são especialmente importantes, principalmente a selecção esmerada dos recursos humanos e o seu aperfeiçoamento constante, em particular mediante a promoção de planos de estudos adequados para o aperfeiçoamento dos colaboradores, incluída a metodologia do processo pedagógico, e mediante a mobilidade entre os países e as Instituições de Ensino Superior e o mundo do trabalho, assim como a mobilidade dos estudantes em cada país e entre os distintos países. As novas tecnologias da informação constituem um instrumento importante neste processo, devido ao seu impacte na aquisição de conhecimentos teóricos e práticos.

A procura de um ensino superior mais pertinente deve ter implícita a intenção de melhoria da qualidade. A qualidade do ensino superior é um conceito complexo e «multidimensional» (UNESCO, 1998), como já foi referido anteriormente, que depende, em grande medida, do meio envolvente de um determinado sistema ou incumbência institucional, ou das condições e normas numa determinada disciplina. Há vários anos que, no debate sobre políticas de ensino superior predomina a preocupação com a qualidade. E esta tendência manter-se-á, tendo em conta a sua importância para o desenvolvimento e a reforma do ensino superior. A qualidade, fenómeno complexo (Bernheim & Chaui, 2003), refere-se, neste caso, a todas as suas funções e actividades principais destacando-se: a qualidade do ensino, da formação e da investigação, o que significa a qualidade dos recursos humanos e dos programas, e qualidade da aprendizagem, como corolário do ensino e da investigação. Contudo, há que ter a consciência que a procura da qualidade, tem muitas facetas e vai mais longe do que uma interpretação demasiado simplista, da função docente dos diversos programas.

dos estudantes e das infra-estruturas e o meio envolvente da instituição. Todas estas questões relacionadas com a qualidade, e com o interesse por alcançar uma boa direcção e gestão, desempenham um papel importante no tipo de funcionamento de uma determinada instituição, na sua avaliação e na imagem institucional que pode projectar na comunidade docente e na sociedade em geral.

Por último, é indispensável recordar que o principal objectivo da avaliação da qualidade é atingir a melhoria, não só da própria instituição, mas também, de todo o sistema, sendo a qualidade um desafio (Bernheim & Chaui, 2003). Ribeiro (2007), Lourtie (2007), Cabral (2007), Pile e Gonçalves (2007), Silva (2007), Mano (2007), Guimarães (2007), Santos (2007), Salgado (2007) e Pires (2007) apresentaram exemplos de boas práticas, para a melhoria da qualidade em Instituições de Ensino Superior portuguesas, no Encontro «A Qualidade em Estabelecimentos do Ensino Superior: Exemplos de Boas Práticas» realizado no Instituto Português da Qualidade, em 15 de Novembro de 2007.

2.7 Problemas da Qualidade e Pertinência do Ensino