AUTORALIDADE COLABORATIVA E RECOMPENSA AUTORAL
9.1 CONCEPÇÕES CONTEMPORÂNEAS DA CIÊNCIA ABERTA E E-SCIENCE
A seção foi conduzida para as concepções conceituais da ciência aberta e e-Science. As reflexões buscam entender a distinção conceitual entre essas concepções que estão reestruturando as práticas científicas contemporâneas.
No que tange a ciência aberta reforça-se que é uma concepção ampla, complexa e diversificada do pensar e fazer a ciência. Engloba espaços comuns do fazer intelectual de maneira que exista sempre a colaboração, o compartilhamento, a coletividade e a promoção do bem intelectual como um bem comum. Então, pensar na ciência aberta é representá-la como um conceito guarda-chuva em contextos multidisciplinares e multidimensionais.
O entendimento de um conceito guarda-chuva confirma que o escopo da ciência aberta traz em seu bojo múltiplas dimensões que abrangem aspectos, tais como: político, legal, normativo, econômico, científico, técnico, tecnológico, humano, ético, social e cultural. Muito embora o conceito alargado da ciência aberta foi recortado na pesquisa apenas para dar visibilidade aos aspectos que estão ligados com a comunicação científica.
Assim foi considerada que a ciência aberta possui um escopo multidimensional dentro de um novo pensar da pesquisa científica colaborativa aberta a partir das seguintes reflexões:
a) Na Sociedade da Informação, a abertura do conhecimento humano acumulado passa a ser uma realidade possível em busca de políticas sustentáveis que visem a melhoria das condições de vida dos cidadãos e a redução das grandes desigualdades globais;
b) O propósito primordial é beneficiar a sociedade com transparência, sustentabilidade e confiança a partir dos resultados de pesquisa;
c) A abertura dos dados de investigação e da ciência tem um papel decisivo em vários segmentos da sociedade e economia global;
d) A pesquisa aberta colaborativa tem como premissa que as práticas científicas gerem dados, documentos, resultados, métodos, modelos, publicações e tecnologias abertas e gratuitas;
e) Todos os resultados e criações oriundos da pesquisa colaborativa além de abertos, devem ser curados e preservados em repositórios específicos, permanentemente, considerando os princípios políticos, normativos, éticos e legais;
f) As iniciativas internacionais levam ao entendimento de que a economia do futuro aponta para a investigação (transparente e confiável), inovação (competitiva) e experiências científicas (qualitativas e abertas);
g) Abordagens de projetos de pesquisa abertos e colaborativos realçam a dimensão de novidade, inovação e mudança na Sociedade Digital contemporânea;
h) Aspectos legais vigentes são considerados e analisados previamente antes da abertura dos dados. Entretanto, a primordial premissa da ciência aberta é que os produtos de pesquisa estejam acessíveis, abertos, interoperáveis e gratuitos;
Isto posto, as constatações apresentadas direcionam a ciência aberta para duas vertentes: a formal e a práxis. A vertente formal é constituída por instrumentos formais, como as políticas, diretrizes, normativas, legislações e mecanismos regulatórios. E a práxis é constituída pela convergência de teorias, modelos, métodos e práticas (vigentes e emergentes) que ocorrem no processo de comunicação científica.
No tocante a vertente formal, as dinâmicas da ciência aberta ocorrem em diferentes contextos, variando entre países, regiões e locais. Essa variação se acentua a partir de economias, culturas, instituições e espaços distintos. Daí a importância de pensar a pesquisa aberta e colaborativa numa perspectiva global e local, observando diferentes propósitos, políticas, culturas e contextos nacionais, regionais e institucionais. Mesmo que haja uma política formal que norteie a pesquisa com parcerias internacionais é importante que questões nacionais e locais sejam observadas e previstas, dentro do possível, com vistas a estabelecer uma conformidade mínima que diminua as diversidades presentes nesses contextos. Essas diversidades influenciam dinâmicas, procedimentos e comportamentos no decorrer do processo de pesquisa. A exemplo, legislações específicas, documentos normativos institucionais e códigos de conduta ética e comportamental que regem práticas científicas locais. Portanto, a e-Science é conduzida por um arcabouço formal de políticas, diretrizes, normativas, procedimentos e instruções que regulamentam e norteiam as práticas. Os aspectos
formais estão direcionados por escopos: político-normativo, ético-legal-cultural e os práticos pelo teórico, técnico e morfológico.
A vertente prática direciona-se ao ambiente científico com as novas configurações de uma ciência colaborativa e aberta que representa a práxis da e-Science. A práxis da e-Science tem como fio condutor a colaboração científica e o compartilhamento baseados em dados de pesquisa. O escopo morfológico é a infraestrutura sustentável representa seu espaço morfológico onde procedimentos, práticas, métodos, instrumentos, tecnologias, ferramentas e recursos são providos, compartilhados, acessíveis e abertos.
Considerando as vertentes formais e práticas que apoiam a práxis da e-Science, buscou-se no constructo da pesquisa entender os aspectos transversais da ciência aberta e a conexão com a propriedade intelectual. Daí as discussões contemporâneas acerca do
Commons, Economia Criativa e dos bens intelectuais, como bens comuns que direcionam o
entendimento da colaboração, compartilhamento e coletividade da ciência aberta nesta tese. Os bens intelectuais e culturais, nessa perspectiva são de natureza comum, pública e universal. O acesso a tais bens, idealmente, deveria ser democrático e aberto.
Assim, esta seção que reflete a primeira categoria da análise de conteúdo inferiu três reflexões:
a) A primeira reflexão refere-se aos dados científicos está no quarto paradigma científico como eixo norteador da práxis. A premissa básica do quarto paradigma está associada ao uso intensivo dos dados na pesquisa científica. Isso pressupõe que todos os dados primários gerados e coletados a partir dos processos de investigações científicas deverão ser aproveitados como produtos primários de pesquisa;
b) A segunda reflexão se volta para os dados científicos como produtos primários na pesquisa científica. A comunicação científica vigente conduz que os resultados da investigação científica sejam publicados como produtos finais. Na e-Science as publicações já são realizadas a partir dos dados científicos e se constituem em produtos primários de processos compartilhados e colaborativos de pesquisa. Entendeu-se assim que, a autoralidade antes centrada na figura individualista do pesquisador direciona-se para a perspectiva colaborativa. Reflete também nos DPIs vigentes baseado no paradigma propriedade econômico para abordagens pautadas no commons paradigm, na ciência do comum e na colaboração científica. Esses assuntos serão aprofundados em seção específica.
c) A terceira reflexão levou ao entendimento que o quarto paradigma tem uma confluência com os paradigmas anteriores da ciência. Considerou-se que o surgimento de um novo paradigma não rompe com os paradigmas anteriores, mas provoca mudanças no modo de fazer e publicar os feitos científicos. O novo fazer científico ocorre a partir da convergência, incremento, ressignificados e aprimoramentos de modelos, métodos, técnicas e tecnologias que dão sustentabilidade às práticas colaborativas baseadas nos dados científicos.
Em suma, as reflexões acima conduzem a ciência aberta para um ambiente que promove a colaboração, compartilhamento e a coletividade da ciência moderna e a e-Science para uma reconfiguração de práticas científicas com dados científicos. Por ora, a categoria contribuiu para a construção do entendimento epistemológico e teórico que norteará os padrões do modelo conceitual.