CATEGORIAS DA TESE
3 CIÊNCIA ABERTA E O QUARTO PARADIGMA CIENTÍFICO DA E-SCIENCE
3.3 PESQUISA ABERTA BASEADA NO QUARTO PARADIGMA CIENTÍFICO
3.3.1 Constructo Epistemológico da Pesquisa Aberta
Tradicionalmente, a pesquisa científica é o meio pelo qual descobertas, teorias e conhecimentos são gerados no bojo da ciência. O registro e a propagação da pesquisa perpassa pela publicação em diversos suportes. Por séculos esses suportes foram impressos, e mais recentemente, passaram a ser diversificados em meios eletrônicos e digitais. Tal mudança se deu no suporte e nos meios de gerenciamento, armazenamento e acesso à publicação científica.
A publicação científica tradicional ainda é considerada o principal meio de publicização dos feitos da ciência, contudo, as mudanças contemporâneas nos processos da comunicação científica apresentam novas abordagens e dinâmicas que trazem como
constructo científico os dados primários. Pois, na pesquisa tradicional vigente, os dados
primários não são processados como produtos finais. Historicamente, os dados gerados durante a pesquisa científica na maioria das vezes são desprezados e inacessíveis pelos canais formais de comunicação. Geralmente no processo tradicional os resultados finais são divulgados por meio de publicações científicas, sem o aproveitamento do valor e potencial que os dados possuem dentro do processo de investigação científica. Comumente, os resultados dessa investigação são divulgados nos canais formais, antecipando parcialmente ou encerrando o ciclo tradicional da pesquisa científica (BORGMAN, 2015).
Diante disto, entende-se que atualmente ocorre um processo híbrido entre as práticas tradicionais vigentes da comunicação científica e as emergentes na configuração da e-Science, notadamente no cenário internacional. Mesmo utilizando tecnologias da informação e comunicação para a gestão, o acesso e uso das publicações científicas em meios eletrônicos, ainda prevalece o modo de fazer científico tradicional. Enquanto que, a dinâmica emergente é conduzida por dados primários coletados no início do processo de investigação e gerenciados preliminarmente como produtos de pesquisa.
A acepção geral do termo ‘dados’ pode se constituir de fatos representados por uma unidade de análise, agrupada e constituída de significado. Tais significados são construídos a partir de fatos, fenômenos, símbolos, unidades, caracteres ou bits, desde que possuam uma representação legível por linguagem computacional.
As práticas emergentes da e-Science os dados são insumos primários de investigações e podem apresentar resultados preliminares de pesquisa (BORGMAN, 2015). Parte assim do pressuposto que a estrutura é dinâmica e abrange diferentes dimensões (epistemológica, política, teórica, morfológica, técnica e teórica). Os dados são a infraestrutura da ciência moderna, a qual está se tornando a ciência de dados intensivos e colaborativos (TENOPIR et al., 2011). Desta forma, a reflexão preliminar conduz ao constructo epistemológico que dados científicos são insumos do processo de investigação, e por conseguinte, são considerados produtos primários de pesquisa.
Na perspectiva da e-Science, a noção de ‘dado’ também foi conceituada pela Open
Archival Information System (OAIS) como “uma representação reinterpretável de
informações de uma maneira formalizada adequada para comunicação, interpretação ou processamento” (OAI, 2015, on-line, tradução nossa). Essa definição está bem associada as condições em que os dados digitais devem ser acessíveis, interoperáveis e reinterpretáveis semanticamente. Para Frické (2014, p. 652) “dados é qualquer coisa gravável em um banco de dados relacional de forma semântica e pragmaticamente sólida. A semântica requer que as gravações sejam entendidas como declarações verdadeiras ou falsas”. A representação semântica garante o processamento, manipulação, reinterpretação e reutilização dos dados digitalmente.
Essa compreensão se alarga na pesquisa científica contemporânea. Dados científicos são produzidos, coletados, manipulados, reusados e reinterpretados a partir de qualquer formato, suporte e contexto. O contexto dos dados exige pragmatismo “naturalmente, nosso conhecimento de dados, ou o que constitui dados, é falível. Os dados são, portanto, conjectural. Os dados também estão carregados de teoria no seguinte sentido” (FRICKÉ, 2014, p. 652). Essa afirmação aponta para que os instrumentos de medição e métodos utilizados para a interpretação dos dados são passíveis de influencias e equívocos advindos do contexto e do ambiente em que se encontram. Essa é uma afirmação que deve ser considerada quando práticas científicas envolvem dados científicos.
A National Science Foundation (NSF) adota a definição de ‘dados científicos’ para se referir a qualquer informação que possa ser armazenada em forma digital, “incluindo texto, números, imagens, vídeos, áudio, software, algoritmos, equações, animações, modelos,
símbolos e simulações geradas por vários meios observacionais, computacionais e experimentais” (NSF, 2005, p. 20, tradução nossa). Corroboram com essa afirmativa Borgman (2010) e Sayão e Sales (2013) quando afirmam que essa variedade e amplitude dos dados científicos expressos por inúmeras representações descrevem objetos, ideias, condições, situações, fatos, fenômenos e contextos.
Os dados científicos possuem diversos suportes e formatos. Essa diversidade depende da proveniência dos dados científicos de acordo com a área de conhecimento, domínio específico da disciplina e contextos em que foram criados e processados. Desta forma, os dados científicos podem variar consideravelmente entre pesquisadores e áreas do conhecimento. A constatação é que os dados são gerados para diferentes propósitos, por distintas comunidades acadêmicas e científicas e por meio de diversos processos (SAYÃO; SALES, 2013).
Corroboram nesse entendimento Kaase (2001), Borgman (2010), Sayão e Sales (2013) e Nielsen e Hjørland (2014) quando afirmam que o valor dos dados científicos é relativo, pois atendem diferentes perspectivas, propósitos e contextos. Destinam-se aos mais variados pesquisadores, colaboradores e instituições que se utilizam e reusam os dados científicos como o intuito de produzir novos sentidos e significados. Na ciência a relatividade também se destina ao valor, relevância e domínio específico da disciplina científica.
E ainda, é pensar nos dados como uma publicação científica primária. A “noção de ‘publicação’ nessa direção, inclui os dados que sustentam a publicação e os resultados, também conhecidos como dados subjacentes” (EUROPEAN COMMISSION, 2015, on-line, tradução nossa). Assim, pensar em ‘dados’ é assumir a condição que a forma bruta de uma ideia materializada já é um produto primário de investigação.