Apresentamos de seguida as conclusões do estudo, reflectindo as hipóteses de pesquisa colocadas, procurando elaborar algumas inferências que julgamos de particular importância. No entanto, sugerimos a leitura dos capítulos de síntese da discussão dos resultados como complemento da interpretação destas conclusões.
Hipótese 1 - o comportamento do treinador é diferente em função do objectivo do treino, tratando-se de treinos de preparação geral, no início da época desportiva, treinos de preparação competitiva, anteriores às competições, ou treinos imediatamente posteriores à competição, sucedendo a uma vitória ou a uma derrota.
Poderemos considerar que a hipótese de pesquisa 1 não se confirma tratando-se de comparar os treinos de preparação, pré-competição e após a vitória, pois estes não apresentam diferenças significativas entre si. Sendo, no entanto, conveniente referir que os treinos após a derrota revelam
diferenças significativas com todos os outros treinos, apontando no sentido oposto desta conclusão.
De qualquer forma, o comportamento do treinador é suficientemente estável nos treinos observados, com excepção dos treinos após derrota, possibilitando uma interpretação sobre as estratégias utilizadas. O treinador não altera significativamente o seu comportamento, as suas estratégias, em função do objectivo do treino.
Deste modo, concluímos que as funções que o treinador pode desempenhar no treino são estáveis e características conforme demonstram os resultados. Assim, poderíamos organizar a formação dos treinadores de acordo com as funções pedagógicas aqui identificadas.
Por outro lado, poderemos levantar a hipótese de que esta estabilidade se deve à generalidade do instrumento de medida (sistema de observação) pelo que sugerimos uma continuação da pesquisa utilizando instrumentos de análise mais específicos. Ou ainda, poderemos procurar estudar a associação do comportamento do treinador a momentos específicos do treinos que provavelmente terão objectivos específicos diferenciados.
Hipótese 2 - o comportamento do treinador é diferente em função do nível de prática dos atletas, tratando-se de equipas que apresentam níveis de prestação diferenciada (nível elevado, médio e baixo).
Sendo evidente as diferenças encontradas nos grupos em estudo, parece-nos que deveremos concluir pela aceitação da hipótese de pesquisa 2. Portanto, pode-se afirmar que existem diferenças significativas entre os treinadores, revelando soluções pedagógicas divergentes.
Estas diferenças indicam que os treinadores da 1ª divisão B (série dos últimos) apresentam valores significativamente mais elevados que os outros dois grupos de treinadores, no questionamento, afectividade positiva, afectividade negativa, conversas e atenção às intervenções verbais, apontando para estratégias pedagógicas comportamentais relacionais e afectivas
Por outro lado, os treinadores da 1ª divisão A (série dos primeiros) revelam valores significativamente mais elevados que os outros dois grupos de treinadores na categoria observação, parecendo indicar que o controlo é mais frequente e mais atento, originando deste modo intervenções mais curtas e provavelmente mais adequadas. Esta hipótese teórica poderá ser desenvolvida em trabalhos futuros.
Nos treinadores da 2ª divisão encontramos comportamentos que apresentam valores significativamente mais elevados que nos treinadores da 1ª divisão A, tratando-se das categorias actividade motora e outros comportamentos. Deste modo, parece-nos que os resultados apontam para um comportamento dos treinadores que é determinado pelo nível de prática dos atletas, condicionando a selecção das estratégias pedagógicas.
O impacto destas conclusões poderá certamente originar uma reflexão sobre o desenho curricular e o conteúdo programático da formação dos treinadores.
Deverão os treinadores estar melhor capacitados pedagogicamente para exercer as suas funções dependendo do nível de equipas que irão treinar? Esta hipótese poderá originar pesquisas sobre a influência das variáveis de presságio, associadas ao nível de prática das equipas.
Hipótese 3 - o comportamento dos treinadores é diferente em função do nível de prática dos atletas, tratando-se de equipas que apresentam níveis de prestação diferenciada (nível elevado, médio e baixo), em treinos com os mesmos objectivos, nos treinos de preparação, nos treinos pré-competição, nos treinos após a vitória e nos treinos após a derrota.
Concluímos que existem diferenças significativas entre os grupos, confirmando a hipótese de pesquisa 3. Embora, as diferenças sejam escassas nos treinos de preparação, no início da época, julgamos que é mais correcto afirmar a existência de um padrão comportamental diferente entre os treinadores, de equipas com níveis de prática diferenciados, independentemente do objectivo do treino.
Isto é, nos treinos de preparação revelam-se somente diferenças ao nível da correcção entre os treinadores da 1ª divisão B e os treinadores da 2ª divisão, apresentando os primeiros valor mais elevados.
Nos treinos pré-competição, existem já algumas diferenças que poderá indiciar um perfil comportamental diferente aparecendo as categorias afectividade positiva e afectividade negativa como mais frequentes nos treinadores de 1ª divisão B que nos outros treinadores.
Como já foi referido anteriormente, estes treinadores têm tendência para uma intervenção mais afectiva e emocional, que se evidencia claramente nos treinos pré-competição.
Outra evidência refere-se às diferenças significativas das conversas, sendo o grupo dos treinadores de 1ª divisão B que apresenta valor médio mais baixo, comparativamente com os treinadores da 2ª divisão, sugerindo que estes últimos discutem com os atletas algumas das questões referentes à competição.
Nos treinos após a vitória, os treinadores de 1ª divisão B diferem significativamente dos treinadores da 1ª divisão A, na avaliação positiva, no questionamento e na afectividade negativa, apresentando valores médios mais elevados. Os treinadores da 2ª divisão também diferem dos da 1ª divisão B, no questionamento, na afectividade positiva e afectividade negativa, apresentando valores médios mais baixos. Deste modo, poderíamos concluir apontando para uma utilização estratégica afectiva e emocional dominante nos treinadores da 1ª divisão B, à semelhança dos treinos pré-competição.
Nos treinos após as derrotas, os treinadores da 1ª divisão B aumentam ainda mais a sua intervenção afectiva, tornando-se significativamente diferente dos outros treinadores, tentando apoiar-se na intervenção afectiva para colmatar a sua possível incapacidade para analisar a derrota.
Interessante é a diferença significativa dos outros comportamentos, atribuída fundamentalmente a alguns treinadores de 2ª divisão que após uma derrota abandonam o treino ou envolvem-se em comportamentos diversos, fora do contexto do próprio treino.
Seria interessante procurar aprofundar as causas da utilização de estratégias com dominância afectiva e relacional nos treinadores da 1ª divisão B, que
originam as diferenças relativamente aos treinadores da 1ª divisão A e 2ª divisão.
Hipótese 4 - o comportamento do treinador é diferente em função do objectivo do treino, tratando-se de treinos de preparação, treinos pré- competição, treinos após a vitória e treinos após a derrota, em equipas do mesmo nível de prática, nas equipas de nível elevado, nas equipas de nível médio e nas equipas de nível baixo.
Deveremos concluir pela não aceitação da hipótese de pesquisa 4, porque os treinadores dos grupos da 1ª divisão (A e B) não revelam diferenças significativas, quando comparados em função dos diversos tipos de treinos. São os treinadores de 2ª divisão a apresentarem diferenças significativas, que se referem exclusivamente a duas categorias. De facto, os treinadores em estudo têm um comportamento aparentemente estável no que respeita às principais funções pedagógicas.
Poderemos concluir que o treinador da 1ª divisão A é um treinador que se apresenta com uma prestação condizente com o nível de prática dos seus atletas, com segurança e estabilidade. O seu perfil comportamental geral é estável independentemente do tipo de treinos.
Os resultados são similares nos treinadores de 1ª divisão B. Apresentam também um perfil comportamental que não evidencia diferenças significativas em função do tipo de treinos, com excepção da categoria outros comportamentos.
No entanto, algo de diferente se passa com os treinadores de 2ª divisão, temos diferenças evidentes na atenção às intervenções verbais e nos outros comportamentos. Na categoria atenção às intervenções verbais são os treinos de preparação em que os atletas mais falam para o treinador, por oposição aos treinos após vitória ou derrota. Os outros comportamentos acontecem dominantemente nos treinos após a derrota, diferenciando-se significativamente de todos os outros treinos.
Será que os treinos seleccionados não são representativos das diversas variáveis de programa? Ou ainda será que as variáveis de programa têm uma
Ou será que o comportamento do treinador não sofre alterações de vulto quando nos referimos ao treino que envolve níveis de prática elevados? Será que o mais importante no treinador é também e assim como nos atletas a estabilidade comportamental nos treinos e nas competições?
Como conclusão geral do estudo poderemos referir que o comportamento do treinador de Voleibol, no que respeita às suas principais funções pedagógicas (instrução; organização; interacção; controlo; actividade), observado em situação de treino, não é significativamente diferente em função do objectivo que o treino persegue, considerando o momento da época desportiva e a sua relação com a competição mais imediata, e do nível de prática dos atletas. Mas se considerarmos os níveis de prestação das equipas, o comportamento do treinador já evidencia diferenças significativas, apontando para estratégias pedagógicas específicas dos diversos níveis de prática.
Portanto, acreditamos que esta pesquisa se possa projectar na formação de treinadores e outros agentes de ensino. Julgamos ter produzido conhecimento inovador, tornando público o que se passa no treino de competição, através da observação ecológica do treinador.
Gostaríamos de dizer que o sucesso desportivo é determinado pelo comportamento do treinador, mas tal afirmação pecaria pela simplicidade. De facto, o nosso estudo evidencia alguma influência do nível de prestação competitiva das equipas no comportamento do treinador. O que de certa maneira possibilita a afirmação inicial, mas não deveremos esquecer a multidisciplinaridade do processo de treino, como vem sendo referido ao longo deste trabalho, e consequentemente a multitude de variáveis que podem influenciar o sucesso desportivo.