5. O Sistema de Observação do Treinador
5.3. Objectividade do Sistema de Observação
5.3.1. Validade
Iremos abordar quatro tipos de validade procurando cruzar a análise de modo a definir claramente a objectividade do sistema. Optámos pela validade aparente, a validade de construção, a validade de conteúdo e a validade concorrente.
5.3.1.1. Validade Aparente
Pode ser definida como um meio de verificação se o sistema de observação pode medir o que na realidade se pretende medir (Safrit & Wood, 1989). Apesar de ser uma forma de validade muito superficial, não deixa de ser igualmente importante, até porque a análise da validade deve ser realizada
por passos, pelo que uma abordagem superficial ou impressionista deve ser sempre tida em consideração.
Naturalmente, que a validade aparente tem estado sempre desde o início da construção do sistema no nosso espírito e consciência, pois temos realizado os necessários ajustes e adaptações comparando constantemente com a realidade do Treino Desportivo e com os diferentes comportamentos que o treinador vai assumindo.
5.3.1.2. Validade de Construção
Considera-se que as categorias do sistema de observação devem constituir uma amostra do que se pretende observar (Safrit & Wood, 1989). Sendo o comportamento do treinador o objecto da análise, certo seria que o sistema de observação comportasse itens ou categorias que correspondam a parte desse mesmo comportamento. De qualquer modo, o comportamento do treinador apresenta-se subdividido nas principais funções de ensino pelo que parece confirmada este tipo de validade.
5.3.1.3. Validade de Conteúdo
Este tipo de validade permite concluir que o conteúdo do sistema de observação reflecte exactamente o que se pretende observar (Safrit & Wood, 1989).
Ao estudarmos o comportamento do treinador na situação de treino, verificamos que os principais autores apontam para modelos de intervenção, nos quais consideram as funções de ensino como fundamentais, a saber: instrução, organização, interacção, controlo.
Este é o conteúdo da análise repartido em diferentes categorias comportamentais que se objectivam através do processo pedagógico de interacção no treino.
No entanto, deve-se referir que o sistema não está totalmente fechado podendo ser registado na categoria de diversos os comportamentos mais atípicos ou melhor menos regulares do treinador.
5.3.1.4. Validade Concorrente
Por definição, esta validade obrigaria à comparação do sistema de observação com outros já validados que serviriam de referência para o novo sistema de observação (Safrit & Wood, 1989).
Embora este sistema de observação esteja construído sob a influência de outros estudos (Tharp e Gallimore (1976) e Rushall (1989, in Darst, Zakrajsek & Mancini, 1989), é um instrumento novo pelo que não seria adequado realizar uma simples comparação com os outros sistemas. Deste modo, optámos por obter a opinião de peritos em Pedagogia do Desporto e simultaneamente utilizámos o sistema em diversos estudos exploratórios submetendo-os a apresentação pública obtendo daí as diversas críticas para a sua validação (Rodrigues, Rosado, Sarmento, Ferreira & Leça-Veiga, 1993).
5.3.2. Fidelidade
Para garantirmos que o sistema possa ser utilizado por diferentes observadores ou pelo mesmo observador em diferentes momentos resolvemos estudar a fidelidade, alargando assim o campo da determinação da objectividade do sistema de observação.
5.3.2.1. Fidelidade Intra-Observador
Pretende garantir que um mesmo observador em diferentes momentos faça uma codificação semelhante dos diversos comportamentos em estudo. Foram realizados testes, por duas vezes, com o intervalo de uma semana entre eles, sobre o mesmo treino. Obtivemos para todas as categorias valores
iguais ou superiores a 85% de acordos segundo o Índice de Acordos de Bellack (Siedentop, 1983), aplicado ao registo de duração:
valor máximo
% Acordo = --- x 100 valor mínimo
Este índice foi aplicado categoria a categoria, obtendo valores aceitáveis entre os 85% e os 99%. Naturalmente que estes valores devem ser analisados como iniciais, porque o observador está na fase inicial de utilização do sistema de observação.
Os resultados encontrados nos testes realizados podem ser verificados através do seguinte quadro 5.
Inf Dem Cor Av + Av - Que Ges Af +
97% 90% 87% 85% 86% 90% 97% 91%
Af - Pre Con Obs AIV AM NAM OC
89% 90% 95% 99% 93% --- --- ---
Quadro 5 - Fidelidade Intra-Observador
5.3.2.2. Fidelidade Inter-Observadores
Possibilita garantir que diferentes observadores utilizando o sistema de observação conseguem codificar os comportamentos da mesma maneira. Para percebermos como se formaram os observadores aconselhamos a leitura do capítulo sobre o treino de observadores. Aqui iremos somente referir os valores que obtiveram diferentes observadores no teste de fidelidade, utilizando o Índice de Bellack (Siedentop, 1983).
Inf Dem Cor Av + Av - Que Ges Af +
99% 92% 97% 86% 88% 92% 94% 90%
Af - Pre Con Obs AIV AM NAM OC
90% 100% 100% 99% 100% --- --- ---
Quadro 6 - Fidelidade Inter-Observadores
No quadro 6 podemos verificar que os valores da percentagem de acordos se situam entre os 86% e os 100%.
6. As Condições de Observação
6.1. Amostragem Temporal
Realizámos uma amostragem temporal da sessão de modo a reduzir o tempo gasto em observação e rentabilizar a pesquisa. À semelhança de trabalhos realizados nesta área (Postic, 1977; Carreiro da Costa, 1988) que indicam valores de 40% para a amostragem temporal, pretendemos realizar uma observação de 50% do tempo total de treino, repartida por cinco períodos de igual duração distribuídos ao longo da sessão com o mesmo intervalo entre si: no início, no final, no meio e entre o início e o meio, e entre o meio e o final.
Estudámos a correlação entre a amostragem 50% de um treino, de acordo com o procedimento referido no parágrafo anterior e a observação total
desse treino. Esta correlação mostrou-se muito forte (r=0,975), pelo que julgamos poder confirmar os dados dos autores Postic (1977) e Carreiro da Costa (1988) e aplicar esta metodologia.
6.2. Protocolo de Codificação
Como seria de esperar este tipo de codificação de comportamentos obriga a um constante esclarecimento das definições das categorias pelo que situações mais específicas e espontâneas podem não estar devidamente esclarecidas pela definição padrão.
Deste modo, apontamos para um conjunto de regras de codificação e interpretação que julgamos necessário e útil para a compreensão e discussão dos resultados:
• informação - considera-se mesmo que a informação diga respeito à organização do exercício;
• demonstração - considera-se também quando existe verbalização simultânea;
• correcção - consideram-se as ajudas (manipulação corporal); consideram-se as informações sobre o resultado da acção;
• avaliação - considera-se mesmo que associada a outro tipo de intervenção;
• gestão - considera-se quando o treinador manipula os materiais para preparar o exercício ou para condicionar o ritmo do exercício (lançamento de bolas); quando o treinador dá ordens de início e fim de actividade ou jogada; quando regula os tempos de repouso (beber água) ou para garantir condições de segurança (desvio de bolas, ajudas de segurança);
• pressão - considera-se quando o treinador marca o ritmo da execução (“vai,vai,vai,...”) e quando se associa também a
• conversas - consideram-se quando mesmo que exista relação com o processo de treino, não tem a ver directamente com o treino que está a decorrer; consideram-se conversas com os dirigentes, os pais e familiares, os atletas, o treinador-adjunto, o coordenador técnico, o roupeiro, o massagista, etc.;
• observação - considera-se também quando o treinador estando evidentemente interessado no que se passa no treino, se movimenta e simultaneamente vai apanhando bolas;
• outros comportamentos - olhar para o relógio, para o plano de treino, para fichas; parar para beber água, abotoar um sapato; abandona o ginásio ou sai fora da filmagem.