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CAPÍTULO IV – LIBERALISMO, DIREITOS E MORALIDADE

IV. 3 – CONDIÇÕES DO DEBATE MULTICULTURAL

Vimos que questões pertinentes à cultura de fundo não fazem parte da alçada da razão pública. Porém isso não encerra a questão. Sabemos que reivindicações vindas da cultura de fundo refletem quase que diretamente no arranjo institucional que caracteriza o espaço político público, e nem sempre rumo

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a justiça. Diante da possível minoria numérica de várias identidades culturais, é necessário que se desenvolva uma metodologia de debate inclusiva. Nesse modelo deliberativo, diferentes indivíduos e grupos devem estar aptos a tecer debates em ambientes não institucionalizados e ainda sim, suas reivindicações devem ser reconhecidas simetricamente. Outro desafio que se apresenta é o reconhecimento pelos canais institucionalizados dessas reivindicações.

Jürgen Habermas apresenta uma proposta interessante a essa questão. Vamos iniciar a partir da concepção habermasiana de esfera pública:

A esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomada de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos.199

Essa rede comunicativa não é institucionalizada, os temas nela debatidos são fluidos, as opiniões adstringidas daí não possuem validade estatística. Não há uma forma de mensuração das vontades individuais como pode ser verificada em votações eleitorais por exemplo. Mas ainda assim existe uma luta pela construção de influência entre os atores da esfera pública em torno da construção de uma opinião pública (ainda que seja fluida). É essa opinião que vai estimular posteriormente a pauta de debates da sociedade civil, e suas pressões sobre as instituições políticas.

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É também importante nesse momento, uma breve alusão ao conceito habermasiano de sociedade civil. Habermas discorda, por exemplo, da conceituação hegeliana de sociedade civil como ‘sistema de necessidades200’ para Habermas o conceito de sociedade civil não engloba apenas o regime de direito privado e as relações de trabalho e de troca de mercadorias. O seu núcleo é formado por associações e

organizações livres, não estatais e não econômicas, as quais ancoram as estruturas de comunicação da esfera pública nos componentes sociais do mundo da vida.201 A sociedade civil tem como uma de suas funções a institucionalização dos discursos tecidos na esfera pública. A sociedade civil ‘organiza’ os discursos capazes de resolverem seus problemas como pauta relevante dos debates da esfera pública. A sociedade civil se organiza de certa forma, independentemente dos sistemas estatais e econômicos. As liberdades fundamentais, como as liberdades negativas (aí incluídas todo o rol de direitos de primeira geração202), servem como uma espécie de proteção contra a influência que o Estado pode exercer na imposição da pauta de discussões que vêm a se tornar relevantes para a esfera pública.

Poderíamos levantar esses conceitos de esfera pública e de sociedade civil e perguntarmo-nos como eles poderiam ser instrumentalizados no debate multiculturalista. Quais espaços teriam os grupos individuais na formação da agenda da sociedade civil, e quais seriam as justificativas morais para o engajamento do indivíduo no debate público. Habermas oferece o seguinte modelo para a assegurar a aceitabilidade de um argumento no interior de um processo argumentativo:

200

Ver capítulo II, desta dissertação.

201

HABERMAS, 1997. pg 99.

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(a) Ninguém que possa dar uma contribuição relevante pode ser excluído da participação; (b) a todos se dará a mesma chance de dar contribuições; (c) os participantes devem pensar naquilo que dizem; (d) a comunicação deve ser isenta de coações internas ou externas, de tal forma que os posicionamentos de ‘sim’ e de ‘não’ ante reivindicações de validação criticáveis sejam motivados tão somente pela força de convencimento das melhores razões.203

Essa é a justificação moral do debate. Sabemos que nessa esfera de debates, não existe uma positivação jurídica de como o debate deve ocorrer, mas sim uma justificação moral que caracteriza a formação da opinião pública, bem como o posterior encaminhamento dos termos desse debate rumo a institucionalização (ou pelo menos pressão) sobre os círculos estatais e jurídicos.

Percebemos que o modelo discursivo apresentado por Habermas é radicalmente democrático, já que abre a possibilidade do debate a qualquer individuo que possa dar uma contribuição relevante ao tema abordado. Esse modelo deliberativo de política não se restringe ao procedimentalismo característico do liberalismo, pois não se mostra como uma relação entre indivíduos mas, para além disso, como uma relação intersubjetiva, onde a consideração recíproca de direitos e deveres, em proporções simétricas de

reconhecimento.204

Habermas apresenta o modelo deliberativo, como uma suprassunção aos modelos republicanos e liberais de democracia. A visão liberal de direitos, enxerga a ordem jurídica como legitimada de acordo com a individualidade da imputação do direito através de direitos individuais e da analise individual de sua juridicidade. A visão

203

HABERMAS, 2002. pg 58.

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republicana fundamenta o direito num padrão objetivo de integração social e respeito mútuo. É sobre essas visões de direito que habermas apresenta o padrão da intersubjetividade; a política deliberativa conserva o conteúdo liberal de direitos fundamentais, ao passo que conserva o conteúdo radicalmente democrático de uma organização social que leve em conta a resolução de conflitos por uma via comunicativa.

É dentro da variedade das formas que esfera pública assume, e dos fluidos contornos que a sociedade civil pode conferir às suas demandas (não mensuráveis num escopo institucional) que a política deliberativa ganha visibilidade empírica. Ela pode constituir uma vontade comum não apenas pelo auto-entendimento mútuo de caráter

ético, mas também pela busca de equilíbrio entre interesses divergentes e do estabelecimento de acordos, da checagem da coerência jurídica, da escolhas de instrumentos racional e voltada para um fim específico e por meio, enfim, de uma fundamentação moral.205

Percebemos que Habermas desenvolve um raciocínio inclusivo. Diferentes demandas podem ser consideradas em conjunto, sem que precisem depender da virtude dos cidadãos (como o faz muitas vezes o republicanismo, nos moldes apresentados por Habermas). Mas imaginemos o direcionamento desse debate diante de um cenário multicultural. Será que o modelo habermasiano de política deliberativa, ao se considerar sensível às diferenças admitiria um rol de direitos especiais de minorias (como aqueles defendidos por Will Kymlicka) desde que aqueles direitos antes de integrados ao sistema passassem pelo crivo da legitimação discursiva?

205

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O fato de ser radicalmente democrático quanto à fluidez das configurações discursivas características à esfera pública, não significa ainda, afirmar que Habermas é um asceta do multiculturalismo de direitos.

Habermas, assim como Charles Taylor206 expõe o debate a partir de duas compreensões de liberalismo: o liberalismo 1 que não permite ao Estado perseguir qualquer objetivo que esteja além das liberdades e bem estar individuais de seus membros; e o liberalismo 2 que deve garantir aqueles direitos fundamentais, mas deve, além disso preservar uma forma cultural, uma tradição e religião, ou um número limitado delas. Habermas reconhece que o direito é um reflexo de uma formação cultural específica, que um ordenamento jurídico é impregnado de valores morais característicos de regiões específicas. Mas em sociedades plurais, nenhum Estado é constituído por uma nação, mas por uma miríade de culturas. Criar barreiras jurídicas de proteção cultural não resolve a questão das identidades, com novas fronteiras para o Estado certamente

também surgem outras minorias nacionais; e o problema não desaparece a não ser à custa de “purificação étnica’’- o que é injustificável do ponto de vista político-moral”.207

De acordo com Habermas, um Estado pode garantir eqüitativamente a coexistência de vários grupos culturais a partir da efetivação dos direitos individuais. Não seria necessária nenhuma fundamentação especial de direitos, mas a sobrevivência cultural se daria numa relação intersubjetiva a partir da preservação da integridade individual, no respeito à identidade individual.

A existência eqüitativa das culturas não pode ser garantida através de concessões de direitos especiais considerados além da gama de direitos individuais. Ainda que

206

Ver capítulo I desta dissertação.

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aquelas doutrinas abrangentes respeitassem os princípios de uma democracia constitucional nos moldes do liberalismo ela seria normativamente falha. O direito deve servir para ao reconhecimento de seus membros; ele não tem de forma alguma o sentido

de preservação administrativa das espécies.208

As tradições culturais se reproduzem ao convencer os indivíduos do valor de si mesmas,209 ao se articularem nas experiências de vida cotidianas internalizadas e constantemente reinterpretadas como uma hermenêutica do dasein. A positivação jurídica não pode, não deve fazer nada além de possibilitar ao indivíduo o desenvolvimento de seu universo autônomo. Permitam-me citar Habermas mais uma vez:

As culturas só sobrevivem se tiram da crítica e da cisão a força para uma autotransformação. Garantias jurídicas só podem se apoiar sobre o fato de cada indivíduo, em seu meio cultural, detém a possibilidade de regenerar essa força. E essa força, por sua vez, não nasce apenas do isolamento em face do estrangeiro e de pessoas estrangeiras, mas nasce também – e pelo menos em igual medida – do intercâmbio com eles.210

208

Idem, pg 250.

209

GIDDENS, Anthony, BECK, Ulrich, LASCH, Scott. Modernização Reflexiva. São Paulo: UNESP, 1997.

210

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Will Kymlicka tem muita razão quando afirma que o atual estágio do debate multiculturalista é um debate entre liberais acerca dos princípios do liberalismo211. Por maiores que sejam as divergências e antagonismos, a aquiescência em relação à democracia constitucional funciona como um horizonte ético compartilhado pela esmagadora maioria das coletividades integrantes das discussões políticas contemporâneas .

Modelos de reconhecimento como os propostos por Charles Taylor, Will Kymlicka, John Rawls e Jürgen Habermas são unânimes na defesa das liberdades fundamentais do indivíduo como pressuposto de qualquer sociedade decente.212 Equiparada a essa defesa, aqueles pensadores concordam que somente a igual estima às diferentes identidades culturais e à pluralidade de concepções de boa vida podem conferir ao reconhecimento o status de autenticidade.213

Tendo-se em vista a igual importância das liberdades individuais e a consideração de diferentes ideais de vida como e de comunidade como formas autênticas de realização do dasein, coloca-se a questão sobre a responsabilidade que uma teoria da justiça deve ter sobre a preservação desses modelos de reconhecimento. Nossa tese afirma que a igual relevância dos compromissos procedimentais e substantivos no desenvolvimento da identidade humana, não impede que eles sejam abordados como qualitativamente diferenciados.

211

Ver o capítulo 3 desta dissertação.

212

RAWLS, John. Liberalismo Político. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

213

SOUZA, Jessé. Ver seu conceito de modernidade inautêntica. In SOUZA, Jessé. Modernidade Seletiva. Brasília: UNB, 2000.

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Se o escopo conceitual por nós demonstrado, que vai de Kymlicka a Rawls parece concordar que o debate multiculturalista pressupõe a adesão aos princípios do Estado democrático de direito, por dedução lógica podemos desenhar o campo discursivo onde esse consenso sobreposto214 é deflagrado.

Obviamente as discussões na esfera pública podem ter como objeto problemas referentes a interesses particulares, a vida privada, a esfera da intimidade,215 ou mesmo a questões que mobilizem o uso da razão pública pela sociedade civil. Mas a partir do momento que o argumento multiculturalista põe em pauta a envergadura da ação jurídica institucional em torno do atendimento às demandas daquelas coletividades injustiçadas (sejam essas injustiças de redistribuição ou de reconhecimento216) o espaço comunicativo mais apropriado para a solução dessas contendas é o espaço político público. Essa definição nos leva a assumir as seguintes posturas no trato das questões acima mencionadas:

1- O espaço político público é o campo discursivo referente às relações jurídicas e tem como forma de reconhecimento o direito;

2- A razão pública é a única razão compatível com a sistematização e cumprimento das demandas do espaço político público;

3- Sendo a razão pública a razão do espaço político público, é por conseguinte a razão apropriada dos debates pertinentes ao direito;

214 RAWLS, 2000. 215 GIDDENS et alli , 1997. 216 FRASER, 2001.

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4- O direito tem por base a afirmação da imputabilidade moral do sujeito e visa a generalização e efetivação da autonomia individual no corpo conhecido como direito, liberais, direitos políticos, e direitos sociais.

Kymlicka afirma que as instituições políticas de uma sociedade não são neutras, mas carregam as cores das culturas majoritárias. Baseado nessa assertiva, expressa que a rigidez procedimental desconsidera os interesses dos grupos minoritários causando assim prejuízos a eles. A justiça não poderia ser restringida à rigidez procedimental configurada no universalismo de direitos, pois esta seria a razão de muitas injustiças que acometem as minorias.

Concordamos que a justiça não pode ser restringida à rigidez procedimental. Mas essa concordância, não significa, ainda assim uma concordância com o argumento multiculturalista. Afirmar que uma teoria da justiça não possa se resumir ao procedimentalismo jurídico significa dizer que o universalismo de direitos reflete um momento da teoria da justiça no interior de uma estrutura de relações sociais de reconhecimento. O universalismo não esvai o reconhecimento, podendo em muitos casos ser nocivo a ele, se aplicado fora de seu contexto moral. O universalismo não pode ser

universalmente aplicado em todo espaço de desenvolvimento crítico da moral.

Se o universalismo de direitos não pode ser utilizado em todas as esferas de interação humana, isso não significa de modo algum invalidá-lo. Mas significa dizer, justamente contra o argumento multiculturalista, que o universalismo é não apenas válido, mas a única postura hermenêutica justa no espaço das relações jurídicas. Isso também não significa uma tentativa de mascaramento das fontes morais do liberalismo,

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mas, outra vez o seu inverso: é o uso da razão pública num contexto político deliberativo que vai possibilitar a todos os sujeitos o espaço político autêntico de sua individualidade na tomada de decisões autônomas sobre o sentido existencialmente construído de suas identidades, de seus selves e sobretudo – de suas culturas.

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