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Conectando Bem-Estar, Simplicidade Voluntária e Decrescimento

2. SUPORTE TEÓRICO

2.3 Consumo, Bem-Estar e Estilos de Vida

2.3.4 Conectando Bem-Estar, Simplicidade Voluntária e Decrescimento

Não é recente a constatação de que o bem-estar e a felicidade independem da riqueza. O filósofo Jeremy Bentham (1748-1832), em sua visão utilitarista, já argumentava que todas as decisões sociais e políticas devem ser feitas com o objetivo de alcançar a máxima felicidade possível para o máximo de pessoas possível. John Stuart Mill (1806-1873) complementou o pensamento de Bentham apresentando que há uma “associação indissolúvel” entre a felicidade de um indivíduo e o bem-estar da sociedade. Para ele, a educação e a opinião pública deveriam trabalhar juntas para estabelecer tal

associação. Dessa forma, os indivíduos estariam sempre motivados a agir não apenas em favor do próprio bem-estar, mas para o bem-estar de todos (BUCKINGHAM et al., 2011). Ainda na abordagem utilitarista, Peter Singer, em sua publicação Libertação

Animal (1975), extrapola a visão de Bentham e Mill, acrescentando que o “princípio da

máxima felicidade possível” se aplica não apenas às pessoas, mas à natureza e aos animais, sendo eles parte da mesma equação (BUCKINGHAM et al., 2011).

Com uma proposta diferente, mas ainda tratando da importância do bem-estar e de uma vida equilibrada, Buckingham et al. (2011) apresentam ainda Bertrand Russel, que no início do século XX, em seu ensaio Elogio ao ócio, afirmou que o caminho para a felicidade estaria na redução organizada do trabalho, onde o indivíduo deveria reconhecer qual trabalho é genuinamente valioso para si e escolher fazê-lo. O filósofo afirma que, para muitos, nem o trabalho nem o lazer são tão satisfatórios quanto se acredita ser, mas ao mesmo tempo não se consegue deixar de sentir que a ociosidade é um vício. Para ele, há uma virtude e uma utilidade em relaxar e ficar “sem fazer nada”, sendo importante uma vida equilibrada (BUCKINGHAM et al., 2011).

Evoluindo nas questões relativas ao bem-estar, o pensamento do decrescimento está centrado na questão de como ser capaz de aproveitar uma “boa vida”. Esse antigo objetivo filosófico encontra um eco no conceito de Georgescu-Roegen (1975:33), apresentado como “prazer de viver” - joie de vivre. Essa busca por felicidade se manifesta em uma variedade de formas, dependendo do contexto cultural. Em países do norte europeu, ela é associada a uma atitude de frugalidade ou “simplicidade voluntária” (MARTÍNEZ-ALIER et al., 2010). Tal sociedade com consumo frugal e com renda voluntariamente reduzida apresenta ainda maior foco na economia local (KALLIS, 2011). Georgescu-Roegen (1975), considerado o pai do decrescimento, mostrou-se fervorosamente a favor de uma retração nos níveis de consumo em países como os Estados Unidos, o qual ele entendia que já possuía um consumo excessivo (MARTÍNEZ- ALIER et al., 2010). Para o autor, o real output do processo econômico (ou qualquer processo da vida) não é o fluxo material gerado, mas o misterioso fluxo imaterial do prazer de viver. Sem reconhecer tal fato, não se pode dominar o fenômeno da vida (GEORGESCU-ROEGEN, 1975).

Uma das fontes de decrescimento está atrelada ao que alguns autores chamam de “significado da vida” e movimentos que enfatizam a espiritualidade, não-violência, arte ou simplicidade voluntária (SCHNEIDER et al., 2010). No entanto, para a maior parte dos estudiosos, o decrescimento está centrado no desenvolvimento de indicadores físicos e mensuráveis de bem-estar e sustentabilidade, havendo, possivelmente, menos ênfase no “questionamento da noção de necessidade” (MARTÍNEZ-ALIER et al., 2010).

Apesar dos esforços existentes acerca do consumerismo verde, ou seja, a coleção de esforços por organizações não governamentais (ONGs), empresas e governos na busca de persuadir indivíduos a comprar bens e serviços que possuam um menor impacto ambiental associado à sua produção, distribuição e descarte, acredita-se que tais ações não serão suficientes para guiar a sociedade, afirma Hamilton (2010). É necessária a busca de modos de desenvolvimento coletivo em que não seja privilegiado um bem-estar material destruidor do meio ambiente e do laço social. O objetivo da “boa vida” pode se expressar de muitas formas, conforme os contextos, sendo uma questão de resgatar ou construir novas culturas (LATOUCHE, 2009).

Ao invés disso, diversos autores encontram um terreno otimista no fato de que parte da população de alguns países, tais como Reino Unido e Austrália, têm voluntariamente reduzido suas receitas e consumo para gastar mais tempo com a família e amigos. Essa classe foi intitulada “downshifters”. Uma política de downshifting – uma vida rica ao invés de uma vida de rico – pode demonstrar-se uma forma mais efetiva de promover redução do consumo e proteção ambiental (HAMILTON, 2010; SCHNEIDER

et al., 2010).

O paradigma econômico dominante recompensa o maior ao invés do melhor consumo e o investimento privado ao invés do público em um capital produzido pelo

homem, ao invés do capital natural (MARTÍNEZ-ALIER et al., 2010). Uma sociedade

baseada no decrescimento deve ser entendida como uma “sociedade construída na qualidade ao invés da quantidade, na cooperação ao invés da competição, uma humanidade liberada do economicismo onde a justiça social é o objetivo” (LATOUCHE, 2003). Illich (1980) promoveu a visão de uma “moderna sociedade de subsistência” como um modo de vida na economia pós-industrial onde a população seria menos dependente do mercado e do Estado e onde a tecnologia seria desenvolvida para gerar o que ele cunhou “valores de uso genuíno”.

Para tal, é necessário que a sociedade escape culturalmente, materialmente e politicamente do modo de pensar dominante do “economicismo” (KALLIS et al., 2016). Latouche (2009) chama isso de “descolonização do imaginário”, um processo ativo de liberação do pensamento, desejos e instituições dessa lógica de crescimento, produtivismo e da acumulação por acumulação (LATOUCHE, 2009; KALLIS, 2011; KALLIS et al., 2016). O que acontece com o PIB (ou a renda) é de importância secundária; o objetivo é alcançar bem-estar, sustentabilidade ecológica e equidade social (SCHNEIDER et al., 2010). A redução de variáveis de rendimento e o aumento de variáveis de bem-estar (ou que possam agregar a ele) podem indicar progresso em direção a um decrescimento sustentável (KALLIS, 2011).

A defesa do decrescimento não significa voltar no tempo para um passado idealizado que pode nunca ter existido, mas usar as capacidades que a sociedade desenvolveu a fim de criar um futuro maduro de contentamento com poucos bens materiais, porém abundantes bens relacionais (LATOUCHE, 2009). O desejo por uma vida mais simples, segura e comunal soa bem para uma grade parte da população, indo muito além dos ambientalistas radicais (KALLIS, 2011).

Na sociedade de consumo, reprodução e crescimento são atualmente determinados em menor escala pela confiança do investidor e principalmente pela confiança do consumidor (HAMILTON, 2010). Uma sociedade rica em bens e serviços relacionais, possivelmente possuiria um menor PIB que uma (impossível) sociedade onde as relações pessoais se dão exclusivamente pelo mercado (SCHNEIDER et al., 2010).

A incapacidade do consumo em permitir a verdadeira realização do potencial humano se manifesta por si mesma, através de um grau sempre crescente de necessidades, uma incansável insatisfação, stress crônico e aflição privada, sentimentos que dão origem a um grande número de desordens psicológicas. Dessa forma, o downshifting vem em resposta a essas questões, apresentando a decisão voluntária e individual do consumidor na redução da renda e do consumo. Downshifters não são motivados primariamente por inquietações filosóficas, mas por um desejo de alcançar uma vida mais “balanceada”, tipicamente indicando a preferência individual de dedicar mais tempo para a família, saúde ou hobbies. Pagando com a redução do rendimento, esses indivíduos escolhem maior realização (HAMILTON, 2010).

Para proteger seu bem-estar mental, os consumidores buscam definir limites e ser mais seletivos em suas atividades. Essa necessidade de simplificação pode ter diversas formas, desde desligar o telefone para se concentrar em tarefas offline dentro e fora de casa a se afastar das multitarefas, voltando a abordagem “uma coisa de cada vez” durante o tempo livre, gerando uma postura mais reflexiva e individual sobre o que é necessário para relaxar e curtir a vida (ANGUS & WESTBROOK, 2019).

Ainda conforme Angus & Westbrook (2019), poder cuidar de si mesmo é uma tendência caracterizada por uma “faxina” autoimposta na vida dos indivíduos, seja em sua dieta, casa ou guarda-roupa, gerando mais bem-estar e satisfação reagindo ao modo impulsivo do consumismo exagerado e glamourizado onde a abordagem caótica de compras é normalizada. Tal estilo de vida aparenta estar bem alinhado às propostas do decrescimento, que defende não apenas a redução no fluxo de produção e consumo visando evitar uma crise ecológica, mas também defende uma revolução cultural, um retorno ao “essencial”, uma busca por bens não-materiais, ou seja, mais tempo para vivências relacionais, políticas, de cuidado, artísticas ou intelectuais (AKBULUT et al., 2018).

Leonard-Barton (1981) apresenta a simplicidade voluntária como um estilo de vida destinado a maximizar o controle direto sobre as atividades diárias e minimizar o consumo e a dependência. Para Elgin e Mitchell (1977), cinco valores básicos que estão no centro da simplicidade voluntária: Simplicidade material (padrões de consumo orientados ao não-consumo); Autodeterminação (desejo de possuir maior controle sobre seu destino pessoal); Consciência ecológica (reconhecimento da interdependência entre pessoas e recursos); Escala humana (desejos por tecnologia e instituições de menor escala – “small is beautiful”), e Crescimento pessoal (desejo de explorar e desenvolver a “vida interior”).

No entanto, para Iwata (2006), tanto a autodeterminação, quanto o crescimento pessoal, são dimensões inadequadas dos valores da simplicidade. Dessa forma, para esta tese considera-se a definição de simplicidade voluntária como um estilo de vida de baixo consumo que inclui baixa dependência de bens materiais (IWATA, 1997; 2006). A SV difere do decrescimento pois este segundo inclui valores relativos à cidadania, democracia, justiça social e crítica ao desenvolvimento econômico, conceitos que ultrapassam os valores básicos da simplicidade voluntária.

Dessa forma, a revisão teórica desta seção sugere a seguinte hipótese:

H6: A Simplicidade Voluntária está positivamente relacionada à Intenção de

aderir ao Decrescimento.