2. SUPORTE TEÓRICO
2.2 Decrescimento
2.2.1 Fontes e Propostas do Decrescimento
O decrescimento é rico em significados e não abrange apenas uma única corrente filosófica. Seus praticantes não admiram um único livro ou autor. Flipo (2007) identificou cinco dimensões que compõem o decrescimento: ecologia; crítica ao desenvolvimento; significado de vida e bem-estar; bioeconomia e democracia. Demaria et al. (2013), acrescentam a justiça como uma sexta corrente do decrescimento. A Figura 6 apresenta uma visão geral dessas correntes de pensamento.
Dimensões Principais argumentos
Ecologia O aumento nos fluxos de energia e material (o metabolismo social das economias avançadas) tem sido atingido através de pesados custos sociais e ambientais, não apenas para as futuras gerações, mas também para os que vivem atualmente (MARTÍNEZ-ALIER et al., 2010).
Crítica ao desenvolvi- mento
O decrescimento considera o desenvolvimento sustentável um oximoro e apela para uma separação do imaginário do crescimento como intrinsecamente positivo, implicando uma mudança de cultura livre de representações econômicas (LATOUCHE, 2009; DEMARIA et al., 2013; KOTHARI et al., 2015)
Significado de vida e bem-estar
É necessária busca de modos de desenvolvimento focado em laços sociais ao invés do bem-estar material (LATOUCHE, 2009). Essa busca por felicidade se manifesta em uma variedade de formas, dependendo do contexto cultural, mas principalmente através de atitudes de
frugalidade e com foco na economia local (MARTÍNEZ-ALIER et al., 2010; KALLIS, 2011).
Bioeconomia A economia ecológica e ecologia industrial são escolas com pensamento
similar ao decrescimento, sendo favoráveis a redução do consumo de recursos naturais. Entre os principais temas discutidos nesta seara estão a redução do consumo de energia e o pico do petróleo (DEMARIA et
al., 2013).
Democracia O decrescimento idealiza uma democracia baseada por movimentos (globais) sociais de justiça ambiental, solidariedade e autonomia (KALLIS et al., 2018).
A reconquista ou a reinvenção dos commons (bens comunais, bens comuns, espaços comunitários) e a auto-organização de “biorregiões” constituem uma ilustração possível da postura de uma democracia local. Em outras palavras, são laboratórios de análise crítica e de autogoverno em defesa dos bens comuns, experiência que vai ao encontro da ideia de “aldeia urbana” e do caminho traçado pelos movimentos das “cidades lentas” (slowcity) (LATOUCHE, 2009).
Justiça O decrescimento opta por menos competição, redistribuição em larga escala, compartilhamento e redução da renda e riquezas excessivas, focando na redução da desigualdade social. A justiça pode ser entendida como a prevenção da miséria através do estabelecimento de padrões mínimos de renda para todos, em forma de recursos naturais, serviços públicos e/ou dinheiro (DEMARIA et al., 2013).
Além disso, o entendimento das mudanças climáticas como uma ameaça à sustentabilidade ambiental, constituem um desafio ao “cenário de negócios, como de costume” e possuem implicações significantes no escopo e direção das políticas de bem-estar, que necessitam dar maior peso à distribuição e justiça entre nações e gerações (KOCH, 2018). Figura 6. Fontes e Propostas do Decrescimento baseado em Flipo (2007) e Demaria et al. (2013). Fonte: Elaborado pelo autor.
Apesar da divisão apresentada, é facilmente perceptível a interrelação entre os temas, fazendo com que a discussão e defesa do decrescimento seja transversal, aliando os diferentes atores.
O modelo ideal de decrescimento, de acordo com uma análise da literatura realizada por Kallis et al. (2018), sugere uma sociedade onde: a economia deixa de ser o centro de tudo; a democracia é direta; o excedente é gasto para reprodução ou diversão; renda e riqueza são distribuídos de acordo com princípios igualitários; recursos vitais, infraestruturas e espaços são compartilhados e mantidos como bens comuns; a tecnologia é convivial e serve a propósitos sociais; o uso de recursos é minimizado; e as horas de trabalho são reduzidas, assim como o consumo, a produção e o desperdício.
As propostas de políticas que têm emergido da literatura acerca do decrescimento incluem intervenções macroeconômicas, tais como, limitações ou racionamentos, mudanças nas políticas de regime de trabalho e sistemas de seguridade social (incluindo a renda básica) e ainda limites nas propagandas, assim como foco em inovações em pequena e média escalas tais como transporte compartilhado, sistemas de habitação compartilhados ou moedas comunitárias (SCHNEIDER et al., 2010). De acordo com Demaria et al. (2013), o decrescimento se tornou um quadro interpretativo para um movimento social onde numerosas correntes de ideias críticas e ações políticas convergem. No entanto, para o autor, essa diversidade não reduz a existência de um caminho comum.
Cosme, Santos e O’Neill (2017) realizaram uma revisão em 128 artigos focados no decrescimento a fim de identificar, organizar e analisar as propostas de ação apresentadas nos mesmos. Tais propostas encontraram alinhamento com três macrobjetivos: 1. Redução do impacto ambiental de atividades humanas; 2. Redistribuição de riqueza e renda intra e entre países; e 3. Promoção da transição de uma sociedade materialista para uma sociedade convivial e participativa. A Figura 7 apresenta a principais propostas do decrescimento após tal revisão da literatura.
Macrobjetivo Propostas
Redução dos impactos ambientais
Redução do consumo material; Redução do consumo de energia;
Promoção ou criação de incentivos para produção e consumo local;
Mudança de padrões de consumo.
Redistribuição de riqueza e renda
Promoção de moedas comunitárias, sistemas de troca não- monetários,
Promoção de uma distribuição justa de recursos através de políticas de renda;
Compartilhamento de trabalho; Renda básica;
Limite máximo de salários;
Implementação de esquemas de impostos redistributivos.
Ênfase: acesso a bens e serviços. Transição de uma
sociedade materialista para uma sociedade
convivial e
participativa
Promoção de estilos de vida mais simples; Redução da jornada de trabalho;
Exploração do valor das atividades informais e não remuneradas.
Ênfase: simplicidade voluntária e downshifting. Figura 7. Diretrizes do Decrescimento.
Fonte: Elaborado pelo autor baseado em Cosme, Santos e O’Neill (2017).
As fontes e propostas descritas nesta seção oferecem subsídio para diferentes ações, que possuem atores distintos e que direcionam seus esforços em um ou mais aspectos. A seção a seguir apresenta algumas das formas em que o decrescimento se apresenta.