2. SUPORTE TEÓRICO
2.2 Decrescimento
2.2.3 Diferenças do Decrescimento entre Norte e Sul Global
Pode-se criticar o decrescimento como um debate com visão ocidental ou eurocêntrica, alheio a realidades e ideias de fora da Europa ou América do Norte. Dessa forma, pode-se visualizar o decrescimento apenas como um novo esforço de dominação do resto do mundo através de ideias impostas (KALLIS, 2018).
De acordo com Kallis (2018), no entanto, em primeiro lugar, o decrescimento é uma ideia minoritária e não predominante na Europa, não havendo partidos políticos ou líderes (com exceção do Papa) defendendo o tema. Isso está claro em vistas que o Objetivo 8 dos ODS é o crescimento econômico. Em segundo lugar, por experiência em debates sobre o decrescimento, é mais difícil falar sobre ele no Reino Unido ou nos Estados Unidos, que na Grécia, por exemplo. E é mais difícil falar sobre isso na Grécia do que falar com grupos indígenas no Brasil, que possuem valores intrínsecos de compartilhamento, suficiência e propriedade comum.
Afirmar que justiça requer um decrescimento dos padrões de vida de classes ricas tanto do Norte quanto do Sul global gera um ponto de vista frequentemente mal interpretado, no entanto, não se pode ignorar a diferença entre o estilo de vida de um pescador artesão indiano e um banqueiro que viva em Nova York ou em Mumbai (DEMARIA et al., 2013). Porém, de acordo com Latouche (2009), a aspiração das classes ascendentes dos países do hemisfério sul por um carro individual e pelo desperdício desenfreado do consumo ocidental não pode ser muito criticada, sobretudo porque os países do Norte são, em grande medida, os responsáveis por isso.
O crescimento, hoje, só é um negócio rentável se seu peso recair sobre a natureza, as gerações futuras, a saúde dos consumidores, as condições de trabalho dos assalariados e, mais ainda, sobre os países do Sul (LATOUCHE, 2009). Para ser bem-sucedido, o decrescimento necessita identificar uma perspectiva concreta e inclusiva para a elite poderosa e afluente, assim como para os pobres marginalizados (Weiss & Cattaneo, 2017). Dessa forma, as taxas de consumo ocidentais necessitam reduzir a fim de permitir que cidadãos em outras partes do mundo aproveitem um padrão de vida material melhorado (KOCH, 2018).
Em nível de país, as trajetórias do decrescimento necessitam variar, principalmente nas diferenças entre países ricos e pobres. O diálogo entre esses países é necessário, uma vez que os mesmos possuem relações diferentes com o decrescimento – a renda e padrão de vida materiais de países onde as necessidades básicas não têm sido atendidas atualmente necessitam crescer até que as mesmas estejam satisfeitas enquanto os padrões atuais dos ricos necessita declinar mais rapidamente (BÜCHS & KOCH, 2019).
Segundo Latouche (2009), o decrescimento do Norte é uma condição para o florescimento do Sul. Enquanto a Etiópia e a Somália estiverem condenadas, no auge da fome, a exportar alimentos para os animais domésticos, enquanto se engorda gado de corte com farelo de soja obtidas pelas queimadas da Floresta Amazônica, serão asfixiadas quaisquer tentativas de verdadeira autonomia do Sul. Além disso, a restauração de injustiças passadas é outro ponto de vista a ser lembrado. Uma boa ilustração é o conceito de débito ecológico ou da demanda de que o Norte global pague pela exploração colonial passada e presente no Sul Global (DEMARIA et al., 2013).
De acordo com Trettel (2017), três eixos temáticos relativos ao decrescimento contemplam os países do Sul Global de maneira direta e explícita. São eles: 1. A crítica à escala biofísica da economia, envolvendo o decrescimento do consumo e da própria escala biofísica da economia; 2. A crítica à cultura do desenvolvimento, com a liberação do imaginário positivo do crescimento; e 3. A crítica às relações de poder nos fluxos globais de recursos, envolvendo a redução da desigualdade, além do decrescimento do consumo e uso de recursos biofísicos.
De maneira indireta, outros dois aspectos são relacionados ao Sul Global na literatura acerca do decrescimento: a questão demográfica e a redução da jornada de
trabalho, compondo então, os cinco eixos temáticos sobre o decrescimento do Sul Global identificados na pesquisa de Trettel (2017). O autor salienta que os eixos identificados estão frequentemente vinculados, não surgindo de forma desarticulada na literatura analisada. A Figura 11 busca resumir os achados de Trettel (2017) em sua pesquisa.
Eixo temático / Proposta Ideias centrais
Aspectos biofísicos / Decrescer no Norte para crescer no Sul
Decrescimento da escala biofísica da economia do Norte para abrir espaço e permitir o crescimento do Sul, sem ultrapassar os limites globais;
Busca de atingir uma economia estacionária equitativa a níveis nacional e internacional;
Há controvérsia se países emergentes (como o BRICS) devem crescer ou decrescer.
Aspectos políticos dos fluxos internacionais de recursos / Decrescimento para a justiça ambiental
O decrescimento da escala da economia e do consumo no Norte diminuiria os impactos ambientais negativos da economia mundial sobre o Sul;
O comércio internacional acentua a desigualdade entre os países através de trocas economicamente e ecologicamente desiguais.
Alternativas ao
desenvolvimento / Diálogo com visões do Sul
O decrescimento não deve se apresentar como a única alternativa ao desenvolvimento;
É necessário espaço para a emergência e resgate de cosmovisões já existentes no Sul, como o Buen Vivir. Aspectos populacionais /
Problema global, não local
O decrescimento populacional é desejável, já que o impacto ambiental global é proporcional à população humana do planeta;
O decrescimento rejeita propostas autoritárias de controle populacional e simpatiza com a ideia de uma contração populacional voluntária.
Redução do tempo de trabalho / Para o Norte ou para todos?
A diminuição do tempo de trabalho no Norte é desejável por aumentar o bem-estar relacionado ao tempo livre e por estar correlacionada à diminuição das pressões ambientais;
Não está explícita a redução do tempo de trabalho do Sul na literatura pesquisada, e há diferentes interpretações acerca da redução de consumo no Norte para que o Sul possa crescer, podendo acarretar, inclusive, mais tempo de trabalho nos países do Sul.
Figura 11. Decrescimento no Sul Global.
Fonte: Elaborada pelo autor com base em Trettel (2017).
Um ponto que chama a atenção acerca do decrescimento no Sul é que, apesar da necessidade de igualdade e justiça em relação às necessidades básicas, países emergentes possuem renda e padrões de consumo em níveis similares à Europa, tais como o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Possivelmente, esses países encontram-se em uma linha tênue que necessita ponderar a redução do consumo de recursos e bens da população mais abastada ao passo que garanta as necessidades básicas ao restante da população que ainda não se encontra no patamar mais elevado.
Trettel (2017) afirma ainda que pouco se explora a relocalização enquanto processo estratégico para o decrescimento no Sul assim como a análise das relações de poder entre os países. O foco na produção e comercialização interna pode beneficiar esses países, além de reduzir a pegada de carbono e combater a troca desigual que acontece no modelo de exportação atual.
Também se percebe que o decrescimento não necessita ser realizado obrigatoriamente nos moldes europeus, visto que o próprio Sul possui visões de mundo que refletem uma vida boa com consumo racional dos recursos. Não foi possível identificar na literatura implicações claras para os países do Sul no que tange aos aspectos populacionais e à redução da jornada de trabalho. A dificuldade de compreender tais implicações pode indicar que a divisão Norte-Sul não está de todo integrada ao marco conceitual do decrescimento, corroborando que ele ainda possui uma visão focada nos países do Norte (TRETTEL, 2017).
Resgatando o círculo virtuoso do decrescimento, Latouche complementa a possibilidade de decrescimento no Sul Global com outra série de ações com focos regionais. Para o autor, entre as ações que visam o decrescimento no hemisfério Sul pode- se visualizar “erres” alternativos e complementares ao mesmo tempo, como: Romper com o fio de uma história interrompida pela colonização; resgatar e se reapropriar da
identidade cultural própria de cada povo e país; reintroduzir produtos específicos esquecidos ou abandonados e os valores “antieconômicos” ligados ao passado; recuperar as técnicas e práticas tradicionais; assim como restituir a honra perdida e patrimônio pilhado dos povos indígenas (LATOUCHE, 2009).
Para Akbulut et al. (2018), a crítica do decrescimento se aplica às classes média e alta globais, independentemente de sua localização geográfica. Quanto aos pobres globais, um cenário pós-crescimento possibilitaria, espaço na pegada ambiental para eles, mas também abordaria a questão da dívida ecológica que os países industrializados historicamente devem ao resto do mundo. Latouche (2009) afirma que os países do Norte têm que dar o exemplo de que uma sociedade de decrescimento é viável. Para o autor, essa é a melhor forma de convencer os chineses, assim como os indianos e os brasileiros – e demais países, a mudar de direção dando-lhes ao mesmo tempo os meios de garantir a manutenção e respeito aos limites biofísicos do planeta, evitando possíveis catástrofes. Finalizada a revisão teórica acerca do decrescimento – suas fontes, propostas e diferentes faces – sugere-se, então, cinco hipóteses relativas ao primeiro objetivo específico desta tese, que trata de identificar os fatores que compõem a intenção do consumidor em aderir ao decrescimento:
H1: A ecologia é fator que exerce influência positiva à intenção de aderir ao
decrescimento;
H2: A crítica ao desenvolvimento econômico é fator que exerce influência
positiva à intenção de aderir ao decrescimento;
H3: A busca pelo bem-estar é fator que exerce influência positiva à intenção de
aderir ao decrescimento;
H4: A democracia é fator que exerce influência positiva à intenção de aderir ao
decrescimento;
H5: A justiça social é fator que exerce influência positiva à intenção de aderir ao
decrescimento.
Esta seção buscou aprofundar a discussão acerca do construto decrescimento, apresentando o arcabouço teórico que possibilitou a construção de hipóteses, assim como os itens componentes da escala de intenções utilizada nesta pesquisa, além de apresentar
fundamentos para a discussão dos resultados da investigação. A seção a seguir discutirá o consumo, bem-estar e estilos de vida voltados ao materialismo e à simplicidade voluntária, construtos componentes do framework do decrescimento sustentável relacionado à Teoria do Comportamento Planejado.