2. SUPORTE TEÓRICO
2.3 Consumo, Bem-Estar e Estilos de Vida
2.3.3 Consumo e Bem-estar
É comum que a maioria dos indivíduos realize esforços para obter maior bem- estar, mas, aparentemente, o consumo urbano e os estilos de vida modernos estão preenchendo esse desejo apenas parcialmente. O bem-estar não é determinado apenas por níveis de afluência financeira, há evidências crescentes de que as relações sociais, saúde mental e física, pertencer a uma comunidade e viver uma vida boa também são fundamentais para o bem-estar (SCHRÖDER et al., 2019).
Teorias da economia clássica e de comportamento do consumidor sugerem que indivíduos tomam decisões de consumo que maximizem seu próprio bem-estar. Isso, no entanto, é realizado através de modelo onde os consumidores visualizam a si mesmos como os atores centrais no sistema de trocas. Nesse ponto de vista, o meio ambiente é um recurso para satisfazer seus desejos ao invés de um stakeholder ao qual os consumidores são responsáveis (POLONSKY, 2011).
Criar um estilo de vida sustentável significa repensar formas de viver, como comprar e o que consumir, mas não apenas isso. Também significa repensar como se organiza a rotina, alterando formas de socializar, trocar, dividir, educar e construir identidades. É sobre transformar a sociedade através de mais equidade e vivendo em equilíbrio com o ambiente (UNEP, 2011). De acordo com Kasser et al. (2014), evidências empíricas têm mostrado que quanto mais as pessoas priorizam valores e objetivos
relacionados a dinheiro e posses ao invés de outros objetivos de vida, piores são suas avaliações relativas à satisfação de vida, felicidade e vitalidade e mais fortes suas avaliações relativas à depressão, ansiedade, síndromes comportamentais e outros tipos de psicopatologias.
Uma significante parcela do consumo em países altamente industrializados é dirigida por uma escassez de tempo artificial. A pressão do volume de trabalho e a compulsão por longas jornadas de serviço deixa os indivíduos com pouco tempo disponível, fazendo com que eles paguem por diferentes serviços que poderiam ser feitos por eles mesmos, tais como: cozinhar a própria refeição, limpar a casa, cuidar das crianças ou dos parentes mais velhos. Enquanto isso, o estresse do excesso de trabalho cria a necessidade de antidepressivos, remédios para dormir, uso de álcool, terapia, aconselhamento conjugal, feriados caros e outros produtos que, de outra forma, seriam menos necessários. Para pagar por esses produtos e serviços, as pessoas necessitam trabalhar ainda mais para aumentar sua renda, o que leva a um círculo vicioso de produção e consumo desnecessários (HICKEL, 2019).
Além disso, estudos têm comprovado que a felicidade, indiscutivelmente, o objetivo final da acumulação de riqueza, não tem aumentado recentemente em países ricos, apenas seu significante crescimento econômico (COSME et al., 2017). De acordo com o Paradoxo de Easterlin, o aumento da felicidade só está correlacionado ao aumento de renda até o certo nível de remuneração per capita (MARTÍNEZ-ALIER et al., 2012; FANNING & O’NEILL, 2019). Easterlin (1974; 2010) observou que renda e bem-estar subjetivo estão correlacionados até certo ponto no tempo, mas felicidade não cresce com o aumento de renda em longo prazo (dez anos ou mais). Este paradoxo continua relevante – e contestado – pois desafia o pensamento econômico convencional que tende a promover o aumento de renda como principal meio de aumentar o bem-estar humano (FANNING & O’NEILL, 2019).
Fanning e O’Neill (2019) investigaram a relação entre o alto consumo de combustíveis fósseis e duas dimensões de bem-estar (saúde física e felicidade), em 120 países no período de 2005 a 2015, em busca de realizar uma nova análise relativa ao “paradoxo felicidade-renda” (Paradoxo de Easterlin). O resultado encontrado, em que o aumento de renda não aumenta o bem-estar, se aplicou igualmente tanto a países ricos quando à países pobres.
A associação negativa entre materialismo e bem-estar é robusta entre diferentes arranjos entre os construtos, assim como em diferentes espaços de tempo, características pessoais e culturais ou abordagem metodológica (DITTMAR et al., 2014; KASSER et
al., 2014). A pesquisa de Kasser et al. (2014) verificou que quando indivíduos se tornam
menos focados em obter dinheiro e bens materiais, eles se sentem mais autônomos, competentes e conectados à outras pessoas, e que essas experiências de satisfação de necessidades psicológicas estão associadas à melhoria no bem-estar, enquanto um aumento na orientação ao materialismo está associada com redução nos níveis de satisfação e também, no bem-estar.
O conceito emergente de “bem-estar sustentável” reconhece as implicações de longo prazo dos padrões de produção e consumo atuais, questionando que tipo de bem- estar deve ser representado na sociedade. Tal entendimento considera que a satisfação de demandas atuais de bem-estar não pode debilitar a capacidade de gerações futuras de atingir suas próprias necessidades de bem-estar (KOCH, 2018). A abordagem do bem- estar sustentável pode ser aplicada para desenvolver um padrão de consumo seguro entre padrões mínimos, permitindo que cada indivíduo viva uma boa vida, e padrões máximos, garantindo um limite individual no uso de recursos naturais e sociais (GOUGH, 2017).
Uma possível redução do tempo de trabalho e mudança de seu conteúdo são possíveis escolhas da sociedade. Aumentar o tempo não imposto para possibilitar a plenitude dos cidadãos na vida política, privada e artística, mas também em diversão ou contemplação, é a condição de uma nova riqueza. Essa conquista do tempo “livre” é uma condição necessária para a descolonização do imaginário (LATOUCHE, 2009).
Dado que o aumento da renda não necessariamente se traduz em aumento do bem- estar, de forma similar, o crescimento do PIB não significa uma vida melhor para todos, principalmente em países que já acumulam muita riqueza. O Produto Interno Bruno não reflete as desigualdades de condições materiais, relações sociais, saúde ou como as pessoas utilizam o tempo livre (JEFFREY et al., 2016). Além disso, um dos problemas de mensuração de desenvolvimento de um país através do PIB é que ele “esquece” não apenas de contabilizar os serviços naturais, mais também o serviço doméstico e o serviço não remunerado (MARTÍNEZ-ALIER et al., 2012). Infelizmente, sem melhores formas de definir performance que incorporem benefícios não-financeiros ao meio ambiente,
empresas dificilmente redefinirão suas atividades, uma vez que não ação não cria um valor mensurável (POLONKSY, 2011).
Verifica-se que a noção de desenvolvimento tem recebido apoio em sua diferenciação da noção de crescimento econômico, mensurado atualmente pelo Produto Interno Bruto (PIB). Um notável avanço nessa separação é devido à visibilidade do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) (MARTÍNEZ-ALIER et al., 2010). No entanto, usar o Produto Interno Bruto (PIB) como indicador de bem-estar ou progresso pode gerar grande número de problemas. Além disso, a teoria econômica não oferece nenhum suporte ao PIB como medida de bem-estar social. Estudos subjetivos acerca do bem-estar constataram que tanto a renda relativa quanto vários outros fatores independentes da renda influenciam no bem-estar ou na felicidade individual, tornando improvável que um aumento na renda individual absoluta, assim como no PIB, garanta um indicador robusto de bem-estar social (VAN DEN BERGH, 2011).
Castoriadis (1985) afirma que o esforço por mais e mais dinheiro e riqueza material nos níveis pessoal e nacional precedem a noção de “crescimento” ou “PIB”. O fetichismo do crescimento traspassa o fetichismo do PIB e possui profundas raízes estruturais (político-econômicas) e culturais que interconectam o macronível financeiro e empresarial ao micronível da individualidade, valores utilitários e imaginários.
Uma alternativa ao PIB é o Happy Planet Index ou Índice do Planeta Felix (HPI), que mensura o bem-estar sustentável, apresentando o quão bem as nações estão indo no alcance de vidas longas, felizes e sustentáveis. Diferentemente do Índice de Desenvolvimento Humano, o HPI não utiliza o PIB em sua fórmula, fazendo com que questões monetárias não influenciem no cálculo. Os países ricos ocidentais, constantemente representados globalmente como sinônimos de sucesso, não são ranqueados tão bem no HPI. Ao invés disso, diversos países da América Latina e Ásia- Pacífico se encontram na liderança por atingirem níveis relativamente altos e razoavelmente bem distribuídos de expectativa de vida e bem-estar, com pegada ecológica muito menor. O cálculo do HPI é realizado relacionando o bem-estar, expectativa de vida, desigualdade de renda e pegada ecológica (JEFFREY et al., 2016).
Países ocidentais ricos tendem a ter uma alta pontuação em expectativa de vida e bem-estar, mas não possuem uma boa pontuação no índice HPI devido aos altos custos ambientais que suas economias causam, tal como os Estados Unidos. Países como a Costa
Rica (primeiro lugar no ranking em 2016) e Brasil (23º lugar) possuem anos de vida feliz (ajustados pela desigualdade do país), com uma pegada ecológica menor (JEFFREY et
al., 2016). A Figura 13 apresenta a relação entre vida feliz e pegada ecológica em
diferentes países.
Figura 13. Vida Feliz x Pegada Ecológica. Fonte: Adaptado de Jeffrey et al. (2016).
Com a criação de medidas de valor ambiental, comunica-se um novo discurso de maneira muito mais fácil, fazendo com que os consumidores sejam capazes de ver o verdadeiro custo do consumo, podendo modificar seus comportamentos com essa nova informação em mente (POLONSKY, 2011). Assim sendo, acredita-se que ao apresentar medidas de desenvolvimento de um país com foco no bem-estar não financeiro, é possível alterar visões de mundo e imaginário dos consumidores, que poderão considerar que uma vida rica não depende, necessariamente, de afluência financeira.