De forma geral, as empresas não apresentam uma estratégia definida para o negócio. Apenas o Fabricante de Máquinas e Equipamentos B e do Grupo B de Usinas, apresentaram um planejamento estratégico com metas estabelecidas a longo prazo e meios para alcançá-las. As orientações para a gestão da qualidade na cadeia de suprimentos estão estabelecidas na política da qualidade da empresa ou são informais. Os executivos deste setor mostram-se atarefados com atividades operacionais.
A visão que norteia a GQCS é a redução de custos. Observa-se que algumas iniciativas estão ocorrendo ao longo da cadeia de produção, como a preocupação com a utilização de mudas sadias e padronizadas, com o objetivo de melhorar a qualidade da cana para a usina, aumentando o pagamento por qualidade e proporcionando menores perdas no processamento da cana pelas usinas. Porém, na maioria das empresas analisadas, a inovação, tanto de produto como de processo, é feita sem o envolvimento de clientes e fornecedores. Os relacionamentos com fornecedores e clientes assumem geralmente um caráter apenas comercial.
Esse comportamento é estendido também para ações compartilhadas para melhoria da qualidade da cana-de-açúcar. Há ausência de implantação de metodologias ou ferramentas voltadas para a melhoria contínua. Os processos internos na maioria das empresas são geridos de maneira dependente, o que caracteriza uma estrutura organizacional departamental. O Grupo B de Usinas e o Fabricante de Máquinas e Equipamentos B são as exceções das empresas analisadas nesse contexto.
A maioria das empresas não tem como prática informar o desempenho do fornecedor, apesar de apresentar um sistema de acompanhamento estabelecido. Entretanto, utilizam essas informações para determinar a exclusão ou a escolha de um novo fornecedor. As exceções são o Grupo B de Usinas e o Fabricante de Máquinas e Equipamentos B.
Há falta de integração entre os elos da cadeia de produção da cana-de-açúcar. As ações são voltadas internamente aos agentes que formam a cadeia. A usina detém o poder na cadeia, prejudicando ações que visem a integração com os produtores de cana-de-açúcar das fazendas.
Apesar das empresas entrevistadas apresentarem um sistema de GQ definido em suas estruturas organizacionais, observa-se que esta função não exerce um papel de destaque, pois enfatiza as atividades operacionais.
Não foi observada, na maioria das empresas visitadas, uma orientação clara para o atendimento aos requisitos de qualidade da cana-de-açúcar e para a resolução de problemas de qualidade das atividades produtivas nas fazendas. Constatou-se também, que as melhorias propostas são predominantemente isoladas, decorrentes de iniciativas pessoais, sem o envolvimento de outras pessoas e nem tampouco dos fornecedores e clientes. Não são adotadas sistemáticas para a resolução de problemas com os fornecedores das fazendas em ações compartilhadas para o uso adequado dos insumos, para a obtenção de melhor qualidade e produtividade da cana-de-açúcar e para a diminuição dos desperdícios nas atividades produtivas. Não há preocupação com as perdas geradas pela falta de qualidade da cana-de- açúcar no cliente (usina). De maneira semelhante, não há preocupação da usina em incentivar a melhoria da qualidade da cana-de-açúcar enviada para ela, assim como, dos produtores de cana com seus fornecedores.
Quanto ao banco de dados das empresas, observou-se que as usinas informam dados relacionados a qualidade da cana enviada, porém não há a preocupação de melhorar esses indicadores de qualidade, sendo esses apenas informativos aos produtores de cana-de-açúcar. Atualmente, as grandes empresas de outros setores estão estruturando o sistema de informação interno com a adoção de sistema gerenciais informatizados.
Diante dessas constatações, observa-se que a Gestão da Qualidade na Cadeia da Cana- de-Açúcar carece de um modelo de GQ que norteie as suas atividades cotidianas com visão para o futuro competitivo dessa CS e que seja capaz de integrar seus elos em ações dentro de um ambiente planejado, onde a preocupação com a melhoria contínua dessas atividades seja uma realidade a ser buscada constantemente nessa CS.
5.6 Resumo do Capítulo
Nesse capítulo foram mostrados todos os casos planejados e realizados na pesquisa de campo na caracterização dos casos e na confrontação das práticas dos elementos da teoria de GQCS das unidades de análise (os produtores de mudas; os fabricantes de equipamentos para as fazendas; as fazendas produtoras de cana-de-açúcar e os grupos de usinas). Foram feitas avaliações dos casos investigados de maneira comparatival e geral.
As avaliações permitiram identificar algumas lacunas, encontradas a “luz” da teoria da GQCS, que são muito semelhantes nos casos duplos avaliados, o que reforça a importância da necessidade de propor um modelo para a GQCS da cana-de-açúcar que preeencha as lucunas evidenciadas nos casos estudados.
6 PROPOSIÇÃO DE UM MODELO PARA GESTÃO DA QUALIDADE NA CADEIA DE PRODUÇÃO DA CANA-DE-AÇÚCAR
Esse sexto capítulo apresenta uma proposta de um modelo para Gestão da Qualidade na cadeia de produção da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo.
O estudo de caso retornou algumas lacunas das práticas dos elementos da teoria da GQCS na cadeia de produção da cana-de-açúcar. O Quadro 45 mostra essas lacunas de maneira resumida.
Quadro 45 - Análise geral resumida das lacunas da pesquisa de campo em relação à teoria da GQCS. Elemento da
GQCS Práticas Lacunas
Foco no Consumidor e
Mercado
Realimentação de informações dos clientes com relação aos requisitos demandados e a qualidade do
produto e dos serviços oferecidos
Os clientes informam os indicadores dos requisitos para
os fornecedores; porém, geralmente, não cobram por
melhorias. Relações de parceria entre os agentes da cadeia de
produção da cana-de-açúcar e seus clientes.
Prática ausente na maioria dos casos.
Ações de exigências e orientações para preservação da
qualidade do produto final. Prática ausente.
Incentivos fornecidos pelos agentes da cadeia de produção da cana-de-açúcar para o cliente.
Prática ausente na maioria dos casos.
Adoção compartilhada de práticas de gestão da qualidade para garantir a consistência na padronização
dos produtos
Prática ausente na maioria dos casos.
Diagnóstico conjunto da qualidade por meio de auditorias realizadas no cliente.
Prática ausente na maioria dos casos.
Medição e análise de indicadores de desempenho em
qualidade dos clientes. Prática ausente na maioria dos casos.
Gestão de Relacionamento com Fornecedor
Relações de parceria entre os agentes da cadeia de
produção da cana-de-açúcar e seus fornecedores. Prática ausente na maioria dos casos. Adoção compartilhada de práticas de gestão da
qualidade para garantir a consistência na padronização dos produtos.
Prática ausente na maioria dos casos. Exceção ao grupo de usinas B (há dois programas para gestão de fornecedores) e
do Fabricante B. Diagnóstico conjunto da qualidade por meio de
auditorias realizadas nos fornecedores. Prática ausente na maioria dos casos. Incentivos e ações fornecidas os agentes da cadeia de
produção da cana-de-açúcar para melhorar a qualidade dos produtos recebidos dos fornecedores.
Prática ausente na maioria dos casos.
Elaboração conjunta com os fornecedores de planos de ações de melhorias.
Prática ausente na maioria dos casos. Exceção ao grupo de usinas B (há dois programas para gestão de fornecedores). Medição e análise de indicadores de desempenho em
qualidade dos fornecedores.
Prática ausente na maioria dos casos. A exceção é o Fabricante
B.
Inovação e Projeto do Produto
Envolvimento do cliente no processo de desenvolvimento de novos produtos e processos
Prática ausente na maioria dos casos. As exceções são os
Fabricantes A e B. Envolvimento do fornecedor no processo de
desenvolvimento de novos produtos e processos.
Prática ausente na maioria dos casos. A exceção é o Fabricante
Elemento da
GQCS Práticas Lacunas
Integração e Gestão de
Processo
Controlar e melhorar os processos continuamente.
Desvio dos processos tratados corretivamente. Não há a cultura
do preventivo.
Coordenar/integrar/sincronizar os diferentes processos com extensão aos clientes e fornecedores.
O compartilhamento de responsabilidades, ganhos, perdas, medidas de desempenho e de metas com os fornecedores
e com os clientes é falho. Gerir processos internos de maneira independente
(estrutura multifuncional) Predominância de Estrutura Departamental.
Gestão de Pessoas
Treinar empregados e formar equipes de trabalho.
Falta formação de equipe para trabalho preventivo e de
melhoria. Exceção é o Fabricante B.
Desenvolver a cultura da melhoria contínua dos produtos, processos e serviços.
Falta plano que fomente a motivação e a participação dos
empregados para melhoria contínua. Exceção é o
Fabricante B.
Dados de Qualidade
Coletar, registrar e comunicar/compartilhar os dados relacionados com a qualidade interna e externamente à
cadeia.
Existe a coleta e registro de dados, porém não há compartilhamento de dados com
clientes e fornecedores (quando pertinentes).
Estrutura e Estratégia para a
Gestão da Qualidade
Apoiar e promover a disseminação de conceitos e práticas da qualidade para melhoria dos produtos e processos da empresa e dos integrantes da cadeia.
Falta uma política que apoie os parceiros próximos dos agentes da cadeia. O apoio, quando é fornecido, é para os programas
internos dos agentes. Liberação de recursos materiais, humanos e
financeiros.
Os recursos para programas de qualidade são liberados de maneira condicional, ou seja,
quando tem, libera.
Incentivo a participação dos empregados.
Os incentivos são destinados para participação dos empregados das empresas, não
sendo direcionado para o envolvimento dos parceiros. Execução de planejamento estratégico para o negócio
com metas comuns e visão a longo prazo.
Prática ausente na maioria dos casos. A exceção é o Fabricante
B. Fonte: Elaborado pelo autor.
A qualidade da cana-de-açúcar e a eficiência dos processos que envolvem a sua produção dependem de uma gestão que propicie o atendimento aos requisitos de qualidade da cadeia, por meio de um modelo de Gestão da Qualidade (GQ), que procure preencher as lacunas dos agentes da cadeia da cana-de-açúcar, informadas no Quadro 45. Isso revela a necessidade de uma integração e coordenação para a gestão da qualidade entre os agentes que compõem a cadeia de produção da cana-de-açúcar, por intermédio de um sistema de informação para os requisitos de qualidade de produto e da gestão da qualidade entre os agentes da cadeia, tendo as práticas dos elementos da Gestão da Qualidade na Cadeia de Suprimentos (GQCS) como base para sustentação desse sistema.
Nos próximos tópicos é apresentada a estrutura de um Modelo de Gestão da Qualidade proposto para a cadeia de produção da cana-de-açúcar, com o objetivo de estabelecer um programa que garanta o atendimento dos requisitos de qualidade com redução de perdas e desperdícios nas etapas dessa cadeia.