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A Administração Pública, tanto no Mundial do Brasil como no Mundial da Áfri- ca do Sul, contou com os órgãos oficiais de controle interno e prevenção de riscos, mas isso nem sempre significa que as ações adotadas pela gestão de riscos e controle são realizadas a contento. Os empecilhos a uma boa gestão vão desde limi- tações legais e imposições da Fifa a aspectos ligados ao capital humano, como negligência, inaptidão, improbidade, fraude entre outros.

Os parâmetros para avaliação do controle interno e da gestão de riscos na Administração Pública de ambos os países-sede foram obtidos a partir de publicações oficiais – como o Instrumento para avaliação da gestão pública (2008/2009), o chamado IAGP 1000, e o Guia de orientação para o

gerenciamento de riscos (2013) da Secretária de Gestão Pública (GesPública); o

Relatório sobre Gestão de Riscos do Tribunal de Contas da União (TCU), como resultado de estudo proposto pelo Programa de Modernização Integrada do Ministério da Fazenda (que traz um ranking de maturidade da gestão de riscos com base no estudo de 65 unidades da Administração Indireta) –, complementadas com artigos acadêmicos, obras de autores brasileiros e estrangeiros, dados de fontes de instituições diversas na internet e mesmo material veiculado pela mídia nacional e internacional.

Os dois países-sede desta pesquisa possuem os respectivos órgãos oficias de controle. No Brasil, a auditoria interna do TCU nos projetos que estão sob responsabilidade da União é realizada pela Secretaria de Fiscalização e Avaliação de Programas (Seprog), que visa detectar riscos a que o evento Copa do Mundo de Futebol de 2014 estaria sujeito, em todas as áreas envolvidas, como construção ou reforma de estádios, mobilidade urbana e infraestrutura aeroportuária, além da gestão das ações e estratégias sob responsabilidade do governo federal.

O Relatório Anual do Ministério de Esportes e Lazer da África do Sul edição 2010/2011 é o documento que presta contas sobre a Copa do Mundo de 2010. Ali se fica sabendo das atribuições do tesoureiro, que deve produzir as demonstrações financeiras e é responsável pelo controle interno, cuja função é impedir distorções nos balanços.

No Brasil, a ação de monitoração foi limitada pela assinatura do Decreto federal em janeiro de 2010 pela presidenta Dilma Rousseff, que dava ao Comitê Organizador Local (COL) liberdade praticamente irrestrita na gestão das finanças da Copa. Isso eliminou qualquer resquício de transparência que ainda pudesse vir à tona.

O relatório publicado pelo Ministério de Esportes e Lazer da África do Sul (SRSA) nem sempre buscou esclarecer os números. O Governo da África do Sul se

comprometera a garantir a viabilidade da Copa de 2010, falando em R30 bilhões (rands, a moeda local) para os principais programas de investimento de infraestrutura, incluindo modernização das instalações, estádios e arquibancadas, melhoria dos transportes, comunicações, saúde e segurança. Até fevereiro de 2008 o montante investido pelo governo nacional para os 24 projetos da Copa do Mundo era de R28 bilhões (2,5 bilhões de euros). No relatório do SRSA, o total alcança R25,071 bilhões (US$ 3 bi). São três cifras que não se harmonizam. O relatório também não informa qual foi o valor inicialmente previsto.

Cabe destacar um método suspeito e que foi aplicado tanto na África do Sul como no Brasil, utilizando várias estratégias de pressão exercida pelos represen- tantes da Fifa em visita ao país-sede, sempre acompanhados de jornalistas e inspe- tores internacionais, que incluía as constantes avaliações negativas nas vistorias aos estádios. A produção de relatórios dos técnicos da Fifa com inúmeras ressalvas, a aproximação do início do evento, o risco de atraso nas obras e o temor de transformar o país num fiasco mundial foram decisivos para que o governo, quer do Brasil, quer da África do Sul, abrisse mão de maiores resistências às investidas de Joseph Blatt e seus secretários.

A permissividade e leniência com relação à administração do erário aliadas a fraudes pontuais que vieram a público no Brasil, como a adulteração de um parecer técnico sobre o VLT em Cuiabá (MT), que fez a obra passar de R$ 489 milhões para R$ 1,2 bilhão, entre outras questões ainda não esclarecidas, fizeram o orçamento inicial triplicar e as obras da Copa deixar de ser concluídas no prazo previsto.

Muitas obras foram prematuramente suspensas e contratos cancelados no Brasil. Em Brasília, por exemplo, houve interrupção pela justiça das obras do VLT por suspeita de fraude no processo de licitação – hoje se sabe que as construtoras que administravam muitas obras da Copa, como OAS e Odebrecht, estão agora en- volvidas em escândalos de corrupção da Petrobras. E nova licitação não foi cogitada para essas obras.

Na África do Sul, primeiro país a sediar um megaevento naquele continente, a explicação para os atrasos nas obras e mesmo nas possíveis desvantagens econô- micas como legado do Mundial proposta de Danny Jordaan, presidente da Safa e do

comitê de organização da Copa do Mundo de 2010, que foi aceita sem maiores con- testações, era de que o objetivo primordial de realizar o Mundial naquele país tinha a expectativa de dar visibilidade à África do Sul e ao continente africano. O mote da publicidade da Copa do Mundo de 2010 foi afirmar o evento como um “Campeonato Africano”. O que não pode de fato ser inteiramente desmentido.

A Copa de 2010 na África do Sul não foi tão lucrativa como esperado possivelmente em razão da crise hipotecária dos EUA em 2008 e do fato de a condição socioeconômica do povo sul-africano não permitir suportar valores de ingressos como os cobrados na Alemanha quatro anos antes. A Fifa com certo atraso baixou o valor dos ingressos, mas houve alto índice de assentos vazios. Os novos sistemas de pedágio instalados nas novas rodovias ou nas que foram reformadas são prova de que os motoristas ainda estão pagando pelas reformas segundo os analistas.

No Brasil, estudo do Instituto Ethos reprovou a transparência, que teve nota baixa em todas as doze cidades-sede, sendo avaliados noventa indicadores que medem o acesso a informações orçamentárias dos governos, as comunicações com as relações públicas e a comunidade local, que receberam notas de zero a 100. Apenas duas cidades-sede foram consideradas na “média” (nota 50). As outras dez cidades-sede tiveram nota abaixo de 20 e foram classificadas como “muito ruim”. Além de não conseguir oferecer informações completas das despesas orçamentárias, não tornaram públicos contratos nem relatórios de impacto social e ambiental. A falta de transparência criou tensão social.

Na África do Sul, a empresa M&G Media Limited precisou entrar com um processo na Alta Corte de Gauteng do Sul para só assim, após o périplo judicial, obter acesso a dados de contratos ao Chefe de Comunicações, que defendia que a política geral do Comitê Organizador Local é não liberar o nome das empresas que ganharam a licitação nem dos fornecedores preferenciais.

Não foi diferente no Brasil. A reportagem da BBC se queixava da dificuldade em obter dados oficiais de contabilidade exatos e transparentes após três meses de contato com governos e administração das arenas.

Por fim, a questão de crimes e fraudes merece ser lembrada. A justiça norte- americana acusou o governo sul-africano e o comitê de candidatura para o Mundial de 2010 de ter dado US$ 10 milhões para Jack Warner, ex-presidente da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf), barganhando três votos a favor da África do Sul. Danny Jordaan, presidente da Safa e do comitê de organização da Copa do Mundo de 2010, confirmou o pagamento em 2008.

A fraude, que envolve desde superfaturamento na construção e reforma de estádio, venda de ingressos no câmbio negro, compra de votos para facilitação de escolha da sede das Copas, especialmente de 2018, na Rússia, e de 2022, no Ca- tar, implica aumento dos gastos, dificultando saber com acurácia o investimento re- almente necessário para realizar as obras, e suspeitas sobre superfaturamento e mesmo da qualidade das construções, que podem ser feitas com materiais abaixo das especificações com o intuito de aumentar o faturamento.

Os dois atuais maiores dirigente da Fifa terminaram afastados do cargo que ocupavam em razão de provas de envolvimento em negócios escusos relacionados a várias edições do Mundial – Joseph Blatter, que renunciou após as prisões na Suíça, e o francês persona non grata no Brasil Jêrome Valcke, afastado em setembro de 2015 pela entidade por “conduta imprópria”.

Essas questões reforçam a visão da população mundial de que a Administração Pública é uma caixa-preta e um local de corrupção endêmica – assim como instituições nacionais como a CBF brasileira e a Safa sul-africana e internacionais como a Fifa.

7 CONCLUSÃO

Este estudo buscou discutir o tema do controle interno e gestão de riscos na Administração Pública com foco comparativo na Copa do Mundo de 2014 no Brasil e na Copa do Mundo de 2010 na África do Sul.

Mesmo diante da dificuldade de acesso a fontes primárias, como entrevistas com auditores do governo que trabalharam na contabilidade da Copa de 2014, números nem sempre transparentes, legislação impeditiva que permitia a escusa pelo COL e pela própria Fifa de exibir as contas à mídia e ao público em geral, foi possível obter achados importantes.

Os dois Mundiais foram avaliados positivamente pela Fifa e pelos respectivos governos. A maioria dos visitantes se mostrou propenso a voltar tanto ao Brasil como à África do Sul. No Brasil, avaliaram com média acima de 90% itens como hospitalidade, gastronomia, segurança pública, mobilidade urbana e serviços aeroportuários. A maioria afirmou que desejava voltar, e isso tanto em pesquisas oficiais como de institutos particulares, associações da própria mídia. Os Centros Abertos de Mídia da Copa no Brasil ofereceram aos jornalistas tecnologia de comunicação de ponta, internet sem fio, cabines de rádio, infraestrutura para transmissão de imagens ao vivo e apoio de equipe de mais de vinte assessores bilíngues na apuração de reportagens. A África do Sul revelou dados positivos de turismo e aumento dos negócios internacionais.

Da mesma forma, a mídia nacional e internacional noticiou problemas de várias ordens na África do Sul e no Brasil. Atrasos no cronograma ocorreram em razão de demora na liberação por parte dos governos municipais e estaduais dos pagamentos para os fornecedores, ora por alterações nos projetos – que levaram ao término de contratos pela falta de acordo entre governos e construtoras sobre correção nos valores, e que acabaram em processos que se arrastam nos tribunais: em Cuiabá (MT), cerca de 90% do financiamento do VLT em Cuiabá (MT) já havia sido liberado, sendo instalada uma CPI para averiguar onde foi empregado o dinheiro, visto que menos de 50% da obra fora construída.

Institutos europeus divulgaram em agosto de 2015 que o Brasil teve prejuízo com a Copa do Mundo de 2014 e a Fifa ficou com os lucros. O mesmo foi dito à época em relação à Copa de 2010 na África do Sul. No entanto, os valores astronômicos envolvidos, a injeção de ânimo na economia, os impactos em setores como turismo e alimentação, as obras de mobilidade urbana, o legado tangível e intangível – para o bem ou para ou mal – não permitem uma resposta simplista como sim ou não. Na África do Sul não foi diferente.

É prematuro avaliar os impactos dos Mundiais em curto espaço de tempo, as informações obtidas até o momento mostram que determinados legados têm impacto sobre os indivíduos ou em comunidades específicas, mas não está claro se impactam positivamente sobre a nação como um todo. Também é importante olhar para os impactos negativos do evento, como custos e utilização de espaço. O custo da maioria das obras vai ser pago pelos contribuintes. O capital humano foi a ameaça mais significativa detectada para as empresas na África do Sul.

Estudos como feito nesta dissertação não conseguem chegar a uma conclu- são definitiva sobre as questões que discutem – nem almejam a isso evidentemente. As dificuldades no caso de avaliação de gestão de riscos e controle interno da Administração Pública em um megaevento como a Copa de 2014 no Brasil e a Copa de 2010 na África do Sul incluem a ausência de acesso a informações confiáveis e principalmente falta de informações e impossibilidade de acompanhamento dos métodos de controle e de gestão de riscos empregados. Nem ao menos se conhecem os profissionais do governo que trabalharam para o TCU durante as auditorias da Copa no Brasil, a não ser o nome do presidente do órgão, Ministro Aroldo Cedraz, sendo todos figuras inacessíveis para um pesquisador que pretenda sondar a metodologia empregada e os meandros da Administração Pública.

No entanto, o esforço deste estudo consistiu em compor de foma mais veros- símil possível um panorama da atuação e eficácia ou não dos instrumentos de con- trole interno e gestão de riscos da Administração Pública tanto Brasil como na África do Sul. Trata-se de uma pesquisa inédita, pois não se encontrou até o momento tra- balho acadêmico que se propusesse a comparar a Copa de 2010 e a Copa de 2014 do ponto de vista de controle interno e gestão de riscos. O que, já do ponto de vista da originalidade, evidentemente valoriza o trabalho.

Para conseguir realizar um estudo mais aprofundado e acurado que este, se- ria necessário realizar pesquisa de campo, com entrevistas a gestores e acesso aos profissionais de controle interno e gestão de riscos que lideraram as auditorias tanto no Brasil como na África do Sul. Obstáculos difíceis de superar.

Em termos de limitação desta pesquisa, a primeira importante barreira ao es- tudo constitui a falta de dados tanto em quantidade e abrangência de informações como em termos de fidelidade. No Brasil, os gastos do governo podiam ser monito- rados por meio do portal oficial Transparência Brasil, que, se não disponibilizava to- dos os dados, demonstrou ser uma iniciativa louvável em termos de compliance – embora sempre restem dúvidas sobre a lisura na prestação de contas, especialmen- te na ausência de auditoria externa.

A Copa na África do Sul, por sua vez, não possui um portal oficial para moni- toramento dos gastos, sendo necessário recorrer a informações veiculadas pela mí- dia mundial, que pontualmente obtinha dados e os divulgava, e esparsos informes do governo sul-africano. Isso também foi válido no caso do Brasil servindo de parâ- metro tanto em termos de investimentos realizados como de prazos e outros aspec- tos importantes para a realização da análise comparativa proposta neste estudo. Tanto para a Copa do Brasil como para a Copa da África do Sul, a Fifa divulgou um ano após cada evento um documento de prestação de contas da entidade.

Um segundo aspecto não menos importante é questão das fraudes e da cor- rupção na Fifa, na CBF e na Federação Sul-Africana de Futebol (Safa). Imersas na onda de denúncias e apurações, em ações capitaneadas pelo governo americano, levando à prisão altos executivos da Fifa, entre ele o presidente da CBF, José Maria Marim, ainda neste momento detido na Suíça. Assim, os números finais acabam mascarados e ficam escondidos sob um manto de escusas, impedindo uma análise mais acurada.

Espera-se que futuros estudos possam beneficiar-se da proposta desta dissertação, estendendo-se para pesquisas de campo e mesmo fazendo um comparativo entre as Olimpíadas de 2012, em Londres, e os Jogos de 2016, a realizar-se no Brasil.

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