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CAPÍTULO 4 – ESPAÇO, CIBERESPAÇO e POESIA

4.3 Construir e habitar

Pensando no sentido etimológico da palavra espaço, Heidegger aponta para uma relação interessante com o conceito de habitar. Considerando a ideia de “um aberto que se faz para a instalação”, ele começa seu texto “Construir, habitar, pensar” (2006) abordando o espaço sob dois aspectos: como construção para habitação ou como construção simplesmente. Construir e habitar são duas atividades diferentes. A princípio, uma ponte (exemplo que o autor usa) não é construída para o habitar. Porém, há lugares que, mesmo projetados para outros fins, de alguma forma, são transportados para o âmbito do habitar. Assim, “na autoestrada, o motorista de caminhão está em casa, embora ali não seja a sua residência; na tecelagem, a tecelã está em casa, mesmo não sendo ali a sua habitação” (HEIDEGGER, 2006, p.125).

Há uma relação de continuidade entre ser e espaço, por meio do conceito de habitáculo. Considerando a antiga acepção, o espaço indica uma organização por meio de um limite.

O limite não é onde uma coisa termina, mas, como os gregos reconheceram, de onde alguma coisa dá início à sua essência. Isso explica por que a palavra grega para dizer conceito é [...] limite. Espaço é, essencialmente, o fruto de uma arrumação, de um espaçamento, o que foi deixado em seu limite. O espaçado é o que, a cada vez, se propicia e, com isso, se articula, ou seja, o que se reúne de forma integradora através de um lugar, ou seja, através de uma coisa do tipo da ponte. Por isso os espaços recebem sua essência dos lugares e não "do" espaço (HEIDEGGER, 2006, p. 134).57

Dessa forma, se o limite é aquilo que revela a essência de outrem, ele não é necessariamente divisão, fragmentação. Assim, o filósofo não distingue o homem do espaço. Se o espaço revela a essência daquilo que o ocupa, esse que ocupa só é reconhecido plenamente por meio do primeiro. Sendo, portanto, o espaço no qual o homem se encontra aquele que mostra sua natureza de ser, o humano é, na medida em que se encontra no espaço, na medida em que habita – ele é no espaço. Em Ser e Tempo, Heidegger reconhece essa natureza do ser aí como tendo sua condição de ser como “ser em”.

[...] Pelo que se pode extrair do caráter genérico e confuso dos conceitos empregados, e foi defendida com energia e lucidez por Heidegger. Este afirmou que "nem o E. está no sujeito nem o mundo está no E.", mas que o próprio sujeito, ou

seja, a realidade humana, o ser-aí, é espacial em sua natureza. E é espacial porque, como ser-no-mundo, em sua relação com as coisas, é dominado pela proximidade ou pela distância das coisas utilizáveis, por um conjunto de relações possíveis que "a intuição formal" do E. só faz evidenciar nas várias disciplinas geométricas (ABBAGNANO, 1998, p. 349).

É por isso que o filósofo afirma que “somente porque os mortais têm sobre si o seu ser de acordo com os espaços é que podem atravessar espaços” (HEIDEGGER, 2006, p. 136). Portanto, homem e espaço coincidem. “Quando começo a atravessar a sala em direção à saída, já estou lá na saída. [...] Nunca estou somente aqui como um corpo encapsulado” (HEIDEGGER, 2006, 136). Construir e habitar são contíguos e há uma continuidade entre homem e espaço.

Heidegger fala de espaço sob dois pontos de vista: um mais abrangente e outro mais apreensível matematicamente. Como já se disse anteriormente, o primeiro está ligado à concepção grega de clareira aberta, no sentido de extensão, e o segundo está na concepção latina da palavra “spatium”, um espaço mensurável de dimensões, um “espaço-entre”. Esse último é o intervalo entre os elementos que o habitam. É o espaço do qual se ocupa a geometria. Então, se o que é considerado espaço é aquilo que se tem acesso por meio da experiência sensível, qual seria esse outro espaço que Heidegger diz ser determinado por lugares e que não se deixa determinar por intervalos?

Do espaço entendido como um espaço entre extraem-se as relações de altura, largura, profundidade. Isso que assim se extrai, em latim o abstractum, costuma-se representar como a pura multiplicidade das três dimensões. Mas o que dá espaço a essa multiplicidade não se deixa determinar por intervalos. O que dá espaço não é mais nenhum spatium, e sim somente uma extensio – extensão. Como extensio, o espaço ainda se deixa abstrair mais uma vez, a saber, em relações analíticas e algébricas. Estas dão espaço à possibilidade de uma construção puramente matemática de uma multiplicidade de quantas dimensões se queira. A isso que matematicamente se dá espaço pode-se chamar de "o" espaço (HEIDEGGER, 2006, p. 135).

Como se percebe, a segunda concepção de espaço apresentada por Heidegger, na sua propriedade abstrata, é um “campo aberto” cuja função parece ser abrir possibilidade para a constituição do segundo. Como esse segundo é constituído por lugares, e é apreensível por meio do sensório, é através dele que se pode ter noção do que possa ser o primeiro.

Pensando no ciberespaço, há duas perguntas que, talvez, possam ser esclarecidas por meio do texto de Heidegger. Primeira: será o ciberespaço um espaço para “habitar” ou será que se trata de uma construção não habitação? Segunda: poderia o ciberespaço ser mais

uma daquelas construções que não são moradias, mas que possibilitam uma espécie de habitação temporária?

Diariamente, as passagens por espaços se encontram num processo, em vários aspectos, de simbiose entre o físico e o virtual. Com a acessibilidade a aparatos tecnológicos, sobretudo aqueles mais ligados à portabilidade, vive-se a realidade de um espaço misto. Há uma simbiose da experiência sensível própria do mundo físico com a do meio virtual numa espécie de hibridização das condições humanas de participação no mundo. Se habitar é manter com o espaço uma relação de simbiose e se é nessa simbiose que têm acontecido as experiências no ciberespaço, este último funciona também como uma das habitações do homem contemporâneo, na medida em que este se constitui de um todo fragmentado que se perde e se reencontra todos os dias na evanescência do espaço.

Da leitura de referido texto de Heidegger, surge uma outra pergunta importante: se, para Heidegger, resguardar é uma palavra que se encontra empregada na sua antiga acepção de “deixar alguma coisa livre em seu próprio vigor”, a poesia que habita o ciberespaço poderia, então, funcionar como tendo essa propriedade de explicitá-lo ou mesmo evidenciar traços desse meio? Na tentativa de resposta, segue-se investigando as características próprias do ciberespaço.