20 Contextos Presentes
1.3 Contexto e Contextos…
Desde os tempos mais remotos que o homem procura novas sensações e tenta modificar o seu humor e os estados de consciência com recurso ao uso de substâncias com essas propriedades e que adquirem diferentes significados para cada indivíduo, de acordo com o contexto cultural e social em que se insere.
Relatos históricos referem-nos que nas civilizações primitivas o consumo destas substâncias não era completamente livre, mas regulamentado através de ritos religiosos, ritos sociais e práticas médicas. Pensa-se, que a mais antiga utilização de drogas remonta aos anos 5.000 AC, por comunidades hindus africanas.
Nas civilizações Ocidentais, o uso de drogas teve um aumento considerável a partir do século XIX, em particular na Europa, que já tinha contacto com o ópio e cannabis, através da colonização. Por esta altura, a Inglaterra mantinha boas relações com o Oriente, o que facilitava a comercialização do ópio. O ópio, considerado um produto de luxo, foi durante muito tempo, o prazer de elites. Era dicotomizado então, como o medicamento para o pensamento e era visto como uma droga positiva, uma droga intelectual e o seu uso estava condicionado a um meio social muito restrito, como intelectuais, poetas, artistas e médicos. De resto, foi através do consumo de ópio por parte dos médicos, que se chegou ao modelo de dependência física referido até ao início do século XIX (United Nations Office for Drug and Crime Prevention, 2000).
Já em pleno século XIX isola-se o alcaloide do ópio, ao qual foi dado o nome de morfina, em honra de Morfeu – Deus Grego dos Sonhos. Este facto, associado ao fabrico da cocaína e heroína, assim como, à invenção da seringa e agulha hipodérmica, contribuiu para uma reviravolta na evolução da história das drogas. Acresce ainda dizer, que a revolução industrial e as duas grandes guerras, também deram o seu contributo para esta mudança, principalmente a II Guerra Mundial que em muito contribuiu para o avanço na pesquisa sobre estupefacientes, pela necessidade de aplacar as dores dos feridos.
Nos anos 60, as drogas em geral e a heroína em particular, ganham proporções desmesuradas, marcadas pelo declínio dos valores tradicionais e religiosos. Esta época traduz- se também por uma crise depressiva da juventude, a qual se deve em grande parte, a um “ (…) progressivo aumento da duração da adolescência, à ausência de rituais de passagem à idade adulta, e ao declínio dos geradores de imagens identificativas para o adolescente” (Rosa & Felisberto, 2000, p. 22). Surge então, nesta altura, um movimento histórico protagonizado pelos jovens, que teve grande impacto a nível social, político e cultural, “ (…) foram os anos da paz e amor (peace and love), do pop, do movimento híppie, de maio de 68, da Beat
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Generation, anos que tiveram muito significado para os adultos das décadas de 80, 90, pais dos adolescentes actuais.” (Rosa & Felisberto, 2000, p. 30). Nesta altura, evidencia-se uma expressão que marca toda uma época sex, drugs and rock’n’rol.
A droga, que inicialmente teve um carisma provocador e contestatário, passa a ser um meio de fuga da realidade. Os principais motivos que levaram a que o consumo de drogas atingisse proporções tão preocupantes, foram essencialmente fatores de ordem social que resultam dos grandes meios citadinos, onde as famílias se encontram desenraizadas e desintegradas. As grandes cidades industriais, que se querem modernas, enormes e desumanas, criam uma enorme solidão não só individual como familiar. A família nuclear tornou-se instável e pouco a pouco deixou de desempenhar a sua função de proteção à criança. Com a emancipação da mulher, a mãe está cada vez mais ausente à semelhança do pai, ficando as crianças cada vez mais entregues a si próprias, fomentando assim, o aparecimento de grupos para preencher a solidão, deixada por uma família ausente (Borges & Filho, 2004). Definida segundo a DSM-V por uma categoria unificada com a designação de ‘Perturbação de Uso de Substâncias’ (Substance-Use Disorder), os indivíduos que façam uso continuado ou recorrente de substâncias são classificados como sofrendo de uma perturbação (doença) por uso de substâncias (de adição) (American Psychiatric Association, 2013).
A Europa tem-se mostrado muito atenta à problemática da toxicodependência, não só pela criação do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), em que a sua ação consiste em tratar e produzir informações de natureza estatística, documental e técnica sobre as drogas e a toxicodependência, com o objetivo de dar à União Europeia e aos seus países uma visão global da situação europeia em termos de drogas, pela definição de estratégias (Estratégia da União Europeia de Luta Contra a Droga, 2013-2020, - Conselho da União Europeia, 2012), como também pela elaboração de planos de ação que visam a prevenção e redução do consumo de drogas, bem como, a definição de políticas de proteção social, reabilitação e integração, nomeadamente:
“Desenvolver e alargar modelos integrados de cuidados que cubram as necessidades relacionadas com problemas de saúde mental e/ou física, a reabilitação e o apoio social, por forma a melhorar e promover a situação social e o estado de saúde, bem como a reintegração social e a recuperação dos toxicodependentes e consumidores problemáticos, incluindo os que sofrem de co-morbilidade” (Conselho da União Europeia, 2012, p. 402).
É a partir dos anos 80 que em Portugal começam a surgir as primeiras respostas por parte das instituições sociais e de saúde, face ao problema da droga. No entanto, foi em 1924 que foi publicada a primeira legislação em Portugal em matéria de drogas, com a aprovação da Lei n.º 1 687, regulamentada pelo Decreto n.º 10 375, de 9 de dezembro. Em 1973, é criada no
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Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a primeira consulta específica de toxicodependência. Em 1975, são criadas as primeiras estruturas face ao problema da toxicodependência, nomeadamente na área da prevenção o Centro de Estudos da Juventude e no âmbito da repressão e fiscalização do tráfico ilícito de drogas, o Centro de Investigação Judiciária da Droga (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências, 2014).
Nos anos 90, surge o Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência e é aprovada a Lei n.º 7/97, de 8 de março que procedeu ao alargamento da rede de serviços públicos para o tratamento e reinserção de toxicodependentes, de forma a garantir o acesso a cuidados de prevenção, tratamento e reinserção social dos cidadãos afetados pela toxicodependência. À altura, Portugal contava com cerca de 100 mil utilizadores de heroína (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências, 2014).
Em 1999, é aprovada a Resolução do Conselho de Ministros 46/99, de 22 de abril, a primeira Estratégia Nacional de Luta Contra a Droga e a Toxicodependência (1999-2004). Outro momento importante no enquadramento jurídico passou pela descriminalização do consumo de todas as substâncias psicoativas através da aprovação da Lei n.º 30/2000, de 29 de novembro que define também a proteção sanitária e social das pessoas que consomem tais substâncias sem prescrição médica. Neste âmbito, foram criadas as Comissões para a Dissuasão da Toxicodependência, sob a dependência do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT, IP). Com a premissa da proximidade são criados os Centros de Respostas Integradas (CRI), os quais se constituem com unidades de intervenção local de cariz operativo, referenciados a um território definido e que dispõem de equipas técnicas especializadas para áreas de intervenção como o tratamento, prevenção, reinserção e redução de riscos e minimização de danos (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências, 2014).
O Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT, IP) é extinto com a publicação da Lei Orgânica do Ministério da Saúde (Decreto-Lei n.º 124/2011, de 29 de dezembro), criando- se o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), cabendo às Administrações Regionais de Saúde, I.P. a operacionalização das políticas de saúde. O Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD) tem como premissa o desenvolvimento de normas, pareceres técnicos e orientações de boas práticas aos comportamentos aditivos e às dependências em geral (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências, 2014).
A ‘Adição’ é definida pela World Health Organization (1994) como o uso repetido de substâncias psicoativas, em que o adito (seja a droga ou a álcool) se encontra periodicamente
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ou cronicamente intoxicado, demonstrando compulsão face ao seu consumo e revelando grande dificuldade em cessar ou modificar voluntariamente a sua utilização. O fenómeno da toxicodependência tem sido muito estudado, mas é interessante verificar que, na maioria das vezes, é o género social masculino que aparece relacionado com os fenómenos da toxicodependência. Estes, têm um papel determinante na socialização com o mundo das drogas por parte das mulheres, já que é “ (...) através das relações amorosas com homens toxicodependentes que elas se aproximam das drogas e as experimentam” (Cardoso, 2004, p. 248).
A situação da mulher face à toxicodependência não é amplamente conhecida e a informação escasseia. Segundo o Relatório Anual sobre a Evolução do Fenómeno da Droga na União Europeia (Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, 2000), as mulheres consumidoras de drogas carregam um maior estigma do que os homens, sendo que este relatório ressalva a importância de se desenvolver mais investigação com mulheres consumidoras de drogas e se encontrarem respostas mais adaptadas que tenham em conta os seus problemas e necessidades específicas, nomeadamente, no que diz respeito à maternidade. O referido documento refere que as mulheres consumidoras de drogas cometem menos crimes quando comparadas com os homens e tendem mais frequentemente a financiar os seus hábitos de consumo através da prostituição.
De um modo geral, os homens consomem mais drogas ilícitas do que as mulheres, no entanto, as raparigas manifestam uma tendência maior para experimentar drogas mais cedo do que os rapazes, e verifica-se um crescente número de crianças nascidas de mães consumidoras de droga (Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, 2000). No que concerne à procura de tratamento, as mulheres apresentam valores mais baixos quando comparadas com os homens, apontando o relatório para este facto o receio que estas têm de serem “consideradas inaptas como mães e perder os filhos, caso decidam submeter-se a tratamento” (Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, 2000, p.3).
A mulher toxicodependente apresenta-se frequentemente com um aspeto envelhecido, mal cuidado, emagrecido, com um ar ausente e desinteressado (Palminha, et al., 1993). Dificuldades de relacionamento interpessoal são frequentes nestas mulheres, que tentam estabelecer com os profissionais de saúde, uma atitude de sedução e de desculpabilização (Paz, 1996, p.243).
Segundo o Plano Nacional para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2013-2020, verifica-se a existência de um grupo de mulheres que mantem o consumo de substancias ilícitas durante a gravidez, sendo que os dados referentes a estudos de investigação nacionais neste domínio são muito escassos ou mesmo inexistentes. O mesmo
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documento enfatiza a necessidade da “prevenção da ocorrência de consumos durante a gravidez, da identificação precoce dos mesmos, do apoio das gravidas em que estes consumos são identificados e de acompanhamento dos recém-nascidos que resultam deste quadro” (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, 2013, p. 67). Para que tal seja possível, é necessário uma articulação clara entre as políticas de saúde, sendo que os programas de preparação para a parentalidade associados a um acompanhamento específico destas mulheres/famílias parecem fundamentais, tal como, inseri-las num “programa terapêutico com vista a reduzir o consumo de substâncias ilícitas e reduzir o recurso à via injetável, fonte de transmissão viral e infeciosa, contrariar a exclusão e obter melhorias na inserção social e profissional” (Instituto da Droga e Toxicodependência, 2006, p. 43). O Grupo de Trabalho para os Programas Terapêuticos com Agonistas Opiáceos (PTAO) propõem que o uso ilícito por um doente dependente de um opiáceo de rua seja substituído pela administração de um fármaco opióide, nomeadamente Metadona ou Buprenorfina. Desta forma, poderá facilitar-se o abandono ou a redução do consumo ilícito e diminuir os riscos e danos associados ao consumo de risco, com os objetivos de
“suspender a dependência do opiáceo de rua ou o mau uso de outro opiáceo; reduzir os problemas psico-socio-sanitários associados ao consumo; melhorar a qualidade de vida dos utilizadores dos programas; favorecer a integração sociofamiliar; fomentar mudanças de estilos de vida e facilitar a continuidade e permanência nos programas de tratamento e reinserção (Instituto da Droga e Toxicodependência, 2006, p. 7).”
Os Programas Terapêuticos com Agonistas Opiáceos têm um carácter temporário (entre 1 e 3 anos), mas dependendo da evolução clínica dos utentes podem prolongar-se por mais anos.
As mulheres participantes neste estudo são referenciadas e acompanhadas por três equipas técnicas especializadas de tratamento, que integram um Centro de Respostas Integradas da zona centro de Portugal, que por sua vez está na dependência do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências integrado na Administração Regional de Saúde do Centro. As equipas técnicas especializadas de tratamento, na aplicação dos programas terapêuticos com agonistas opiáceos, prestam cuidados médicos, de enfermagem, psicológicos e socioprofissionais. Estas equipas executam os programas de intervenção local, no que respeita à prevenção dos comportamentos aditivos e dependências, bem como à prestação de cuidados integrados e globais a utentes com comportamentos aditivos e dependências de substâncias psicoativas lícitas ou ilícitas, segundo as modalidades terapêuticas mais adequadas a cada situação, em regime de ambulatório, como é previsto no Despacho n.º 2976/2014, de 21 de fevereiro).