CONVERGÊNCIAS NO DISCURSO UNIDADES DE SIGNIFICADOS INTERPRETADAS
2.5 Conversando com os sujeitos: encontro com os elementos da pedagogia da palhaça
Ao questionar os participantes do curso com a seguinte pergunta: Você ri? Qual é o sentido do riso para você? Quando você é o foco do riso como você se sente?
Obtivemos de Cornélia Roumes a seguinte afirmativa: “É sentir-se bem ao ser motivo de riso. O riso que faz bem as pessoas Com o riso de deboche não se sente bem.” A afirmativa desse sujeito está condizente com a declaração de Treçadinha que diz: “o riso é levar alegria e descontrair os outros. Dependendo da situação não se sente bem, rir de algumas falhas e não se colocar no lugar do outro é bem difícil.O riso pode gerar algum tipo de desconforto ou trauma, como saber se o outro está gostando?” Já Madanhada afirmou o seguinte: “ri muito, o riso faz parte da vida e está em si, Rir é demonstrar com o corpo a alegria, é se sentir feliz e se sentir bem, Possibilidade de fazer rir, de contagiar e transbordar, É se sentir alegre”. (julho, 2012)
Percebe-se com esse bloco de respostas muito próximas, que o riso é levar alegria, é contagiar as pessoas, porém pode gerar algum desconforto. E nesse desconforto está um certo preconceito com o riso livre, despretensioso. Ainda nas entrelinhas dessas respostas aparece claramente o conceito bergsionano sobre o riso. Pois segundo o autor (2004, p.13): “O que a vida e a sociedade exigem de cada um de nós é uma atenção constantemente vigilante.” Ou seja, ainda que haja risos estes ainda precisam de uma certa permissão para efetivamente acontecer. O riso ainda é percebido como chacota, como algo que pode trazer traumas nas pessoas. Rir de si e do outro como forma de contágio é ainda difícil e esse fenômeno na escola é bem mais revelado. Pois segundo as participantes desta pesquisa afirmaram que na escola os momentos do riso livre, alegre era somente na hora do recreio ou na aula de
O Riso para esse sujeito reflete-se como sentimento de felicidade envolvendo uma permissividade, é despretensioso mostrando a sua essência de encantamento. O encantamento leva essa pessoa a um retorno à infância.
educação física. Em disciplinas mais ‘sérias’, como matemática, português e outras o riso pouco aparecia nesse contexto.
Vejamos o segundo bloco de perguntas e respostas destes sujeitos: O segundo bloco de perguntas está relacionado diretamente à escola e a formação do participante, É possível rir na escola? Em que momento? O riso fez/faz parte da sua formação? Em que momento? Qual a relação do riso com o fracasso no contexto escolar? Qual o significado do riso para você? Qual forma de riso apareceu em sua vida no decorrer da sua escolaridade?
Cornélia Roumes nos revela que:
O riso lembra a infância, e naqueles momentos não era possível rir em sala de aula. O riso aparecia na hora do recreio e nas aulas de educação física, na rua. Depois o riso silenciou por um grande período de escolarização. O encontro com o riso se deu quando cursou disciplinas de jogo teatral I e II e no curso de palhaço. Eu percebi nas pessoas que estão cursando o prazer e a satisfação. O riso está relacionado com a espontaneidade, o riso com o fracasso escolar acontece quando não permitimos sentir o riso (julho de 2012)
Lembrar o silenciamento do riso nos remete que, em plena atualidade, ainda em Educação e no interior das salas de aula o riso não é permitido, pois aos professores o riso atrapalha o andamento dos conteúdos e não condiz com o modo sério, sisudo da educação. Como bem nos mostra o relato de Madanhada:
minha filha é uma criança de dez anos, frequenta uma escola estadual, está no quarto ano. A professora falou que minha filha vai muito bem em matemática, sabe interpretar a tabuada, lê e interpreta bem os textos, é criativa com os textos, porém ri e muito. O riso alto, alegre, com os olhos, com o corpo, atrapalha a aula. A professora sugeriu a procura de um psicólogo. A fala da professora refletiu em mim a impossibilidade de rir na escola (julho, 2012)
Ao falar sobre o riso e perguntar aos colaboradores dessa pesquisa sobre esse elemento, foi percebido através de suas falas que esses fenômenos são possíveis em
sala de aula, porém muito mais na hora do recreio, na hora da educação física, em meio aos amigos e colegas do que em conjunto com o docente em sala de aula.
Percebe-se com esse relato que por mais que o discente esteja bem em sala de aula o fato de rir e muito, ou de ser alegre atrapalha a aula e faz com que sugestões de controle e ‘disciplina comecem a ser efetuadas nesse corpo que ainda parece ser liberto das amarras, do sério, do sisudo. Daí advém o questionamento: Por que não podemos rir nesses lugares? O que aconteceu com esse fenômeno?
Na tentativa de responder a essas questões reporta-se primeiramente a obra de Bakthin (1987) que mostra todo um pensamento sobre o riso, a partir da obra de Rabelais, na idade média e no renascimento. O riso era uma forma de comunicação humana. O riso segundo esse autor acontecia antes mesmo do homem conhecer as classes sociais e o Estado. O riso era considerado oficial. Vejamos a afirmativa Bakthin (1987, p. 5) “Os aspectos sérios e cômicos da divindade, do mundo e do homem segundo todos os indícios eram igualmente sagrados e igualmente, poderíamos dizer oficiais”.
Nesse sentido é perceptível a importância do riso e a não configuração do riso em outras instancias, ou seja o riso não era proibido em lugar algum! Até mesmo nos funerais! O choro acontecia tanto quanto o riso, isso simbolizava que o pensamento da época, no contexto rabelaisano, a morte não era como uma ‘perda’, algo dolorido como a vimos e sentimos nos dias de hoje. Na idade média segundo esse autor o rir na morte era como uma renovação uma ressureição, um bem viver dos mortos.
Porém o autor nos coloca que a partir do estabelecimento do regime das classes e do Estado o riso passa ocupar um lugar não oficial. Com isso o riso adquire um caráter de oposição. Ou seja conforme Bakthin (1987, p. 3) “o riso opunha-se a cultura oficial, ao tom sério, religioso e feudal”. É aí que o riso e o cômico parece ganhar outra roupagem. Como o riso está proibido nessas instâncias sérias, ele ganha a sua popularidade e uma maior força nas manifestações fora das instituições, dessas esferas que em tempos atuais podemos chamar de dominação. As manifestações populares como nos carnavais, nas feiras, nas praças, é aí que se percebe a presença do riso, da alegria, da liberdade a partir da presença dos tipos cômicos, como anões, os bobos, os palhaços, os bufões, os tolos.
Em consonância a afirmativa de Bakthin (1987); Treçadinha (julho, 2012) revela que: “O riso possui dois significados. O riso bom é um riso saudável, sem maldade e não prejudica ninguém, e o riso mal é quando o riso é por maldade, rir de alguma característica física que tem a ver com a pessoa.” A afirmativa da colaboradora mostra a passagem citada acima, principalmente na configuração das polaridades: bom e mal, permitido e pernicioso. É por ser oposição ao tom sério que o riso ganha as polaridades até os dias atuais. O rir das características físicas de alguém pode levar o discente ao fracasso escolar. Pois desde que ‘assumiu’ a oposição ao lado sério da sociedade, revelado nos ‘bancos escolares’, leva o aluno a não brincar consigo e com o outro.
Já no terceiro bloco de perguntas pretendeu revelar como o aprendizado em linguagem do palhaço estaria possibilitando um pensar numa educação diferenciada. Nesse sentido os questionamentos foram: Como está sendo para você o Curso de Iniciação de Palhaço na Educação? Antes do Curso quais estratégias educacionais você tinha em mente? Eis as revelações das colaboradoras.
O palhaço permite o desafio do conhecimento de si e mostra os medos do fracasso, O corpo se mostra mais ativo, mais alegre e revela-se Esta permissão/revelação de si possibilita pensar em outras estratégias educacionais que não seja ligada a pedagogia envelhecida. (Cornélia Roumes, julho, 2012)
Está sendo ótimo com momentos de alegria e descontração. São momentos de muitos aprendizados e conquistas Estou me descobrindo cada vez mais em diversas situações e em coisas que nem sabia que era capaz. (Treçadinha, julho 2012)
Prestar muita atenção no corpo, Nas possibilidades e na limitação do corpo, Percebi que consegui atingir um nível de concentração que desconhecia, O corpo disponível ao processo de iniciação, superou-me nas expectativas, Senti -me desafiada, sentir medo, envergonhar-se e angustiar-se, É uma experiência ímpar, não tem vontade que acabe e já sinto saudades. Procuro relacionar educação com prazer, vontade, desejo e uma aprendizagem significativa, Sensibilidade e respeito ao tempo individual das pessoas. (Madanhada, julho 2012)
Segundo os relatos acima, o que aparece nas palavras como: ‘o desafio do conhecimento de si”; “Estou me descobrindo cada vez mais”; “Percebi que consegui atingir um nível de concentração que desconhecia”. São falas relevantes para uma educação mais alegre e livre. A liberação de potencias criativas impregnadas nos corpos desses sujeitos, somente foi possível a partir desse trabalho de iniciação ao palhaço. As emoções reveladas como medos, fracassos, fazem parte de uma pedagogia tradicional, que não permitem o erro, o insucesso, o fracasso. Essa revelação foi clara durante o processo de iniciação dessas colaboradoras. Muitas vezes o medo de errar o jogo se mostrou muito forte nos corpos delas e a ânsia por terminar logo a proposta foram bem presentes.
A herança ‘tempo’ que ainda permanece em Educação como nos aponta Foucault (2006), é uma tarefa ainda a ser realizada pela educação. Com estes ‘horários disciplinares’, da educação básica ao ensino superior, muitas vezes não permitem ao discente ter o conhecimento de si e do outro. Ou seja a disciplina, foi criada para produzir corpos treinados ao assujeitamento das forças que governam o Estado. Desse modo uma Educação que se mostra num corpo vivo, alegre, dinâmico e criativo são como feixes, ranhuras que permitem um escape, um encontro de si e com o outro, e é aqui que a linguagem clownesca, poderá ganhar forças e transformar o ensino em um acontecimento vivo, um pertencimento ao improvisado, ao alegre, ao erro, ao fracasso, ao um ‘como’ diferente das práticas às quais estamos habituados nas instituições de ensino.
O último bloco de perguntas pensou-se em metodologias diferenciadas, experimentadas, risonhas e livres, para tanto realizou-se as seguintes perguntas: Para você é possível pensarmos em outras estratégias educacionais a partir da pedagogia do palhaço? Pensando no riso na relação palhaço/ professor qual a importância do riso para ensinar os conteúdos programáticos que já estão postos nos currículos nas escolas? O palhaço constrói o conhecimento no erro e no fracasso o que o fracasso do palhaço ensina a você? Através do medo de errar ou não?
Eis os relatos das colaboradoras:
É difícil pensar em outras estratégias educacionais, O palhaço possui uma lógica diferente daquela que
estamos acostumados no dia-a-dia, o palhaço não é só razão, A escola exerce um forte poder de aprisionamento dos corpos e das vontades Trabalhar com a lógica do palhaço tem que permitir- se, escutar e revelar, O palhaço não faz piada e graça e não pertence a qualquer pessoa, É difícil deixar as praticas escolares tradicionais e experimentar algo novo, O riso desafia as pessoas quando não conseguem fazer o palhaço aparecer, A escola faz com que os alunos tenham medo de não saber fazer aquilo que é certo fazendo com que estes não se sintam gente, O palhaço não é só de riso alegre, ele suscita emoções como raiva, irritação, lágrimas, Foi preciso fracassar para que o palhaço aparecesse, Ouvir o que o palhaço quer de si, Resistir ao jogo que o palhaço faz dentro da gente. (Cornélia Roumes, julho 2012)
Sim através do fracasso da vontade de rir ou de chorar quando não se consegue algo Isso aconteceu no batizado, pensar que tudo está perdido apareceu motivações. É importante para conseguirmos aprender com o fracasso Tornando mais fácil ensinar algo relacionando a pedagogia do palhaço e faz com que todos sintam-se capazes, Ensina que nem tudo está perdido Capaz de fazer coisas melhores em todos os momentos da sua vida (Treçadinha, julho 2012)
Não percebo a relação do professor com o palhaço O palhaço é pureza, simplicidade, singeleza e não tem medo do errar O professor está embrutecido frente ao cotidiano enfadonho vivido no dia-a-dia nas escolar e o olho não brilha mais Medo de errar de não ter sucesso e perceber o fracasso frente aos alunos Ensina a perceber que se aprende muito mais com os erros do que com os acertos É difícil assumir um fracasso especialmente um projeto sonhado, planejado O fracasso proporciona a aprendizagem, a elaborar a perda e reestruturar o pensamento e a sair da zona de conforto. É possível pensar na pedagogia do palhaço desde que os professores parem de diagnosticar, rotular e tarjar os educandos. Os professores tem que perceber os educandos como indivíduos únicos e de vontade Perceber que o que aprendemos é o que queremos aprender e a aprendizagem produz coisas significativas Sair um pouco dos PCNs e dos programas e currículos seriados e mutisseriados Permitir que o riso apareça em suas diferentes formas de facetas e sem regulagens é um caminho para pensar a pedagogia do palhaço. (Madanhada, julho 2012)
As DCNs17, são normas obrigatórias para educação básica e orientam os
planejamentos curriculares para escola. Já os PCNs18, orientam as disciplinas que
devem ser trabalhadas na educação básica. Diante disso, as dificuldades em encontrar outras possibilidades de ensino e educação no Brasil, é bastante presente nos corpos dos docentes e discentes. Pois num sistema de ensino que ainda não permite o riso e a brincadeira, a soltura do corpo, o aprendizado pela sensibilidade corporal, como algo sério, fundamental para uma efetiva aprendizagem, como bem apresentaram as colaboradores em seus relatos acima, é que o pensar desta pedagogia se torna importante no cenário nacional. É preciso sim parar um pouco com as heranças, com o tempo frenético que cada vez mais irrompe a experiência, é preciso escutar o riso, perceber o silêncio, sensibilizar-se com o corpo.
Diante disso, por exemplo pensar na figura do professor. Um professor que ri, que brinca, leva a vida de forma mais risonha, qual é o pai ou mãe que confiarão seus filhos para entregá-los a esse professor? Agora um professor sério em pedagogia com certeza ainda conserva um certo respaldo. Sem sombra de dúvidas os pais adorariam ver o seu filho sendo alfabetizado por um professor ‘sério’.
O interessante é que em algum lugar da vida as pessoas desconfiavam justamente daquilo que era sério demais, já que a seriedade estava vindo de um lugar como que para elevar o nível das pessoas. Ou seja o sério é de alto nível, cultural, intelectual e social. Já o risonho é de baixo nível cultural, intelectual e social, (povo). Essas constatações é possível perceber nesses três autores em que o riso foi estudado.
E é nesse sentido que em pedagogia começou a conversa com Larossa (2010). Em especial o capitulo ‘elogio ao riso’. Nesse capitulo esse autor revela algo importante que também vai de encontro com a pergunta que fizemos acima. Ele fala do riso em comunhão com o sério, ele aponta que em se tratando de livros pedagógicos ele não consegue perceber o tom risível, ou algo humorístico.
Com o advento do tom sério impossível que esse tom não refletisse também em Educação, em Pedagogia, nas salas de aula. Seguindo os caminhos de Larossa
17 Diretrizes Curriculares Nacionais 18 Parâmetros Curriculares Nacionais
(2010, p.171) ele diz que: “o objetivo principal em falar do riso seja a convicção de que o riso está proibido, ou pelo menos bastante ignorado no campo pedagógico”
Como vimos anteriormente, e nas situações ilustrativas acima citados, o riso está bastante ignorado por que muitas vezes apega-se a uma imagem representativa de nós mesmos. O professor ao professar sua fé, e para que os outros acreditem no seu discurso precisam ‘ser sérios’. Ou seja quantas vezes estamos falando sobre um assunto ‘sério’ em sala de aula e nos deparamos com o riso, bem a nossa frente. Isso nos faz ficar ‘vermelhos’, ou desconcertados por não saber do que os alunos riem e ao invés de procurar saber o motivo que levou um aluno, ou os vários alunos a rirem, nós simplesmente ignoramos o fato e chamamos a atenção desses alunos e a partir daí fazemos um discurso muitas vezes moralizantes, dogmáticos.
Ao procurar em minha memória de docente que atua exclusivamente no Curso de Pedagogia e Educação Especial, como também nas passagens pelos setores ‘administrativos’ da UFSM, assim como na maioria das falas dos sujeitos dessa pesquisa encontra-se a afirmativa de Larossa (2010, p. 171): “tampouco se ri muito nas instituições educacionais”. E que até os dias atuais ainda se conserva o tom sério no interior das salas de aula. Rir muitas vezes nas instituições de ensino significa dizer que você é um desordeiro, louco, anárquico, transgressor.
É nessas instâncias que gostaria de ver o riso tomando conta das instituições, do corpo discente e do corpo docente, que pudéssemos rir, que a partir da cultura do riso as pessoas fossem menos sisudas e mais alegres, menos chorosas e mais risonhas, menos tensas e mais leves.
Como disse Bario em entrevista a Fellini (2011, p. 171) “quando alguém que passa a vida no meio de risadas envelhece, ainda está com o pulmão cheio de oxigênio” essa afirmativa vai de encontro com o pensamento norteador desta pesquisa, com as experiências e vivencias dos discentes em formação, percebi o quanto ainda é preciso encher os pulmões de ar, encher as nossas aulas com oxigênio!